A poesia filosófica embriagante de Lírian

A poeta e cronista Lírian Tabosa nasceu no Ceará, na cidade de Limoeiro do Norte. Vive no Rio de Janeiro há muitos anos, chegou a Nova Iguaçu em 1956. Os primeiros sonetos, escritos aos 15 anos, foram inspirados em Castro Alves e Guerra Junqueiro. Na adolescência foi seduzida pela política e chegou a ser exilada na Bolívia por cinco anos, onde reencontrou Che Guevara, amor eterno e “muso” inspirador de muitos poemas- o primeiro encontro foi no Rio.

“VAMOS BEBER QUE A VIDA É UM LÍQUIDO!”, filosofa enfática a poeta que endossa o caldo do Desmaio Públiko, aglomerado de poetas da Baixada Fluminense – eles bebem a poesia embriagante de Lírian e fazem dela hino. A poeta foi a grande homenageada do Calendário Poético de Mané do Café de 2015, lançado habitualmente na Fliporto, em Olinda, dentro do Alt Fest Fliporto, evento organizado por Tuppan Poeta nas ladeiras do Sítio Histórico. Lírian tem seis livros publicados e participações em várias antologias pelo País. Eis um pouco da sua obra, organizada pelo poeta Cézar Ray, um breve exemplo de MULHER e crítica neste 8 de março de 2015:

*

Ai amor, não faça isso!
Ai amor, não faça!
Ai amor, não!
Ai amor!
Ai

*
Recordando

O Silêncio invadia uma noite sem fim.
De súbito ouvi
Uma música clássica
e nostálgica.

Que falava de uma alma
e parecia ser a minha!

Um cigarro acendi
e a fumaça se perdia
como meu pensamento

que não tinha a quem lamentar.

A não ser aos versos
vivendo dentro de mim
a se manifestarem!

E meu Ego se expandia
Como um grito de terror,
ou era o silêncio da noite
ou era a música que eu ouvia

ou era a sentença da vida
que me jogava à solidão

Sem ter de ninguém o amor…

Bebi, bebi tanto
Até deixar que saísse
Do meu pensamento
a criatura que amo.

Bebi, bebi demais
E não sei dizer
Como passei a noite.

Só sei dizer

Que no dia seguinte,

o meu cinzeiro estava cheio de cinzas
as garrafas vazias…
E uma caneta sobre um poema…

*

O Que Estava Debaixo da Caneta

Um dia eu amei!
Não igual a Deus
porque ele ama muito!

De repente – traída –
que tristeza!
Amei como ninguém…

Tudo acabado.
Não te quis mais…
Pois só Deus ama demais
e eu não amo igual a Deus!

Apenas te amei
Como ninguém!!

Coitado
Dos homens…
Sofrem tanto
Com as mulheres!
Pobres mulheres…
Sofrem tanto
Com os homens

E assim,
reclamando
terminam ambos
numa cama!

*

Maldita sejas tu, Oh Fome!

Maldita, seja tu,
Oh fome, que flagelas
nada mais que meio mundo.

Maldita, seja tu,
Causadora de roubos
crimes
prostituição

Maldita seja tu
Que por aqui continuas
Até a decisão
Das massas!

Malditas sejas tu.

Que quando te sentimos
Perdemos a fé
nos Santos e em Deus!

E a esperança
Nos homens que governam!

*

Enquanto se bebe
O líquido se impõe
e num relance
já com ele em sintonia
pode-se proclamar
em só grito:

VAMOS BEBER

QUE A VIDA É UM LÍQUIDO!!!!

Livros Publicados:

  • Libertas quae sera tamem – 1967 (publicado no exílio)
  • Lírian Tabosa x Moduan Matus – 1993
  • Pequena Mostra Poética – 1995
  • O Quarto – 1997
  • Umas e Outras – 2002
  • Lírios – 2009
  • De Lá para Cá – 2014 (uma auto biografia poética)

LINKS:

Mapa de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro: http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/lirian-tabosa

Blog do Poeta Cézar Ray (fundador da fanzine Desmaio Públiko): http://www.zarayland.blogspot.com.br/2012/03/meu-povo-lirian-tabosa.html

O Jogador

O Jogo de Xadrez, 1943 (Pintura de Maria Elena Vieira da Silva)

Sempre menosprezei certas disputas, principalmente as dissimuladas. Acredito no destino, no velho o que tiver de ser, será! Mas de repente me vi como uma carta no baralho e questionei: é preciso jogar? Resolvi recorrer aos amigos, escolhi Dostoievski por admirar a sua alma existencialista. Para mim, escritos de um bom pensador são belos utensílios domésticos.

A ideia de roleta russa sempre me inquietou também, assim como o desejo de entender o jogo humano no mundo. Sente-se com sorte?O mundo às vezes pode parecer um jogo de azar. Algumas mentes atrozes bolam planos diabólicos, fazem contas, estudam profundamente o terreno, os inimigos. Costuram histórias, trapaceiam, dizem-se amigos, mentem – é difícil conversar com um mentiroso, sobretudo quando ele é um jogador decidido.

Aleksei Ivanovitch, o jogador de Dostoievski, ou o seu alter-ego, é um jovem astuto, desapegado, despreocupado. Ter tudo ou nada, possuir o status aleatório de rico ou pobre, amado ou detestado, são questões ditadas pela roleta, ou será melhor dizer, pela sorte? Por mais imprevisível que este elemento seja, a maioria dos jogadores desejam a presença do inexplicável facilitador. O russo de Dostoievski respeitava a sorte e a falta dela; acreditava que contaria com ela no momento certo. No fundo, altruísta e esperançoso, enxergava-a como uma poderosa carta na manga, uma salvação.

O personagem narrador de Dostoievski, Aleksei Ivanovitch, é o preceptor dos filhos de um general russo falido, porém confiante em herdar a fortuna da avozinha. Quando o general e os demais jogadores percebem que essa herança não sairá, as mascaras começam a cair e quase todos mudam as estratégias do jogo. Aleksei ironiza os aristocratas, seus medos, desejos, a forma de se relacionarem com o mundo e com as pessoas ao redor.

Os franceses e russos são bem caricaturados no livro O Jogador. Talvez pela necessidade de escrever a história rapidamente, para cumprir o prazo da editora e pagar as contas da casa. Mas ele conseguiu ser brilhante ao definir certos tipos de comportamento – detesto classificações mesquinhas. As pessoas são, antes de tudo, seres humanos, ou não? Um bom artista consegue descrever os seres originais, difíceis de encaixar um rótulo, escapolem das convenções sociais. Entretanto, o autor conseguiu ser pontual e universal, construindo o clima social das relações com as caracterizações.

“Des Grieus era igual a todos os franceses, isto é, jovial e amável quando necessário. O francês dificilmente é amável por natureza; dir-se-ia que sempre é amável por ordem, por cálculo. Se, por exemplo, vê necessidade de ser, fora dos hábitos, fantasista e original, a fantasia mais absurda e mais artificial assume nele formas de antemão admitidas e há muito vulgarizadas. Para mim, só as noviças e sobretudo as moças russas se deixam fascinar pelos franceses”.

“Às vezes, no estrangeiro, os russos são exageradamente poltrões, têm um medo horrível do que possam dizer os outros, do modo com que os vão olhar – será que isto ou aquilo fica bem? – em suma, portam-se como se estivessem metidos num espartilho, especialmente os que têm pretensões a importância”.

O jovem russo arrisca-se, ele é o personagem mais original, juntamente com a avozinha, uma idosa excêntrica, espalhafatosa – os únicos personagens livres. A roleta, com as suas voltas, pode ser metáfarora da vida. O zero repete-se, vermelho e preto, par, ímpar, pequeno e grande, depois de algumas horas a sorte pode mudar; a consciência, o lidar, a decisão de parar de jogar ou simplesmente brincar com o jogo no mundo. Os jogadores sabem, o vício/prazer é arrebatador, é difícil parar de jogar.

Por fim e recomeço, conclui o bom jogador de Dostoievski: “O que há agora é que… a uma só rodada tudo pode mudar, e esses mesmos moralistas serão os primeiros a aparecer felicitando-me e fazendo-me facécias amigáveis. Mas quero que se danem todos! Que sou agora? Um zero. Que posso vir a ser amanhã? Amanhã posso resurgir dos mortos e recomeçar a viver! Posso descobrir o homem em mim, antes que ele se perca!”.

O colosso de Sylvia Plath

Sylvia Plath (Foto: Divulgação)

Sob a melancolia abstrata de tardes cinza, frias, tortuosas, o espírito de Sylvia Plath se debruçava com impetuosidade no desejo de atingir a perfeição. Quem via sua beleza cruzando uma rua, dobrando uma esquina, jamais imaginaria o turbilhão interior escondido no semblante amável. Começou a escrever na infância, chamava seus diários de “mar de sargaço”. Quando Sylvia tinha oito anos, o seu pai herói, Otto Plath, faleceu. Meses depois ela nadou, nadou, nadou até aonde pôde, mas o mar insistia em lhe cuspir. Talvez soubesse que não havia chegado sua hora, que suas palavras com sabor de mar em fúria correriam o mundo. A morte do pai havia afetado a sua essência e deixaria cicatrizes profundas, inclusive a fascinação pela morte. Nesse mesmo ano, Sylvia conseguiu publicar o seu primeiro poema no Boston Herald.

A poesia de Sylvia Plath é enigmática, ao mesmo tempo expõe e guarda a cabeça dentro do casco. Suas metáforas são domésticas. A vida de uma mãe que banha as crianças, faz bolos e conversa com plantas se misturam com um ser febril genial. Elas não servem apenas para aproximar o conceito da imagem, mas as imagens, captadas nas emoções cotidianas, são o próprio conceito. Diferente de muitos, ela não conseguia elencar um tema aleatoriamente e discorrer sobre ele, como fazia o seu marido, o consagrado poeta inglês Ted Hughes. A inspiração de Sylvia vinha numa machadada, ao se olhar no espelho, lembrando as abelhas do pai, contemplando uma árvore morta ou viva – Sylvia morria e revivia todos os dias, havia uma luta constante pela sobrevivência, ocasionada pelas fortes crises de depressão.

Sylvia nasceu em Boston, Massachusetts, em 1932. Terminou seus estudos no Smith College em 1955, ganhou um concurso literário e foi para Nova York trabalhar na revista Madeimoselle. Um ano depois foi para Inglaterra, havia conseguido uma bolsa de estudos na Universidade de Cambridge pelo mérito da tese: “The Magic Mirror: A Study of the Double in Two of Dostoevsky’s Novels” – o cineasta italiano Bertolucci também se inspirou no assunto, em 1968, para criar o longa “Partner”. Sylvia estudava, escrevia, publicava em jornais e revistas da época, como o Varsity e St. Botolph’s Review, quando conheceu o seu futuro marido, o garanhão inveterado Ted Hughes.

Quatro meses depois se casaram, em 1956. Dois anos depois o casal foi para Boston, onde Sylvia lecionou e conviveu com o poeta Robert Lowell e a poetisa Anne Sexton. Em 1959 voltam para Londres, onde ela escreve The Colossus (O Colosso) grávida de Frieda Rebecca, sua primeira filha, e o livro infantil The bed book (Livro de cabeceira), publicado apenas em 1976. “A poesia que sinto é uma disciplina tirânica, você tem que ir tão longe, tão rápido, em um espaço tão pequeno, que você apenas tem que desviar de todos os periféricos. E eu sinto falta deles! Eu sou uma mulher, eu gosto de curiosidades, e eu acho que num romance posso obter mais da vida. Talvez não seja uma vida tão intensa, mas certamente mais da vida”, escreveu no seu diário.

Em 61 engravidou novamente, mas teve um aborto espontâneo, o qual ela descreve em Parliament Hill Fields. Em 61 muda-se para o condado de Devon, região rural da Inglaterra, e escreve The bell jar (Redoma de Vidro), onde há referências sobre as suas tentativas de suicídio. O livro recebeu críticas positivas, mas Sylvia se queixava cada vez mais do cansaço, da falta de tempo para escrever devido aos cuidados com o bebê e a casa. Em janeiro de 62 nasce o seu segundo filho, Nicholas Farrar; em março ela escreve e grava para a BBC a peça “Three woman: a poem for three voices”.

Invadida constantemente pela verdade, descobriu cedo que a existência é muitas vezes cruel; sim, o sofrimento é parte indissociável da vida – assim como fatores pessoais e poéticos foram e sempre serão indissociáveis da sua obra. Ela criava com fúria, com os sentidos agitados, descomunalmente. “Dentro de mim mora um grito. De noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar”, registrou no seu diário.

O casamento com o escritor Ted Hughes foi conturbado devido às traições do mesmo. Aos poucos Sylvia se deixou consumir pelo ciúme, tornando-se uma mulher neurótica, intempestiva, rasgava e queimava os escritos do marido, que acabou a deixando para viver com a sua amiga, com quem tinha um caso, a poetisa Assia Gutman.

Em carta para mãe, Plath escreveu: “Viver para além de Ted é maravilhoso, eu não estou mais na sua sombra”. Na verdade ela nunca conseguiu recompor-se, mesmo separados existia uma cumplicidade e amor monstros. Abalada pela separação, com gripes fortes e a solidão, Sylvia produz os primeiros poemas do seu próximo livro, o aclamado Ariel, lançado postumamente. “Esses meus novos poemas têm uma coisa em comum. Foram todos escritos em torno das quarto da manhã – naquela hora ainda azul e quase eterna, antes do choro do bebê, antes do tilintar musical do leiteiro arrumando suas garrafas”, comentou na gravação da BBC.

Sylvia voltou com os filhos para Londres no fim de 1962, contente por ocupar o apartamento em que o escritor Yeats havia vivido – a vida no campo estava insuportável devido ao isolamento. Entretanto, a mudança, com o passar o tempo, não havia conseguido dar jeito na solidão, no seu estado de saúde e espírito, nas obrigações cotidianas de uma dona de casa separada.

Na madrugada de 11 de fevereiro de 1963, Sylvia prepara o pão e o leite das crianças, as agasalha, olha como quem olha pra sempre, as beija e veda a porta do quarto. Vai até a cozinha, sem tristeza, limpa a mesa, a pia, abre o forno e deita a cabeça dentro sobre uma rodilha. Ela resolve, depois de várias tentativas, abraçar a morte, sua eterna amante. O pequeno Nicholas, 46 anos depois, comete o mesmo erro da mãe no Alasca, onde vivia.

Quem fala no poema é uma mulher que tem o dom grandioso e terrível de renascer. O único problema é que ela tem de morrer primeiro. Ela é a Fênix, o espírito libertário, se o quiserem. Ela é também apenas uma mulher boa, simples e muito desembaraçada”, comentou sobre o poema acima.

Espelho

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.

Tradução de Vinicius Dantas

Os Mannequins de Munique 
A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.

Desprendendo suas luas, mês após mês, sem nenhum objetivo.
O jorro de sangue é o jorro do amor,

O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu

Eu e você.
Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus sorrisos

Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,

Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata

Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.

Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.
Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,

Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos

Cintilando
Cintilando e digerindo

A mudez. A neve não tem voz.

Tradução de Claudia Roquette-Pinto

PAIZINHO

Não serves, não serves,
Não serves mais, sapato preto
Em que eu vivi como um pé
Trinta anos, pobre e branca,
Mal me atrevendo a respirar ou atchim.

Paizinho, eu tive de matar-te,
Morreste antes que eu tivesse tempo,
Mármore pesado, saco repleto de Deus,
Estátua medonha de dedo grande cinzento
Do tamanho de uma foca de Frisco

E uma cabeça no Atlântico mais esquisito
Onde ele derrama o verde-feijão sobre o azul
Nas águas da lindíssima Nauset.
Eu costumava rezar para te recuperar
Ach, du.

Na língua alemã, na vila polaca
Aterradas pelo rolo
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é vulgar.
Diz o meu amigo polaco

Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde tu
Fixaste os pés, as tuas raízes,
Contigo nunca consegui falar.
A língua presa no maxilar.

Arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em qualquer alemão estavas espelhado.

E a linguagem porca
Uma máquina, uma máquina
Em vapores leva-me como judia.
Uma judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Comecei a falar como uma Judia.
Acho que é boa ideia ser Judia.

A neve do Tirol, as cervejas clarinhas de Viena
Não são muito puras ou genuínas
Com a minha angelical cigana, o meu destino estranho
E as minhas cartas de tarot, cartas de tarot
Eu posso ser um pouco Judia.

Sempre me provocaste medo,
Com a tua Luftwaffe, a tua conversa vazia.
E o teu bigode lavado
O olho ariano, muito azul.
Homem-panzer, homem-panzer, oh tu_

Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu.
Qualquer mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Bruto coração de um bruto da tua espécie.

Estás de pé na pedra, paizinho,
Na imagem que trago comigo,
Em vez do pé, o queixo partido,
Não menos canalha por isso, oh não
o homem que partiu em dois
o meu lindo e vermelho coração.

Eu tinha dez anos quando foi a enterrar.
Aos vinte anos, eu tentei morrer
E voltar, voltar, voltar para ti.
E até pensei que os ossos serviriam.

Mas não me deixaram,
Juntaram os meus bocados com cola.
E então eu soube o que fazer.
Fiz um modelo de ti,
Homem de preto, com um aspecto de Meinkampf

E o amor de tortura e torniquete.
E eu disse eu aceito, eu aceito
E então, paizinho, finalmente estou acabada.
Arranquei o telefone preto da ficha,
As vozes já não se arrastam até aqui.

Se matei um homem, matei dois_
O vampiro que me disse seres tu
E bebeu o meu sangue por um ano,
Sete anos, se queres saber
Paizinho, podes voltar para trás.

Há uma estaca no teu coração negro e gordo
E os homens da vila nunca gostaram de ti.
Eles dançam e espezinham-te.
Eles sempre souberam que eras tu.
Paizinho, paizinho, seu canalha, estou acabada.

Tradução de Pedro Calouste

Carta social

Bokeh Love Hearts (Foto: Pixel Artistry/ Creative Commons)

O silêncio da noite anunciou a manhã descobrindo os desejos. Encontrei-o como quem não quer nada. Você, meu eterno Visgueiro, arrastou o horizonte do meu novo dia. Caso o amor não seja uma razão do coração com um sistema orgânico involuntário, invento novas bombas, fórmulas, desvendo sonhos, viro esteta ou ao avesso, meu precioso bem.

Arrisca-se como um cavalo afoito, seja o meu casaco, a sombra da minha árvore no calor da tarde. Serei a flor pomposa e fina do teu mandacaru, o teu copo de leite, a tua dama da noite. Sim! Eu posso ser a sua Fanny. Por que eu ri e agora quero te sentir no vento, em um beijo com gosto de lágrimas sorridentes, no suor do teu tormento, nas nuvens brancas de um céu azul.

Abri uma janela para você entrar com a brisa gostosa da lua esdrúxula. Você é o Elvis da minha carteira de solteira, meu boi estrela. Dá-me um cacho do teu cabelo, serei tua ama com zelo. Galopa astuto nas minhas correntes, te darei espíritos evoluídos de presente. Além de serras para te fazer suplantar, te colocarei na beira de um abismo e você aprenderá a voar  comigo.

Ensaio fotopoético de Silvia Schmidt

Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador

Silvia Schmidt é uma andarilha corajosa, regida pelo sol e pela lua em Leão. Pai de origem judaica, mãe Alemã, um filho, cinco irmãos, muitos amores e amigos. Natural de São Paulo, viveu em Santa Catarina, aportou no Recife há alguns meses e agora vive nas ladeiras de Olinda. Formada em letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (SP), deu aula de literatura e redação por dezesseis anos. Tem pós-graduação em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e em Sociologia e Política pela USP. Atua, há 10 anos, no mercado da economia criativa, desenvolvendo projetos na área da Educação, Literatura e Multimeios. É curadora do Festival de Animação de Fernando de Noronha e do projeto Escola Vocacional Livre. Possui dois romances em revisão, Duty Free (2000) e Empadão Goiano (2011), um livro de contos. Neste ensaio a escritora apresenta alguns dos seus poemas resignificados pelas lentes da fotógrafa Mari Patriota, do Projeto Provador.

 “Sou volátil como uma brisa que passa, mas deixa um aroma doce no ar. O meu sonho é poder viver materialmente do SONHO, tema principal de minha arte. A poesia nasceu em mim… é uma percepção, um estado de ser e sentir… ela flui a revelia quase sempre quando vi… já escrevi!”.

Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador
Cobalto (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Cobalto
Pintei as unhas de azul cobalto e sai por ai!

Sapato alto_astral…
-“por sua causa, apenas por sua causa”: disse- me um pequeno pássaro…. imaginário, soprando-me doces piados no florido quintal de meus sentidos.

Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador
Olho (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Olho

Meu olhöölhou
Seu só riso
Em vt preto e branco
Sim tonia
Sim patia
Tv em pele cristalina
Voce e eu for a do ar.
cavalo marinho
e mulher golfinho.

Seu jeito, meu jeito (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)
Seu jeito, meu jeito (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Seu jeito, meu jeito

Quando eu disser náo,
Você apela.. um sim…
Empurra-me à primeira parede
Junte-se a minha tez num destino sem fim..
Roube-me um beijo daqueles
Penetre-me pelo meio
Seus dedos , cabelos.. em mim..
Pegue-me de jeito, dentro

 Abra os meus  joelhos mais pra ti
Mordisque me os seios carmim
Puxe-me pro teu peito
Faça-me atrevida sentir
O seu mais perfeito masculino
Eu sem saída, uma deusa linda
Sem medo, sem resistência
Envolva-me em seu pênis
Mescle seu cheiro em meu jardim
Seu jeito ao  meu jeito Yasmin
Não vá  sem pensar antes um começo
Um caminho qualquer sem endereço..
Por mim e por você..tenha..sempre

Um querer muito mais que dizer  THE END.

Poeta (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)
Poeta (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Poeta

Há um frio, um frio latente
Há um poeta vindo ao meu corpo
Como leite de mama:
Hilda Hilst à cabeceira da cama
Uma fome_poema requer-me a alma
E o corpo ao ser tocado, lembra a si
A repetição do mesmo tema.
Fogo nele faz bolhas de ar quente
Como peidos e arrotos
Agasalhos jogados ao léu
falta de aconchego
Visto-me de luto goela a dentro porque não há
Papel que eu despeje tanto de cárcere
E falta de ciência.
A Lua se vai alta em nuvens densas
Qualquer linguagem soa-me falsa nesse transe
Quando sequer o desejo pulsa em falsa corrente
é ágil  a mão sobre  a bancada-laje de cemitério
A pena se cala nesse santo sacrilégio.

Amante (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)
Amante (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Amante

Acordei com fome de tudo
De mãos em meio a minha vagina
Desejo de mordiscos em meus peitos eriços
Mamilos seus em arrepios
Acordei com fome de pênis
De lábios penetrando dentro
De línguas chupando línguas
Saliva- açúcar escorrendo tensão e alívio
Corpo em ardência neste sacro sono tardio
Não havia a pena , mas pura poesia
Nem os dedos , nem avidez de aprendizes
Não havia a flor-pétalas descendo meu corpo
Perfumando a pele em seus encantos
A preguiça o remanso, não havia
Acordei com sede de bacantes
Vinho sangue dança do ventre
Amada sem amante.

* * *

Troque figurinhas com a escritora na sua página de literatura no Facebook: www.facebook.com/pages/SILVIA-SCHMIDT/196055840459643

Conheça o Projeto Provador: https://www.facebook.com/projetoprovador

“Quando dormem as feiticeiras”

La Partida de las Brujas (Pintura de Luis Ricardo Falero, 1878)

Mulheres ativas, corajosas e sábias, costumam assustar os homens até hoje, imagine em 1491, nas velhas cidades de Albi e Cordes, na França – onde é ambientado o livro Quando dormem as feiticeiras, de Carlos Costa. É comum ver homens correrem sorrateiros quando encontram uma mente feminina desenvolta e autoconfiante. Só os mais sensíveis percebem que não somos uma grande ameaça. Na Idade Média, mulheres espiritualistas que adoravam plantas e animais eram chamadas de bruxa, investigadas e punidas pelos inquisidores.

Uma comunidade de feiticeiras é atacada e perseguida pela Inquisição. A nova líder e mestra, personagem principal do enredo, é Urtra, uma mulher determinada que usa sua “presciência” a serviço de um ideal: perpetuar os preceitos da ordem Irmandade das Lobas. Urtra foge com a pequena Yalana, as outras bruxas se dispersam, muitas são mortas. No caminho, conhecem a jovem Medrice, que abandona os estigmas católicos de pecado e penitência e se inicia na Irmandade.

A peregrinação das feiticeiras é uma aventura diária de sobrevivência, intuição, aprendizados, encontros. A meu ver, o grande feitiço do texto de Carlos decorre das mensagens, lições que pulam em cada página proporcionando reflexões para entendermos os mistérios universais e conhecermos a nós mesmos: “Deves temer sempre mais os vivos e apenas respeitar os mortos, embora estes, de fato, em muitos casos nos atrapalhem ou nos ajudem. De qualquer sorte, o mal existe no próprio coração do homem. E o maior deles á a ignorância, enquanto o desconhecimento de si mesmo, eis aí todo o mal e o verdadeiro demônio”.

Ficção, história e ocultismo se mesclam numa trama contagiante. Albi foi, historicamente, a cidade onde se iniciou a Inquisição, devido ao Catarismo, crença que pregava a existência de um deus do bem e outro do mal – assim como os chineses acreditam na filosofia da dualidade do Yin e Yang. O escritor possui perceptível habilidade no jogo das palavras, misturando as pouco convencionais como “azáfama”, “rijo”, “compleição”, “tez”, com um diálogo entusiasmado e muita poesia: “O calor crescia em nossos corpos, enquanto nossas roupas aprisionavam o mais indomesticável minotauro. Senti uma espécie de fome que não lamenta o agora, a fome do presente instante”, dizia Urtra sobre a Baronesa Isabelle. O encontro amoroso entre as feiticeiras é o ponto mais quente do livro. “Um gemido agudo se fez ouvir no vazio do quarto. (…) detive o quanto pude na orla dardejante de uns poucos pelos. Era um pedido quase religioso o seu, mas mantive a penitência para que a expiação final fosse plenamente recompensadora. Um ramalhete de pelos lisos e delicados ia indicando o ardente caminho (…)”.

Carlos Costa, em Quando dormem as feiticeiras, diz em cada página o que muito ficcionista não consegue dizer em um livro inteiro, como na passagem: “Existia dois tipos de visão: uma que toca a alma do mundo, a mais sagrada e difícil de exercer; e a outra, que é comum aos acontecimentos ordinários, mas que pode ser totalmente desfigurada de sentido se não houver treinamento e iniciação adequada”.

Se a história parece medieval, afirmo que existem muitas Urtras na contemporaneidade. Bruxas com PhD e tudo mais. Historiadoras, antropólogas, biólogas, professoras… Adoradoras da natureza, interessadas nos mistérios metafísicos e femininos, visionárias que podem “atar e desatar as coisas, ver entre as brumas da ilusão e ascender ao portar da luz, das trevas, das sombras e dos sonhos”, como as feiticeiras de Carlos.

Quando Dormem as FeiticeirasQuando Dormem as Feiticeiras
Carlos Costa
Editora Novo Século
240 págs, R$ 29,90


Carlos Costa (Foto: Divulgação)
Carlos Costa (Foto: Divulgação)

+ sobre o autor da obra, Carlos Costa

Formou-se em Odontologia e depois em Psicologia, e como ele mesmo costuma dizer, indo do dente ao transcendente. Desde tenra idade, possuía certa inquietação existencial, aliada ao interesse por astronomia, pelos grandes mistérios e pela vida além das estrelas. Desenvolveu cedo o gosto pelos livros, seus únicos companheiros nesta fase que, talvez, pudessem lhe dar respostas. Em Salvador, onde reside, iniciou sua busca espiritual, descobrindo as religiões orientais e o ocultismo. Mais tarde, aprofundou a vocação espiritual ao se iniciar no caminho da Magia e nas velhas religiões, tendo aí diversas experiências com o sagrado. Divide seu tempo entre a clínica em psicologia, o ensino e os escritos. Lançou nacionalmente em 2009 o livro, QUANDO DORMEM AS FEITICEIRAS. Atualmente, está escrevendo o seu quarto romance.

Uma Margarida faz revolução

Dona Margarina (Foto: Belisa Parente)

Os poderosos podem matar uma rosa, duas, até três rosas, mas jamais deterão a primavera“.
Che Guevara

A primavera para ela chegou em 1937, quando Getúlio Vargas desencadeou o golpe de estado, implantando o “Estado Novo”, regime ditatorial e autoritário que fez com que civis como Manoel Sebastião da Silva se engajassem na luta armada. Margarida Oliveira da Silva perdeu o pai nesse mesmo ano, ela tinha apenas cinco anos de idade, mas ainda recorda o vestido que “mal tirava do couro” feito com as sobras do tecido da camisa dele – ela conta que o trabalho de Manoel Sebastião na Revolução de 30 era sabotar os carros dos inimigos do Estado, conhecidos como “perigo vermelho”, os comunistas. “Meu pai ia lá, em surdina, e afrouxava os parafusos das rodas dos carros para que eles não atravessassem a ponte que dava na cidade”, fala meio a sorrisos.

Os direitos constitucionais estavam suspensos desde a Intentona Comunista de 1935, não existiam leis trabalhistas – essa só entrou em vigor em 1943 – que amparassem Margarida, sua mãe e mais dois irmãos. A família começava a passar necessidades quando Tereza Tavares da Silva resolveu procurar sua mãe, a avó de Margarida. “Nós fomos para Palmares atrás da minha avó, ela foi para lá e não voltou mais”, diz. É a partir daí que começa a saga de uma menina do interior de Alagoas que se tornaria um exemplo de luta, força, coragem e fé para os que a conhecem. “Foi a viagem mais longa da minha vida, só Deus sabe o que nós passamos”, afirma.

Margarida, a mãe e os dois irmãos fizeram boa parte do percurso a pé. Caminharam de União dos Palmares-AL Palmares, Alagoas, até a divisa do Estado de Alagoas com Pernambuco, no “encontro das águas”, daí pegaram um trem e, enfim, chegaram em Palmares, já em Pernambuco. Lá, com seis anos, Margarida passou um longo tempo ajudando a mãe na fabricação de tijolos, esse era o único sustento que a família tinha. “Lembro, eu pequena colocando o barro na forma e depois levando ao fogo, teve um dia que minhas mãos sangraram de tanto maçar os tijolos, já sofri muito nessa vida”, conta. Depois vendeu cachorro-quente na porta do mercado e laranjas na estação do trem, tudo isso para ajudar a mãe. “Uma vez subi no trem pra vender as laranjas e quando menos espero, ele começou a andar, corri pra porta, e me joguei, me relei todinha, mas hoje estou aqui contando a história”, lembra.

Seis anos depois, agora com doze anos de idade, Margarida consegue um emprego na fábrica de tecidos Amalita e muda-se para o Recife. Mas foi em 1958 que o espírito revolucionário fez-se visivelmente presente, uma nova luta começava, agora em favor da classe trabalhadora de Pernambuco. Ela e os seus companheiros reivindicavam aumento salarial de 20%, mas o dono da fábrica não queria acordo, foi quando os operários entraram em greve. “Greve é a última arma que o trabalhador tem quando não chega o diálogo, o entendimento com o patrão”, diz.

Depois de 49 dias de greve os trabalhadores resolveram fazer um piquete próximo à fábrica, na Praça Sérgio Loreto, localizada entre a Rua Imperial e a Avenida Sul, no bairro de São José. Alguns operários mais revoltados fizeram um coquetel com soda cáustica e jogaram nos funcionários mais antigos que furavam a greve, e nos novos contratados. Foi quando a tropa de choque interveio e machucou muita gente. “Os furões passavam nos carros de barriga cheia, mangando da gente, enquanto nós passávamos fome em prol de todos, da classe inteira, eles só pensavam neles. Sempre fui solidária aos meus companheiros”, afirma.

Nessa época Margarida já era mãe de sete filhos legítimos e quatro adotados, e um desses foi achado em uma caixa de sapato. Parece mentira, principalmente no mundo capitalista e individualista em que vivemos, mas não é. “Sofri muito, porque 49 dias de greve pra quem tem uma família grande é difícil… Eu sustentava catorze pessoas e a maioria eram crianças”, conta. Margarida foi presa no dia do piquete, no coreto da praça, porque ela significava a voz dos operários oprimidos, mas dias depois foi liberada por não haver provas que a incriminasse. “Eu era uma trabalhadora, queria um salário conforme o merecido, como Jesus disse: “Dá a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César”. E eu disse lá, só quero o de Deus, o de César pode ficar, mas eles só queriam nos explorar”, diz.

Na madrugada do dia 31 de março de 1964, um golpe militar foi deflagrado contra o governo legalmente constituído de João Goulart. A falta de reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável. Não se conseguiu articular os militares legalistas. Também fracassou uma greve geral proposta pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) em apoio ao governo. Nos primeiros dias após o golpe, uma violenta repressão atingiu os setores politicamente mais mobilizados à esquerda no espectro político, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC), a Ação Popular (AP) e Ação Católica Operária da qual Margarida fazia parte. “A gente discutia a situação do país, a situação do trabalhador dentro do plano de Deus”, comenta. Milhares de pessoas foram presas de modo irregular, e a ocorrência de casos de tortura foi comum, especialmente no Nordeste.

O líder comunista Gregório Bezerra, por exemplo, foi amarrado e arrastado pelas ruas de Recife. Milhares de pessoas foram atingidas em seus direitos. Parlamentares tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos suspensos e funcionários públicos civis e militares foram demitidos ou aposentados. Entre os cassados, encontravam-se personagens que ocuparam posições de destaque na vida política nacional, como João Goulart, Jânio Quadros, Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes e Miguel Arraes. “Nós paramos a fábrica em solidariedade a Miguel Arraes, as forças armadas cercaram o Palácio da Justiça, desde o Parque Treze de Maio. Um grupo de estudantes ainda conseguiu chegar ao Palácio, e um deles foi morto lá na frente”, afirma. O presidente do Sindicato dos Tecelões de Pernambuco, Amaro, sumiu nesse mesmo dia e nunca mais apareceu, muitos companheiros de Margarida foram presos no sindicato, arrastados e torturados, mas a sua vez só chegaria um ano depois.

Depois dessa crise toda, Margarida foi transferida da fábrica Amalita para a Macaxeira, do mesmo dono. As perseguições continuariam até o dia 8 de setembro de 1965, quando ela foi presa, humilhada, e acusada de subversiva pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). “Na repressão, quando você reclama um direito chamam você de subversiva, foi isso, levei o nome de subversiva, mas eles nunca provaram… Fui presa, fiquei com vergonha, mas meu grupo de amigos da Ação Católica me ajudaram, o povo de Dom Hélder também”, comenta.

Dona Margarida foi presa por lutar pelos seus ideais, mas sua luta de vida não se encerrou por aí, essa flor de mulher mesmo depois de 76 primaveras ainda não murchou, continua trabalhando na Rua do Lazer, ao lado da Faculdade Católica de Pernambuco. Logo após o golpe ela abriu um modesto fiteiro e há 45 anos passa seus dias vendendo livros, cartões telefônicos, chocolates, para sustentar-se e ajudar os filhos e netos que necessitam. Dona Margarida, com certeza, contribui com a evolução intelectual e política de muitos alunos que se encostam por lá para receber aulas de história, de vida, da revolução operária em Pernambuco. Como disse Bertold Brecht, “Há homens que lutam um dia, e são bons; Há outros que lutam um ano, e são melhores; Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; Porém há os que lutam toda a vida. Esses são imprescindíveis”.

De um lado… e do outro… as notícias correm

De um lado… e do outro… as notícias correm por Belisa Parente

Pesquisa recente revelou que quase metade dos brasileiros nunca teve acesso à leitura. De acordo com a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, este ano foram investidos R$ 373 milhões na criação de bibliotecas, em feiras de livros, campanhas e compra de acervo para doar às bibliotecas. A presidente da Câmara Brasileira do Livro, Karine Pansa, olhou o lado positivo, mas bastante ingênuo, ao afirmar que o dado significa o grande potencial de crescimento do mercado editorial brasileiro. E os investimentos nos salários e melhores condições de trabalho dos pedreiros? Ou! PROFESSORES!!! Os principais agentes na construção dos novos leitores.

O advogado Henrique Abel disse em crítica publicada no site do Observatório da Imprensa o que eu gostaria de dizer há tempos: “Torna-se fácil perceber que o problema do Brasil não é que o nosso povo seja “mais ignorante”, pela média, do que a população dos Estados Unidos ou das maiores economias europeias. O problema, isso sim, é que o nosso país ostenta aquela que é talvez a elite social mais ignorante, presunçosa e intelectualmente preguiçosa do mundo. Que repele qualquer espécie de intelectualidade autêntica precisamente porque acredita que seu status social lhe confere, automaticamente, o decorrente status de membro da elite intelectual pátria, como se isso fosse uma espécie de título aristocrático”.

A reunião sobre o Código Florestal foi adiada para o dia 28 de agosto e a presidenta Dilma Rousseff cria empresa para desenvolver tecnologias do programa nuclear. A criação de um submarino é mais importante do que o destino das nossas florestas, rios, nativos? O Greenpeace lança projeto de lei popular e encabeça a mais nova campanha no Twitter (#DesmatamentoZero). “Governo afrouxa, ruralistas avançam e cerca de 50% dos cursos d’água na Amazônia perdem proteção no #CódigoFlorestal”, informam na rede social. Entre no site do Greenpeace e assine a petição. Uma lei popular precisa de 1,4 milhão de assinaturas de eleitores para ser aceita pelo Congresso.

Enquanto candidatos correm desbaratinados para angariar votos, começa a circular nas caixas de email dos brasileiros uma campanha pelo voto nulo. Um cidadão que compartilhou a mensagem comentou: “Ufa, até que enfim uma notícia boa”. Outro justificou: “Como não vejo um só candidato que mereça confiança nesse mar de lama da política nacional e como já cansei de errar, ou de me enganar com esses pilantras, só me resta essa possibilidade. Voto nulo!!!”. O email, além de ensinar a votar nulo (000 + tecla verde), informa que se a eleição for ganha por votos nulos (51%) é obrigatório haver uma nova com candidatos diferentes da primeira. E se a moda pega?

 

(Imagem compartilhada no Facebook)

A centenária força vital de Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues (Foto: Divulgação)

Quis escrever sobre o escritor Nelson Rodrigues, mas li textos maravilhosos de colegas que fizeram questão de registrar as inúmeras nuancem do pernambucano mais carioca que eu conheço. Afoita, me senti impelida a criar uma crônica à sua altura, mas preferi publicar um trecho de um conto para matar a nossa sede. O cara é realmente fodástico,  completo, e essa história de comemoração vale para nos fazer lembrar, conhecer, aprofundar. Uma amiga me ofereceu emprestada a biografia escrita por Ruy Castro, agora vou ler, antes, só através de pesquisas solitárias na internet – no Google Acadêmico existem vários livros do autor -, revistas e conversas em mesas de bar.

Pensei alto, sintomaticamente, sopra a tua genialidade aqui, a força da tua máquina, obstinada, noite e dia sem fim. O poder criativo, o fôlego, a força vital de Nelson conseguiu suplantar a exaustão, mortes, desdéns, as dívidas, os inimigos. Com 14 anos de idade Nelson Rodrigues lançou, no Recife e no Rio – 250 exemplares para cada cidade-, um tabloide colérico, escrito quase todo por ele, chamado “Alma Infantil”. Muitos anos depois, questionado, numa entrevista, sobre o que notava nas mulheres à primeira vista, respondeu: “A alma”.

Trecho do conto A Romântica:

No décimo quinto dia do casamento, Dinaura estranhou:
– O que é que há contigo?
Sobressalto do marido:
– Comigo? Nada, por quê?
E ela, num suspiro:
– Está com uma cara!
Muito sensível e perspicaz, Dinaura vinha notando o seguinte: que, a partir do quarto ou quinto dia de lua-de-mel, Joãzinho deixara de ser o esposo maravilhado e sôfrego. Por exemplo: seus beijos iniciais eram de uma exemplar voracidade e quase a sufocavam. Por vezes, queria protestar “Que é isso, meu filho? Calma no Brasil”. Ele, numa auto-satisfação profunda, feliz por esse temperamento, fazia cabotinismo:
– Você ainda não viu nada!
– Credo!
E, de repente, Dianaura começou a sentir pequenas mudanças e uma série de sintomas desagradáveis. Os beijos não tinham a mesma intensidade, nem a mesma duração. Ele passou a bocejar muito, na sua frente, sem o menor escrúpulo. Dianaura deixou passar uma, duas, três vezes. Por fim, não se conteve:
– Ih, meu filho!
– O quê?
– Tão feio isso que você faz!
Espanto honesto de Joãozinho:
– Mas eu não fiz nada!
– Fez sim, bocejou na minha frente!
– Ué!
Ela sentida, desencantada, insistiu:
– Considero isso uma falta de poesia tão grande!

(Elas gostam de apanhar, de Nelson Rodrigues, Bloch Editores, Rio, 1974).

 

(Trecho da minissérie “Engraçadinha”, inspirada no romance “Asfalto selvagem: Engraçadinha, seus amores e seus pecados”, escrita em 1959 por Nelson Rodrigues e adaptada para a TV por Leopoldo Serran, em 1995. A partir desta quinta (23) o canal Viva irá retransmitir a minissérie às 23h15).

Aromas e florais na cura psicossomática

Nos pergaminhos do Rig Veda, considerado a literatura indiana mais antiga, escrito entre 1200 AC – 3000 AC, há referências sobre o poder medicinal das plantas. Pesquisadores descobriram, no Iraque, ao lado de um esqueleto de seis mil anos, vasilhames contendo pólen de flores medicinais nativas. Indícios arqueológicos estimam que as práticas xamânicas têm de 20 a 30 mil anos de idade. O uso de ervas em tratamentos naturais contra doenças, fitoterapia, é cada vez mais usado no Brasil. Assim como as terapias que fazem uso do extrato dos aromas naturais e o óleo das flores. As práticas holísticas citadas acima são, respectivamente, aromaterapia e florais. Duas recém divorciadas na novela das 8 da Globo, Noêmia e Ivana, estão usando florais. Vocês já viram elas com um vidrinho na mão colocando gotinhas na boca?

O uso de flores para apaziguar sintomas que causam mal à saúde foi descoberto pelo médico inglês Edward Bach, em 1928, na época um bacteriologista reconhecido no meio. Impulsionado pelos primeiros conhecimentos homeopáticos, Bach observou sintomas mentais específicos do comportamento humano e criou 38 fórmulas florais para tentar dissolver os sofrimentos e enfermidades geradas na psique. Já a aromaterapia compreende uma série de práticas com base nos princípios ativos do perfume das plantas para sanar, psicossomaticamente, patologias físicas, emocionais e mentais.

Os aromas estão presentes em todos os lugares, na nossa memória e nas relações interpessoais. Lembra a sensação de bem estar ao sentir o cheiro reconfortante da casa da avó, da hora do lanche no jardim infância, de um perfume que gostamos? Quando estamos em contato com aromas apreciados a nossa fisionomia se alegra. Quando sentimos um odor ela se retrai. O nosso organismo responde, automaticamente, aos estímulos. O sentido do olfato na vida de um deficiente visual, por exemplo, é um verdadeiro piloto.

Os óleos aromáticos podem ser usados em banhos, massagens, inalações, assepsia bucal, gargarejos, compressas e posologia por via oral. Para cada sintoma é usado um aroma, por isso é necessário um conhecimento apurado para a automedicação ou a indicação de um terapeuta holístico experiente. Particularmente, gosto muito do Espaço Quintessência, “um verdadeiro oásis no bairro das Graças”, ouvi de uma aluna de yoga assídua. Lá redespertei os sentidos adormecidos do meu olfato. Primeiro ao me deparar com um armário de incensos de várias fragrâncias, vários lugares e finalidades.

Aromas (Foto: Divulgação)

Voltando aos Florais de Bach, e também à filosofia do Rig Veda, ele lembrou a importância de tratar a pessoa (a alma), além da doença. O médico acreditava que podia restaurar, por exemplo, a esperança perdida nas pessoas que acreditam que não conseguem mudar. “As ervas curam nossos medos, nossas ansiedades, nossas preocupações, nossas falhas e nossos erros, são estes que nós devemos detectar e não a doença, não importando qual seja, ela acabará” (Edward Bach, no livro “Os Doze Curadores”).

O floral “Star of Bethlehem” é receitado para curar traumas de uma notícia grave, a perda de um ente querido, o medo que se segue depois de um acidente. A flor “Water Violet” ajuda a levar alegria e abertura para as pessoas reservadas, sérias, solitárias. A “Gorse”, de acordo com Julian Barnard, no livro Remédios Florais de Bach – forma e função, “chacoalha e desperta a mentalidade de alguém que está doente e tornou-se resignado ao destino”. Existem florais que ajudam crianças a deixarem de fazer xixi na cama, ativam a concentração, ajudam a fechar escoriações, dão coragem para os que sofrem de síndrome do pânico, entre outras possibilidades.

De acordo com Carmen Monari, do Instituto Dr. Edward Bach do Brasil, fundado em 1990, em São Paulo, “cada floral fará a transformação da visão, dos sentimentos e emoções para que participemos da vida e sejamos nós mesmos, mas nunca mudará o nosso ser, mas o nosso estar. Os Florais de Bach são a vida que as flores nos doam para tocar essa parte sutil do nosso corpo. Vamos chamar essa parte sutil a que faz o contato da alma com o nosso corpo físico”. Já o pesquisador, escritor e fitoterapeuta Julian Barnard acredita que os florais nos ajudam a mudar de direção, “eles nos ajudam a mudar, por exemplo, do caminho que leva à dor da impaciência e da irritação para o caminho do suave perdão que aliviará o coração”.

Espaço Quintessência
O Espaço Quintessência oferece yoga, Florais de Bach e Saint Germain, aromaterapia, resurfincing/avatar, meditação, reike, massagens. Além de possuir uma loja linda com livros, cds, roupas, acessórios, incensos e produtos naturais. Estou viciada – como é bom ter vícios saudáveis, no Kefir da Biologicus encontrado no espaço. Se vendesse em todas as esquinas seria o meu refrigerante. A empresa tem um trabalho confiável, é incubada no Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep), e totalmente do bem. Entre no site da Biologicus, conheça o projeto e os alimentos probióticos.

Espaço Quintessencia (Foto: Divulgação)
Espaço Quintessencia (Foto: Divulgação)

Espaço Quintessência, Rua das Creoulas, 294, Graças.
Telefones: 3423-5653/ 8611-1960.

A cosmoloucura familiar de Badida Campos

“Ouvindo estórias” 2011

Badida Campos abriu a exposição chamada “Memórias”. Me diverti procurando os quadros dela na Florense, parando na frente, os olhando dentro e fora dos contextos. Olhando, lendo, olhando, lendo, tantos estímulos… Fui atraída até para a cozinha, mas é praticamente impossível alguém colocar ela lá. Badida nasceu para as salas, quartos, bibliotecas. Janelas, jardins, mares, ares. Filha do escritor Moreira Campos e Maria José Alcides, prima de Rachel de Queiroz, afilhada de Aurélio Buarque de Holanda, um marido bom, filhos e netos que engrandecem o seu ser. Uma viagem no tempo dos relógios de Dalí que ela tanto ama.

Badida é cearense, gaiata por natureza, solte uma gracinha para ela na fila de um banco. É um humor arteiro, espirituoso, inteligente. Eu vivia tentando descobrir esse humor típico do Ceará na sua pintura. A maioria das mulheres de Badida estão com a boca fechada, são leves e ao mesmo tempo profundas, silenciosas, concentradas nos livros, animais, ou completamente etéreas, oníricas. Apesar de parecer, e ser, surrealista, descobri que Badida materializa relações cotidianas cujas percepções são verdadeiros sopros divinos. Sabe aqueles momentos simples onde tudo se encaixa perfeitamente e parece ter sentido? Mistérios divinos da existência. Sublimes. Encontrei todo o humor, inclusive na disputa com a neta pela janela.

Quando falo em sopro divino, me refiro, também, às figuras esvoaçantes que se sobressaem ou se escondem nas telas, formadas com as nuvens do céu, uma pareidolia, como no quadro “Preferência”. Que amigo lindo, Badida. Como é bom encontrar aos poucos os seus e os meus elementos. As suas imagens estimulam a nossa percepção sensorial e acabamos condensando figuras que saem de dentro de nós, das nossas vivências ou da imaginação. Uma espécie de cosmoloucura reveladora. O sorriso contente de olhos apertados e o vestido transparente lilás da menina do quadro “Infância” são um primor. Sou impressionada como Badida veste bem os seus personagens, estou com vontade de mandar costurar a indumentária da viúva alegre do quadro “A liberdade está lá fora”, tela do acervo pessoal de Ana Carolina Thé Garrido presente na exposição.

Encontrei nos novos quadros de Badida os seus bolos e brincadeiras da infância na casa da avó. Lembranças da Serra de Maranguape, em Fortaleza, onde ela escreve: “E tremem, azuis, os astros à distância”. O seu amor por Augusto dos Anjos na tela “Equilíbrio”. Uma leitura linda da lenda do Boto Cor de Rosa – pintada e escrita. As imagens de Badida ganham voz com as poesias e provocam um efeito coquetel impressionante. O desejo fabuloso de Moreira Campos, no qual ele diz: “Quero, filha, que todos os homens moram de amor por ti. Que ao ver-te fiquem inquietos, indóceis… Só não te quero ver, filha, à espera do namorado que não veio… ou confessando ao piano, ou ao papel, a solidão da tua música e do teu poema”. E Badida, calma e cheia de amor, responde à paixão:

Detalhe da tela “Ouvindo estórias”, 2011 (Foto Belisa Parente)

Descobri fetiches masculinos e femininos, poesias da pintora, quadros de coleções particulares, desenhos em papéis (técnica mista), mulheres suspensas por fios, sereias deleitadas. Ela teve a graça de colocar uma frase minha no título de uma das telas, para a minha infinita felicidade, amo o trabalho de Badida e o seu caráter, personalidade, jeito, energia, ou seja lá o que for, isso não é uma carta de amor, mas não posso negar o meu por ela só porque estou escrevendo sobre o seu trabalho. Contudo, deixo claro que primeiro fiquei louca pela obra e só depois conheci a autora. Inclusive, o título do quadro está num prosa poema meu inspirado, como num transe, nos quadros de Badida. Quando eu nem imaginava o seu rosto. O título  é ‘Não quero outro mundo, quero o profundo’ e ilustra a paixão de uma tia da pintora por um personagem de um livro – e a realização desse sonho num carnaval.

A exposição está aberta, de segunda à sexta-feira, das 9h às 19h, e nos sábados, das 9h às 13h, na loja de móveis Florense, situada na Av. Eng. Domingos Ferreira, 4242, Boa Viagem.

Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120x130 cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)
Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120×130 cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)

“A mãe, com o filho pequeno no colo, conta estórias na hora que ele vai dormir (daí o título). Há personagens no quadro que saíram das fabulas: a ovelha, o rato, o ganso, o cavalo, Comadre Florzinha, um gnomo, entre outros”. (Comentário de Badida Campos).

Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120x130 cm. 2012(Foto Belisa Parente)
Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120×130 cm. 2012(Foto Belisa Parente)

 

“O equilíbrio maior neste quadro é a alusão ao livro “EU” de Augusto dos Anjos, poeta maior, nascido na Paraíba e morto pela tuberculose aos 30 anos. Quando ele descobriu que estava com a doença (na época incurável) escreveu: “Tome doutor esta tesoura e corte a minha singularíssima pessoa; que importa a mim que a bicharia roa todo o meu coração depois da morte, se um urubu pousou na minha sorte”. Um urubu ao longe vai pousar no livro e há uma tesoura em primeiro plano ilustrando a frase do poeta e também mostrando que todo o equilíbrio montado neste quadro só foi possível porque a tesoura não foi usada”. (Comentário de Badida Campos – “Equilíbrio”. Óleo sobre tela. 110x90cm. 2012).

 “Infância”
Infância

“A casa da minha avó era mágica. Todos os dias eu pensava que tinha festa de aniversário, pois nunca vi a mesa da sala sem bolo. Havia também uma bela rosa perfumando todo o ambiente. Meu polichinelo gostava de ler e possuía uma libélula como bichinho de estimação. Já o meu irmão tinha uma máscara que falava alto e um boneco que, quando não estava dentro da caixa, beliscava todo mundo… e eu acreditando em tudo isto!!! Magia pura”. (Comentário de Badida Campos).

Detalhe “Infância”. Óleo sobre Eucatex. 120x80cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)
Detalhe “Infância”. Óleo sobre Eucatex. 120x80cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)
Preferência
Preferência

“Um amigo querido uma vez me contou que tinha grande encanto por mulheres com axilas depiladas, quase azulejadas e, assim, surgiu a ideia deste quadro”. (Comentário de Badida Campos).

Detalhe “Preferência”. Óleo sobre Eucatex. 120 x 80cm. 2007. Coleção Particular Armando Garrito (Foto Belisa Parente)
Detalhe “Preferência”. Óleo sobre Eucatex. 120 x 80cm. 2007. Coleção Particular Armando Garrito (Foto Belisa Parente)

Entrevista com Badida Campos

(março de 2012)

Quando você descobriu que tinha talento para a pintura?
Eu acho que não descobri, eu sempre desenhei, desde menina. E paizinho uma vez chegou para mim e disse: “Você que desenha tão direitinho, pro meu gosto pessoal, ilustre o meu livro Momento”. Aí eu fiz uma ilustração e ele gostou. Quando eu casei e vim morar aqui no Recife, o meu marido me colocou na Escola de Belas Artes. As minhas cartas para ele eram todas desenhadas com histórias em quadrinho. Ele achava interessante e quis que eu estudasse. Depois fiz a primeira exposição, comecei a ganhar prêmios e tomei gosto.

Quanto de imaginação existe nas telas de Badida e quanto de apreensão da realidade?
Me chamam de surreal, mas eu acho que sou simbolista, apesar de ser parecido. Você vê um quadro meu onde existe uma mulher velha lendo um livro e uma pomba na gola do vestido… tudo isso é imaginação. Sem criação tudo é menor, eu nem leio, nem pego, nem olho. Acho que criação é tudo.

Você releva a técnica em detrimento da inspiração? Ou é justamente a técnica que possibilita a concretização do imaginado?
Eu nunca tinha pensado nisso… Primeiro eu penso na história que me encantou, no livro que estou lendo, uma frase. Depois eu mancho a tela, faço um pano de fundo, e tento descobrir a mulher que está na minha cabeça, por exemplo. Eu relevo a técnica quando dou essas pinceladas, quando mancho, mas noutros momentos a técnica é fundamental.

Pintar dói, Badida? Dói como? Onde?
Dói, às vezes. Por exemplo, pintei um instrumento em madeira onde desenhei o sítio do meu pai que tinha cabras, galinhas, um galo da minha infância. A minha mãe, inclusive, escreveu o livro “O galo da minha infância”. Pintei, nesse instrumento, também, uma frase do meu pai, que diz: “Estes sons domésticos que são meus e tem a suavidade de música”. Essa pintura me doeu muito. Nela eu também coloquei uma maçã que fazia barulho à noite quando eu comia escondida. Meu irmão, por ser diabético, não podia comer doce, mas eu e a minha irmã podíamos. Aí o meu pai, inteligente como era, nos proibiu de comer as maçãs de Cid. Ele se sentiu o máximo e a maçã para mim ficou literalmente proibida. Ao pintar essa maçã me doeu muito. Quando o desenho não dá certo dói muito também. Ou quando você não gosta e apaga. Por outro lado, tem horas que é momento total de alegria.

Qual conselho você dá aos jovens que gostam de pintar, desenhar, escrever, criar?
O meu pai foi um menino rico e de repente não tinha mais nada. Dormiu numa rede atrás de uma porta de uma pensão em Fortaleza e começou a lutar pelos seus sonhos. Então é preciso lutar. Se, por exemplo, você tá sem tempo para escrever ou para pintar e liga alguém dizendo que irá lhe visitar, diga: – meu amor, não venha agora não que eu tenho que ir ao médico.

Foto da esquerda é o pé de Badida calçado e pintado pela própria. Foto da direira é Badida no seu quarto mágico (Fotos: Belisa Parente
Pé de Badida calçado e pintado pela própria e Badida no seu quarto mágico  (Fotos: Belisa Parente)

Zine “De Cara com a Poesia” completa 10 anos

Poeta Malungo na janela (Foto: Belisa Parente)

A história do idealizador da fanzine “De Cara com a Poesia”, José Carlos da Silva, mais conhecido como Malungo Poeta, começou em 2000, quando ele lançou o seu primeiro livro e ganhou o concurso de poesias da Biblioteca Popular de Afogados. Nessa época ele teve contato com a zine “Poesia Descalça” de Joca de Oliveira e Wilson Vieira e ficou encantado com a possibilidade de distribuir, gratuitamente, palavras. Depois desse primeiro contato, Malungo convidou o poeta Altair Leal e criaram a zine “Frente e Verso”, tendo oito números publicados. Logo conheceu Bruno Candéas e colocou nas ruas, no dia 24 de abril de 2002, mesma data em que começou a se publicada a fanzine Ovni de Leonardo Chaves, 500 exemplares da “De Cara com a Poesia”. Hoje a revista é distribuída em 21 estados, em universidades, bares, centros culturais, e tem a tiragem de cinco mil exemplares.

Nesta edição de uma década da fanzine, Malungo homenageou o poeta França, em memória, com a poesia “Guerreiro da Palavra”. Jomard Muniz de Brito recitou a poesia na festa de comemoração, realizada no Teatro Mamulengo. A poetisa Auzeh Freitas comentou extasiada: “A chuva caía lá fora e os pingos pareciam confetes dourados caindo do céu onde habita o Criador do universo, o poeta primeiro. Meu Deus, quanta magia. Poesia e mais poesia. Malungo, o homenageado, com sua poesia forte como Recife e os arrecifes”. De acordo com Bernardes Alves, na apresentação do livro “O terceiro olho usa lente de contato”, de Malungo Poeta, o autor “foge do tipo convencional ou estereotipado. Isto é, não é tuberculoso e não usa óculos intelectual. Bebe, fuma, cheira e dança. Bebe (e muito) inspiração nas pontes, rios e mangues do Recife. Fuma (e traga) os ares de Olinda. Cheira. Não aquele açúcar refinado colombiano, mas os pescoços das “neguinhas” suadas dos maracatus”.

“Guerreiro da Palavra”

Cabo de Santo Agostinho
Pirapama, canaviais
decolou
pousou em Olinda
Xângo, capoeira
A cor da exclusão
TNT_BUM
explodindo racistas
e universidades
teatro ateu
botijões subindo ladeiras
no ônibus lotado
viajam
Batmam e Jesus
na boca
cheiro de cream-cracker
e poesia
o seu poema grita na rua:
“Dez bolas de sorvete
por apenas um Real”
errante poeta
recitando frutas
cachaças e fumos
um rei negro
em elegância
silêncio sagrado
reflexão
e Isadora
morrendo de saudades.

 

(França)

CONFIRA ALGUMAS FOTOS DO EVENTO

O submundo encantador de Zizo

Cena do filme de Cláudio Assis, Febre do Rato (Foto: Divulgação)

Fui assistir a Febre do Rato, novo filme de Cláudio Assis, com expectativas. Havia gostado do enredo e da equipe. O Cine São Luiz estava lindo e lotado. Entro e dou de cara com os queridos poetas marginais Lara e Valmir Jordão. Cadê, Miró? – pergunto. Outro membro da trupe da pesada. A mesa estava posta para Zizo e os recifenses undergrounds, literalmente, pois a história do filme acontece no Recife.

Zizo, interpretado eximiamente por Irandhir Santos, ganhador do prêmio de melhor ator de ficção no Festival de Cinema de Paulínia (SP), é um poeta marginal que presenteia amigos com versos, escreve poesias no corpo, vive a vida com entusiasmo e ideais humanistas. Assim, lança uma fanzine intitulada Febre do Rato. O poeta, como é chamado no filme pelos amigos, é um revoltado com causa, sem perder a doçura sensibilíssima da poesia.

Um daltônico pode enxergar cores diversas através da energia do outro, das coisas. O filme em preto e branco parece colorido. A fotografia do longa, assinada por Walter Carvalho, é belíssima. O fotógrafo se emocionou ao ver o trabalho ser exibido no São Luiz da sua adolescência. Conheço alguns Zizos no Recife, Jomard Muniz de Brito, por exemplo, para a nossa sorte, imprime suas crônicas e as distribui nas suas andadas. O poeta Miró chegou a recitar “A bicicleta de Belinha” para o filme, mas, infelizmente, a gravação ficou de fora.

Lembrei da fanzine beatnik EgoTrupe de 2003, de presenciar banhos embriagados no Capibaribe, das palafitas que construíamos na infância para os trabalhos da escola. Josué de Castro! – grita o Poeta. “Chico Science, me dá atua ciência”, clama Zizo ao céu. Ao céu? Não, porque no céu é tudo muito calminho… O ator Juliano Cazarré conta a piada ‘cronicada’ envolvendo o Recife com desenvoltura, no papel de um traficante amigo.

Matheus Nachtergaele interpreta um coveiro que trabalha no maior cemitério da cidade, construído em 1851. O Cemitério de Santo Amaro foi palco de uma juventude transviada e abriga túmulos muito visitados, como o de Joaquim Nabuco e o da Menina-sem-Nome. Na lápide da enigmática criança, existe a inscrição: “Sofrestes na terra, mas por prêmio ganhastes o céu”.  Belo cenário o Cemitério do Bom Jesus da Redenção de Santo Amaro das Salinas, no centro do Recife; ao redor encontramos lindos azulejos portugueses com santos e florais desenhados.

O roteiro de Hilton Lacerda é envolvente, as poesias são o ponto alto do filme. As sacadas são ótimas, as associações literárias, como Eneida, par romântico do poeta interpretado por Nanda Costa. “O filme foi inspirado na convivência com acidade, com Hilton, Xico Sá… É uma revolução e fala das nossas próprias vidas”, afirma o diretor sobre o “submundo” recifense.

Cláudio Assis  (Foto: Victor Jucá /Jana Internacional de CInema)
Cláudio Assis (Foto: Victor Jucá /Jana Internacional de CInema)

No Festival de Paulínia (SP), quando o filme estreou em julho de 2011, ganhou oito prêmios. A segunda exibição foi na terrinha, na IV Janela Internacional de Cinema do Recife, onde a equipe e os amigos se divertiram aos montes. Cláudio Assis, diretor de Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2006), mordeu, sorriu, dançou em cima da Variant azul estacionada na frente do Cine São Luiz. Parecia mesmo “o cão sem plumas” de João Cabral de Melo Neto.

A expressão Febre do Rato, no Recife, é usada em contextos diversos. As possibilidades da língua no roteiro foram bem exploradas. O coloquial ‘entendesse’ e ‘visse’ recifense são retratados sem clichês. O dito pode ser atribuído às pessoas endiabradas, loucas ou que tenham adquirido peste bubônica antes e depois da enchente de 75. Diante de tantos acertos, comentar pequenos erros é mesquinho, e esta crônica jamais esgotará o filme.  A trilha de Junio Barreto no longa…

Em Capitães de Areia, – o livro foi adaptado recentemente por Cecília Amado para o cinema, Jorge Amado afirma que os meninos maltratados do enredo eram os verdadeiros donos da cidade, pois a conheciam e amavam totalmente, eram os seus verdadeiros poetas. Na visão do escritor e pensador, o poeta é o maior amante e o maior conhecedor do espaço urbano. Mas ratos tomam conta da cidade e corroem corações quando liberdade e direitos são asfixiados.

Poesia recitada no filme por Zizo (publicada pela primeira vez na Revista Zena):

“Valetes a varejo”.

Assim, só sendo assim, posso falar
Das espadas que são nós.
Nós que se enrolam e se vertem
De forma tão infinita que nem a lâmina
(fina e precisa)
Consegue desfazer
A corda atada a nós.

Nem as espadas outras,
Mesmo que pareçam singelas,
Tem o poder de ferir e inferir.
Mesmo que seja fundo o corte
E mesmo que seja fácil,
O tempo todo nós:
Ali, Acima, abaixo.

Superfície e espelho de nós,
Que nada parece mudar e desfazer.
E quando o tempo deixar nós cegos
Vamos à beira do rio
(espelho ruminante da cidade)
Pensar em desatar.
…será tarde.

E no fluxo rio das idéias
Nós vão indo, afeitos, refeitos, rarefeitos…
E lá vão eles juntos. Afoitos se completam…
Eles nós. Cheios de nós.
Reinventam-se a cada dique: açudes.
E rompem Sobre nós, sob nós, sobre nós.

O filme pode ser visto nos cinemas:

Cinema da Fundação
16h50 (sáb, qui); 18h40 (sex, dom, ter, qua); 20h20 (exc seg)
R$ 8 e R$ 4 (meia)
Terças: R$ 4 para todos

Shopping Center Recife
Seg, ter, qui: R$ 15 e R$ 7,50 (meia)
Quarta-feira: R$ 11 e R$ 5,50 (meia)
Sex, sab, dom e feriado: R$ 19 e R$ 9,50 (meia)
Sessão família: sab, dom e feriado (sessões iniciadas até as 14h55): R$ 14 e R$ 7 (meia)
Sala 3D: seg, ter, qui: R$ 22 | sex, sab, dom, feriado: R$ 24 | qua: R$ 20

Saiba mais em: febredoratofilme.com | facebook.com/febredoratofilme | twitter.com/febre_do_rato/

Pobre Leninha

Pobre Leninha por Belisa Parente

Pow Pow Pow Pow Pow

Leninha olhou rapidamente de um lado ao outro. Ela sabia que não eram fogos de artifício, nem crianças estourando bolas velhas catadas na frente de um prédio classe A – antes fosse.

– Corre João, corre! Foram as últimas palavras de Leninha.

A menina de 16 anos morreu imaginando bolas coloridas sendo pisoteadas por crianças. Nos cadernos de Leninha, jogados no chão, muitos corações vermelhos desenhados. E um lembrete em letras garrafais: “DIA 20, DENTISTA. DENTES ENTRAMELADOS NUNCA MAIS. EBAAA!” Toninho, seu irmão mais velho, havia dividido em 12 vezes o aparelho que parecia mudar a vida da menina.

João não quer mais ir à escola. Não quer comer, sair para brincar na rua, nem aquele big sorvete o atrai. Dona Zuleide não tem dinheiro para pagar um tratamento psicológico para o pequeno que viu a irmã caindo ensanguentada. João está em choque.

Além de Leninha, mais três homens foram mortos por “balas perdidas” da polícia; que fazia uma ação contra traficantes no Morro dos Macacos. Três trabalhadores assassinados e considerados criminosos, sempre as mesmas desculpas. O filho de um deles não cansa de chamar pelo pai. Sua avó conta uma história bonita, diz que papai está no céu, com santos e anjos, em paz. Mais tarde ele irá descobrir quem matou o pai: o Estado, a Polícia. Talvez se torne um traficante, daqueles que amam matar policiais, afinal, ele já não tem quem coloque o pão na mesa, já não tem bom estudo, nem perspectivas de um futuro promissor.

Leninha é enterrada; João ficou em casa deitado no chão, segurando uma flor arrancada da única coroa. As amigas choram, a comunidade faz uma homenagem linda. E lá no meio, um cartaz de cartolina, com a frase: “Queremos vingança”.

Entrevista com a escritora Jana Lauxen

Jana Lauxen (Foto: Divulgação)

Jana Lauxen tem 27 anos, é escritora, autora do livro Uma Carta por Benjamin, e trabalha no mercado editorial há pelo menos três anos, seja assessorando novos autores, seja organizando coletâneas de textos (organizou e co-organizou as coletâneas Assassinos S/A Vol. I e Vol. II, Crônico!, Literatura Futebol Clube e Quadrinhos em História, esta última de HQs, em parceria com Sergio Chaves, editor das premiada revista Café Espacial). A escritora também é colaboradora da Revista Zena desde o nascimento da revista.

Recentemente, foi convidada pela Editora Multifoco para comandar a filial sulista da editora carioca especializada em publicar novos autores. Em atividade desde o início de fevereiro deste ano, a Multifoco Sul pretende estreitar relação com os autores do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Morando em Sananduva – RS, cidade pequenina localizada no norte gaúcho, aos pés de Santa Catarina, Jana concedeu esta entrevista por telefone, em um dia frio como só é frio no lado sul do país. Confira os principais trechos desta conversa, que tratou de mercado editorial, pagar para publicar e cães que ladram enquanto a caravana passa.

A Multifoco Sul já está em atividade?
Sim. Desde o início de fevereiro começamos a trabalhar junto aos autores do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.

Como funcionará o processo de produção de livros da Multifoco Sul?
Da mesma maneira como funciona com a nossa matriz, que fica no Rio. Os autores enviam seu original para avaliação por e-mail. Estes originais deverão vir completos e revisados, dentro das novas regras gramaticais, em arquivo Word, fonte Times, tamanho 12 e espaçamento 1,5, sem imagens. O prazo para avaliação de um original é de 7 dias, e todos os autores receberão uma resposta por parte da Editora, tendo sido seus originais aprovados ou não. Após a aprovação, o autor assinará um contrato de edição e o livro entrará em processo de produção – processo este que varia de três a seis meses. Estando o livro pronto, o autor receberá seus exemplares em casa. E considero importante dizer: tudo sem desembolsar um centavo sequer.

Após o recebimento dos livros, o autor terá 25 dias para comercializá-los, seja entre amigos e familiares ou através de lançamentos.
Passados estes 25 dias, o autor deverá depositar para a editora o valor alcançado com as vendas dos livros, ficando, para si, com 20% do preço de capa de cada livro vendido. É uma porcentagem bastante alta, tendo em vista que grandes editoras costumam pagar para grandes autores uma porcentagem bem menor, que dificilmente ultrapassa os 8%. Se, por acaso, o autor desejar depositar o valor dos exemplares adquiridos à vista, este desconto sobe para 30%. E, caso o autor precise de mais exemplares, basta solicitar.

Qual é a principal diferença entre a Multifoco e as demais editoras, também especializadas na publicação do novo autor e que atuam no mercado editorial brasileiro?
Em minha opinião é a questão do custo. Encontramos muitas editoras que dizem não cobrar nada para publicar livros de novos autores, mas ou elas oferecem e-books (livros virtuais), que são publicações que praticamente não possuem custo nenhum, tendo em vista que os (altos) custos da impressão inexistem, ou pecam gravemente na qualidade do material impresso.

O que deve ser custeado é todo o trabalho de capa, diagramação e impressão, mas o autor pode optar por saldar este valor somente após ter recebido e – sublinhe-se isto –vendido seus exemplares, ou seja: não precisa de dinheiro, pois o dinheiro será levantado através da venda dos livros que o autor recebe sem pagar nada.

Outra diferença é que muitas editoras cobram (e cobram alto, diga-se de passagem) para editar livros com quinhentos, ou até mil exemplares de tiragem. O que acontece é que o autor paga cinco, dez mil reais para ter seu livro impresso, e termina com sua casa atulhada de exemplares, pois não consegue comercializá-los. Considero isso uma sacanagem, pois muitas editoras abusam do novo autor que, inexperiente, não sabe que uma tiragem de mil exemplares, no Brasil, é uma tiragem alta. No caso de um autor novo e ainda desconhecido, uma tiragem altíssima.

Na Multifoco, o autor pode pedir a cota mínima de exemplares, que é de 30 livros. Ou seja, ficar com livros atulhados em casa é praticamente impossível, tendo em vista que todo mundo tem pelo menos 30 pessoas em seu círculo de relações, seja amigos, colegas de trabalho, família ou conhecidos. Considero tudo isto uma SENHORA diferença na hora de optar qual editora publicará sua obra.

“Então o autor paga cinco, dez mil reais para ter seu livro impresso, e termina com sua casa atulhada de exemplares, pois não consegue comercializá-los. Sacanagem, né?”

A editora Multifoco também comercializa os exemplares dos autores que publica?
Sim. Muitos livros são colocados à venda no site da Editora, e em livrarias parceiras também. Porém, já tive contato com autores que, antes mesmo de enviarem seus originais para avaliação, já reclamavam que teriam de vender seu próprio livro. O que o novo autor precisa entender é que, basicamente, ele é um novo autor, e seu livro não se comercializará sozinho. Jô Soares não precisa vender os exemplares do seu livro porque é o Jô Soares, e se vende sozinho – além de trazer altos lucros para sua editora. O novo autor, não. Ele ainda está chegando ao mercado editorial brasileiro, e precisa saber que, se não arregaçar as manguinhas, não conseguirá absolutamente nada. A Multifoco abre a porta; agora, só vai passar por ela quem tiver boa vontade e dedicação. Os outros ficarão para trás.

A Multifoco tem interesse na publicação de trabalhos acadêmicos?
Sim, temos muito interesse. Percebemos que a produção acadêmica brasileira é muito rica, e concluímos que seria pra lá de interessante tirar estas produções somente do círculo acadêmico e trazê-las para as estantes de livros de todo o Brasil.

Transforme seu blog em livro. Esta é outra proposta da Editora Multifoco. Como funciona?
O autor que tiver interesse em ter seu blog submetido à avaliação, para possível publicação em livro, não só pode como deve entrar em contato conosco. Assim como a produção acadêmica, existe um material riquíssimo disponível na internet. Se o conteúdo é bom, por que não publicá-lo, por que não transformá-lo em livro?

Mas por que alguém compraria um livro cujo conteúdo está disponível na internet, e de graça?
A quantidade de blogs e sites no ar, atualmente, é incalculável, e a tarefa de garimpar os melhores não é nada fácil, além de requerer tempo e paciência. O que acontece é que muito conteúdo de altíssima qualidade acaba perdido nesta miscelânea, sem receber a devida valorização. A publicação de blogs em livros funciona quase como uma peneira. Eu mesma já comprei livros provenientes de blogs, como o do site O Bairrista, do qual eu sou fã. Considerei que valia à pena ter aquele conteúdo que eu adoro nas mãos, para ler no banheiro ou na cama, antes de dormir.

Qual é a sua avaliação dos novos autores brasileiros?
Positiva. Com a internet, as pessoas passaram a ler mais e, naturalmente, passaram a escrever melhor. Eu já trabalho com a Multifoco há mais de três anos, e é inegável a melhora significativa do material recebido de lá para cá. Melhorou muito, e isto é fantástico. As pessoas estão lendo mais através da internet, e todo mundo sabe que escreve melhor quem lê mais.
A maioria dos autores também tem plena consciência de que precisa se mexer se, um dia, quiser que seus livros se vendam sozinhos, mas ainda encontramos aqueles de egos gordinhos, que só fazem reclamar. Mas estes eu descarto sem dó nem piedade.
É como diz aquele velho e sábio ditado popular: os cães ladram e a caravana passa.

E o mercado editorial? Melhorou para o novo autor?
É como eu disse acima, hoje todo mundo pode publicar, e isso é excelente, apesar do que dizem uns e outros. Se vivemos em uma democracia, a arte deve ser para todos, isto é: todos devem ter, ao menos, uma chance. Há pouco tempo, só publicava quem tinha muito dinheiro, costas quentes e bons contatos. Hoje não.

Só não compreendo as pessoas que reclamam disso. Se tem mais gente escrevendo, tem mais gente lendo, e se tem mais gente lendo, o mundo está caminhando para se tornar um lugar mais suportável de se viver. Mas é aquela história, os cães estarão sempre latindo. E o baile segue.

Que dica você daria para aquele cara que está querendo escrever seu primeiro livro?
Ler. Ler muito, nem que seja bula de remédio e horóscopo.
Dominar as novas regras gramaticais, mesmo que você as considere uma grande bobagem. Nenhum escritor pode se dar ao luxo de não conhecer a língua na qual escreve. E não ter medo de cortar. Sim, cortar, e cortar muito. O bom escritor é aquele que sabe cortar. Percebo que muitos autores se apegam aos seus livros e não querem cortar nem uma vírgula, nem que essa vírgula seja completamente desnecessária. Escrever é a arte de cortar.

Os autores que quiserem ter seu original avaliado pela Ed. Multifoco deverão fazer o que?
Eles devem entrar em contato comigo através do e-mail multifoco.jana@gmail.com, enviando seu original completo e revisado, dentro das novas regras gramaticais, em arquivo Word, fonte Times, tamanho 12 e espaçamento 1,5, sem imagens. O prazo para avaliação de um original varia de 7 dias, e todos os autores receberão uma resposta por parte da Editora, tendo sido seus originais aprovados ou não.

INFORMAÇÕES
Editora Multifoco:  editoramultifoco.com.br
Informações sobre Jana: janalauxen.blogspot.com.br 

Lote sem começo, sem número, sem fim

Daniela Galdino, Bloco das Mulheres Libertárias - Olinda (2012)

Foi difícil começar a escrever sobre o livro de Daniela Galdino, o título da autora baiana, de Itabuna, prenuncia: ela é Inúmera. Como condensar o infinito e entrelinhas múltiplas? A minha ingênua aspiração poética e a forte lembrança dos recitais da poetisa me seduziram. Gosto de desafios e começo contrariando Manoel de Barros, quem a própria cita no prefácio e tem tatuado na perna esquerda: “Pelo corpo/Das latas podres/Relvam rosas”. Sim, concordo neste ponto, querido Manoel, mas por outro lado, perdoe-me, a poesia de Daniela é um belo utensílio doméstico para mim.

Em Inúmera não existe pessimismo, a leopardia realista dos homens é metáfora cheia nas mãos da poetisa. Lembro, neste aspecto e em outros, a prosa de Bukowski: “Estava caminhando ao longo da estrada, minhas meias duras e apodrecidas e fedorentas, os pregos estavam atravessando a sola do sapato e para dentro dos meus pés e eu colocava papelão nos sapatos: papelão, jornal, qualquer coisa que encontrasse”. Também nas suas performances, inesquecíveis, ela incorpora elementos que encontra pela frente e recita, declama e interpreta divinamente – “Deram um fuzil ao menino”, de Firmino Rocha, ainda soa nos meus ouvidos.

Li o poema “Quarto conselho infantil” e adquiri uma atitude diferenciada sobre o belo e o grotesco, um peso caiu das minhas costas, na verdade. Dois dias antes eu havia falado sozinha, feito doida, no Cais de Santa Rita: – Não aguento mais conviver com a miséria desses mendigos! A leitura de Inúmera, como uma luva, me fez desvencilhar do insuportável e enxergar a poesia no escarro cotidiano, na sarjeta, no trabalho árduo, sem dor, como diz a menina Samira do poema, debochada, sem saber: “Poesia é minha mãe/ Vendendo água mineral/ Na porta da agência bancária (para sobreviver)”.

Em “Redemoinho”, a poetisa, cáustica camaleoa, retrata as entranhas da separação:

Fatias à mesa
contra
a luz solar.

Répteis que
não se sabem
sonham dilúvios.

Incompatível é
contornar o caos
soprando fertilidades.

Já não há signos
a pôr desfecho
nas desgraças
generalizadas.

Ensaio o fim
-suicídio
compassado.

Perco tempo
e vomito
desalinhamentos.

Minha metade diabólica
é cúmplice
do vital assomo.

Leitora concentrada no Domingo Cultural da Casa de Hilton (Olinda)
Leitora concentrada no Domingo Cultural da Casa de Hilton (Olinda)

Seu universo poético é permeado por aventuras, chegadas e partidas pungentes, memórias, picadeiros, despudores, romances. Em determinado momento ela questiona: “Devo abrir a minha caixa de Pandora? Ou fechar o meu balaio para balanço?”. Daniela consegue ser clara e ao mesmo tempo nos faz parar para imaginar o que pode ser cada linha. Esse delicioso exercício estético me fez degustar saborosamente o livro. Como no trecho:“Acordaram-nos doces demônios./ Despertaram-nos arcanjos lunáticos./ Essa pequena multidão embriagada,/ esses saltimbancos da existência/ carregavam, aos risos, o corpo da aurora,/ anunciavam, aos gritos, o estalar do dia”.

Inúmera de Daniela Galdino (Editora Mondrongo)
Inúmera de Daniela Galdino(Editora Mondrongo)

Inúmera conta a vida das rameiras, de Maria, Dona Joana fiandeira, da tia Mercedes, do Capitão Rodrigo, Dandara, Luana, Dalila. A poesia de Daniela parece romper com ela mesma com a inebriante função emotiva e o uso feliz de hibridismos. Não há apelos, nem mesmo nos atos obscenos, ou nos cuspes atirados do sofá. “Suposição”dialoga com o prazer expresso por Rimbaud, quando ele diz: “Obscuro e franzino, um cravo de luz violeta/ respira humildemente, em espuma agachado,/ inda úmido de amor após tudo acabado/ das nádegas de leite ao coração da greta”.

Daniela é palco, aurora de si mesma. Em Fiat Lux!, uma das minhas favoritas, ela vira baleia, alga, peixe, estrela do mar, espírito de luz. A poesia de Daniela é inquieta. Assusta aqui e ali, sobe e desce ladeiras, estradas. Abre-se e lapida, revela e encanta. Pretensão oportuna atingir “as Macabéas, Úrsulas, Rebecas, Amarantas, Genis, Carolinas, Janis, Fridas, Claras, Elzas e obscenas Senhoras D que em nós sobrevive”, na voz da “lagarta listada” de Manuel Bandeira. Criança, dona, menina, senhora, filha, cortesã, mãe, amiga, mestra, senhorita… Daniela Galdino é realmente Inúmera.

Abra a Janela e dê uma volta no centro

O olhar atento, aguçado e focado da moça no volante, desenho de Clara Moreira, reflete a proposta da quarta edição do Janela Internacional de Cinema do Recife. O festival levanta a discussão, registrada por cineastas pernambucanos nos filmes, sobre alguns problemas sociais e a nossa relação com a urbe.

Lembro de Chapin e a sua genialidade simples e humana: “Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror. Os bons filmes constituem uma linguagem internacional, respondem à necessidade que os homens têm de alegria, de piedade, de compreensão. São um meio para dissipar a onda de suspeição e de medo que invade o mundo de hoje”.

O IV Janela Internacional de Cinema do Recife acontece até o dia 13 de novembro no Cinema São Luiz e no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco. Com uma programação extensa e sortida, faz uma retrospectiva do cineasta americano Stanley Kubrick. É uma maravilha ver na telona clássicos como Uma Odisséia no Espaço, O Iluminado, De olhos Bem Fechados. Para arregalar os olhos do público, o filme Febre do Rato, de Cláudio Assis, abriu a programação no Cinema São Luiz – sessão calorosa onde o diretor bradou, como um artista marginal, sobre o descaso com o Recife e a arte.

Com a intenção de interagir com a cidade e os transeuntes, o festival projetou um filme na parede do antigo Cinema Trianon, que fica na margem do rio Capibaribe, em frente ao São Luiz. O Trianon, de 1937, foi um dos primeiros prédios construídos na Av. Guararapes. Além de ser marco da arquitetura moderna, fica próximo de monumentos tombados, nos bairros de Santo Antônio e São José, e recebe proteção do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O Cachaça Cinema Clube preparou uma seleção de filmes cariocas, entre eles, Partido Alto (1976-82), de Leon Hirszman, feito com a colaboração de Paulinho da Viola. No sábado (12), a partir das 20h, curtas que ficaram fora da competição entram na programação e merecem ser vistos. São eles: Di Melo – O Imorrível, de Alan Oliveira e Rubens Pássaro (PE). Corpo Presente de Marcelo Pedroso (PE), Ela Morava na frente do Cinema, de Leonardo Lacca (PE) e Mens Sana in Corpore Sano, de Juliano Dornelles (PE).

As mamães e papais de plantão foram prestigiados nesta edição e poderão assistir com as crias, de oito a 12 anos, curtas nacionais e estrangeiros no Janelinha, próximo domingo (13), às 10h30, no Cinema da Fundação.

Gostei do amor no projetor nos fazendo enxergar inúmeras partículas, do público guloso do festival, da sinopse de As Neves de Kilimanjaro (Les neiges du Kilimandjaro), de Robert Guédiguian. Camila Pitanga vive romance no garimpo do interior do Pará no filme ‘Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios’, do cineasta Beto Brant – o longa é uma adaptação do livro de Marçal Aquino. Outro esperado é As Hiper Mulheres, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Tacumã Kuikuro (PE/2011).

O programa Sutjeska Film irá exibir uma coleção de 20 curtas metragens feitos nos anos 60 e 70 que retratam a vida, os costumes e os valores da sociedade iugoslava sob o regime comunista. Entre eles, Sonhadores, de Vefik Hadžismajlovi?, e A Missão de Ismet Kozica (1977), de Mirza Idrizovi, que retrata a transformação de camponesas em operárias do sistema.

O debate do [projetotorresgêmeas] confirmou o intuito de discutir os espaços urbanos e o festival, em geral, nos faz dar uma bela volta no centro da cidade. Os realizadores do Janela Internacional de Cinema estão de parabéns, o festival supera expectativas, interage com o público, ensina, aprende, premia, reprisa, apresenta, critica. Vida longa aos cineastas, ao público e ao Cinema São Luiz.

SERVIÇO:

IV Janela Internacional de Cinema de Recife (www.janeladecinema.com.br)
De 4 a 13 de novembro, mais de 100 filmes com exibições no Cine São Luiz e no Cinema da Fundação
Ingressos: sessões de curtas – R$ 1 | sessões de longas – São Luiz R$ 4 e R$ 2 | Fundação R$ 8 e R$ 4
Informações: (81) 3032-4972 | janelacritica@janeladecinema.com.br

O horário e lugar de exibição dos filmes citados foram destacados na Programação do Janela publicada na Revista Zena.

O mundo é uma célula viva pulsante

Foto: Milena Palladino

Desenho situações no papel para compreender o sentido das coisas, para ritualizar conflitos sociais. Governo, empresários, natureza, pessoas, bobos da corte, deuses… Sistemas. Ao compreender, geralmente, desejamos parar e sair pela tangente ou entrar no ritmo e ser fera na civilização.

Alberto Dines disse: “Coleguinhas, não tenham medo dos indignados”. Estes seres inquietos percebem sutilezas, transformam raiva em indignação, movimentam-se nesse mundo liberapático. É preciso ler as entrelinhas, lá vai um peixe saindo do globo quebrado. Observem os rios e os mares, as chuvas e os períodos de estiagem, eles são termômetros naturais.

O lobo velho conta causos extraordinários para te fazer querer caçar, a televisão reproduz com linguagem subliminar e inicia-se a lavagem cerebral. Menino bom busca caminho fora do eixo, contornos para o futuro da humanidade. Você foi criado para ir para o lixo? Os recursos naturais, ah, os recursos naturais! Neste mundo descartável. Somos todos descartáveis? Quantos planetas – Terra, alô, Terra! serão necessários para aguentar o cof-cof dos empresários? Anjinhos, seres da música da palavra, toquem os humanos das sociedades alopradas, do pensamento individualista, consumista, imediatista.

Vou escrever uma tragicomédia: O primeiro protesto de Marília. Refiro-me ao ato, no Recife, contra a construção da Usina de Belo Monte e o Novo Código Florestal. Eu disse, mexeu com os meus primos, mexeu comigo, mas foi frustrante. Esses assuntos precisam ser discutidos em todas as esferas da sociedade, um protesto é um bom momento para o diálogo. Comente com a diarista, o porteiro, colega de trabalho – os meios de comunicação de massa, muitas vezes, deixam de cumprir o papel social. Um amigo de Manaus disse: “Protestos acontecem no litoral, por aqui tá tudo parado”.

A “Marcha das Vadias”, em Itabuna, interior da Bahia, com a bandeira: “Não sou puta, não sou santa, sou livre”, chamou a minha atenção. Inteligente, sagaz, independente, bonita e divertida. “Nos vinculamos a um movimento internacional denominado Slut Walk, iniciado no Canadá, neste ano, em protesto à atitude de um policial que, em uma palestra, advertiu estudantes da possibilidade de estupro, por estas usarem roupas de “vagabundas” (slut, em inglês)”, explica Daniela Galdino, uma das organizadoras da marcha. Mire o absurdo! Não é em vão que manifestantes nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Holanda, Nova Zelândia e França aderiram à causa.

Arquiromântica, digo: É lindo ver os americanos dos EUA irem às ruas protestar contra o todo perfeito “American way of life”. Morro de rir, uma gargalhada boa quebra-se no olhar de um europeu preocupado. Depois dobra como sinos. Vamos pros Andes ou Martinique?! É necessário romper a teia que nos impede de enxergar o valor das coisas palpáveis e imateriais, da economia, da publicidade, da política para o bem do povo, da maneira adequada de se viver na Terra. Espero protestos por uma vida sustentável, pela diminuição de gases tóxicos no nosso céu, por tempo para desenvolver a sensibilidade, pela vida dos peixes do rio Capibaribe, Tietê, Ganges…

A Revista Vogue participa de campanha para estimular o consumo no Japão, com a boa vontade, leia a ironia, de ajudar o País a sanar as perdas ocasionadas no terremoto e tsunami ocorridos neste ano. A radialista Lisa Simeone foi demitida da rádio pública americana por participar do movimento “Ocupem Wall Street” – desde 17 de setembro estadunidenses acampam no entorno do centro financeiro de Nova York em protesto contra o sistema governamental e bancário. No Chile, mais de 100 mil estudantes e professores tomaram as ruas de Santiago para pressionar o governo e reafirmar o desejo de uma educação pública gratuita para todos os chilenos. A “Primavera Árabe” matou o ditador Muammar Kadhafi; no Brasil, indignados se organizam para protestar contra o crime do colarinho branco. No Recife, a concentração será na Pracinha Boa Viagem, às 14h, no próximo dia 15 de novembro.

Aos poucos, grupos unem-se para cobrar o que lhes diz respeito, para reexaminar valores da sociedade mundial e tentar minimizar catástrofes. Dizer que é modismo, não sei, pois, que seja, faz bem quando há necessidade. É digno sair de casa para gritar pelo próprio bem e o da comunidade. Escolho pelo menos duas marchas por ano e vou para a rua mostrar a minha indignação. Acredito que ao dizermos: – Não aceitamos isso!, delimitamos limites necessários para a vida saudável da nossa espécie no mundo.

10 anos da Mombojó

Mombojó (Foto: Divulgação)

10 anos não são 10 dias e os meninos da banda Mombojó querem comemorar o aniversário em casa – é sempre bom comemorar perto dos seus. Se você tem filho ou já foi criança deve saber que nessa idade começamos a dar uns gritinhos de independência e bater o pé no chão. – Mãeee, eu vou pro show no colégio! – imagina.

A Mombojó, cheia de atitude, começou a articular com o público a venda antecipada do ingresso para conseguir viabilizar o aniversário na terrinha, driblando as dificuldades do mercado da música. É muito simples. Você entra no site da Embolacha, preenche um cadastro e compra o ingresso. Se o projeto receber a cota necessária até a data estabelecida, o dinheiro é descontado no cartão de crédito.

O melhor são as regalias, você não precisa sair de casa para comprar o ingresso e ainda pode ir ao camarim da banda, ganhar cd, camisa e até uma guitarra autografada… Ah, o ingresso custa apenas 20 reais, mas a banda também pode gravar uma música sua e um vídeo por 750 reais, por exemplo. Entre no site e veja tudo, existem várias possibilidades de interação entre a banda e o público. Adorei!

Você deverá garantir a sua entrada na festa até dia 3 de outubro, o show está previsto para o dia 7 de outubro no Catamarã, um espaço alto astral, ao lado do rio Capibaribe, quem quiser pode chegar de barco, a maré estará boa. “O show deve reunir outros artistas, amigos da banda que comparecerão para fazer uma surpresa ao público, show de abertura com uma banda de Recife a ser confirmada e discotecagem do coletivo local Magia Negra”, informa o site Embolacha, além de detalhar todos os gastos do evento e quanto eles conseguiram arrecadar até o momento.

Achei esse cartaz de 2001, no começo a banda se chamava Mombojó Ragajá, guardei pois foi um dos únicos shows da Batatinha Frita, banda do amigo Carlos Mendonça, e por ser fã dos aniversariantes. É sensacional o movimento das bandas de garagem do Recife, ver algumas deslanchando como a Mombojó é uma alegria imensa. Parabéns pra vocês! Nos encontramos lá, para brincar como crianças, dançar, cantar as músicas agridoces da Mombojó, ser feliz…

Cartaz do 'festival' Rockambole (2001)
Cartaz do ‘festival’ Rockambole (2001)

Estará salvo o bilhete?

Acervo pessoal de Belisa Parente

Já escrevi muitas cartas. Algumas destruidoras, outras abismais, loucas, saudosas, alegres, formais. E percebi, no final, que todas eram de amor. Às vezes nem conseguimos falar, imagine transformar sentimentos em escritos… é realmente difícil quando a emoção impera.

Nietzschiana me escreveu durante as férias: “Mulheres Felda- Jazz, transpirando inspiração bruta em diários e correspondências. Eu aqui, você lá. Simples e tênue ligação”. O lirismo foi caminhar na roça, mas cartas continuam aproximando, seja para expressar amor ou ódio. Será o ódio um amor velado?

As cartas de Gibran para a sua Maria caíram nas minhas mãos, fiquei impressionada com uma, em especial, onde o profeta fala sobre o seu amor maior por Deus sem ser piegas. Um encanto modernoso o escritor em 1915 confessar, em carta, que deixaria Mary Haskell pagar a sua passagem até Paris porque havia aprendido, com ela, que “dinheiro não tem dono, apenas passa pelas mãos”.

As cartinhas de Anais para Henry Miller… em uma ela segreda: “Nunca haverá escuridão porque em nós dois há movimento, renovação, surpresas. Nunca conheci a estagnação. Nem mesmo a introspecção tem sido uma experiência inerte… Se é assim, então pense o que encontro em você, que é uma mina de ouro”.

Do outro lado, Henry responde saliente: “Quando você voltar eu vou lhe dar um banquete literário de sexo – o que significa foder e conversar, e conversar e foder. Anais, eu vou abrir as suas entranhas. Deus me perdoe se esta carta algum dia for aberta por engano. Não posso evitar. Eu a quero. Eu a amo. Você é comida e bebida para mim, todo o mecanismo vital”.

John Keats, sedutor clássico, um lordy, conquistou Fanny com cartas de amor, mas nunca concretizaram o amor carnaval, a tuberculose separava os corpos, na época incurável. Este ano, uma de suas cartas, datada de 1820, foi vendida por 110 mil euros. Kafka também padeceu da mesma doença e escreveu para Milena Jesenská: “Aqui estou eu, sentado em frente a esta carta, com mais nada a fazer, à uma e meia da manhã, observando as suas palavras e vendo através delas. Às vezes, nos sonhos, vejo o seu rosto, meus dedos percorrem sua testa e as têmporas e, finalmente, eu consigo segurá-lo em minhas mãos ”.

Existe toda uma magia na construção de cartas, acredito que ao escrever compreendemos melhor os sentimentos. Deixe um bilhete no bolso do seu amado num dia qualquer, ele vai se surpreender – pode até pensar, subitamente, que é da loira do trabalho, mas depois ele encontrará você cheia de sentimentos.’, ‘Estará salvo o bilhete?’, 0, ‘O romantismo de Henry Miller, Anais, Gibran, John Keats e Kafka em cartas de amor. “Nunca haverá escuridão porque em nós dois há movimento, renovação, surpresas. Nunca conheci a estagnação. Nem mesmo a introspecção tem sido uma experiência inerte