Zine Žena #1

Metade de uma folha saindo de uma impressora

Zun… zun… Zine Zena, zen Zun

Cheguei a zurrar: Deus, porque eu?! Bramurias, bramidos, beliz, deixa para lá… Aceito o trabalho e me dedico. Redobro a minha resistência ao cultivar esse jardim florido. A Revista Žena teve o seu primeiro número impresso em 2009, três mil exemplares coloridos com 32 páginas, distribuídos gratuitamente em eventos literários e escolas públicas do Recife – sem qualquer patrocínio. A filosofia beat do “do it yourself”, o Zen, atman, o amor pelas palavras e pela cultura nos mantêm vivos.

Convite do lançamento
Convite do lançamento

Zena, que significa mulher na língua tcheca, é a bebê de Rainer Maria, Kafka, Kundera, Tsvetaeva, Hesse, da natureza e dos espíritos evoluídos. Uma colcha de crochê colorida bordada diariamente por amantes das artes em planetas diversos.

Vintage cosmopolita, segundo Valhalla Crowley. Sertaneja manguebeat das terras de Luiz Gonzaga e Chico Ciência. Independente, literária, amante das boas histórias, poesias, das boas energias, contos, crônicas, romances. Simpática aos temas ligados à natureza, gênero, diversidade, música, teatro, novela, amor, amor, amor.

Valorizamos um olhar profundo sobre os fatos, por isso, desde 2009, atualizamos a Zena online. No berço, a Zena foi ninada por Gay Talese, fundador do New Journalism (Novo Jornalismo ou Jornalismo Literário). Absorvemos o amor pelas descrições in loco, as críticas com a beleza de quem escreve um romance ou com a selvageria dos indignados. Eis a natureza, seja bem vindo ao universo Zena.

Para ler a materia da capa sobre Isadora Duncan acesse: revistazena.com.br/camilaribas/materia/isadora-duncan.

O Zine foi lançado na Alt!Fest Fliporto 2012 no bar Gentileza em Olinda, foram distribuídos 500 exemplares gratuitamente.

As super mulheres e a desvolução masculina

Das inúmeras características femininas, somente uma eu abomino profundamente: O cheiro de mulher. Esse perfume doce e sedoso me dá uma náusea triste. Talvez por este motivo eu não seja gay, nem nunca tenha vivido experiências homossexuais. De resto, pra mim, as mulheres são as criaturas mais encantadoramente lindas e complexas da humanidade. Mais do que os lêmures, as borboletas e até mesmo as girafas, com seus pescoções elegantes e toda aquela altivez. O negócio é que venho percebendo um fenômeno negativo desenhado na alma de Vênus. As meninas têm passado por um conflito no quesito emocional, uma oscilação entre o que se é e o que se gostaria/ ou deveria ser; e com isso, toda a subjetividade e ônus prático que a questão acarreta. Tá confuso né? Vou explicar.

Eu sempre fui muito moleca. Pouca frescura, afoita, com habilidade física aguçada, corajosa (beirando tendências suicidas) e aventureira. Passei a vida com as pernas emperebadas e os joelhos ralados (essa parte não mudou, mesmo beirando os 30). E isso me possibilitou uma ótima circulação entre os seres de Marte, aqueles do sexo masculino. Mas um excesso de sensibilidade nunca me impediu de circular muito bem entre as meninas, o que fez de mim uma abençoada criatura de muitas e boas amigas das mais variadas linhagens, pra todo tipo, todo gosto, todo jeito; e principalmente uma boa ouvidora de suas histórias. Tive uma sorte medonha nesse aspecto.

Cresci rodeada de grandes mulheres. Dona Zeza, a mãe desta humilde escrivinhadora que vos fala, tem defeito a dar com o pau, mas tinhosa e valente é ela. Minha irmã, já falecida, era alguém com uma postura bem à frente do seu tempo; independente, linda, trabalhadora e com uma personalidade, diria, peculiar e nada discreta – qualquer semelhança é mera definição genética. A maioria das mulheres que me rodeiam têm também um pouco desse perfil. Elas são independentes, lindas, inteligentes. Muita opinião, informação e vida social. Usam roupas que acham que devem usar, exercem livremente a sexualidade, exageram nas botas e no vermelho do batom e se intrometem nas conversas balizadas com muito entusiasmo, seja sobre carros, economia, política ou esmaltes e promoções de sapatos. Isso tudo porque perceberam que não existe contradição alguma entre ser linda, inteligente e bem sucedida.

Esse comportamento não brotou nas trevas do além. Ele tem um motivo de ser totalmente antropológico. Enquanto em um passado recente as mulheres ainda eram criadas para serem donzelas do lar, terem um esposo macho-alfa provedor, parir, cuidar da cria e morrer sem ter orgasmos; uma geração inteira delas – ainda que não se autodenominem feministas – foi criada com base em princípios feministas de igualdade de gêneros, iniciados timidamente no início do século XX, mas popularizados somente entre 1960 e 1980, com a famosa revolução sexual e aquela maldita queima de sutiãs em praça pública, lembram?

Sejamos práticas: a minha mãe, por exemplo, é uma linda criatura machista e sonhou a vida inteira em me ver de branco em um altar, fez das tripas coração para que eu entrasse em uma faculdade, estudasse e tivesse minha independência financeira (possivelmente para não cometer o mesmo equívoco fez justamente o oposto). Assim como eu, as minhas amigas vivem a mesma peleja (aquelas todas lindas que me referi) e mais uma pá cheia de mulheres, que cresceram dentro de outro contexto cultural.

E a questão é: Você aí, que tá dizendo #mimimi lá vem Manuella com as feminizes dela, sinto muito informar, mas também é feminista. Porque esse direito de escolher com quem você vai transar, de discutir política na mesa de um bar tomando cerveja e sair no dia seguinte pra trabalhar – que te parece óbvio – não seria tão obvio assim se não fossem as chatas das feministas aperreando e batendo na mesma tecla durante anos e anos. Sem elas você poderia ir e para a fogueira ou sofrer apedrejamento. Como ainda acontece em algumas instâncias geográficas.

Onde eu quero chegar com esse arrodeio todo? No grande problema que pode extinguir definitivamente a raça humana (isso foi uma piada hiperbólica): O velho paradoxo das relações homem mulher, e o grande –se não maior – equívoco histórico disso tudo. O responsável por esse pagode todo esqueceu de avisar que os homens também precisavam participar deste processo de transformação.

Perceba. Enquanto temos um exército de mulheres filhas dessa transformação; os homens continuam exatamente no mesmo lugar. Sendo criados da mesma maneira, com a mesma perspectiva de trabalhar para ser provedor macho-alfa ache buscar uma esposa-padrão para ser a mãe de seus filhos; com cara de boneca, que fale baixo, cruze as pernas ao sentar e lembre algo próximo ao desejado troféu/taça do Brasileirão de 1987. Essa contradição histórica resulta em um processo duro de construção dos novos relacionamentos.

A conclusão é que a maioria dos homens não tem o psicológico preparado para receber essa ‘nova mulher’ nas suas vidas. Ele pode se aproximar, tentar, iniciar, dar o start, mas num dado momento… somem – pelas experiências vividas e ouvidas. É muita informação para apenas uma unidade de mulher. Bonita demais, inteligente demais, interessante demais, independente demais. Veste-se bem, mora só – ou não, não faz diferença – algumas têm filhos, vida de adulto, trabalha, sustenta, faz tarefa e feira. Bota o salto e tem a gargalhada muito alta, dessas que engole o mundo.

E então, antes que ela termine de contar a própria história, quando pisca o olho, aquele homem lindo (alguns até mais evoluídos, trabalhados em baixos índices de machismo) que até cinco minutos atrás estava super interessado – e muitas vezes, realmente falava a verdade quando dizia que te achava uma mulher maravilhosa-, já desapareceu. Por receio, insegurança, covardia ou preconceito (ou todas as alternativas). No dia seguinte você vai pagar uma conta no caixa eletrônico do shopping e o encontra de braços laçados com uma Barbie, como num desfile de apresentação da sua dama à sociedade. (Que fique claro: isso não é o relato de uma experiência particular, mas uma teoria formulada com base em centenas de histórias – centenas – ouvidas atentamente no meu Recife afora).

Mas ora, porque o drama se as tais moças são assim tão independentes? É que justamente essa mesma antropologia mostrou a essas moças – nós – que além de conseguirmos ser bonitas e inteligentes em um pacote só; também não era pra existir contradição em ser independente e moderna e viver um amor, uma bela história, dividir momentos com alguém. E por mais desenrolada que seja, ninguém está livre do sentimento de frustração da expectativa, da saudade e da consideração e responsabilidade com o sentimento cativado.

Não confundam independência com frieza e falta de coração. Dou garantia. Elas não querem transformar vocês, homens, em príncipes encantados, não esperam cavalos brancos e menos ainda que você a leve para o altar vestida de branco. Ela só precisa sentir-se amada do jeito que é, sem precisar entrar em crise existencial, reprimir-se ou se submeter a um processo de mutação de mulher de verdade à princesinha de cristal.

Vistosidades

Vistosidade por André George Medeiros

Sentimos na pele o fluxo de informações que brotam por todas as vias do mundo: desde um autofalante numa bicicleta anunciando a oferta do dia de um supermercado do bairro, panfletagem em sinais de trânsito, outdoors, comerciais de TV, marketing de guerrilha, marketing de experiência, e toda e qualquer forma “nova” que os criativos e mídias das mais variadas agências puderem bolar. Inserido neste contexto – elétrico e um tanto quanto angustiante – existe a questão das necessidades de quem está do outro lado, nós, recebendo esta avalanche persuasiva e toda sua postura tendenciosa em criar no público – nós – uma série de necessidades que, muitas vezes, nem tínhamos parado para pensar que existiam.

E esta mesma angústia, corriqueira e saciável ao ser inserida na dinâmica do consumismo básico nosso de cada dia, quando colocada no lugar errado em nossa vida pode ser algo desanimador, nebuloso e em certos casos, destrutivo. Nesta mesma dinâmica, a maioria esquece a lição de casa, também nossa de cada dia: olhar para dentro. E não estou falando em ser introspectivo full time ou entrar agora numa terapia e cair de cabeça num processo analítico. Não. A inquietação é mais simples: por quê esquecer a pessoa que tem aí [aqui] dentro?

Primeiro ponto: facilidade. Facilidade e felicidade, em termos fonéticos, até que rimam, e em minha opinião, apenas neste ponto. Ponto. É mais fácil viver no automático, afinal de contas, se para uma pessoa ser questionada por outra já é uma barra, imagina ser questionado por si mesmo? Sem ares de receita de bolo, vamos à segunda possibilidade: preguiça. Para quê pensar em algo mais aprofundado sobre si mesmo quando eu escuto/vejo o que quero e penso precisar ouvir da mídia, das minhas marcas preferidas, dos que me rodeiam, da minha rede social do momento e do meu espelho? Terceiro ponto provável: acomodação, afinal, “ninguém tá nem aí em ser profundo, tu acha que eu vou perder tempo com isso, a vida é uma festa, uhuuuuu!”… E por aí vai, a lista pode ser bem maior até.

O problema é quando as inquietações vêm à tona, quando elas gritam dentro de cada um – e é de um grito bem dissonante – ao ponto de ensurdecer, jogando na cara de cada um os valores interiores que se possui e que estão sendo esquecidos ou deixados de lado. A começar por mim, quem não quer ter um corpo vistoso e em dia com a estética? Se vestir de acordo com o que há de mais atual e vistoso, em sintonia com as principais passarelas? E a impagável sensação de ostentar um corte de cabelo, trato na barba [quando há] e uma pele saudável e resplandecente ao ponto de deixar qualquer pêssego morto de inveja? Quem não quer ter fotos curtidas, no facebook, de lindas viagens ao redor do mundo? Todos querem. Todos merecem ter tudo isso e mais alguma coisa, afinal, estamos aqui para isso também. Mas, de quê adianta ser tão vistoso por fora e um farrapo por dentro? Esta é a questão.

Subir na vida, termo tão geração X, é uma necessidade. Reinventar-se, também.

É tempo de faxina geral, gente! Sair do lugar comum de como nos enxergamos e encarar a realidade do que somos. É a busca por saber entrar e sair de cena. É tirar – não sei de onde ainda – algum nível de generosidade que dê um norte dentro de uma entrelaçada rede de relações, com ou sem algum nível de afetividade, na qual estamos imersos. É optar por ser correto no sentido de fazer o certo, sem se submeter a humilhações ou joguetes de terceiros, e muito menos descer ao nível deles em termos de ação. É buscar coragem para se questionar em relação ao seguinte: o que é supérfluo e o que é necessário, hoje em dia, em minha vida prática e afetiva?

Ser sempre leve é uma bênção e estamos aqui para ter leveza com tudo, até para que tenhamos condições de enfrentar essa batalha tão pesada que é a vida, porém, penso que pessoas mais aprofundadas em si mesmas fazem a diferença nesse mundo que nos obriga tanto a ser homogêneos em padrões de comportamento e pensar [e não me venha dizer que todo esse papo de diversidade, identidade e todo o blá-blá-blá tribal é uma forma de libertação, para este que vos escreve, é apenas posicionamento de mercado daqueles a quem interessam esses padrões de consumo].

Não é fácil e não será em momento algum, porém, com um riso lindo no rosto, momentos de festa, vinhos e queijos, viagens, compras exorbitantemente deliciosas, corpo-pele-cabelo impecáveis, não esqueça quem você é de verdade: reforma íntima para todos. E me pergunto: o ideal seria encontrar o ponto de equilíbrio entre o que sou, minha Carrie Bradshaw antenada com todas as tendências e o meu Sartre interior? Realmente, paz de espírito é um artigo de luxo hoje em dia.

Folheie o mundo e marque sua vida

Ilustração de Milo Nanara

A vida é um livro aberto dentro de um cofre de banco, onde são escritas páginas que relatam chaves de guardar segredo. É preciso ser alfabetizado para entender as lições de cada capítulo, assim como entender os investimentos. Não necessariamente ser um doutor das letras, mas um mestre da experiência. Isso requer mais do que diploma ou cálculos. É preciso dar as mãos e não cruzar os braços. O mapa da mina é de quem sente e faz sentir. No pobre mundo rico, riqueza é ser feliz. Segundo Marisa Monte, “é só mistério não tem segredo”.

Evite parar no tempo! A válvula de escape para fugir do unhappy end é preencher o branco das laudas com livre docência na Faculdade Federal da Sabedoria. O medo é uma das causas que reprova a felicidade. A busca pelo “eu” se perde no ego e encontra no eco do vazio somente bem material. É quando confundem o ato de doar com apenas receber. Triste a história desses personagens, prisioneiros egoístas de calculadoras, fadados à falência. Esses poderiam ter suas vidas historiadas a lápis como rascunhos para depois passar a borracha limpo. Viver é atemporal, mas não existem sete vidas como nas lendas do reino animal.

As lembranças fazem parte de alguns títulos que nomeiam o famoso feedback, enumerados por sentimentos que injetam ânimo. É preciso dar continuidade. Equilibrar doses homeopáticas com doses cavalares é, piamente, a nota máxima de equilíbrio. Todos deveriam sacar que para a fila andar é preciso depositar na caixa de seguros, valores que não tem preço. A adaga da vida requer coragem, peito aberto e mente livre. Esses são os bastidores tangíveis debitados no saldo da existência. A ferida amanhã é uma cicatriz do futuro dentro do bolso de uma roupa velha que será dada de presente. Viva até as intempéries!

Uma biografia deveria ser escrita em letras garrafais com marcador de texto nos tons fluorescente, em braile como língua universal para que todos pudessem ler, em tinta como arte para colorir o mundo, em foto como registro resumido de um olhar, em megafones para invadir a solidão das ruas, em bilhetes dependurados nos ramalhetes para florir os dias. Em sorriso de gentileza que perdoa o tempo, em amor que dura eternidade, em cobertores que acolhem os pés descalços das calçadas, em guarda-chuvas fechados para molhar a pele, em guarda-sol aberto para olhar o horizonte, em mãos que se estendem por afeto e não por dinheiro. Saiba fazer o “HAPPY END” de sua narrativa.

Androinventado

Androinventado (Ilustração: Alexandre Dantas, especial para a Revista Zena)Procurando (Ilustração: Alexandre Dantas, especial para a Revista Zena)

No fundo desacreditava que olhos desconhecidos se encontravam e uma luz interior acendia, assim, subitamente. Que podia existir chama sem combustível. Para mim, o amor deveria ser plantado, conhecido, conquistado. Vinha com o tempo. Como podemos amar o desconhecido? Einstein dizia que a emoção mais bela que podemos experimentar é o sentimento do mistério.

Parecia que eu estava em Berlim. Vi um homem alvo descendo de uma bicicleta com uma elegância peculiar. Ele me olhou rapidamente e subiu as escadas do cinema correndo. Observei seus passos espaçados com um sorriso, nunca tinha visto aqueles olhos altivos antes. Tive vontade de deixar um bilhetinho no bagageiro da sua bicicleta, não é todo dia que alguém me arrebata assim de cara. Mas fiquei sem saber o que dizer. Talvez um simples “você tem luz” em letras desenhadas, àquelas dos convites de casamento, para combinar com a bicicleta branca estilo antigo.

Entramos na mesma sala lotada para assistir uma estreia de Almodóvar, mas não conseguia me concentrar. O ser cheio de luz, quase uma estrela, ainda reverberava dentro de mim. Afinal, de onde surgiu? De que mundo é? Eu não sabia nada. Depois do filme, parou ao meu lado e pediu uma bebida. Ouvi sua voz e conclui, ainda em dúvida, não serve para mim.

Sempre gostei de homens sensíveis, doces, sem pinta de machão quarto de milha, mas o mundo é contraditório. Lembro uma piada machista – a crueldade é inerente ao ser humano, falo por mim e por vocês.  E nesses meus 24 anos, a ironia do número se fez ainda mais presente. Só que desta vez, eu fui atraída e não atraí. Fiquei sabendo que tínhamos um amigo em comum e fui logo abrindo o jogo, com todo despacho: – Foi amor à primeira vista! Para minha decepção, fiquei sabendo que ele tinha namoradO. Foi um banho de água fria, mas não me abalei.  Eu não teria nenhuma chance, nem poderia competir, tudo bem…

Só em vê-lo ficava alegre, o sorriso saltava, os olhos brilhavam – um verdadeiro colírio. Só importa o que nos faz felizes, pensava. Não desejava saber mais nada a seu respeito, sua imagem e a minha imaginação me bastava. Não queria conhecê-lo, saber seu passado, nem trocar qualquer palavra que fosse. Não podia tê-lo, queria, mas não podia tê-lo. Resolvi contemplá-lo com toda calma. Também gostava da personalidade que havia criado para ele, tinha medo de um novo banho de água fria – detesto água fria.

Aos poucos o encanto tornou-se mais sensual, sexual, menos poético, onírico. Aos poucos, vê-lo, apenas, não me satisfazia, o sorriso largo já não vinha. O desejo de provar o seu sabor crescia, mas eu continuava com “o cara é gay” na minha cabeça. Até que um dia, suplantei a sensação maravilhosa do mistério que ele me proporcionava. Queria experimentar esse caminho inusitado, gosto de aventuras e não repetiria um erro do passado.

Nem sempre os começos e os finais das histórias são felizes, mas como em um conto de fadas, tudo pode acontecer… Os garotos estão muito indecisos e às vezes é bom que seja assim; devemos experimentar, colocar em xeque. Também existe uma concepção colonial imperando, homens sensíveis são gays, mas não é sempre assim. A felicidade não quer saber do tempo, de respostas, sem medo ou pudor, sem passado, resolvi expor. O amor agradecido, simplesmente por ter existido e me despertar sem saber.

O tiro saiu pela culatra

Tem uma coisa que eu tenho repetido compulsivamente desde que casei e tive filho. Malditas as infelizes que inventaram de largar a paz de suas casas em 1968 para queimar sutiã em frente ao Senado, em Washington, nos Estados Unidos. A proposta, inicialmente, até que era boa. Igualdade de gênero, direito a voto. Direitos e deveres iguais. O problema é que parte do tiro sobrou. E pior. Atingiu bem as nossas ventas.

As mulheres contemporâneas bem sabem a que me refiro. Enquanto poderíamos, nós, estar no sossego do lar, preocupadas com a janta do marido, passando cremes e finalizando aquele lindo trabalho de tricô, agora, é preciso dar conta da casa, marido, menino e jornada tripla de trabalho – e mais. Provar todo dia que somos muito boas no que optamos por fazer. É lógico que tem suas vantagens, afinal, tudo tem alguma vantagem. Hoje em dia, mulher pode até ser árbitra de futebol. É o lado – único – louvável desta bandeira. Sendo que ela tem muitos lados.

Esta semana conversei com Ana Karina, 29 anos. Pernambucana, desde 2008 ela ocupa o posto de única representante oficial do quadro da FIFA no Estado e recentemente foi convocada para arbitrar a Libertadores da América feminina. Nos conhecemos no início deste ano, quando produzi com ela uma matéria especial para o dia da mulher. A moça, além de bonita e extremamente feminina, é competente e dedicada. A convocação para estar na competição sul-americana é, inclusive, uma conquista para ela enquanto profissional, já que somente duas árbitras do País estarão na competição.

Mas a história de Ana Karina poderia ter sido bem diferente. Ela mesmo revelou. Nem de futebol gostava. Seu negócio era mesmo vôlei. Olha aí. O caminho seria mais fácil caso fosse essa a escolha. Mas ô bichinho tinhoso é a tal da mulher. E se tiver sangue nordestino, então, não tem quem segure. Bastou alguém dizer a ela que ela não podia (e disseram muito) e danou-se. Foi curso atrás de curso, treinamento atrás de treinamento e a idéia fixa típica das mulheres que têm por natureza o profundo ódio mortal de serem subestimadas. Deve ser alguma espécie de defesa. Não sei. Sei somente que foi por causa disso que, hoje, nenhum árbitro homem em Pernambuco faz parte do quadro da FIFA. Mas ela faz. E sorri no canto da boca toda vez que lembra disso.

Ainda assim, pasmem, em Pernambuco, Karina não é convocada para apitar clássicos. Agora faz sentido? A menina, comprovadamente uma excelente árbitra, parte do quadro da FIFA e, em 2008, por exemplo, arbitrou partidas de juniores e somente dois confrontos pela Copa Pernambuco – um entre Cabense e Manchete, e a semifinal entre Santa Cruz e Salgueiro. Isso no futebol masculino, claro.

Creio eu que ela use a mesma tática que eu aqui com meus 12 colegas ultra-testosteronas da equipe do jornal. Ingresso no universo deles e executo meu trabalho como tem que ser e como eu sei fazer. Cara de paisagem, sem peitar, sem enfrentar, sem confrontar, mas com competência e comendo pelas beiradas, igual a papa de nenén. Agindo somente com impetuosidade no que se diz respeito à determinação. Mas cá entre nós. Soubesse eu o tamanho da bronca (e da paciência necessária para isso) tinha me tornado colunista social ou jornalista de moda. Soubesse Ana Karina o chão que tinha pela frente até poder ser reconhecida pelos colegas, tinha ido jogar vôlei. E soubessem as mulheres de Washington, em 1968, o valor que poderia vir a custar uma lingerie decente em 2009, jamais teriam queimado os benditos sutiãs.