Eleitores-Nulos

Eleitores-Nulos por Jana Lauxen

Fiz uma pesquisa rápida através do meu twitter perguntando: quem foi de Marina, agora vai de Serra, Dilma, anula ou vota em branco?

E como quem pergunta quer saber, vos digo que me arrependi amargamente de ter perguntado.

Porque quem respondeu, salvo exceções, garantiu que ou anula ou vota em branco.

Naturalmente, quando eu tinha 16 anos, também achava que anular ou votar em branco era uma maneira inteligentíssima de protestar. E, assumo, cheguei a cometer este despautério certa vez. Porém o tempo passou, eu cresci e aprendi, rapidamente, que invalidar meu voto é uma maneira (bastante estúpida, aliás) de me abster, de lavar as mãos e dizer ‘não tenho nada a ver com isso, oi?’.

Acontece que temos, sim, tudo a ver com isso.

Inclusive, somos os únicos que temos alguma coisa a ver com isso.

Mais de 24 milhões de pessoas anularam ou votaram em branco neste primeiro turno. Bem mais do que todo o aclamado eleitorado de Marina, a quem petistas e tucanos (além de milhares de coligações), neste exato momento não cansam de cortejar e mandar beijocas. Se eu fosse um deles, estaria mais interessado na vertiginosa massa de eleitores que simplesmente optou pela opção de não optar.

No entanto, não estou aqui para falar de manobras politiqueiras, e sim deste tapa na cara da democracia, dado por quem deveria ser o primeiro a defendê-la e a zelar por ela.

Analisemos: as pessoas que me dizem que anularão ou votarão em branco não são analfabetos que passam fome e fumam crack embaixo de marquise. Não têm mais 16 anos faz tempo. A maioria estudou, fez faculdade, pós-graduação, mestrado, o escambau. São tidas como intelectuais. A “massa pensante” de nosso país; gente que lê e escreve livros e assiste documentário e sabe quem é Rimbaud.

Esses caras votam em branco.

Por quê?

O discurso geralmente é o mesmo, e é tão profundo quanto uma poça de água: protestar. Já que nenhum candidato presta, “olha aqui o que eu faço com meu voto seus bobos e feios”, e rasgam em mil pedacinhos, desdenhosamente, um dos poucos poderes que ainda lhes restavam enquanto cidadãos: seu voto.

Sempre – e eu disse SEMPRE – será melhor poder escolher, nem que as opções não sejam exatamente as que gostaríamos. Se não tivéssemos alternativa, acredite, seria ainda muito pior. Imagine você num restaurante, cheio de apetite, mas sem cardápio nenhum para optar por qual prato deseja, sentado numa mesa esperando que o garçom lhe traga uma comida que você não pediu nem sabe se irá gostar.

Votar em branco é mais ou menos assim.

E se você está aqui, lendo um texto na internet ao invés de ficar em salas de bate-papo inúteis ou em sites de pornografia, saiba que és tu o cara que tem a obrigação moral e cívica de zelar pela liberdade e pela democracia do país onde, querendo ou não, você vive.

Você, caro leitor-eleitor, que votou e pretende novamente votar em branco, precisa entender que poder escolher ainda não é um privilégio de todos, e justamente por isso você não deveria tratar tal regalia com tamanha desconsideração.

Por mais que nos pareça muito natural, e mesmo aborrecível, o hábito de ir até uma urna e participar de uma eleição democrática livre de fraudes, saiba que, para muitos, tal costume não passa de um sonho distante.

Aliás, tem gente aqui mesmo, dentro do Brasil, que vive em zonas consideradas à margem da lei, e que, justamente por isso, se tornaram verdadeiros currais eleitorais. Pessoas com os mesmos direitos constitucionais que eu e você possuímos, mas, que em pleno século 21, não escolhem em quem vão votar; votam em quem o chefe mandou.

E você que pode, que deve, que precisa, fica aí, à toa, vendo a grama crescer.

Faça-me o favor.

Por isso, vote no próximo dia 31.

Seja lá em quem for, vá até sua sessão eleitoral e deixe registrado o seu voto.

Se você acha os dois candidatos horríveis, ok. Vote, então, no que considerar o menos horrível. Afinal são as opções que temos, e, ou escolhemos um deles ou alguém vai escolher por nós. Além do que, se agora existem apenas dois candidatos, lembre-se que no primeiro turno havia nove – NOVE! – e não consigo acreditar que mais de 24 milhões de pessoas acharam que nenhum dos nove estava de acordo com pelo menos parte de suas convicções. Talvez porque sequer exista alguma convicção.

Mas enfim.

Entendo também que você esteja completamente desiludido com a política. Eu também estou, amigo, e dá cá um abraço! Mas acontece que, na prática, isso não faz a menor diferença, e é imprescindível que nós, cidadãos integrantes da classe que não usa a cabeça só para separar as orelhas, continuemos fazendo a parte que nos cabe, que é votar em quem acharmos melhor ou ‘menos pior’.

O Brasil é um país subdesenvolvido e cheio de problemas, mas nem por isso não possui qualidade nenhuma. E uma destas qualidades, sem dúvidas, é o fato de ser um país democrático.

Logo, não se pode lavar as mãos, tal e qual fez Pilatos certa vez, e depois reclamar mudanças, apontar defeitos, fazer barulho. Achar um absurdo alguém que vende seu voto, sem perceber que nem ao menos uma pilha de tijolos ganhou para desfazer-se do seu, como se este não valesse absolutamente nada.

Não adianta retuitar acaloradamente protestos contra a censura, a favor da liberdade de expressão e da democracia, e votar em branco.

Esta desvalorização eminente do direito de escolha do cidadão comum sobre quem governará o país onde vive é que preocupa.

Estes sujeitos que apertam a tecla BRANCO e confirmam realmente acreditam que, fazendo isto, estarão automaticamente pulando fora desta canoa furada chamada Brasil?

Porque não estarão não.

Eles continuarão aqui dentro, junto com a gente, e sem um dos remos, que é para complicar ainda mais sua situação.

Eu não gostaria que nenhum eleitor-nulo tivesse de sentir na pele o dissabor de se viver em um país onde a democracia não passa de uma doce utopia.

Eu mesma não sei.

Quando abri os olhos e o berreiro pela primeira vez no hospital, no comecinho de 85, o Brasil já caminhava a passos largos para se ver finalmente livre da ditadura e de seus milicos intolerantes; logo, desde que me conheço por gente, nosso país é um país livre e democrático. Só que não foi sempre assim, e nós sabemos. Até bem pouco tempo atrás ninguém escolhia nada, nem o que lia no jornal, e para reaver seu fundamental direito de votar muitos brasileiros tiveram que ficar roucos de tanto gritar pelas diretas já. Ou seja: deu um tremendo trabalho. Alguns nem sobreviveram para contar a história.

E agora nós, que na época dormíamos sossegados em nossos bercinhos enquanto outros batalhavam duro para nos deixar um país mais decente e democrático, chegamos nesta altura do campeonato esculhambando tudo e fazendo discursos vazios sobre não exercer um direito que outros brasileiros lutaram para que pudéssemos desfrutar.

Quer dizer, além de tudo, é muita ingratidão!

Votar em branco não é sinal de inteligência nem de protesto ou indignação.

É sinal de burrice.

Não dá para acreditar que o seu voto não fará a diferença. Estes mais de 24 milhões de eleitores-nulos que acreditavam que o seu voto não fazia diferença poderiam inverter completamente o resultado desta eleição.

Não podemos acabar comandados apenas por quem gosta de política e por quem a ignora completamente.

E é por todos estes argumentos, e pelo bom senso geral da nação, que peço mais uma vez e encarecidamente ao caro leitor-eleitor que, neste momento, me lê: VOTE.

Dia 31 pegue seu documento com foto, vá até sua zona eleitoral, clique no número do seu candidato e aperte CONFIRMA.

Ignore por completo aquela tecla escrito BRANCO.

Porque uma coisa é certa: em janeiro de 2011 o Brasil estará nas mãos de um novo presidente, quer você queira, quer não queira.

O Tribunal Superior Eleitoral não vai pensar: “Oh, 24 milhões não votaram, vamos repensar nossos rumos políticos?”.

Então, se você não pretende se candidatar à presidência da república e tentar resolver os problemas deste país do seu jeito, trate de eleger alguém, porque alguém vai ter que fazer este trabalho.

E é melhor que possamos escolher.

Na pior das hipóteses, o menos ruim.

Mezinárodní den žena — Dia Internacional da Mulher

Eu não quero parabéns apenas por um dia. Mas, tudo bem, obrigada. Nós mulheres brasileiras, bravas! Nós, mulheres pernambucanas, palmas! Sertanejas manguebeat como eu. Sobretudo fortes. 8 de Março de 2010. Aniversário de 100 anos em que se instituiu, pela Nações Unidas, o Dia Internacional da Mulher. O único dia no ano, se muito, que o maridão faz o café pra gente, compra flores e chocolates diet. É uma data quase comercial também. Eu disse QUASE. Porque até nisso nós somos lesadas, poucas são as que ganham presentes, comprados em lojas, nesta data. Tudo bem; sou contra o comércio acentuado em datas comemorativas. Sou romântica, presenteio com cartas e trabalhos manuais.

Hoje é uma boa data para fazermos uma reflexão sobre a liberdade, sobre o livre arbítrio, sobre a quebra de conceitos arraigados. Meus avós maternos, primos, foram uma exceção, nasceram com a alma dos artistas desapegados. Pai Coronel, filha Sinhazinha – burlou lindamente o patriarcalismo sem precisar romper com a família. Mas a tarefa não é fácil. A maior parte da submissão feminina está calcada justamente aí, na cultura patriarcal, no moralismo exacerbado. De acordo com os antropólogos Ricardo Stork e Javier Echevarría, “a sociedade é o campo em que o homem pode inventar o humano”. Impressionante como os fatores endógenos e exógenos constroem nosso modo de agir no mundo. Mas lembrem-se, somos seres livres, homens e mulheres. Ampliem seus horizontes através do conhecimento, pois ele é o trampolim da esperança. A Revista Zena luta pela libertação da ignorância, da subserviência, da pobreza intelectual e psicológica, da solidão e da violência.

Devemos lembrar que somos pessoas importantes, sempre. E merecemos respeito sexual, moral, espiritual e político. Desde criança ouvimos, vemos, conhecemos mulheres agredidas em vários sentidos. Faça uma leve reflexão, puxe a fita para trás, lembre-se da sua avó, tia, amiga de infância. Agora acelere. Pare no Big Brother Brasil 2010. Cacau e Morango juntas na Playboy? Certo!? Se rolar, vamos engolir só pela beleza das moças. Lesbianismo forjado, “aceitável”, agora dá lucro. Leiam a excelente reflexão, e ponto de vista, de Ana Veloso sobre a questão no Blog Eu Decido! – que mantém com a jornalista Nataly Queiroz.

 

Saudamos as Zenas da República Tcheca e Eslováquia, que nos inspiraram no nome da Revista. As Zenas do Haiti, grupo social de maior vulnerabilidade, pela força – e o Comitê Internacional Feminista, organizado para garantir os direitos civis das mulheres diante ao caos pós-desastre. (Para conhecer mais sobre a situação das mulheres no Haiti acessem www.cipaf.org.do). As Zenas do Chile, que perderam seus filhos ou morreram no terremoto recente de 8,8 graus na escala Richter. Saudamos também as mulheres que desencantaram, mas deixaram exemplos belíssimos para a humanidade, como Simone de Beauvoir, a super corajosa Eugênia Moreyra – a primeira repórter brasileira; Carmem Miranda, Golda Meir, Olga Benário, Kate Sheppard, Cleópatra, Judith dos apócrifos, Betina, e tantas outras guerreiras, como as vivíssimas Maria da Penha e Dona Margarida Oliveira, capa anterior da Revista Zena. Mirem-se nos exemplos.

Em O Ponto de Mutação, Fritjof Capra fala que o movimento feminista ajudou na criação de uma nova auto-imagem para as mulheres e no renascimento da imagem da Deusa. “Assim, a espiritualidade feminista terá uma influência profunda tanto sobre a religião e a filosofia como sobre nossa vida social e política”. O autor também levanta a questão da criação dos filhos, historicamente delegada às mulheres. Ele diz que uma das mais radicais contribuições dos homens para o desenvolvimento da “consciência feminista” foi participarem da criação dos filhos, como fez John Lennon nos últimos anos da sua vida. Por isso, escolham melhor os seus parceiros meninas.

“À medida que os homens forem se tornando mais ativos como pais, a plena participação das mulheres em todas as áreas da vida pública, que será indubitavelmente conseguida no futuro, está fadada a ocasionar mudanças de profundo alcance em nossas atitudes e em nosso comportamento. Assim, o movimento feminista continuará a afirma-se como uma das mais fortes correntes culturais de nosso tempo. Sua meta final é nada menos do que uma completa redefinição da natureza humana, o que terá o mais profundo efeito sobre a evolução da nossa cultura”, Capra.

Pesquisadores afirmam que estamos mais conscientes dos nossos direitos, continuemos, então, procurando a justiça dos homens. Além da Divina. Não aceitem a violência como resposta. Não se deixem oprimir, não se vendam como a jovem Raffaele Fico – a ex- Big Brother italiana vendeu a virgindade por 1 milhão de euros. Em Londres, o número de mulheres abusadas sexualmente aumentou, o estupro vem sendo usado por gangues para punir integrantes e parentes de gangues rivais, de acordo a Race On The Agenda. A psicóloga Linda Papadopoulos, analisando a sexualidade dos jovens, descobriu que a mídia estimula a violência contra a mulher, já que reforça nossa imagem como objeto de desejo, de que as mulheres existem para serem usadas pelos homens. A análise revelou também a mentalidade britânica – 36% dos entrevistados acreditam que as mulheres devem ser parcialmente responsabilizadas em casos de estupro em que as mesmas estão alcoolizadas. A psicóloga também afirma que uma em cada três garotas britânicas entre 13 e 17 anos já fizeram sexo contra a vontade, um absurdo.

A Costa Rica elege a primeira mulher à presidência, Laura Chinchilla, com 80% dos votos. A americana Elinor Ostrom é a primeira mulher a ganhar o prêmio Nobel de Economia, instituído em 1968. Wook Kundor, com 107 anos, disse que quer casar pela 23ª vez para evitar a solidão, enquanto a ONU anuncia que a Aids causa a maioria das mortes entre mulheres de 15 à 45 anos. De acordo com a Organização, 70% das mulheres no mundo todo sofrem violência, o que impede a negociação com os parceiros para o uso do preservativo.

Pela primeira vez uma mulher ganha o prêmio de Melhor Diretor no Oscar.  Kathryn Bigelow, com “Guerra ao Terror”, abocanha também a estatueta do Melhor Filme.

Avançamos e retrocedemos todos os dias. O caminho é longo, muitas vezes árduo. Busquemos o entendimento dos papéis. Somos responsáveis, cada um de nós, por um mundo diferente, mundo este que construímos. Enquanto pudermos recriar sonhos e apostar em valores humanos o nosso sonho pode correr solto pelo mundo. A semente foi plantada, espero que possamos cultivá-la juntos.

CONFIRA ALGUMAS FOTOS HISTÓRICAS

Os Grandes Valentões da Madrugada e O Dia Internacional da Mulher

Hoje, como a tevê já deve ter avisado através de suas inúmeras e, muitas vezes, constrangedoras propagandas, é o dia internacional da mulher.

E você, rapazinho, deve estar em casa neste exato momento, pensando o que vai comprar para dar de presente para sua mãe, irmã, namorada, avó ou professora.

Perfume? Roupas? Jóias? Rosas?

Não, companheiro, aceite meu conselho: não compre nada.

Instauraram o dia internacional da mulher com os mesmos objetivos escusos que instauraram o dia da criança, dos namorados, das avós, dos amigos.

Motivo para vender mais, blablabla e fim.

Acontece que mulher não precisa de perfume, roupas, jóias ou rosas.

Mulheres precisam de respeito.

E, algumas delas, além de respeito, precisam de ajuda.

Sim, ajuda.

Tem marmanjos demais por aí dando uma de valentão para cima de nossas mulheres.

E não faça essa cara de abajur!

Este é  um problema grave e perigoso, apesar de silencioso, e mais cedo ou mais tarde, acredite, vai bater na sua porta.

Acompanhem estes dados aterrorizantes, por favor.

Os negritos são meus.

  • Brasil é o país que mais sofre com violência doméstica, segundo pesquisa da Sociedade Mundial de Vitimologia (www.ipas.org.br);
  • No Brasil, a cada 7 segundos uma mulher é agredida em seu próprio lar (Fundação Perseu Abramo);
  • A violência doméstica é a principal causa de morte e deficiência entre mulheres de 16 a 44 anos e mata mais do que câncer e acidentes de trânsito (www.violenciamulher.org.br)
  • 51% da população brasileira declaram conhecer ao menos uma mulher que é ou foi agredida por seu companheiro (IBOPE 2006);
  • 30% das mulheres brasileiras com mais de 15 anos já sofreram violência extrema (UNIFEM 2007);
  • Entre 25% e 50% das sobreviventes são infectadas por DST (doenças sexualmente transmissíveis);
  • 70% dos incidentes acontecem dentro de casa, sendo que o agressor é o próprio marido ou companheiro;
  • Mais de 40% das violências resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos;
  • Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que cerca de 70% das vítimas de assassinato do sexo feminino foram mortas por seus maridos;
  • Pelo menos uma em cada três mulheres ao redor do mundo sofre algum tipo de violência durante sua vida, de acordo com estimativa da Anistia Internacional;

Por isso, amigo, flores e perfumes são bobagens quando, a cada sete segundos, uma mulher é vitimada física ou moralmente dentro de sua própria casa. Faça as contas e veja a gravidade da situação: enquanto você lê este texto, cerca de 25 brasileiras irão sofrer algum tipo de agressão.

É claro, não sou ingênua o bastante para acreditar que um sujeito capaz de bater em uma mulher leia um texto como esse e se sensibilize, assim como não creio que vá se sensibilizar com campanhas contra a violência e etc.

Também não boto fé que uma vítima de violência doméstica, depois de ler o que escrevo, seja possuída por uma súbita e arrebatadora bravura e resolva tomar uma atitude drástica – elas estão muito ocupadas morrendo de medo.

Por isto, este texto é para aqueles homens que não batem em mulheres, e acham isso o ó do borogodó, o fim da picada, o cúmulo dos cúmulos.

Vocês, homens de verdade do meu Brasil, podem ajudá-las.

Sim, vocês!

E explicarei aqui como e por que.

Primeiramente, é importante que todos saibam: nenhuma mulher gosta de apanhar.

Nenhuma; nenhumazinha sequer!

Então, paremos com esse discurso lavo-as-minhas-mãos-e-que-se-foda.

Se a mulher apanha, e continua apanhando, e não denuncia o sujeito, é porque tem medo, camarada.

Só isso.

Ela tem medo.

Medo de sofrer represálias, medo de ser assassinada, medo de sofrer mais agressões, medo por elas, pelos filhos, pelos familiares.

Eu sei, agora existe a Lei Maria da Penha, mas, cá entre nós, substancialmente, a dita cuja não serve para nada.

O agressor recebe uma intimação judicial que o proíbe de se aproximar da vítima, talvez pague umas cestas básicas e pinte alguns muros e canteiros, e tudo continua exatamente igual.

A prova do que digo é o número obsceno de mulheres que acabam assassinadas por seus companheiros, mulheres estas que, muitas vezes, fizeram não apenas um, mas dezenas de BO’s que não resultaram em absolutamente nada.

E estes casos de assassinatos, que só aparecem na televisão porque chegaram ao extremo, são apenas a ponta do iceberg.

Porque, além das vítimas fatais, milhares de outras continuam na mira da violência doméstica, caladas, envergonhadas, apavoradas.

Potencialmente condenadas à morte.

Nem critico a lei.

Não se pode prender todos os homens que ameaçam suas mulheres de morte, porque as cadeias mal possuem vagas para aqueles que, de fato, mataram. Também não existem policiais suficientes para que fiquem de prontidão na casa da vítima 24 horas por dia, pois o efetivo policial está em frangalhos, mal consegue cumprir com suas funções mais básicas.

Logo, a Lei Maria da Penha serve mais para um descarrego de consciência do que, de fato, para proteger a mulher de seu agressor.

Enquanto o homem que bate não tiver medo da punição, continuará batendo.

E acredite: para a maioria deles, meia dúzia de cestas básicas e algumas pinceladas de pincel na parede da delegacia valem à pena, desde que possam continuar aterrorizando sua mulher – esta, aliás, sua maior diversão.

Mas então o que fazer?

Eu respondo: essas mulheres agredidas devem ter um pai, um irmão, um amigo, um vizinho.

Não é  possível que não!

Não acredito que estejam sozinhas no mundo, a mercê.

E são esses homens que possuem a obrigação moral e cívica de defendê-las.

Sim porque, todos sabem: homens que batem em mulheres não passam de grandes covardes bundas moles.

Gostam bater nos mais fracos, porque, de igual para igual, parecem hamsters assustados.

É fato.

E sabem por que afirmo isso com toda a convicção do mundo?

Porque já  sofri violência doméstica também.

Sim, já.

E não tenho vergonha nenhuma de assumir isso publicamente – até porque, sob o meu ponto de vista, quem deve ter vergonha disso é ele, e não eu.

Faz tempo, eu era uma adolescente idiota e abobalhada, e o traste seguiu à risca a cartilha dos valentões: ameaçou, fez chantagem, descontrolou-se, fez e aconteceu.

E só  parou quando tomou meia dúzia de tabefes muito bem dados na orelha.

Exatamente.

O grande e perigosíssimo valentão da madrugada parou de latir assim que tomou o primeiro sopapo.

Cessou com as ameaças, parou de encher o saco, sumiu do mapa.

Sossegou.

E eu, mais ainda.

E foi só aí que entendi: os valentões da madrugada, que gostam de bater em mulheres, só são valentões da madrugada até encontrarem alguém mais valentão da madrugada do que eles – e vamos combinar: de valentões esses ditos cujos só tem a pose.

Ou seja: quem pode, de verdade, ajudar estas mulheres a se defender desses companheiros (?) violentos são os homens que estão à volta dela.

Seus amigos, seu pai, seu novo namorado, seu irmão, seu vizinho, seu colega de trabalho.

Boletins de ocorrência até são válidos, mas, no frigir dos ovos, acabam não servindo para nada.

As mulheres agredidas continuam em risco, continuam amedrontadas, aprisionadas ao seu próprio terror.

Sou daquele tipo de pessoa que acredita que alguns problemas a gente resolve no olho por olho, dente por dente e que se dane.

Homem que bate em mulher é covarde e só por isso bate em mulher.

Porque sabem que, em relação a elas, são mais fortes.

Mas na hora de encarar um homem ‘do seu tamanho’, se mijam nas calças pateticamente e fim.

Garanto.

Eu sei, este é um texto politicamente incorreto.

Afinal, estou sugerindo que resolvamos a violência com mais violência.

Mas, infelizmente, não consigo enxergar outra saída para este mal que atormenta uma mulher a cada 7 segundos, só aqui no Brasil.

E se você  acha que estou errada, e que violência se responde com amor e ternura, e que estes homens precisam de ajuda ao invés de punição, é porque nunca foi agredida, ou porque nunca viu sua amiga, sua mãe ou sua filha sofrer qualquer tipo de violência, qualquer tipo de covardia.

Eu já  fui vítima de violência doméstica, e faço parte destas estatísticas que você acabou de ler ali em cima.

Eu sei exatamente a dimensão do terror sob o qual vivem estas mulheres, sei exatamente qual a grandeza e a gravidade deste problema – e também sei o quanto são acovardados esses grandes valentões, que enquanto latem parecem cachorros grandes, mas é só você sapatear na sala e descobre que não passam de poodles cor de rosa amedrontados e comedores de ração.

Se não podemos prendê-los, então precisamos pará-los.

Temos a obrigação de impedir que suas ameaças se tornem reais.

Precisamos apresentar para estes homenzinhos meia boca homens de verdade, homens que os façam sentir exatamente o mesmo medo e o mesmo terror que incutem em suas parcerias, covardemente, estupidamente, grosseiramente, para que provem o gosto do próprio veneno.

Não dá  para esperar que mais mulheres morram para, só então, puni-los.

Homem que bate em mulher merece apanhar.

Precisa apanhar.

Tem o direito e o dever de apanhar.

É a única maneira de fazer com que estes grandes valentões da madrugada coloquem seu pequenino rabo entre as pernas e deixem suas ex-companheiras viverem em paz.

Ademais, que tenham todos um feliz dia internacional da mulher.

Sem perfumes e jóias, roupas e rosas, com respeito e proteção, agora e sempre.

Amém.

Da hepatite para a ação no mundo

Que credibilidade você daria a uma moça que cortava seringa, deixando para os 14 anos de idade as primeiras noções de matemática? E que aprendeu a ler no Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) e terminou o antigo primeiro grau através de um curso supletivo?

Talvez esses sejam detalhes da história de nossa primeira presidente mulher. Talvez. Mas o fato é que a discussão sobre a transição de Marina Silva do PT para o PV, além de fazer emergir uma discussão oportuna sobre a sustentabilidade – agregando mais iniciativas e pesquisas em vista à corrida presidencial – pode também trazer discussões em torno do tema “mulher”. Afinal de contas, entre as presidenciáveis estão Marina Silva e Dilma Rousseff, além da ex-candidata Heloísa Helena.

Mas não estamos aqui para falar de política, de movimentos feministas ou fazer levantamentos ideológicos. O tom aqui é conhecer a Marina, aquela que está listada entre as 50 pessoas do mundo em condições de salvar o nosso planeta.

A aquariana nasceu em um seringal chamado Breu Velho, a 70 quilômetros de Rio Branco, Acre. Não havia estradas e a longa viagem pelo rio dificultava qualquer tipo de assistência médica. Dos onze filhos de Pedro Augusto e Maria Augusta – pais de Marina Silva, três morreram ainda pequenos. Ela ficou sendo a segunda mais velha dos oito sobreviventes, sete mulheres e um homem.

Aos 14 anos Marina aprendeu a conhecer as horas no relógio e as quatro operações básicas de matemática para não ser enganada pelos patrões na venda da borracha. Aos 15 ficou órfã de mãe e, como a irmã mais velha havia casado, assumiu a chefia da casa e a criação dos irmãos mais novos. Mas aos 16 anos contraiu hepatite e teve que ir para a cidade – para o seu bem, iria saber mais tarde -, em busca de tratamento médico. Resolveu ficar por lá, trabalhando como empregada doméstica, porque queria estudar. Àquela época tinha o sonho de ser freira, pois achava que na vida religiosa poderia formar seu caráter dentro da moralidade, ao mesmo tempo ficava fascinada pela possibilidade de estudar nas escolas da Igreja, que eram as melhores da região.

Começou a frequentar as aulas no Mobral, depois o curso de Educação Integrada, onde aprendeu a ler e escrever. Foi morar com as freiras e fez o supletivo de 1º grau. Novamente no supletivo obteve o diploma de 2º grau. Antes dos 20 anos, já se preparava para fazer o vestibular e entrar na universidade. Nessa altura já havia abandonado o sonho de ser freira, pois frequentava as reuniões das Comunidades Eclesiais de Base e, aproximando-se dos grupos de teatro amador, percebeu que não queria a vida no convento, mas a ação no mundo. E que isso não representava nenhum prejuízo em suas convicções religiosas e morais. Nas lutas dos moradores de seu bairro, descobriu a política não-partidária dos movimentos sociais. Na escola, aproximou-se das lideranças do movimento estudantil.

Uma nova hepatite fez com que perdesse as provas do vestibular. Por isso viajou com ajuda da Igreja para buscar tratamento em São Paulo. Quando voltou, o casamento adiou por mais um ano sua entrada na Universidade. Mas no ano seguinte, já grávida da primeira filha, iniciou o curso de História, e o concluiu em quatro anos.

Na universidade descobriu o marxismo. Entrou para o PRC, um dos vários grupos semi-clandestinos que atuavam na oposição ao regime militar. Começou a dar aulas de História e frequentar as reuniões do movimento sindical dos professores. Casou-se outra vez. Do segundo casamento, com Fabio Vaz de Lima, nasceram mais duas filhas: Moara e Mayara, totalizando quatro filhotes.

A biografia de Marina Silva fez com que ela fosse escolhida pelo jornal britânico The Guardian, em 2007, entre uma das 50 pessoas em condições de ajudar salvar o planeta. Mas sua lista de premiações e reconhecimentos nacionais e internacionais é longa. Entre muitos outros, ela recebeu o prêmio “2007 Champions of the Earth“, o maior prêmio concedido pelas Nações Unidas na área ambiental. No dia 29 de outubro de 2008, a senadora recebeu das mãos do príncipe Philip da Inglaterra, no Palácio de Saint James. Em Londres, a medalha Duque de Edimburgo, em reconhecimento à sua trajetória e luta em defesa da Amazônia brasileira – o prêmio mais importante concedido pela Rede WWF. Em junho de 2009, recebeu o prêmio Sophie, por seu trabalho em defesa do maio ambiente, oferecido pela fundação norueguesa Sophie, criada pelo escritor norueguês Jostein Gaarder, autor do best seller “O Mundo de Sofia”.

Orçamentos públicos, gênero e democracia

Orçamentos públicos, gênero e democracia

Neste período do ano, em que os governos municipais estão divulgando seus Planos Plurianuais 2010-2013, é importante fazermos uma reflexão sobre o papel dos orçamentos públicos na diminuição das desigualdades sociais, econômicas e de gênero. Nenhum orçamento é neutro. As peças orçamentárias apresentam as prioridades das gestões e, portanto, as políticas que beneficiarão a população. Mas esta população não é uniforme. Apresenta especificidades e desiguais possibilidades de acesso a serviços e exercício da cidadania construída historicamente. Como as políticas não se concretizam sem recursos que permitam sua execução, se faz necessário repensar as formas de formulação destes instrumentos de governabilidade e de prática democrática.

Inúmeras pesquisas demonstram que as mulheres compõem o grupo social mais vulnerabilizado. Se incluirmos as dimensões de raça e etnia, a situação se agrava ainda mais. Por isso, vários países da Europa e da América Latina têm incluído a perspectiva de gênero nos seus orçamentos públicos com o objetivo de garantir o direito a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres e, portanto, impulsionar o desenvolvimento econômico e social. Essa perspectiva está presente nos Planos de Igualdade de Oportunidades existentes na Argentina, Uruguai, Bolívia, entre outros, assim como nas constituições e regras orçamentárias de países como México, Equador e Austrália.

Adotar orçamentos com perspectiva de gênero significa entender que os resultados das políticas atingem a homens e mulheres de distintas classes, idades e etnias, de formas diferentes. E, a partir dessa constatação, aprimorar os instrumentos de promoção da igualdade social e de gênero, ademais de otimizar os recursos públicos. Isso não significa, necessariamente, em maiores verbas, mas em destacar, na formulação das políticas e dos orçamentos, os públicos prioritários a quem se destinam e adaptar as ações para resolver as problemáticas conjunturais que se apresentam nos municípios, estados ou mesmo no país.

No Brasil, em Pernambuco e no Recife, as mulheres correspondem a mais da metade da população, têm taxas de escolaridade, em geral, mais altas que os homens, mas tais dados não se concretizam em iguais possibilidades de acesso ao mercado de trabalho ou salários igualitários. Além disso se apresentar como uma injustiça social, é preciso ter em conta os impactos econômicos e para o desenvolvimento que tal realidade nos defronta. É preciso salientar que os orçamentos sensíveis ao gênero são recursos que promovem a equidade entre homens e mulheres e não, tão somente, recursos direcionados para mulheres. É com essa equidade e sustentabilidade que estão comprometidos os governos democráticos.