Vistosidades

Sentimos na pele o fluxo de informações que brotam por todas as vias do mundo: desde um autofalante numa bicicleta anunciando a oferta do dia de um supermercado do bairro, panfletagem em sinais de trânsito, outdoors, comerciais de TV, marketing de guerrilha, marketing de experiência, e toda e qualquer forma “nova” que os criativos e mídias das mais variadas agências puderem bolar. Inserido neste contexto – elétrico e um tanto quanto angustiante – existe a questão das necessidades de quem está do outro lado, nós, recebendo esta avalanche persuasiva e toda sua postura tendenciosa em criar no público – nós – uma série de necessidades que, muitas vezes, nem tínhamos parado para pensar que existiam.

E esta mesma angústia, corriqueira e saciável ao ser inserida na dinâmica do consumismo básico nosso de cada dia, quando colocada no lugar errado em nossa vida pode ser algo desanimador, nebuloso e em certos casos, destrutivo. Nesta mesma dinâmica, a maioria esquece a lição de casa, também nossa de cada dia: olhar para dentro. E não estou falando em ser introspectivo full time ou entrar agora numa terapia e cair de cabeça num processo analítico. Não. A inquietação é mais simples: por quê esquecer a pessoa que tem aí [aqui] dentro?

Primeiro ponto: facilidade. Facilidade e felicidade, em termos fonéticos, até que rimam, e em minha opinião, apenas neste ponto. Ponto. É mais fácil viver no automático, afinal de contas, se para uma pessoa ser questionada por outra já é uma barra, imagina ser questionado por si mesmo? Sem ares de receita de bolo, vamos à segunda possibilidade: preguiça. Para quê pensar em algo mais aprofundado sobre si mesmo quando eu escuto/vejo o que quero e penso precisar ouvir da mídia, das minhas marcas preferidas, dos que me rodeiam, da minha rede social do momento e do meu espelho? Terceiro ponto provável: acomodação, afinal, “ninguém tá nem aí em ser profundo, tu acha que eu vou perder tempo com isso, a vida é uma festa, uhuuuuu!”… E por aí vai, a lista pode ser bem maior até.

O problema é quando as inquietações vêm à tona, quando elas gritam dentro de cada um – e é de um grito bem dissonante – ao ponto de ensurdecer, jogando na cara de cada um os valores interiores que se possui e que estão sendo esquecidos ou deixados de lado. A começar por mim, quem não quer ter um corpo vistoso e em dia com a estética? Se vestir de acordo com o que há de mais atual e vistoso, em sintonia com as principais passarelas? E a impagável sensação de ostentar um corte de cabelo, trato na barba [quando há] e uma pele saudável e resplandecente ao ponto de deixar qualquer pêssego morto de inveja? Quem não quer ter fotos curtidas, no facebook, de lindas viagens ao redor do mundo? Todos querem. Todos merecem ter tudo isso e mais alguma coisa, afinal, estamos aqui para isso também. Mas, de quê adianta ser tão vistoso por fora e um farrapo por dentro? Esta é a questão.

Subir na vida, termo tão geração X, é uma necessidade. Reinventar-se, também.

É tempo de faxina geral, gente! Sair do lugar comum de como nos enxergamos e encarar a realidade do que somos. É a busca por saber entrar e sair de cena. É tirar – não sei de onde ainda – algum nível de generosidade que dê um norte dentro de uma entrelaçada rede de relações, com ou sem algum nível de afetividade, na qual estamos imersos. É optar por ser correto no sentido de fazer o certo, sem se submeter a humilhações ou joguetes de terceiros, e muito menos descer ao nível deles em termos de ação. É buscar coragem para se questionar em relação ao seguinte: o que é supérfluo e o que é necessário, hoje em dia, em minha vida prática e afetiva?

Ser sempre leve é uma bênção e estamos aqui para ter leveza com tudo, até para que tenhamos condições de enfrentar essa batalha tão pesada que é a vida, porém, penso que pessoas mais aprofundadas em si mesmas fazem a diferença nesse mundo que nos obriga tanto a ser homogêneos em padrões de comportamento e pensar [e não me venha dizer que todo esse papo de diversidade, identidade e todo o blá-blá-blá tribal é uma forma de libertação, para este que vos escreve, é apenas posicionamento de mercado daqueles a quem interessam esses padrões de consumo].

Não é fácil e não será em momento algum, porém, com um riso lindo no rosto, momentos de festa, vinhos e queijos, viagens, compras exorbitantemente deliciosas, corpo-pele-cabelo impecáveis, não esqueça quem você é de verdade: reforma íntima para todos. E me pergunto: o ideal seria encontrar o ponto de equilíbrio entre o que sou, minha Carrie Bradshaw antenada com todas as tendências e o meu Sartre interior? Realmente, paz de espírito é um artigo de luxo hoje em dia.

  • Leo Moz

    Alguém já disse que as crônicas são a forma contemporânea de filosofar. Isto é, de refletir, de se inquietar, de contestar, de problematizar. Quando produzida com inteligência e sagacidade, então, a crônica se afasta totalmente daquela noção caduca de que consiste em mero gênero literário “de consumo imediato”. Ela passa a constituir, de fato, a principal expressão do fazer-pensar dos dias de hoje. Essa foi a exata sensação que tive ao ler a crônica do irremediavelmente multitalentoso André George. Um texto enxuto e objetivo, mas não menos perspicaz e espirituoso — “wit” seria o termo gringo mais preciso para defini-lo. Uma excelente estreia de uma série de outras pérolas literofilosóficas que o autor certamente nos trará de presente!