A poesia filosófica embriagante de Lírian

A poeta e cronista Lírian Tabosa nasceu no Ceará, na cidade de Limoeiro do Norte. Vive no Rio de Janeiro há muitos anos, chegou a Nova Iguaçu em 1956. Os primeiros sonetos, escritos aos 15 anos, foram inspirados em Castro Alves e Guerra Junqueiro. Na adolescência foi seduzida pela política e chegou a ser exilada na Bolívia por cinco anos, onde reencontrou Che Guevara, amor eterno e “muso” inspirador de muitos poemas- o primeiro encontro foi no Rio.

“VAMOS BEBER QUE A VIDA É UM LÍQUIDO!”, filosofa enfática a poeta que endossa o caldo do Desmaio Públiko, aglomerado de poetas da Baixada Fluminense – eles bebem a poesia embriagante de Lírian e fazem dela hino. A poeta foi a grande homenageada do Calendário Poético de Mané do Café de 2015, lançado habitualmente na Fliporto, em Olinda, dentro do Alt Fest Fliporto, evento organizado por Tuppan Poeta nas ladeiras do Sítio Histórico. Lírian tem seis livros publicados e participações em várias antologias pelo País. Eis um pouco da sua obra, organizada pelo poeta Cézar Ray, um breve exemplo de MULHER e crítica neste 8 de março de 2015:

*

Ai amor, não faça isso!
Ai amor, não faça!
Ai amor, não!
Ai amor!
Ai

*
Recordando

O Silêncio invadia uma noite sem fim.
De súbito ouvi
Uma música clássica
e nostálgica.

Que falava de uma alma
e parecia ser a minha!

Um cigarro acendi
e a fumaça se perdia
como meu pensamento

que não tinha a quem lamentar.

A não ser aos versos
vivendo dentro de mim
a se manifestarem!

E meu Ego se expandia
Como um grito de terror,
ou era o silêncio da noite
ou era a música que eu ouvia

ou era a sentença da vida
que me jogava à solidão

Sem ter de ninguém o amor…

Bebi, bebi tanto
Até deixar que saísse
Do meu pensamento
a criatura que amo.

Bebi, bebi demais
E não sei dizer
Como passei a noite.

Só sei dizer

Que no dia seguinte,

o meu cinzeiro estava cheio de cinzas
as garrafas vazias…
E uma caneta sobre um poema…

*

O Que Estava Debaixo da Caneta

Um dia eu amei!
Não igual a Deus
porque ele ama muito!

De repente – traída –
que tristeza!
Amei como ninguém…

Tudo acabado.
Não te quis mais…
Pois só Deus ama demais
e eu não amo igual a Deus!

Apenas te amei
Como ninguém!!

Coitado
Dos homens…
Sofrem tanto
Com as mulheres!
Pobres mulheres…
Sofrem tanto
Com os homens

E assim,
reclamando
terminam ambos
numa cama!

*

Maldita sejas tu, Oh Fome!

Maldita, seja tu,
Oh fome, que flagelas
nada mais que meio mundo.

Maldita, seja tu,
Causadora de roubos
crimes
prostituição

Maldita seja tu
Que por aqui continuas
Até a decisão
Das massas!

Malditas sejas tu.

Que quando te sentimos
Perdemos a fé
nos Santos e em Deus!

E a esperança
Nos homens que governam!

*

Enquanto se bebe
O líquido se impõe
e num relance
já com ele em sintonia
pode-se proclamar
em só grito:

VAMOS BEBER

QUE A VIDA É UM LÍQUIDO!!!!

Livros Publicados:

  • Libertas quae sera tamem – 1967 (publicado no exílio)
  • Lírian Tabosa x Moduan Matus – 1993
  • Pequena Mostra Poética – 1995
  • O Quarto – 1997
  • Umas e Outras – 2002
  • Lírios – 2009
  • De Lá para Cá – 2014 (uma auto biografia poética)

LINKS:

Mapa de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro: http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/lirian-tabosa

Blog do Poeta Cézar Ray (fundador da fanzine Desmaio Públiko): http://www.zarayland.blogspot.com.br/2012/03/meu-povo-lirian-tabosa.html

Violência contra a mulher: nas ruas e na televisão

Dias antes da Semana da Mulher dois fatos trouxeram à tona uma relevante, porém, ainda incipiente discussão sobre a violência simbólica contra a mulher, veiculadas em concessões públicas. Em Olinda, a audiência judicial de escuta das testemunhas de Michele Maximino numa ação movida contra Danilo Gentili, Marcelo Mansfield e a TV Band, relembrou o achincalhamento pervesamente gratuito, em 2013, contra a maior doadora de leite materno do Brasil durante o programa Agora é Tarde.

O caso de Alexandre Frota, no mesmo programa e emissora, agora apresentado por Rafinha Bastos, ao relatar uma suposta cena de estupro, faz reiterar: o tema é atual, reincidente e revela a falta de ética e de limites legais numa busca desvairada por audiência. Evidencia também a necessidade da regulamentação da mídia enquanto ferramenta democrática e de garantia de direitos de grupos historicamente devastados por práticas de opressão como as mulheres.

Não é preciso pormenorizar os casos em si. O registro de tais atentados à liberdade estão em diversas mídias e podem ser facilmente encontrados na internet. Liberdade esta que, por sinal, é covardemente utilizada como justificativa para o suposto direito de expressar comentários e piadas que oprimem, humilham e estigmatizam.

Falar em respeito e garantia da dignidade não é sinônimo de atentado contra a tão falada liberdade de expressão, que se confunde ora com liberdade de empresas de comunicação, ora com liberdade para vociferar preconceitos e discursos de ódio. Liberdade de expressão sem filtros é selvageria. Quais seriam esses filtros? A consciência do respeito à dignidade, aos direitos e à liberdade das pessoas.

A violência contra as mulheres nos meios de comunicação não é nenhuma novidade. Os seus corpos, nossos corpos, são vilipendiados nas ruas e nestes meios. Exibir a imagem do corpo feminino, território onde se inscreve a vivência de cada uma, acompanhado de uma cruel dose de sexismo, racismo e objetificação em uma rede nacional de televisão, corrobora com os 50 mil estupros que acontecem por ano no Brasil. Número esse que é subnotificado, vale ressaltar.

Os dois casos que citamos no início deste texto são sacolejos necessários para se pensar na comunicação social como um campo político indispensável para a afirmação da cidadania das mulheres. Isto nada tem a ver com chapar a linguagem das mídias ou coibir o humor. Pelo contrário, se revela como desafio criativo e uso oportuno de instrumentos públicos de repasse e troca de informações. Traz também como necessidade o debate, a disseminação e apropriação das políticas de comunicação.

A banalização por parte da mídia da violência sofrida pelas mulheres é um fator de extrema importância na perpetuação de uma sociedade injusta e desigual. Resultado concreto disso é a acomodação e a falta de empatia com casos como o de uma mulher morta a tijoladas pelo ex-namorado. Ou de um estupro coletivo, amplamente compartilhado nas redes. Ou de uma mulher que doa leite para recém-nascidos em UTIs e é chamada de vaca e comparada a um ator pornô. Podem parecer coisas muito distantes, mas o machismo gritante de certas programações é retroalimentado pela morte de milhares de mulheres todos os anos. E isto precisa mudar.

O Jogador

O Jogo de Xadrez, 1943 (Pintura de Maria Elena Vieira da Silva)

Sempre menosprezei certas disputas, principalmente as dissimuladas. Acredito no destino, no velho o que tiver de ser, será! Mas de repente me vi como uma carta no baralho e questionei: é preciso jogar? Resolvi recorrer aos amigos, escolhi Dostoievski por admirar a sua alma existencialista. Para mim, escritos de um bom pensador são belos utensílios domésticos.

A ideia de roleta russa sempre me inquietou também, assim como o desejo de entender o jogo humano no mundo. Sente-se com sorte?O mundo às vezes pode parecer um jogo de azar. Algumas mentes atrozes bolam planos diabólicos, fazem contas, estudam profundamente o terreno, os inimigos. Costuram histórias, trapaceiam, dizem-se amigos, mentem – é difícil conversar com um mentiroso, sobretudo quando ele é um jogador decidido.

Aleksei Ivanovitch, o jogador de Dostoievski, ou o seu alter-ego, é um jovem astuto, desapegado, despreocupado. Ter tudo ou nada, possuir o status aleatório de rico ou pobre, amado ou detestado, são questões ditadas pela roleta, ou será melhor dizer, pela sorte? Por mais imprevisível que este elemento seja, a maioria dos jogadores desejam a presença do inexplicável facilitador. O russo de Dostoievski respeitava a sorte e a falta dela; acreditava que contaria com ela no momento certo. No fundo, altruísta e esperançoso, enxergava-a como uma poderosa carta na manga, uma salvação.

O personagem narrador de Dostoievski, Aleksei Ivanovitch, é o preceptor dos filhos de um general russo falido, porém confiante em herdar a fortuna da avozinha. Quando o general e os demais jogadores percebem que essa herança não sairá, as mascaras começam a cair e quase todos mudam as estratégias do jogo. Aleksei ironiza os aristocratas, seus medos, desejos, a forma de se relacionarem com o mundo e com as pessoas ao redor.

Os franceses e russos são bem caricaturados no livro O Jogador. Talvez pela necessidade de escrever a história rapidamente, para cumprir o prazo da editora e pagar as contas da casa. Mas ele conseguiu ser brilhante ao definir certos tipos de comportamento – detesto classificações mesquinhas. As pessoas são, antes de tudo, seres humanos, ou não? Um bom artista consegue descrever os seres originais, difíceis de encaixar um rótulo, escapolem das convenções sociais. Entretanto, o autor conseguiu ser pontual e universal, construindo o clima social das relações com as caracterizações.

“Des Grieus era igual a todos os franceses, isto é, jovial e amável quando necessário. O francês dificilmente é amável por natureza; dir-se-ia que sempre é amável por ordem, por cálculo. Se, por exemplo, vê necessidade de ser, fora dos hábitos, fantasista e original, a fantasia mais absurda e mais artificial assume nele formas de antemão admitidas e há muito vulgarizadas. Para mim, só as noviças e sobretudo as moças russas se deixam fascinar pelos franceses”.

“Às vezes, no estrangeiro, os russos são exageradamente poltrões, têm um medo horrível do que possam dizer os outros, do modo com que os vão olhar – será que isto ou aquilo fica bem? – em suma, portam-se como se estivessem metidos num espartilho, especialmente os que têm pretensões a importância”.

O jovem russo arrisca-se, ele é o personagem mais original, juntamente com a avozinha, uma idosa excêntrica, espalhafatosa – os únicos personagens livres. A roleta, com as suas voltas, pode ser metáfarora da vida. O zero repete-se, vermelho e preto, par, ímpar, pequeno e grande, depois de algumas horas a sorte pode mudar; a consciência, o lidar, a decisão de parar de jogar ou simplesmente brincar com o jogo no mundo. Os jogadores sabem, o vício/prazer é arrebatador, é difícil parar de jogar.

Por fim e recomeço, conclui o bom jogador de Dostoievski: “O que há agora é que… a uma só rodada tudo pode mudar, e esses mesmos moralistas serão os primeiros a aparecer felicitando-me e fazendo-me facécias amigáveis. Mas quero que se danem todos! Que sou agora? Um zero. Que posso vir a ser amanhã? Amanhã posso resurgir dos mortos e recomeçar a viver! Posso descobrir o homem em mim, antes que ele se perca!”.

As caras e bocas de Pablo Picasso em vídeo

Nós sempre pensamos que os grandes mestres somente são reconhecíveis em suas obras, em seus auto-retratos ou em suas assinaturas espalhadas por aí. Os grandes mestres surgem, em minha mente, como pessoas geniais que não chegaram a conhecer os encantos da fotografia. Já os contemporâneos, por outro lado, ocupam minha mente como figuras de carne e osso. Eles podem ser geniais, mas também são muito humanos, demasiadamente humanos.

Acho engraçado esse paradoxo, por que muitos grandes mestres do passado (não tão longínquo) chegaram, sim, a conhecer a fotografia. E muitos chegaram a expor suas loucuras maravilhosas em fotografias e vídeos preciosos. Um achado é o vídeo de Picasso pintando. O trecho de 2 minutos e 35 segundos é parte do documentário “Visit to Picasso”, do diretor Paul Haesaerts, imperdível pra quem curte arte e afins. Em preto e branco, Haesaerts mostra Picasso pintando na superfície de espelhos.

O lugar é a casa do pintor em Vallaurius, na Franca. O anfitrião, à vontade com a presença do documentarista, faz cara e bocas para nós, espectadores. Picasso fazendo caras e bocas! Ninguém espera. Damien Hirst, talvez. Mas Picasso?! Só para mostrar que nem tudo, quando nos referimos a Pablo Picasso, acaba em Guernica.

Picasso pintando:

O trabalho e os novos sofrimentos psíquicos da contemporaneidade

Hand (Foto: Pascal Renoux)

Os avanços da medicina, o acesso às informações que a Internet disponibiliza, os bens de consumo, avanços de incrementos tecnológicos e biotecnológicos e as exigências do mercado de trabalho operam sensíveis mudanças nas posições subjetivas e, consequentemente, mudanças nas formas de sofrimento psíquico do homem contemporâneo. Se a histeria foi o modo de sofrimento mais evidente no final do século 19 e início do século 20, a depressão sem dúvida é a marca mais constante do fim do século 20 e nascimento do século 21. Um crescente avanço de casos de depressão vem sendo constatados nos consultórios médicos, psicológicos e nas unidades de saúde mental.

Nos pacientes o que vemos é o desejo como um sofrimento quase insuportável. Talvez porque, na cultura contemporânea, desejar leva necessariamente a uma outra equação diferente da que remete à parcialidade. Alguns estudiosos acham que desejar não é mais conviver com aquilo que não se tem e que se almeja obter no futuro, desejar hoje “está” no concreto. Por sua vez, a dimensão do futuro parece assustadora para estes “novos pacientes da clínica contemporânea”. Para estes representar-se no futuro é quase impossível. O tempo não é percebido como contínuo. Entre uma coisa e outra, muitas vezes, o que emerge é o vazio que o tempo tenta a todo custo obturar, pois o presente está desvinculado do passado e da sua relação com o futuro.

Os desafios da clínica contemporânea são inúmeros e as demandas em saúde mental ilustram novas formas de mal-estar e sofrimento mental imbricadas no contexto sócio-político e econômico. Verifica-se ainda importantes mudanças de paradigma na atenção à saúde, que trabalha hoje com a noção de clínica institucional, em que vínculo, humanização, integralidade, responsabilidade e rede são alicerces para qualquer ação em saúde.

Diante destes fatos verifica-se que o profissional de psicologia tem se deparado com a necessidade de dispor e construir recursos para o trabalho de acolhida desses diversos contextos em crise da contemporaneidade. As demandas em saúde mental mobilizam não só os técnicos, mas colocam em questão as próprias práticas de atendimento problematizando acerca dos modelos tradicionais de atenção e ativando a implementação de uma clínica sensível à diversidade sociocultural e aos modos contemporâneos de produção de subjetividade.

A clínica vista como prática crítica realiza uma análise contextual do sofrimento e de sua relação com os processos de produção de subjetividade, o “vir a ser”. A clínica institucional trabalha a permanente contextualização do sofrimento com os contextos sociopolíticos, do psíquico com o social. No âmbito da clínica institucional, o trabalho em grupo constituiu-se como uma importante via de intervenção, atuando como fator de potencialização da construção de outros modos coletivos de existência.

A época atual ainda apresenta os principais fundamentos da modernidade: o pensar sempre no futuro, o querer estar sempre à frente e o consumo. Parece que os ideais iluministas de evolução e progresso ainda fazem parte desta sociedade. No entanto, as descobertas da ciência estão sempre visando um suposto aperfeiçoamento humano. Enquanto na modernidade perdeu-se a liberdade em prol da segurança; na pós-modernidade oumodernidade líquida trocou-se a segurança pela liberdade. O preço pela liberdade da atualidade é uma insegurança quanto ao futuro. Entretanto, não se pode esquecer que durante a maior parte da história ocidental o ser humano teve o trabalho de adaptar-se a mudanças, houve momentos onde a incerteza também prevaleceu. As guerras, os desastres, a fome, sempre estiveram presentes e, por causa disso, foi preciso viver em condições adversas de total incerteza.

Dessa forma, as possibilidades de escolhas infinitas e variadas, trazem mal estar na medida em que não se pode nunca viver tudo, ter tudo. O sofrimento está ligado à identidade do indivíduo contemporâneo permeada pela exigência de consumo nunca satisfeita. Este é o cenário contemporâneo que abre caminho para certa intolerância ao sofrimento e maior consumo de remédios para acalmá-lo. O ideal de perfeição contemporâneo dominado pela exigência de felicidade e alegria não abre espaço para a tristeza, a depressão, o luto. Os psicofármacos viraram os dispositivos atuais para o ser humano lidar com a dor psíquica.

A depressão é vista, portanto, como um problema de desequilíbrio químico do cérebro, e seu tratamento retira do sujeito qualquer implicação com as causas da sua própria dor, e privilegia o desaparecimento do sintoma em detrimento de uma elaboração psíquica.

Mas porque uma maior incidência de depressão nesta sociedade? Segundo alguns críticos isto ocorreu porque o sujeito contemporâneo está sob o domínio dos ideais de iniciativa e de responsabilidade ao mesmo tempo em que falta alicerces na sociedade para apoiá-lo. A depressão surgiria ,assim, como uma patologia da responsabilidade de ser si mesmo, na qual o sentimento que domina é a insuficiência, seria ainda como uma reação à demanda impossível de se cumprir algo.

Em recente pesquisa Cenci (2004) ressalta que aspectos da saúde e da doença estão claramente presentes no contexto de trabalho contemporâneo. Tais aspectos permeiam a vida dos trabalhadores que muitas vezes adoecem orgânica e psiquicamente no exercício diário das suas atividades laborais. Contudo, sabe-se que o trabalho possui um papel importante na vida do indivíduo e dessa atividade depende não só o sustento do trabalhador, mas a ela está também associado um significado que diz respeito a função e reconhecimento social. A manutenção do trabalho se constitui em forma de legitimação social enquanto sujeito. Sua atividade laborativa lhe confere reconhecimento e um lugar no mundo do trabalho. Para se manter nesse lugar o trabalhador cria estratégias defensivas. Ele depara-se com um ambiente sentido como hostil e muitas vezes gerador de doença.

Ser, ter e renascer

Ser, ter e renascer por Camila Ribas

Se você está em um caminho de busca, provavelmente já se deu conta da diferença entre alguém que quer ser uma pessoa melhor daquela que quer ter algo melhor. Por algum motivo especial, isso me lembrou da Páscoa. O evento, ora associado ao cristianismo, ora ao coelhinho da Páscoa (comercial), vai muito além do que pode ser feito dentro de nós mesmos para SERMOS alguém diferente. Não é o TER um final de semana de luxo em Gravatá ou GANHAR diversos bombons. Vamos resignificar a Páscoa em nós, mesmo que não sejamos cristãos.

Pessoalmente, eu fui educada em colégio católico. Tinha missa e todos os rituais para aprender sobre o sofrimento de Cristo durante a Semana Santa. Mas, olhando para essa história com um pouco mais de distância, sinto que a ideia de salvação, sofrimento e culpa não me traz nenhum alívio, visto que a ideia é sentir o que ele sentiu. Prefiro pensar na metáfora do renascimento, mesmo porque a lição deixada por ele me lembra muito mais o amor e a compaixão pelo próximo do que qualquer outra coisa.

Jejuar sem querer crescer, deixar de comer carne ou ir à missa sem se apropriar de significados são atitudes que não vão fazer a menor diferença para seu crescimento.

Nós, a cada dia, temos esse poder de amar, ficar compadecido e, principalmente, renascer, mesma que seja só um tiquinho de cada vez. E não é tão difícil. Basta querer tirar um momento do dia e nos avaliarmos. Na medida em que o autoconhecimento vai crescendo, vamos nos transformando. O ato de pensar em nossos erros, acertos e no nosso crescimento, se nós quisermos mudar para melhor de fato, é o meu entendimento sobre esta Páscoa.

Então, tire meia horinha do seu dia nesse feriado. Depois de um banho quente, sente-se ou deite-se em um ambiente agradável, ponha uma música que lhe acalme, ligue seu incenso ou use uma boa essência. Não tem nada disso? Use um creme de massagem e apenas encontre o seu próprio jeito de ficar APENAS com você mesmo. Feche os olhos e pense no que você quer mudar. Deixe claro para sua consciência: – eu quero transformar o meu eu, quero ser assim ao invés de assado e, dessa maneira, serei uma pessoa melhor para mim e para os demais. Faça isso em um ambiente calmo e sinta as mudanças acontecerem no seu coração. Na medida em que for falando, imagine uma luz lilás, que é transformadora, e respire lenta e profundamente. Lilás, lilás e lilás. Essa luz deve entrar em todo o seu corpo e aura enquanto você inspira e expira profundamente.

Sinta o lilás. E sorria.

Uma feliz Páscoa dentro de você, renovado, renascido. Depois nos conte como foi.

Zine Žena #1

Metade de uma folha saindo de uma impressora

Zun… zun… Zine Zena, zen Zun

Cheguei a zurrar: Deus, porque eu?! Bramurias, bramidos, beliz, deixa para lá… Aceito o trabalho e me dedico. Redobro a minha resistência ao cultivar esse jardim florido. A Revista Žena teve o seu primeiro número impresso em 2009, três mil exemplares coloridos com 32 páginas, distribuídos gratuitamente em eventos literários e escolas públicas do Recife – sem qualquer patrocínio. A filosofia beat do “do it yourself”, o Zen, atman, o amor pelas palavras e pela cultura nos mantêm vivos.

Convite do lançamento
Convite do lançamento

Zena, que significa mulher na língua tcheca, é a bebê de Rainer Maria, Kafka, Kundera, Tsvetaeva, Hesse, da natureza e dos espíritos evoluídos. Uma colcha de crochê colorida bordada diariamente por amantes das artes em planetas diversos.

Vintage cosmopolita, segundo Valhalla Crowley. Sertaneja manguebeat das terras de Luiz Gonzaga e Chico Ciência. Independente, literária, amante das boas histórias, poesias, das boas energias, contos, crônicas, romances. Simpática aos temas ligados à natureza, gênero, diversidade, música, teatro, novela, amor, amor, amor.

Valorizamos um olhar profundo sobre os fatos, por isso, desde 2009, atualizamos a Zena online. No berço, a Zena foi ninada por Gay Talese, fundador do New Journalism (Novo Jornalismo ou Jornalismo Literário). Absorvemos o amor pelas descrições in loco, as críticas com a beleza de quem escreve um romance ou com a selvageria dos indignados. Eis a natureza, seja bem vindo ao universo Zena.

Para ler a materia da capa sobre Isadora Duncan acesse: revistazena.com.br/camilaribas/materia/isadora-duncan.

O Zine foi lançado na Alt!Fest Fliporto 2012 no bar Gentileza em Olinda, foram distribuídos 500 exemplares gratuitamente.

Sexo! A terceira idade PODE

Os preparativos para a velhice (Foto: Claudia Meyer)

A expectativa de vida em países desenvolvidos tem crescido espetacularmente, aumentando a margem de idosos saudáveis e ativos mesmo quando o assunto é o sexo. Mas a sexualidade na terceira idade parece não receber a devida importância da sociedade, que acredita, comodamente, que a atividade sexual declina com o surgimento dos cabelos brancos. Certamente esse não é o caso de Maria Carla Marinho. Sexualmente ativa, brincalhona, gosta de namorar e, o mais importante, se sente feliz com o fato de ser como é. E, se a noite terminar em boa companhia, melhor ainda. A idade? Nem pense em perguntar.

A relação sexual tem sido considerada uma atividade própria e quase monopólio das pessoas jovens, com boa saúde e fisicamente atraentes. A ideia de que os idosos também possam manter relações sexuais não é aceita por muitos, que relegam a eles um personagem fictício repleto de castidade. De acordo com Amparo Caridade, especialista em sexologia humana, a atividade sexual não desaparece na terceira idade, mas se transforma. “Na pessoa madura, a sexualidade compõe o quadro de relacionamento estável e troca mais profunda de emoções. A pessoa idosa pode viver tudo isso, mas jamais deve se exigir um nível de desempenho próprio de um adolescente”, diz.

Maria Carla Marinho (Foto: Camila Ribas)

Carla Marinho (foto ao lado) ficou viúva aos 22 anos, com um bebê nos braços e uma gravidez em curso. Naquela época, não imaginava que aproveitaria tanto sua vida como hoje. Durante a transição, sofreu pressões psicológicas e “ficou amedrontada”, mas optou por não deixar a vida passar. Desde então, está focada em curtir, mesmo com os filhos e netos não gostando muito de seu modo de vida ‘namoradeira-assumida’. Carlinha, como é chamada pelos amigos, não deixa de sair e nem de ficar com os gatinhos, sempre que há oportunidade. Hoje está namorando um rapaz de 32 anos, o “lindinho”. E ela só consegue fazer isso porque não está “preocupada com o que os outros possam pensar”, explica.

Por conta do desconhecimento e da pressão cultural, alguns idosos experimentam um sentimento de culpa e de vergonha por se perceberem com desejos sexuais, chegando a pensar que são anormais. Além disso, tendem a associar o sexo à procriação, quando, na verdade, deveriam associá-lo também ao prazer imediato. “As pessoas idosas não devem se envergonhar de uma coisa bonita como é o desejo. É um sinal positivo de que sua saúde emocional lhe garante essa vitalidade”, diz Amparo. E Carla complementa: “amigos estranham o meu jeito de ser, mas minha idade não faz a menor diferença se há homens que gostam de mim e a gente termina se apaixonando, como pessoas em qualquer idade.

Outro ponto a ser discutido é o fato corriqueiro de considerar a sexualidade exclusivamente calcada no coito, não compreendendo ou concebendo outras atitudes, condutas e práticas igualmente prazerosas. “As pessoas sentem-se muito para baixo quando apresentam dificuldades com o desempenho sexual. No entanto isso pode ocorrer em qualquer fase da vida”, revela Amparo. Quando isso acontece é porque fala mais alto o preconceito em relação à idade. “A genitalidade pode entrar em cena, mas não se pode reduzir a sexualidade apenas a isso. É uma distorção cultural”, explica a especialista. O ideal, segundo Amparo, é começar a enxergar a sabedoria de conviver com a felicidade simples e bonita de estar com o outro numa troca amorosa e amável, o que, muitas vezes, é muito mais importante para manter uma relação amorosa viva.

Carlinha não tem esse problema. Admite que gosta de ser uma pessoa ativa e, às vezes, até dá conselhos para amigas que não querem mais saber de sexo com os próprios maridos. Ela diz que falta às mulheres saber “criar o clima” e se sentirem como mulheres desejadas, atraentes e vivas. “Não se vive sem amor. Se tem gente paquerando comigo e me procurando é sinal que ainda estou bem e principalmente agradando”, fala.

Amparo Caridade (Foto: Divulgação)

Para reativar sentimentos e sensações relacionadas ao corpo e à sexualidade, o primeiro passo é repensar a própria sexualidade. O que você pode, quer e deseja? E o que você deixa de fazer é porque não quer ou você se sente envergonhada? De acordo com Amparo, “não se deve seguir a cartilha de ninguém”. Carlinha pensa assim. Por isso, procura se ocupar, inclusive com atividades que estimulem sua sexualidade. Participa de aulas de hidroginástica, e também de dança do ventre. “Apesar de meu namorado não gostar da dança, não deixo de fazer nada. Se não estiver gostando de como eu sou, a fila anda”, brinca a ‘dançarina’, e finaliza: “não podemos parar a vida”.

Serviço: Projeto UFPE “A dança reinventando a imagem do envelhecimento”
Telefone: (81) 2126.8931

Dica do médico
Por Dra. Thereza Medeiros, ginecologistaAs idosas têm um déficit hormonal muito grande porque os ovários não estão mais atuantes. Sem os esteróides sexuais, a lubrificação fica comprometida, deixando a vagina mais sensível e delicada, portanto, muito mais exposta a lacerações, vaginites e vaginoses. É preciso um acompanhamento médico para manter a harmonia entre a sexualidade e a saúde.

Isadora Duncan

Isadora Duncan (Retrato por Charles L. Ritzmann)

Filha de uma pianista e de um poeta americano, Isadora Ducan é considerada a pioneira da dança moderna. Num momento, em que predominavam a técnica e a rigidez do balé clássico, sua dança foi inspirada pelas figuras das dançarinas nos vasos gregos tornando-se um ícone da dança contemporânea.

Sua proposta de dança era algo completamente diferente do usual à época. Ela trazia movimentos improvisados, inspirados, também, nos movimentos da natureza: vento, plantas, entre outros. Os cabelos meio soltos e os pés descalços também faziam parte da personalidade profissional da dançarina. Sua vestimenta era leve. O cenário simples era composto apenas por uma cortina azul. A dureza e rigidez deram lugar à simplicidade.

Outra mudança importante trazida pela dança de Isadora Duncan é que, por influência dela, se começou a utilizar músicas até então tidas apenas como para apreciação auditiva. Ao som de Chopin e Wagner, a expressividade pessoal e improvisação estavam sempre presentes, encantando o novo mundo que estava nascendo.

No tocante à sua própria história, registros apontam que Isadora tinha personalidade forte e não se curvava às tradições. Não era afeita ao casamento, tendo casado três vezes e só o fazendo porque tinha a possibilidade de separar-se, caso quisesse. Em Londres, no Século 19, Isadora consolidou fama.

Em 1913, um incidente tira a vida de seus dois filhos, Deirdre e Patrik, e de sua governanta, que tragicamente morrem afogados no rio Sena. Devido ao fato, Isadora passa alguns anos sem se apresentar. No ano de 1916 ela vem ao Brasil e se apresenta no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, aos 38 anos de idade. Passa seus últimos anos na França, depois do suicídio de seu terceiro marido.

Em 1927 escreve uma auto-biografia intitulada My Life e morre no mesmo ano, em um acidente de carro conversível, quando a sua echarpe ficou presa a uma das rodas, enforcando-a.

A vida trágica foi uma moldura para que a dança da época desse lugar ao que hoje conhecemos como dança contemporânea.

CONFIRA ABAIXO ALGUMAS FOTOS DA DANÇARINA

A dança de Isadora Duncan e Martha Graham – Parte 1: Isadora Duncan

Pequeno documentário sobre a vida e a dança de Isadora Duncan e Martha Graham. Imagens retiradas da internet, cenas do filme “Isadora Duncan, the Biggest Dancer in the World” produzido pela BBC TV em 1966 e vídeos das companhia de dança de Isadora Duncan e Martha Graham.
Trilha Sonora: Tori Amos.
Produção, edição e narração: Alan Villela.
Trabalho feito ao cumprimento da disciplina “Expressão Corporal III” do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto pelo aluno Alan Villela.

O colosso de Sylvia Plath

Sylvia Plath (Foto: Divulgação)

Sob a melancolia abstrata de tardes cinza, frias, tortuosas, o espírito de Sylvia Plath se debruçava com impetuosidade no desejo de atingir a perfeição. Quem via sua beleza cruzando uma rua, dobrando uma esquina, jamais imaginaria o turbilhão interior escondido no semblante amável. Começou a escrever na infância, chamava seus diários de “mar de sargaço”. Quando Sylvia tinha oito anos, o seu pai herói, Otto Plath, faleceu. Meses depois ela nadou, nadou, nadou até aonde pôde, mas o mar insistia em lhe cuspir. Talvez soubesse que não havia chegado sua hora, que suas palavras com sabor de mar em fúria correriam o mundo. A morte do pai havia afetado a sua essência e deixaria cicatrizes profundas, inclusive a fascinação pela morte. Nesse mesmo ano, Sylvia conseguiu publicar o seu primeiro poema no Boston Herald.

A poesia de Sylvia Plath é enigmática, ao mesmo tempo expõe e guarda a cabeça dentro do casco. Suas metáforas são domésticas. A vida de uma mãe que banha as crianças, faz bolos e conversa com plantas se misturam com um ser febril genial. Elas não servem apenas para aproximar o conceito da imagem, mas as imagens, captadas nas emoções cotidianas, são o próprio conceito. Diferente de muitos, ela não conseguia elencar um tema aleatoriamente e discorrer sobre ele, como fazia o seu marido, o consagrado poeta inglês Ted Hughes. A inspiração de Sylvia vinha numa machadada, ao se olhar no espelho, lembrando as abelhas do pai, contemplando uma árvore morta ou viva – Sylvia morria e revivia todos os dias, havia uma luta constante pela sobrevivência, ocasionada pelas fortes crises de depressão.

Sylvia nasceu em Boston, Massachusetts, em 1932. Terminou seus estudos no Smith College em 1955, ganhou um concurso literário e foi para Nova York trabalhar na revista Madeimoselle. Um ano depois foi para Inglaterra, havia conseguido uma bolsa de estudos na Universidade de Cambridge pelo mérito da tese: “The Magic Mirror: A Study of the Double in Two of Dostoevsky’s Novels” – o cineasta italiano Bertolucci também se inspirou no assunto, em 1968, para criar o longa “Partner”. Sylvia estudava, escrevia, publicava em jornais e revistas da época, como o Varsity e St. Botolph’s Review, quando conheceu o seu futuro marido, o garanhão inveterado Ted Hughes.

Quatro meses depois se casaram, em 1956. Dois anos depois o casal foi para Boston, onde Sylvia lecionou e conviveu com o poeta Robert Lowell e a poetisa Anne Sexton. Em 1959 voltam para Londres, onde ela escreve The Colossus (O Colosso) grávida de Frieda Rebecca, sua primeira filha, e o livro infantil The bed book (Livro de cabeceira), publicado apenas em 1976. “A poesia que sinto é uma disciplina tirânica, você tem que ir tão longe, tão rápido, em um espaço tão pequeno, que você apenas tem que desviar de todos os periféricos. E eu sinto falta deles! Eu sou uma mulher, eu gosto de curiosidades, e eu acho que num romance posso obter mais da vida. Talvez não seja uma vida tão intensa, mas certamente mais da vida”, escreveu no seu diário.

Em 61 engravidou novamente, mas teve um aborto espontâneo, o qual ela descreve em Parliament Hill Fields. Em 61 muda-se para o condado de Devon, região rural da Inglaterra, e escreve The bell jar (Redoma de Vidro), onde há referências sobre as suas tentativas de suicídio. O livro recebeu críticas positivas, mas Sylvia se queixava cada vez mais do cansaço, da falta de tempo para escrever devido aos cuidados com o bebê e a casa. Em janeiro de 62 nasce o seu segundo filho, Nicholas Farrar; em março ela escreve e grava para a BBC a peça “Three woman: a poem for three voices”.

Invadida constantemente pela verdade, descobriu cedo que a existência é muitas vezes cruel; sim, o sofrimento é parte indissociável da vida – assim como fatores pessoais e poéticos foram e sempre serão indissociáveis da sua obra. Ela criava com fúria, com os sentidos agitados, descomunalmente. “Dentro de mim mora um grito. De noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar”, registrou no seu diário.

O casamento com o escritor Ted Hughes foi conturbado devido às traições do mesmo. Aos poucos Sylvia se deixou consumir pelo ciúme, tornando-se uma mulher neurótica, intempestiva, rasgava e queimava os escritos do marido, que acabou a deixando para viver com a sua amiga, com quem tinha um caso, a poetisa Assia Gutman.

Em carta para mãe, Plath escreveu: “Viver para além de Ted é maravilhoso, eu não estou mais na sua sombra”. Na verdade ela nunca conseguiu recompor-se, mesmo separados existia uma cumplicidade e amor monstros. Abalada pela separação, com gripes fortes e a solidão, Sylvia produz os primeiros poemas do seu próximo livro, o aclamado Ariel, lançado postumamente. “Esses meus novos poemas têm uma coisa em comum. Foram todos escritos em torno das quarto da manhã – naquela hora ainda azul e quase eterna, antes do choro do bebê, antes do tilintar musical do leiteiro arrumando suas garrafas”, comentou na gravação da BBC.

Sylvia voltou com os filhos para Londres no fim de 1962, contente por ocupar o apartamento em que o escritor Yeats havia vivido – a vida no campo estava insuportável devido ao isolamento. Entretanto, a mudança, com o passar o tempo, não havia conseguido dar jeito na solidão, no seu estado de saúde e espírito, nas obrigações cotidianas de uma dona de casa separada.

Na madrugada de 11 de fevereiro de 1963, Sylvia prepara o pão e o leite das crianças, as agasalha, olha como quem olha pra sempre, as beija e veda a porta do quarto. Vai até a cozinha, sem tristeza, limpa a mesa, a pia, abre o forno e deita a cabeça dentro sobre uma rodilha. Ela resolve, depois de várias tentativas, abraçar a morte, sua eterna amante. O pequeno Nicholas, 46 anos depois, comete o mesmo erro da mãe no Alasca, onde vivia.

Quem fala no poema é uma mulher que tem o dom grandioso e terrível de renascer. O único problema é que ela tem de morrer primeiro. Ela é a Fênix, o espírito libertário, se o quiserem. Ela é também apenas uma mulher boa, simples e muito desembaraçada”, comentou sobre o poema acima.

Espelho

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.

Tradução de Vinicius Dantas

Os Mannequins de Munique 
A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.

Desprendendo suas luas, mês após mês, sem nenhum objetivo.
O jorro de sangue é o jorro do amor,

O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu

Eu e você.
Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus sorrisos

Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,

Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata

Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.

Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.
Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,

Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos

Cintilando
Cintilando e digerindo

A mudez. A neve não tem voz.

Tradução de Claudia Roquette-Pinto

PAIZINHO

Não serves, não serves,
Não serves mais, sapato preto
Em que eu vivi como um pé
Trinta anos, pobre e branca,
Mal me atrevendo a respirar ou atchim.

Paizinho, eu tive de matar-te,
Morreste antes que eu tivesse tempo,
Mármore pesado, saco repleto de Deus,
Estátua medonha de dedo grande cinzento
Do tamanho de uma foca de Frisco

E uma cabeça no Atlântico mais esquisito
Onde ele derrama o verde-feijão sobre o azul
Nas águas da lindíssima Nauset.
Eu costumava rezar para te recuperar
Ach, du.

Na língua alemã, na vila polaca
Aterradas pelo rolo
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é vulgar.
Diz o meu amigo polaco

Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde tu
Fixaste os pés, as tuas raízes,
Contigo nunca consegui falar.
A língua presa no maxilar.

Arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em qualquer alemão estavas espelhado.

E a linguagem porca
Uma máquina, uma máquina
Em vapores leva-me como judia.
Uma judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Comecei a falar como uma Judia.
Acho que é boa ideia ser Judia.

A neve do Tirol, as cervejas clarinhas de Viena
Não são muito puras ou genuínas
Com a minha angelical cigana, o meu destino estranho
E as minhas cartas de tarot, cartas de tarot
Eu posso ser um pouco Judia.

Sempre me provocaste medo,
Com a tua Luftwaffe, a tua conversa vazia.
E o teu bigode lavado
O olho ariano, muito azul.
Homem-panzer, homem-panzer, oh tu_

Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu.
Qualquer mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Bruto coração de um bruto da tua espécie.

Estás de pé na pedra, paizinho,
Na imagem que trago comigo,
Em vez do pé, o queixo partido,
Não menos canalha por isso, oh não
o homem que partiu em dois
o meu lindo e vermelho coração.

Eu tinha dez anos quando foi a enterrar.
Aos vinte anos, eu tentei morrer
E voltar, voltar, voltar para ti.
E até pensei que os ossos serviriam.

Mas não me deixaram,
Juntaram os meus bocados com cola.
E então eu soube o que fazer.
Fiz um modelo de ti,
Homem de preto, com um aspecto de Meinkampf

E o amor de tortura e torniquete.
E eu disse eu aceito, eu aceito
E então, paizinho, finalmente estou acabada.
Arranquei o telefone preto da ficha,
As vozes já não se arrastam até aqui.

Se matei um homem, matei dois_
O vampiro que me disse seres tu
E bebeu o meu sangue por um ano,
Sete anos, se queres saber
Paizinho, podes voltar para trás.

Há uma estaca no teu coração negro e gordo
E os homens da vila nunca gostaram de ti.
Eles dançam e espezinham-te.
Eles sempre souberam que eras tu.
Paizinho, paizinho, seu canalha, estou acabada.

Tradução de Pedro Calouste

As super mulheres e a desvolução masculina

Das inúmeras características femininas, somente uma eu abomino profundamente: O cheiro de mulher. Esse perfume doce e sedoso me dá uma náusea triste. Talvez por este motivo eu não seja gay, nem nunca tenha vivido experiências homossexuais. De resto, pra mim, as mulheres são as criaturas mais encantadoramente lindas e complexas da humanidade. Mais do que os lêmures, as borboletas e até mesmo as girafas, com seus pescoções elegantes e toda aquela altivez. O negócio é que venho percebendo um fenômeno negativo desenhado na alma de Vênus. As meninas têm passado por um conflito no quesito emocional, uma oscilação entre o que se é e o que se gostaria/ ou deveria ser; e com isso, toda a subjetividade e ônus prático que a questão acarreta. Tá confuso né? Vou explicar.

Eu sempre fui muito moleca. Pouca frescura, afoita, com habilidade física aguçada, corajosa (beirando tendências suicidas) e aventureira. Passei a vida com as pernas emperebadas e os joelhos ralados (essa parte não mudou, mesmo beirando os 30). E isso me possibilitou uma ótima circulação entre os seres de Marte, aqueles do sexo masculino. Mas um excesso de sensibilidade nunca me impediu de circular muito bem entre as meninas, o que fez de mim uma abençoada criatura de muitas e boas amigas das mais variadas linhagens, pra todo tipo, todo gosto, todo jeito; e principalmente uma boa ouvidora de suas histórias. Tive uma sorte medonha nesse aspecto.

Cresci rodeada de grandes mulheres. Dona Zeza, a mãe desta humilde escrivinhadora que vos fala, tem defeito a dar com o pau, mas tinhosa e valente é ela. Minha irmã, já falecida, era alguém com uma postura bem à frente do seu tempo; independente, linda, trabalhadora e com uma personalidade, diria, peculiar e nada discreta – qualquer semelhança é mera definição genética. A maioria das mulheres que me rodeiam têm também um pouco desse perfil. Elas são independentes, lindas, inteligentes. Muita opinião, informação e vida social. Usam roupas que acham que devem usar, exercem livremente a sexualidade, exageram nas botas e no vermelho do batom e se intrometem nas conversas balizadas com muito entusiasmo, seja sobre carros, economia, política ou esmaltes e promoções de sapatos. Isso tudo porque perceberam que não existe contradição alguma entre ser linda, inteligente e bem sucedida.

Esse comportamento não brotou nas trevas do além. Ele tem um motivo de ser totalmente antropológico. Enquanto em um passado recente as mulheres ainda eram criadas para serem donzelas do lar, terem um esposo macho-alfa provedor, parir, cuidar da cria e morrer sem ter orgasmos; uma geração inteira delas – ainda que não se autodenominem feministas – foi criada com base em princípios feministas de igualdade de gêneros, iniciados timidamente no início do século XX, mas popularizados somente entre 1960 e 1980, com a famosa revolução sexual e aquela maldita queima de sutiãs em praça pública, lembram?

Sejamos práticas: a minha mãe, por exemplo, é uma linda criatura machista e sonhou a vida inteira em me ver de branco em um altar, fez das tripas coração para que eu entrasse em uma faculdade, estudasse e tivesse minha independência financeira (possivelmente para não cometer o mesmo equívoco fez justamente o oposto). Assim como eu, as minhas amigas vivem a mesma peleja (aquelas todas lindas que me referi) e mais uma pá cheia de mulheres, que cresceram dentro de outro contexto cultural.

E a questão é: Você aí, que tá dizendo #mimimi lá vem Manuella com as feminizes dela, sinto muito informar, mas também é feminista. Porque esse direito de escolher com quem você vai transar, de discutir política na mesa de um bar tomando cerveja e sair no dia seguinte pra trabalhar – que te parece óbvio – não seria tão obvio assim se não fossem as chatas das feministas aperreando e batendo na mesma tecla durante anos e anos. Sem elas você poderia ir e para a fogueira ou sofrer apedrejamento. Como ainda acontece em algumas instâncias geográficas.

Onde eu quero chegar com esse arrodeio todo? No grande problema que pode extinguir definitivamente a raça humana (isso foi uma piada hiperbólica): O velho paradoxo das relações homem mulher, e o grande –se não maior – equívoco histórico disso tudo. O responsável por esse pagode todo esqueceu de avisar que os homens também precisavam participar deste processo de transformação.

Perceba. Enquanto temos um exército de mulheres filhas dessa transformação; os homens continuam exatamente no mesmo lugar. Sendo criados da mesma maneira, com a mesma perspectiva de trabalhar para ser provedor macho-alfa ache buscar uma esposa-padrão para ser a mãe de seus filhos; com cara de boneca, que fale baixo, cruze as pernas ao sentar e lembre algo próximo ao desejado troféu/taça do Brasileirão de 1987. Essa contradição histórica resulta em um processo duro de construção dos novos relacionamentos.

A conclusão é que a maioria dos homens não tem o psicológico preparado para receber essa ‘nova mulher’ nas suas vidas. Ele pode se aproximar, tentar, iniciar, dar o start, mas num dado momento… somem – pelas experiências vividas e ouvidas. É muita informação para apenas uma unidade de mulher. Bonita demais, inteligente demais, interessante demais, independente demais. Veste-se bem, mora só – ou não, não faz diferença – algumas têm filhos, vida de adulto, trabalha, sustenta, faz tarefa e feira. Bota o salto e tem a gargalhada muito alta, dessas que engole o mundo.

E então, antes que ela termine de contar a própria história, quando pisca o olho, aquele homem lindo (alguns até mais evoluídos, trabalhados em baixos índices de machismo) que até cinco minutos atrás estava super interessado – e muitas vezes, realmente falava a verdade quando dizia que te achava uma mulher maravilhosa-, já desapareceu. Por receio, insegurança, covardia ou preconceito (ou todas as alternativas). No dia seguinte você vai pagar uma conta no caixa eletrônico do shopping e o encontra de braços laçados com uma Barbie, como num desfile de apresentação da sua dama à sociedade. (Que fique claro: isso não é o relato de uma experiência particular, mas uma teoria formulada com base em centenas de histórias – centenas – ouvidas atentamente no meu Recife afora).

Mas ora, porque o drama se as tais moças são assim tão independentes? É que justamente essa mesma antropologia mostrou a essas moças – nós – que além de conseguirmos ser bonitas e inteligentes em um pacote só; também não era pra existir contradição em ser independente e moderna e viver um amor, uma bela história, dividir momentos com alguém. E por mais desenrolada que seja, ninguém está livre do sentimento de frustração da expectativa, da saudade e da consideração e responsabilidade com o sentimento cativado.

Não confundam independência com frieza e falta de coração. Dou garantia. Elas não querem transformar vocês, homens, em príncipes encantados, não esperam cavalos brancos e menos ainda que você a leve para o altar vestida de branco. Ela só precisa sentir-se amada do jeito que é, sem precisar entrar em crise existencial, reprimir-se ou se submeter a um processo de mutação de mulher de verdade à princesinha de cristal.

A fugacidade das impressões

Tela “Jogadores de Xadrez”, de Antonio Abellán

Ah, Dostoiévski, aquele mesmo, o romancista… Eu integro uma das comunidades em homenagem a ele. Foi assim que tudo começou, por causa de uma comunidade. Estava na casa de uma amiga e aproveitei que o computador dela estava ligado para fazer uma pequena inspeção no meu Orkut. Quando abri, tinha um rapaz me pedindo, encarecidamente, para adicioná-lo, alegando que tínhamos muito em comum. Bom, pensei, o que pode acontecer? Aceitei. No dia seguinte, eu mal conseguia ler o depoimento que ele havia escrito, tamanha era a minha ansiedade em saber o conteúdo daquilo em segundos. Numa tentativa de leitura dinâmica achei algumas palavras-chave como: Pink Floyd, Nietzsche, xadrez, Tarantino…

Aquilo foi arrebatador pra mim e de uma só vez, sem anestésicos. Foi a compilação erigida por um desconhecido mais exímia que eu li na vida! Ao longo de horas a fio conversando no msn e atestando que ele era realmente tudo que eu sonhava, marcamos um encontro. Tinha foto dele no Orkut, mas você nunca sabe como é verdadeiramente uma pessoa apenas por foto. um infinidade de coisas compõem um ser humano e o tornam atraente. Trejeitos, manias, forma de falar, senso de humor. Um redemoinho de medo, excitação, receio, percorriam meu espírito e se transformavam em um nó, mas um nó excitante. Comecei a divagar sobre aquela fantasia que algumas mulheres alimentam de ir pra cama com um desconhecido e quando me vi nessa provável situação, tudo ficou cinematográfico.

Marcamos no Shopping. Fiquei esperando em um lugar seguro e furtivo. Odiava ser vista sem saber, então fiquei esperando-o num lugar estratégico onde eu sabia que podia vê-lo, mas ele não. E lá vem ele, na escada rolante. Ele não era lindo, mas tinha uma feição intrigante, era alto, seguro, altivo, boca grande, olhar oblíquo. Fiquei esmiuçando-o secretamente, até ser avistada. Quando isso aconteceu eu ri e ele correspondeu. Me senti na idade púbere, pensando se ele ia gostar de mim pessoalmente e todos essas apreensões e vícios característicos da maioria das mulheres.

A tensão ficou pairando no ar, incessante e implacável. Conversamos exaustivamente sobre temas variados, passando por trocadilhos inteligentes, citações de escritores, referências a filmes, xadrez (ele queria me ensinar a jogar). Eu mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo. E o melhor é que eu não tinha feito um mínimo de esforço. Ele tinha me achado! E no Orkut!

Fomos ao cinema, definitivamente foi um atarefa árdua escolher em que me concentrar. Se no cara inacreditável que estava do meu lado ou na trama hipnotizante estrelada por Brad Pitt – tentei conciliar. Quase no final do filme, depois de muitas tentativas dele me seduzir sutilmente, aconteceu um beijo. Que beijo foi aquele? O cara beijava em câmera lenta, à la Marlon Brando. Eu consegui sentir milimetricamente a consistência da língua dele. Aquilo me deixou louca!

Fomos pra casa dele, e aconteceu. Foi a me-lhor da minha vida! Eu me arrepiei dos pés à cabeça. Teria sido o homem da minha vida não fosse por, no outro dia, ele deixar a outra personalidade vir à tona: psicopatia obsessiva. Ligando de cinco em cinco minutos, dizendo que queria viajar comigo. Eu pensei: “Era bom demais pra ser verdade”. Como sou muito espontânea, fiz uma pergunta retórica: “você gosta de ligar não é?” . Ao qual ele retrucou: “eu sou um homem e sei o que quero”, incisivo, mas ainda assim não-convincente.

Para resumir, ele ficou magoado, ficou fazendo joguinhos emocionais… mas sendo um dos meus favoritos, ele perdeu. Desapareceu, reapareceu, mas eu tenho sentimentos e quando ele sumiu, fiquei decepcionada. Liguei várias vezes chamando ele pra fazermos algo e ele sempre dava uma desculpa. Estava se vingando, desconhecia o efeito que aquela pergunta havia causado nele. Como um bom Marquês de Sade, dias depois, ele parou a “sessão tortura” e ficou todo pacífico e carente tentando, inutilmente, remediar a situação.

Travamos uma discussão febril, esgotando quase todas as falas do filme “Ligações Perigosas”, afinal, nesse jogo vale tudo para desestabilizar o outro emocionalmente e meu orgulho de mulher “abandonada” falou mais alto. Simples e friamente, fingi que não sentia mais nada por ele, principalmente ao fim de sua confissão-desabafo de que ele havia fugido de mim por medo – isso potencializou ainda mais meu desejo de derrotá-lo cega e obstinadamente.

Não resisti, o final era bem mais emocionante se eu saísse como a vilã. No final ele virou uma lembrança em forma de dois livros que havia me emprestado – ele não conseguiu reunir forças e coragem suficiente para reaver – e de uma camisa do filme “Laranja Mecânica” que ele comprou num posto onde tínhamos parado pra comprar umas cervejas, antes de irmos pra casa dele, antes da noite memorável. Ainda assim, foi uma experiência singular e intensa, da qual vou me lembrar sempre que ler Dostoiévski e sempre que jogar xadrez.

Carta social

Bokeh Love Hearts (Foto: Pixel Artistry/ Creative Commons)

O silêncio da noite anunciou a manhã descobrindo os desejos. Encontrei-o como quem não quer nada. Você, meu eterno Visgueiro, arrastou o horizonte do meu novo dia. Caso o amor não seja uma razão do coração com um sistema orgânico involuntário, invento novas bombas, fórmulas, desvendo sonhos, viro esteta ou ao avesso, meu precioso bem.

Arrisca-se como um cavalo afoito, seja o meu casaco, a sombra da minha árvore no calor da tarde. Serei a flor pomposa e fina do teu mandacaru, o teu copo de leite, a tua dama da noite. Sim! Eu posso ser a sua Fanny. Por que eu ri e agora quero te sentir no vento, em um beijo com gosto de lágrimas sorridentes, no suor do teu tormento, nas nuvens brancas de um céu azul.

Abri uma janela para você entrar com a brisa gostosa da lua esdrúxula. Você é o Elvis da minha carteira de solteira, meu boi estrela. Dá-me um cacho do teu cabelo, serei tua ama com zelo. Galopa astuto nas minhas correntes, te darei espíritos evoluídos de presente. Além de serras para te fazer suplantar, te colocarei na beira de um abismo e você aprenderá a voar  comigo.

A falta da voz brasileira na Globo

Mais de uma vez eu já havia notado que os apresentadores de telejornalismo têm uma língua diferente da falada no Brasil. Mas a coisa se tornou mais séria quando percebi que, mesmo fora do trator absoluto do Jornal Nacional, os apresentadores locais, de cada região, também falavam uma outra língua. O que me despertou foi uma reportagem sobre o trânsito na Avenida Beberibe, no bairro de Água Fria, que tão bem conheço. E não sei se foi um despertar ou um escândalo. Olhem aqui.

Na ocasião, o repórter, o apresentador, as chamadas, somente chamavam Beberibe de Bê-Bê-ribe. O que era aquilo? É histórico, desde a mais tenra infância, que essa avenida sempre tenha sido chamada de Bibiribe, ainda que se escrevesse e se escreva Beberibe.

Ligo para a redação da Globo Nordeste. Um jornalista me atende. Falo, na minha forma errada de falar, como aprenderia depois:

“Amigo, por que vocês falam bê-bê-ribe, em vez de bibiribe?”

“Porque é o certo, senhor. Bé-Bé é Bebê.”

“Sério? Quem ensina isso é algum mestre da língua portuguesa?”

“Não, senhor. O certo, quem nos ensina é uma fonoaudióloga.”

Ah, bom. Para o certo erram de mestre. Mas daí pude ver que a fonoaudióloga, como autoridade da língua portuguesa, é uma ignorância que vem da matriz, lá no Rio. Ou seja, assim me falou a pesquisa:

“Em 1974, a Rede Globo iniciou um treinamento dos repórteres de vídeo… Nesse período a fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller começou a trabalhar na Globo. Como conta Alice-Maria, uma das idealizadoras do Jornal Nacional, ‘sentimos a necessidade de alguém que orientasse sua formação para que falassem com naturalidade’.”

Foi nesta época que Beuttenmüller começou a uniformizar a fala dos repórteres e locutores espalhados pelo país, amenizando os sotaques regionais. No seu trabalho de definição de um padrão nacional, a fonoaudióloga se pautou nas decisões de um congresso de filologia realizado em Salvador, em 1956, no qual ficou acertado que a pronúncia-padrão do português falado no Brasil “seria do Rio de Janeiro” (destaque meu).

Mas isso é a morte da língua. É um extermínio das falas regionais, na voz dos repórteres e apresentadores. Os falares diversos, certos/errados aos quais Manuel Bandeira já se referia no verso “Vinha da boca do povo na língua errada do povo/ Língua certa do povo” ganham aqui um status de anulação da identidade em que os apresentadores nativos se envergonham da própria fala. Assim, repórteres locais, “nativos”, se referem ao pequi do Ceará como “pê-qui”, enquanto os agricultores respondem com um piqui.

De um modo geral, as vogais abertas, uma característica do Nordeste, passaram a se pronunciar fechadas: nosso é, de “E”, virou ê. E defunto (difunto, em nossa fala “errada”) se transformou em dê-funto. Coração não é mais córa-ção, é côra-ção. Olinda, que o prefeito da cidade e todo olindense chamam de Ó-linda, nos telejornais virou Ô-linda. Diabo, falar Ó-linda é histórico, desde Duarte Coelho. Coisa mais bela não há que a juventude gritando no carnaval “Ó-linda, quero cantar a ti esta canção”. Já Ô-linda é de uma língua artificial, que nem é do sudeste nem, muito menos, do Nordeste. É uma outra coisa, um ridículo sem fim, tão risível quanto os nordestinos de telenovela, com os sotaques caricaturais em tipos de físicos europeus.

Esse ar “civilizado”de apresentadores regionais mereceria um Molière. Enunciam, sempre sob orientação do fonoaudiólogo, “mê-ninô”, “bô-necÔ”, enquanto o povo, na história viva da língua, continua com miní-nu e buneco. O que antes era uma transformação do sotaque, pois na telinha da sala os apresentadores falariam o português “correto”, atingiu algo mais grave: na sua imensa e inesgotável ignorância, eles passaram a mudar os nomes dos lugares naturais da região.

O tão natural Pernambuco, que dizemos Pér-nambuco, se pronuncia agora como Pêr-nambuco. E Petrolina, Pé-tró-lina, uma cidade de referência do desenvolvimento local, virou outra coisa: Pê-trô-lina. E mais este “Nóbel” da ortoépia televisiva: de tal maneira mudaram e mudam até os nomes das cidades nordestinas, que, acreditem, amigos, eu vi: sabedores que são da tendência regional de transformar o “o” em “u”, um repórter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou JÔ-azeiro! O que tem lá a sua lógica: se o povo fala JUazeiro, só podia mesmo ser Jô-azeiro.

Ensaio fotopoético de Silvia Schmidt

Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador

Silvia Schmidt é uma andarilha corajosa, regida pelo sol e pela lua em Leão. Pai de origem judaica, mãe Alemã, um filho, cinco irmãos, muitos amores e amigos. Natural de São Paulo, viveu em Santa Catarina, aportou no Recife há alguns meses e agora vive nas ladeiras de Olinda. Formada em letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (SP), deu aula de literatura e redação por dezesseis anos. Tem pós-graduação em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e em Sociologia e Política pela USP. Atua, há 10 anos, no mercado da economia criativa, desenvolvendo projetos na área da Educação, Literatura e Multimeios. É curadora do Festival de Animação de Fernando de Noronha e do projeto Escola Vocacional Livre. Possui dois romances em revisão, Duty Free (2000) e Empadão Goiano (2011), um livro de contos. Neste ensaio a escritora apresenta alguns dos seus poemas resignificados pelas lentes da fotógrafa Mari Patriota, do Projeto Provador.

 “Sou volátil como uma brisa que passa, mas deixa um aroma doce no ar. O meu sonho é poder viver materialmente do SONHO, tema principal de minha arte. A poesia nasceu em mim… é uma percepção, um estado de ser e sentir… ela flui a revelia quase sempre quando vi… já escrevi!”.

Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador
Cobalto (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Cobalto
Pintei as unhas de azul cobalto e sai por ai!

Sapato alto_astral…
-“por sua causa, apenas por sua causa”: disse- me um pequeno pássaro…. imaginário, soprando-me doces piados no florido quintal de meus sentidos.

Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador
Olho (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Olho

Meu olhöölhou
Seu só riso
Em vt preto e branco
Sim tonia
Sim patia
Tv em pele cristalina
Voce e eu for a do ar.
cavalo marinho
e mulher golfinho.

Seu jeito, meu jeito (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)
Seu jeito, meu jeito (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Seu jeito, meu jeito

Quando eu disser náo,
Você apela.. um sim…
Empurra-me à primeira parede
Junte-se a minha tez num destino sem fim..
Roube-me um beijo daqueles
Penetre-me pelo meio
Seus dedos , cabelos.. em mim..
Pegue-me de jeito, dentro

 Abra os meus  joelhos mais pra ti
Mordisque me os seios carmim
Puxe-me pro teu peito
Faça-me atrevida sentir
O seu mais perfeito masculino
Eu sem saída, uma deusa linda
Sem medo, sem resistência
Envolva-me em seu pênis
Mescle seu cheiro em meu jardim
Seu jeito ao  meu jeito Yasmin
Não vá  sem pensar antes um começo
Um caminho qualquer sem endereço..
Por mim e por você..tenha..sempre

Um querer muito mais que dizer  THE END.

Poeta (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)
Poeta (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Poeta

Há um frio, um frio latente
Há um poeta vindo ao meu corpo
Como leite de mama:
Hilda Hilst à cabeceira da cama
Uma fome_poema requer-me a alma
E o corpo ao ser tocado, lembra a si
A repetição do mesmo tema.
Fogo nele faz bolhas de ar quente
Como peidos e arrotos
Agasalhos jogados ao léu
falta de aconchego
Visto-me de luto goela a dentro porque não há
Papel que eu despeje tanto de cárcere
E falta de ciência.
A Lua se vai alta em nuvens densas
Qualquer linguagem soa-me falsa nesse transe
Quando sequer o desejo pulsa em falsa corrente
é ágil  a mão sobre  a bancada-laje de cemitério
A pena se cala nesse santo sacrilégio.

Amante (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)
Amante (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Amante

Acordei com fome de tudo
De mãos em meio a minha vagina
Desejo de mordiscos em meus peitos eriços
Mamilos seus em arrepios
Acordei com fome de pênis
De lábios penetrando dentro
De línguas chupando línguas
Saliva- açúcar escorrendo tensão e alívio
Corpo em ardência neste sacro sono tardio
Não havia a pena , mas pura poesia
Nem os dedos , nem avidez de aprendizes
Não havia a flor-pétalas descendo meu corpo
Perfumando a pele em seus encantos
A preguiça o remanso, não havia
Acordei com sede de bacantes
Vinho sangue dança do ventre
Amada sem amante.

* * *

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“Quando dormem as feiticeiras”

La Partida de las Brujas (Pintura de Luis Ricardo Falero, 1878)

Mulheres ativas, corajosas e sábias, costumam assustar os homens até hoje, imagine em 1491, nas velhas cidades de Albi e Cordes, na França – onde é ambientado o livro Quando dormem as feiticeiras, de Carlos Costa. É comum ver homens correrem sorrateiros quando encontram uma mente feminina desenvolta e autoconfiante. Só os mais sensíveis percebem que não somos uma grande ameaça. Na Idade Média, mulheres espiritualistas que adoravam plantas e animais eram chamadas de bruxa, investigadas e punidas pelos inquisidores.

Uma comunidade de feiticeiras é atacada e perseguida pela Inquisição. A nova líder e mestra, personagem principal do enredo, é Urtra, uma mulher determinada que usa sua “presciência” a serviço de um ideal: perpetuar os preceitos da ordem Irmandade das Lobas. Urtra foge com a pequena Yalana, as outras bruxas se dispersam, muitas são mortas. No caminho, conhecem a jovem Medrice, que abandona os estigmas católicos de pecado e penitência e se inicia na Irmandade.

A peregrinação das feiticeiras é uma aventura diária de sobrevivência, intuição, aprendizados, encontros. A meu ver, o grande feitiço do texto de Carlos decorre das mensagens, lições que pulam em cada página proporcionando reflexões para entendermos os mistérios universais e conhecermos a nós mesmos: “Deves temer sempre mais os vivos e apenas respeitar os mortos, embora estes, de fato, em muitos casos nos atrapalhem ou nos ajudem. De qualquer sorte, o mal existe no próprio coração do homem. E o maior deles á a ignorância, enquanto o desconhecimento de si mesmo, eis aí todo o mal e o verdadeiro demônio”.

Ficção, história e ocultismo se mesclam numa trama contagiante. Albi foi, historicamente, a cidade onde se iniciou a Inquisição, devido ao Catarismo, crença que pregava a existência de um deus do bem e outro do mal – assim como os chineses acreditam na filosofia da dualidade do Yin e Yang. O escritor possui perceptível habilidade no jogo das palavras, misturando as pouco convencionais como “azáfama”, “rijo”, “compleição”, “tez”, com um diálogo entusiasmado e muita poesia: “O calor crescia em nossos corpos, enquanto nossas roupas aprisionavam o mais indomesticável minotauro. Senti uma espécie de fome que não lamenta o agora, a fome do presente instante”, dizia Urtra sobre a Baronesa Isabelle. O encontro amoroso entre as feiticeiras é o ponto mais quente do livro. “Um gemido agudo se fez ouvir no vazio do quarto. (…) detive o quanto pude na orla dardejante de uns poucos pelos. Era um pedido quase religioso o seu, mas mantive a penitência para que a expiação final fosse plenamente recompensadora. Um ramalhete de pelos lisos e delicados ia indicando o ardente caminho (…)”.

Carlos Costa, em Quando dormem as feiticeiras, diz em cada página o que muito ficcionista não consegue dizer em um livro inteiro, como na passagem: “Existia dois tipos de visão: uma que toca a alma do mundo, a mais sagrada e difícil de exercer; e a outra, que é comum aos acontecimentos ordinários, mas que pode ser totalmente desfigurada de sentido se não houver treinamento e iniciação adequada”.

Se a história parece medieval, afirmo que existem muitas Urtras na contemporaneidade. Bruxas com PhD e tudo mais. Historiadoras, antropólogas, biólogas, professoras… Adoradoras da natureza, interessadas nos mistérios metafísicos e femininos, visionárias que podem “atar e desatar as coisas, ver entre as brumas da ilusão e ascender ao portar da luz, das trevas, das sombras e dos sonhos”, como as feiticeiras de Carlos.

Quando Dormem as FeiticeirasQuando Dormem as Feiticeiras
Carlos Costa
Editora Novo Século
240 págs, R$ 29,90


Carlos Costa (Foto: Divulgação)
Carlos Costa (Foto: Divulgação)

+ sobre o autor da obra, Carlos Costa

Formou-se em Odontologia e depois em Psicologia, e como ele mesmo costuma dizer, indo do dente ao transcendente. Desde tenra idade, possuía certa inquietação existencial, aliada ao interesse por astronomia, pelos grandes mistérios e pela vida além das estrelas. Desenvolveu cedo o gosto pelos livros, seus únicos companheiros nesta fase que, talvez, pudessem lhe dar respostas. Em Salvador, onde reside, iniciou sua busca espiritual, descobrindo as religiões orientais e o ocultismo. Mais tarde, aprofundou a vocação espiritual ao se iniciar no caminho da Magia e nas velhas religiões, tendo aí diversas experiências com o sagrado. Divide seu tempo entre a clínica em psicologia, o ensino e os escritos. Lançou nacionalmente em 2009 o livro, QUANDO DORMEM AS FEITICEIRAS. Atualmente, está escrevendo o seu quarto romance.

Uma Margarida faz revolução

Dona Margarina (Foto: Belisa Parente)

Os poderosos podem matar uma rosa, duas, até três rosas, mas jamais deterão a primavera“.
Che Guevara

A primavera para ela chegou em 1937, quando Getúlio Vargas desencadeou o golpe de estado, implantando o “Estado Novo”, regime ditatorial e autoritário que fez com que civis como Manoel Sebastião da Silva se engajassem na luta armada. Margarida Oliveira da Silva perdeu o pai nesse mesmo ano, ela tinha apenas cinco anos de idade, mas ainda recorda o vestido que “mal tirava do couro” feito com as sobras do tecido da camisa dele – ela conta que o trabalho de Manoel Sebastião na Revolução de 30 era sabotar os carros dos inimigos do Estado, conhecidos como “perigo vermelho”, os comunistas. “Meu pai ia lá, em surdina, e afrouxava os parafusos das rodas dos carros para que eles não atravessassem a ponte que dava na cidade”, fala meio a sorrisos.

Os direitos constitucionais estavam suspensos desde a Intentona Comunista de 1935, não existiam leis trabalhistas – essa só entrou em vigor em 1943 – que amparassem Margarida, sua mãe e mais dois irmãos. A família começava a passar necessidades quando Tereza Tavares da Silva resolveu procurar sua mãe, a avó de Margarida. “Nós fomos para Palmares atrás da minha avó, ela foi para lá e não voltou mais”, diz. É a partir daí que começa a saga de uma menina do interior de Alagoas que se tornaria um exemplo de luta, força, coragem e fé para os que a conhecem. “Foi a viagem mais longa da minha vida, só Deus sabe o que nós passamos”, afirma.

Margarida, a mãe e os dois irmãos fizeram boa parte do percurso a pé. Caminharam de União dos Palmares-AL Palmares, Alagoas, até a divisa do Estado de Alagoas com Pernambuco, no “encontro das águas”, daí pegaram um trem e, enfim, chegaram em Palmares, já em Pernambuco. Lá, com seis anos, Margarida passou um longo tempo ajudando a mãe na fabricação de tijolos, esse era o único sustento que a família tinha. “Lembro, eu pequena colocando o barro na forma e depois levando ao fogo, teve um dia que minhas mãos sangraram de tanto maçar os tijolos, já sofri muito nessa vida”, conta. Depois vendeu cachorro-quente na porta do mercado e laranjas na estação do trem, tudo isso para ajudar a mãe. “Uma vez subi no trem pra vender as laranjas e quando menos espero, ele começou a andar, corri pra porta, e me joguei, me relei todinha, mas hoje estou aqui contando a história”, lembra.

Seis anos depois, agora com doze anos de idade, Margarida consegue um emprego na fábrica de tecidos Amalita e muda-se para o Recife. Mas foi em 1958 que o espírito revolucionário fez-se visivelmente presente, uma nova luta começava, agora em favor da classe trabalhadora de Pernambuco. Ela e os seus companheiros reivindicavam aumento salarial de 20%, mas o dono da fábrica não queria acordo, foi quando os operários entraram em greve. “Greve é a última arma que o trabalhador tem quando não chega o diálogo, o entendimento com o patrão”, diz.

Depois de 49 dias de greve os trabalhadores resolveram fazer um piquete próximo à fábrica, na Praça Sérgio Loreto, localizada entre a Rua Imperial e a Avenida Sul, no bairro de São José. Alguns operários mais revoltados fizeram um coquetel com soda cáustica e jogaram nos funcionários mais antigos que furavam a greve, e nos novos contratados. Foi quando a tropa de choque interveio e machucou muita gente. “Os furões passavam nos carros de barriga cheia, mangando da gente, enquanto nós passávamos fome em prol de todos, da classe inteira, eles só pensavam neles. Sempre fui solidária aos meus companheiros”, afirma.

Nessa época Margarida já era mãe de sete filhos legítimos e quatro adotados, e um desses foi achado em uma caixa de sapato. Parece mentira, principalmente no mundo capitalista e individualista em que vivemos, mas não é. “Sofri muito, porque 49 dias de greve pra quem tem uma família grande é difícil… Eu sustentava catorze pessoas e a maioria eram crianças”, conta. Margarida foi presa no dia do piquete, no coreto da praça, porque ela significava a voz dos operários oprimidos, mas dias depois foi liberada por não haver provas que a incriminasse. “Eu era uma trabalhadora, queria um salário conforme o merecido, como Jesus disse: “Dá a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César”. E eu disse lá, só quero o de Deus, o de César pode ficar, mas eles só queriam nos explorar”, diz.

Na madrugada do dia 31 de março de 1964, um golpe militar foi deflagrado contra o governo legalmente constituído de João Goulart. A falta de reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável. Não se conseguiu articular os militares legalistas. Também fracassou uma greve geral proposta pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) em apoio ao governo. Nos primeiros dias após o golpe, uma violenta repressão atingiu os setores politicamente mais mobilizados à esquerda no espectro político, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC), a Ação Popular (AP) e Ação Católica Operária da qual Margarida fazia parte. “A gente discutia a situação do país, a situação do trabalhador dentro do plano de Deus”, comenta. Milhares de pessoas foram presas de modo irregular, e a ocorrência de casos de tortura foi comum, especialmente no Nordeste.

O líder comunista Gregório Bezerra, por exemplo, foi amarrado e arrastado pelas ruas de Recife. Milhares de pessoas foram atingidas em seus direitos. Parlamentares tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos suspensos e funcionários públicos civis e militares foram demitidos ou aposentados. Entre os cassados, encontravam-se personagens que ocuparam posições de destaque na vida política nacional, como João Goulart, Jânio Quadros, Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes e Miguel Arraes. “Nós paramos a fábrica em solidariedade a Miguel Arraes, as forças armadas cercaram o Palácio da Justiça, desde o Parque Treze de Maio. Um grupo de estudantes ainda conseguiu chegar ao Palácio, e um deles foi morto lá na frente”, afirma. O presidente do Sindicato dos Tecelões de Pernambuco, Amaro, sumiu nesse mesmo dia e nunca mais apareceu, muitos companheiros de Margarida foram presos no sindicato, arrastados e torturados, mas a sua vez só chegaria um ano depois.

Depois dessa crise toda, Margarida foi transferida da fábrica Amalita para a Macaxeira, do mesmo dono. As perseguições continuariam até o dia 8 de setembro de 1965, quando ela foi presa, humilhada, e acusada de subversiva pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). “Na repressão, quando você reclama um direito chamam você de subversiva, foi isso, levei o nome de subversiva, mas eles nunca provaram… Fui presa, fiquei com vergonha, mas meu grupo de amigos da Ação Católica me ajudaram, o povo de Dom Hélder também”, comenta.

Dona Margarida foi presa por lutar pelos seus ideais, mas sua luta de vida não se encerrou por aí, essa flor de mulher mesmo depois de 76 primaveras ainda não murchou, continua trabalhando na Rua do Lazer, ao lado da Faculdade Católica de Pernambuco. Logo após o golpe ela abriu um modesto fiteiro e há 45 anos passa seus dias vendendo livros, cartões telefônicos, chocolates, para sustentar-se e ajudar os filhos e netos que necessitam. Dona Margarida, com certeza, contribui com a evolução intelectual e política de muitos alunos que se encostam por lá para receber aulas de história, de vida, da revolução operária em Pernambuco. Como disse Bertold Brecht, “Há homens que lutam um dia, e são bons; Há outros que lutam um ano, e são melhores; Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; Porém há os que lutam toda a vida. Esses são imprescindíveis”.

100 anos do Eu (ou Augusto dando emoção à pedra)

Foto de Daniel Fernandes

“Vista de luto o Universo /E Deus se enlute
no Céu! / Mais um poeta que morreu, /Mais
um coveiro do Verso!”
Augusto dos Anjos. “Barcarola”

Há cem anos debatia-se entre a satisfação, a angústia e uma teia de desventuras o poeta Augusto dos Anjos. Era o momento de presentear o mundo com uma estrondosa bofetada estética: a obra EU – publicada as suas expensas e em parceria com Odilon dos Anjos, seu irmão. Foram 1.000 exemplares. A segunda edição só veio a público em 1928 (reedição póstuma, diga-se).

Se 1912 foi um ano contraditório para Augusto dos Anjos, 2012 pode ser ainda pior: paira a ameaça da pá de cal lançada por uma vertente da crítica literária que ainda precisa se nutrir para atingir a magnitude do EU. Para não incorrer nesse erro inicio a minha contribuição à Revista Zena com uma série de três textos sobre a obra de Augusto, para que o céu se converta numa “epiderme cheia de sarampos” e sejam demolidas as possibilidades de inércia diante desse universo. Se é para “desafinar o coro dos contentes”, como diz Torquato Neto, cá estamos.

Com a publicação do EU, ao ser oficialmente lançado no mundo das letras, em apenas um mês o nome de Augusto dos Anjos figurou nos principais periódicos cariocas. Se isso não significou o reconhecimento imediato do valor estético da sua obra, ao menos permite a visualização dos incômodos provocados. É certo que muitos dos poemas do EU já haviam sido publicados em jornais de João Pessoa, do Recife e Rio de Janeiro; essa circulação motivou a crítica a se manifestar por meio da imprensa.

Foto de Daniel Fernandes

Seis meses antes de lançar o EU, em sua estréia no Jornal O Estado (Rio de Janeiro), Augusto publicou um texto (carta) em tom de amargo desabafo. Dialogando com um interlocutor fictício, o poeta ironiza: “aqui o processo de emocionar ou de impressionar o público já é uma instituição veterana, com um número fixo de estatutos, sabiamente irrevogáveis”. Numa crítica audaz Augusto ainda disparou contra o recurso da “vassalagem inteligente” e advertiu o interlocutor a não alterar “o bem-estar sintomático que reina endemicamente no fervedouro quotidiano de nossa literatura”, sob pena de sofrer “justíssima obliteração no inventário rigoroso das letras pátrias”. O poeta, incisivo, apontou o destino dos que desafiam esse bem-estar: gozar “a importância astronômica de um satélite morto, a rolar, sem funções próprias, na dinâmica formidável do espaço”.

Se é verdade que Augusto optou pela “insistência em certos assuntos que perdem o condão de agradar” (crítica de Hermes Fontes no Diário de Noticias, em julho de 1912), eu vejo nisso o seu grande mérito. Esse poeta não foi uma aberração, um caso patológico e sua obra não é uma impressionante exceção no plácido panorama da Literatura Brasileira. Negar o EU por vezes se relaciona com o entendimento de que a angústia representada por essa poética tem a ver com um malogro individual. Cabe questionar: até onde esse reducionismo pode ser sustentado?

É preciso reconhecer: o EU veio para demolir modelos, seja no plano estético ou social. Nega um modelo secular que reflete no imaginário ocidental: a aproximação entre estética literária, padrões de linguagem, perfeição da forma, conteúdo lírico e imagens equilibrantes – modelo assimilado por autores brasileiros, como os árcades, românticos e parnasianos. Augusto dos Anjos despontou nesse cenário demolindo o que se aceitava como poético e, a partir daí, recompôs destroços e inaugurou uma poesia com elementos de choque. Isso não lhe pareceu ser o bastante, pois, a golpes de martelo, a sua obra aniquila a pureza e a possibilidade de se viver imune às constantes formas de degradação.

A poética de Augusto também desafiou a noção de progresso festejada pelas elites do entre-séculos XIX e XX. Por ser um observador agudo, o poeta representa a podridão social em detalhes, percorrendo os recônditos errôneos habitados por seres microscópicos. Há uma identificação com seres que estacionaram no primeiro estágio do desenvolvimento e se revoltam diante de tal condição, promovendo, a partir de galerias subterrâneas, a construção da ruína – espécie de ajuste de contas. Daí a imagem da cidade que vai sendo tomada nas entranhas pelos agentes da destruição.

No EU são percebidos os limites da aceitação, a tomada de consciência e a revolta relacionados com a morte. Nele está o homem que “desaprendeu a esperança”, o que faz da obra um desabafo trágico. “Trata-se de morrer irreconciliado e não de bom grado”, como afirma Albert Camus em O Mito de Sísifo. O poeta se insere numa luta constante marcada pela angústia: a falência do verbo, pois nem sempre a linguagem conseguirá representar os horrores da realidade.

Aqui lembro de Nietzsche (Além do bem e do mal): “De quantos séculos precisa um espírito para ser compreendido?”. Ou ainda (A gaia ciência): “homens de bem de todos os tempos são aqueles que plantam profundamente velhas idéias a fim de fazê-las frutificar, esses são os cultivadores do espírito. Mas todo terreno acaba por se esgotar, é preciso que o arado do mal o revolva”. A poética de Augusto é o “arado do mal” que ainda revolve o terreno da Literatura Brasileira.

Foto de Daniel Fernandes

Não há comparação para essa vivência arrebatadora: voltar para casa, na quarta-feira de cinzas, depois da apoteose no Marco Zero (em Recife), e encontrar, de um lado, Augusto dos Anjos atônito e eternizado no monumento criado por Demétrio Albuquerque; do outro, um espantoso baobá em estado de florescimento. A Praça da República transformada e transformando os raros transeuntes que se dão a tal deleite… Imediatamente lembro desses versos, retirados de Os doentes: “Quando eu for misturar-me com as violetas, / Minha lira, maior que a Bíblia e a Fedra, / Reviverá, dando emoção à pedra, / Na acústica de todos os planetas!”. Definitivamente Augusto é um “poeta visceralmente original”, como bem observa o crítico Alexei Bueno.

Coração sem fio

Coração sem fio por Dani Leão

Em meio ao comodismo de uma conjuntura tecnológica portátil, a invasão de privacidade deixou de ser mera coadjuvante das calçadas para as chamadas janelas contemporâneas. Os pontos da conexão, que parecem batimentos cardíacos, são viscerais para a relação emotiva entre máquina e ser-humano. Uma espécie de back up social à distância. Um enorme banco de dados interligados por um só espaço cibernético.

O olhar habituado ao quadrado mágico da globalização é o espelho da realidade. As salas de reuniões foram substituídas por salas de bate-papo. Os telefones, televisões, jornais e rádios estão linkados na versatilidade democrática de informações. Essa interligação faz jus à frase de Sherlock Homes: “Você vê, mas não observa.” As pontes que ligam o virtual e o real andam desligadas do insubstituível contato corporal.

As imagens e as palavras não fazem parte de cartas ou cartões postais. Nesse mundo o correio eletrônico é bem pessoal, não é endereçado nem no google maps, mas disponibiliza de fotografias e textos assinados por muitos artistas até então codificados em sites e em@ails. A abreviatura e os símbolos da linguagem internetês são responsáveis por sensações. Inclusive a de ameaça à língua culta =P.

O ideário da contracultura dos anos 60 voltado à liberdade e integração universal é um quadro perfeito da realidade. Os aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos de intervenção contestatória da sociedade estão alçados a intercomunicação sem fio. O sistema ancorado no mar de softwares desempenha seu papel em tempo real, não funciona emstand by. Cada indivíduo é responsável por seu repertório, pela sua pesca. Há favoritos e deletados como lixo visual e sonoro.

Essa relação informal e ausente mexe com o íntimo das escolhas e desperta a sedução. A vida pede o F5 nas realizações. A convenção do plano físico chamado “mundo real” está inserida na plataforma geográfica inter(multi)cultural da virtualidade. Embora a internet seja algumas vezes verdadeira, o perfil on line interliga e se difunde do off line, num tempo intermitente. O quadrado das telas toma a forma de um gelo que aparenta ter esfriado a naturalidade. Como por exemplo: as flores sem aroma, as gargalhadas silenciosas =), as doações de órgãos. Um tipo de prisão da essência, do necessário, do vital.

Não aceite um coração desenhado , abra as portas do mundo real e veja o sol brilhar na pele, abrace outro coração sorrindo para o movimento da existência. À noite a lua te convida para dançar e você escolhe a trilha. (Des)conecte os laços. Viva!

De um lado… e do outro… as notícias correm

De um lado… e do outro… as notícias correm por Belisa Parente

Pesquisa recente revelou que quase metade dos brasileiros nunca teve acesso à leitura. De acordo com a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, este ano foram investidos R$ 373 milhões na criação de bibliotecas, em feiras de livros, campanhas e compra de acervo para doar às bibliotecas. A presidente da Câmara Brasileira do Livro, Karine Pansa, olhou o lado positivo, mas bastante ingênuo, ao afirmar que o dado significa o grande potencial de crescimento do mercado editorial brasileiro. E os investimentos nos salários e melhores condições de trabalho dos pedreiros? Ou! PROFESSORES!!! Os principais agentes na construção dos novos leitores.

O advogado Henrique Abel disse em crítica publicada no site do Observatório da Imprensa o que eu gostaria de dizer há tempos: “Torna-se fácil perceber que o problema do Brasil não é que o nosso povo seja “mais ignorante”, pela média, do que a população dos Estados Unidos ou das maiores economias europeias. O problema, isso sim, é que o nosso país ostenta aquela que é talvez a elite social mais ignorante, presunçosa e intelectualmente preguiçosa do mundo. Que repele qualquer espécie de intelectualidade autêntica precisamente porque acredita que seu status social lhe confere, automaticamente, o decorrente status de membro da elite intelectual pátria, como se isso fosse uma espécie de título aristocrático”.

A reunião sobre o Código Florestal foi adiada para o dia 28 de agosto e a presidenta Dilma Rousseff cria empresa para desenvolver tecnologias do programa nuclear. A criação de um submarino é mais importante do que o destino das nossas florestas, rios, nativos? O Greenpeace lança projeto de lei popular e encabeça a mais nova campanha no Twitter (#DesmatamentoZero). “Governo afrouxa, ruralistas avançam e cerca de 50% dos cursos d’água na Amazônia perdem proteção no #CódigoFlorestal”, informam na rede social. Entre no site do Greenpeace e assine a petição. Uma lei popular precisa de 1,4 milhão de assinaturas de eleitores para ser aceita pelo Congresso.

Enquanto candidatos correm desbaratinados para angariar votos, começa a circular nas caixas de email dos brasileiros uma campanha pelo voto nulo. Um cidadão que compartilhou a mensagem comentou: “Ufa, até que enfim uma notícia boa”. Outro justificou: “Como não vejo um só candidato que mereça confiança nesse mar de lama da política nacional e como já cansei de errar, ou de me enganar com esses pilantras, só me resta essa possibilidade. Voto nulo!!!”. O email, além de ensinar a votar nulo (000 + tecla verde), informa que se a eleição for ganha por votos nulos (51%) é obrigatório haver uma nova com candidatos diferentes da primeira. E se a moda pega?

 

(Imagem compartilhada no Facebook)