Circunspeção Musical

Courtney Love para a edição de 25 anos da Revista Spin - "The Nine Lives of Courtney Love" (Foto: Daniel Jackson)

Conseguir fazer álbuns notáveis com a mesma qualidade, durante muitos anos, é uma tarefa árdua e exige uma competência musical razoável – pouquíssimos artistas alcançaram tal proeza. Beatles é um exemplo. Pink Floyd, Rolling Stones. Geralmente o melhor trabalho é o disco de estreia, provavelmente pelo desejo de não querer ser mais uma banda que cairá no ostracismo com o tempo. A partir do segundo trabalho, a coisa parece que vai “murchando” e vários artistas são assolados pelo famoso bloqueio criativo. Como acontece na indústria cinematográfica com as trilogias. Quantas vezes não escutamos que o primeiro foi o melhor?

A criatividade musical, frequentemente, decaí com o passar do tempo. Às vezes até o próprio artista começa a desacreditar que conseguirá fazer um trabalho melhor. Mas ao invés de cair fora, continua tentando sem êxito, só conseguindo prolongar sua carreira por causa de melodias que lembram outras ou por ter cultivado muitos fãs fiéis que continuam acreditando que algo grandioso virá.

Hole,, Nobodys Daughter (Mercury Records)Courtney Love teve seu momento crucial com o álbum Live Through This (1994), no qual todas as faixas são extremamente enérgicas e cheias de atitude. É aquele tipo de cd que você escuta e já sabe que nunca mais a banda fará nada igual, até pelas circunstâncias, época e objetivo sob o qual foi feito. Os outros são todos ramificações deste e do Celebrity Skin (1998). Principalmente os dois últimos, America’s Sweetheart (2004) eNobody’s Daughter (2009 – capa ao lado).

O último remete e muito ao “Celebrity” por ser predominantemente pop, só há uma faixa que se pode chamar de punk, a “Dirty Girls” (Garotas Sujas). Porém, Courtney consegue ser impactante até nas mais calminhas como “Stand up Motherfucker”, pelo seu conteúdo e exaustiva repetição do título da música. “Letter to God” é a mais confessional de todas; um desabafo, quase uma oração roqueira em que ela pede ajuda a Deus inúmeras vezes e o interroga sobre quem seria Courtney.

CONFIRA A ATUAL FASE DA ROQUEIRA

A capa do disco sugere um material bem mais agressivo do que realmente é – se bem que ela adora um paradoxo, como na capa do “Live Through This”, em que há uma miss segurando um buquê. Sem falar no encarte do CD como um todo, totalmente fofo – Courtney com um cigarro na mão, completamente alheia e despreocupada com sua imagem, bem punk anos 90, bem ela. Mas já nos primeiros acordes fica palpável que não é bem assim. Talvez queiramos que os rockstars mantenham aquela mesma energia, indumentária, atitude e modo de pensar de quando começaram. Entretanto, até os artistas mais inconsequentes amadurecem, e junto com eles seu legado. Courtney não mudou e com certeza não mudará em uma coisa. Ainda consegue construir frases contundentes e raivosas como antigamente.

Blueswoman

Janis Joplin (Foto: Herb Grenne/ Divulgação)

Foi nas colheitas de algodão que nasceu o “blues”, ou melhor, “brotou”. A forma que os escravos afro-americanos, principalmente os oriundos do sul do EUA, acharam para expiar o sofrimento foi o canto, e suas letras continham toda sorte de temas: ideais políticos, religião, lamentações, amor, angústias, trabalho, desejos. Um verdadeiro diário sonoro para embalar o lancinante trabalho. Apesar disso o ritmo é bastante envolvente e sexy.

O termo “blues” (ou “fossa”) propriamente dito, só viria a se tornar famoso com o fim da Guerra Civil. A migração dos escravos para Chicago acabou por dar uma nova leitura ao ritmo, mais elétrica. Mais tarde ele influenciaria outros segmentos musicais como jazz, country, rock, entre outros, e o surgimento de bandas como Rolling Stones e Beatles.

Nesse contexto, reservamos às mulheres uma fenda nessa redoma, para mostrar como suas participações neste estilo tão enfadonhamente carimbado pelos grandes mestres do blues foram marcantes… É comum quando se fala nessa vertente sonora a associação imediata aos homens como grandes protagonistas e às mulheres como meras backing vocals ou nem isso. Um absurdo, por que a voz feminina confere um clima muito mais intimista ao estilo, não é a toa que uma gama considerável de canções compostas por homens fossem interpretadas por mulheres.

Nada melhor do que começar pela primeira afro-americana a fazer gravações vocais blues, isso em 1920! Seu nome era Mamie Smith (de Ciccinatti, Ohio, EUA 1883-1946). Ela não só era cantora como também dançarina, pianista e atriz. Músicas como “Crazy blues” (1929) e “It’s Right Here For You”, escritas por Perry Bradford, foram responsáveis pela venda de um milhão de copias em um ano. Ainda viajou com a sua banda “Mamie Smith & Her Jazz Hounds” pela Europa e Estados Unidos, onde fez grande sucesso. Ficou conhecida como “The Queen of the Blues” e serviu de celeiro para muitas artistas. Participou de um filme sonoro, Jail House Blues, em 29. Em 39 no filme Paradise in Harlem, (1939), Mystery in Swing e Sunday Sinners (ambos em 1940), Murder on Lenox Avenue e Stolen Paradise(1941) e Because i love you, em 43.

Bessie Smith (Foto: Divulgação)
Bessie Smith (Foto: Divulgação)

Outra grande cantora da mesma época é “Ma” Rainey (de Columbus, Geórgia 1886-1939)que ficou conhecida como “The Mother of The Blues”e que também atuou como dançarina e atriz. Era casada com Willian “PA” Rainey, e juntos viajavam muito, conhecendo assim, uma dançarina chamada Bessie Smith (foto ao lado) para a qual foi influência. Em 1916 “Ma” separou-se do marido e viajou com a sua banda “Ma Rainey e and her Georgia Jazz Band”. Entre 1923 e 1928 conseguiu gravar 100 músicas para a Paramount Records. Vale destacar “See See Rider” (1925) e “Deep Moaning Blues” (1928). Durante seu auge, teve vários acompanhantes ilustres como Louis Armstrong e Coleman Hawkins.

A próxima cantora não podia deixar de ser a própria Bessie (Chatanooga,Tennessee;1894-1937), conhecida como a “Imperatriz do Blues”. Em 1904 seu irmão, com quem fazia duetos nas ruas, viajou com uma pequena trupe, quando voltou em 1912 arranjou uma audição para Bessie, mas ela foi contratada como dançarina e não como cantora…. A companhia já incluía a “Ma” Rainey. Entre os petardos estão “Downhearted Blues” (1923, de Alberta Hunter), “St. Louis Blues ” (1925), “Empty Bed Blues” (1928). Quando Bessie morreu sua tumba não tinha lápide e ficou assim até sete de agosto de 1970, quando Janis Joplin junto com Juanita Green, que quando criança era empregada doméstica de Smith, providenciaram a lápide.

A texana,Victoria Spivey (1906-1976) tinha 12 anos quando começou a tocar piano em uma sala de cinema, trabalhou em bares e discotecas até se mudar para St. Louis, Missouri, em 1926, onde assinou com a gravadora Okeh Records. Sua primeira musica foi “Black snake blues”. Seu sucesso foi tanto que mudou de gravadoras inúmeras vezes, dentre suas gravações várias participações como: King Oliver, Lonnie Johnson e Red Allen. Como se não bastasse Victoria ainda encontrou outro terreno de atuação, foi chamada pelo diretor King Vidor para cantar “Missy Rose” no filme “Aleluia!”. De 1930 a 1940 ela continuou a trabalhar em filmes e conseguiu conciliar as duas carreiras.

Em 1951 deu uma parada e voltou às suas origens, regendo um coral de uma igreja. Mas em 61 foi convidada por um amigo, Lonnie Johnson, para cantar quatro faixas em seu álbum. Em 62 o historiador de jazz Len Kunstadt lançou um selo de baixo orçamento dedicado ao blues com o nome da cantora. Bob Dylan fez uma gravação com ela para este selo. Victoria,assim como Mamie, foi muito influente como blueswoman para gerações futuras, sobretudo na época de revitalização do blues, em 60. Ela morre em76, devido a uma hemorragia interna.

Alberta Hunter, nascida em Memphis, Chicago (1895-1984) deu início a sua carreira em 1911, cantando em clubes e prostíbulos – assim como a maioria das blueswoman. Era casada, mas nunca consumou a relação sob o pretexto de que não queria fazer “aquilo” na casa da sua mãe, onde morava com o marido. A verdade era que Hunter era lésbica. No entanto, depois se tornou amante do tio, com quem passou longos anos. Ela escreveu muitas canções, entre elas “Down Hearted Blues”, que se tornou famosa na voz de Bessie Smith.

Em 1915, Hunter fez shows no Café do Panamá, Chicago. Ela estava se tornando a estrela do clube, até ser fechado por causa de um assassinato, mas isso não a impediu de se tornar a “queridinha da Terra dos Sonhos”. Em 1921, Alberta mudou para Nova York e gravou “Black Swan”com Fletcher Henderson, pianista que continuou a acompanhá-la em outros shows. Em 1923 era a primeira cantora Africano-americana a cantar por uma faixa branca (gravadora), e se consagrou em Nova York também. Alberta, em 1920, optou por se valer de pseudônimos, pois havia assinado contratos de exclusividade com várias gravadoras concomitantemente. Exemplo disso, na gravadora Biltmore era “Alberta Prime”, na Gennett era “Josephine Beatty” (o nome de sua irmã). Fez shows na Europa em 1927, na Inglaterra alcançou notável sucesso, em Paris e em toda Europa na década de 30 e ainda no Oriente Médio e na Rússia.

Não poderia faltar, é claro, a texana mais famosa do blues (1943-1970). Número 46 na lista da Rolling Stone dos 100 maiores artistas de todos os tempos em 2004 e número 28 na lista de 2008 das maiores cantores de todos os tempos. Estou falando de ninguém menos que Janis Joplin, que por sua vez era amiga de Bessie Smith e Leadbelly (um dos gurus de Kurt Cobain).

Sua primeira música foi gravada com um amigo, em fita,“What Good Can Drinkin Do”, em 1962. Depois, em 64, quando já estava em San Francisco, gravou outras com o guitarrista Jorma Kaukonen. Em 1965 seus amigos perceram que ela estava usando cada vez mais drogas e a levaram de volta para sua cidade natal, onde mudou seu estilo de vida. Em 66 o estilo de Janis cantar atraiu a atençao do grupo “Big Brother and the Holding Company”com o qual fez várias apresentações, inclusive na TV. No último dia de sua turnê com a banda ela se apresentou junto de nomes como Jimi Hendrix e Buddy Guy. O álbum de maior notoriedade nessa época foi o “Cheap Thrills”, principalmente por causa da música “Piece of My Heart”, que alcançou o primeiro lugar na revista “Billboard”, oito semanas após seu lançamento.

Após a divisão da Big Brother Janis formou um novo grupo chamado Kozmic Blues Band, lançando o álbum em 1969 – mas não teve a repercussão do Cheap Thrills. Em 70 formou uma nova banda, a “O Full Tilt Boogie Band”, com a qual participou do All-Star Festival Express e fizeram um clipe da música “Tell mama”, que estreou na MTV em 1980.

Janis morreu de overdose durante as gravações de Pearl aos 27 anos. Suas últimas gravaçoes foram “Mercedes Benz”e uma saudação de aniversário para John Lennon, que só chegou na casa dele após a morte dela. Há ainda uma lista infindável de muitas outras blueswoman de destaque como: Sippie Wallace, Ida Cox, Bonnie Raitt, Etta James… Vale a pena conferir!

Rosa Marya Colin (Foto: R. Ragozzino/ Divulgação)
Rosa Marya Colin (Foto: R. Ragozzino/ Divulgação)

Mudando agora de área geográfica, vamos falar um pouco sobre algumas brasileiras que tinham uma veia “bluseira” e que enveredaram por entre esse ritmo fascinante. Comecemos pela Rosa Marya Colin (1945), que começou cantando jazz e bossa nova aos 18 anos no Rio de Janeiro. Seu primeiro disco foi gravado em 65. Fez shows pelo Brasil inteiro e no México teve bastante sucesso cantando em um hotel. A partir de 80 tornou-se uma cantora de jazz profissional com a banda Tradicional Jazz Band. Seu maior feito foi uma regravação de uma música da banda “Mamas and The Papas” chamada “California Dreamin”.Também atuou como atriz no papel de Tia Nastácia em O Sítio do Pica Pau Amarelo,Ciranda de Pedra,Sinha Moça,e no musical “Hair” adaptado para o Brasil. Entre seus discos estao: “Cores”(97),”Fever”(92), “Rosa in blues”(90), entre outros.

Cida Moreyra começou sua carreira como atriz. Entre as peças que participou estão “A Farsa da Noiva Bombardeada”, de Alcides Nogueira, e “Ópera do Malandro”, adaptação de Chico Buarque de Hollanda. Depois adentrou pela indústria fonográfica, seu primeiro espetáculo solo foi “Summertime”(81) uma homenagem à cantora Janis Joplin. Além disso cantou músicas de Chico buarque e

Angela Ro Ro (Foto: Divulgação)
Angela Ro Ro (Foto: Divulgação)

Angela Ro Ro, mas não abandonou a carreira de atriz e ainda em 80 lançou seu segundo disco “Abolerado Blues”(83), “Cida Moreyra”(86) e em 88, o notável “Cida Moreyra interpreta Bertolt Brecht”. E nao parou por aí, ainda lançou Cida Canta Chico” (93) e “Na Trilha do Cinema”(97). Participou de um disco chamado “Mensagem”, composto por poemas musicados de Fernando Pessoa.

Por último, mas nao menos importante, fica a Angela Ro Ro(1949 – Foto ao lado),carioca que foi gravada por vários artistas como: Maria Betania, Barão Vermelho, Marina Lima, Ney Matogrosso. Tem como uma de suas principais influências Ella Fitzgerald e Maísa. Cantava em casas noturnas do Rio até ser contratada pela Polygran. Seu primeiro disco intitulava-se apenas Angela Ro Ro(1979), e continha a famosa música “Amor, meu grande amor” regravada em 96 pelo Barao Vermelho. O disco seguinte “Só nos resta Viver” faz uma regravação de “Bárbara” de Chico Buarque, e também a bem humorada e auto-denunciativa “Meu mal é a birita”. O álbum seguinte foi “Escandalo”(1981) que como o próprio nome diz se tratava de uma confusão entre ela e sua amante Zizi Possi, a faixa título foi composta por Caetano Veloso.

Sua trajetoria foi marcada por muitos escândalos, personalidade forte, comportamento underground, homossexualismo e suas cançoes de blues e jazz. É um dos maiores nomes na Mpb. Em 2000 lançou o disco “Acertei no Milenio” e recebeu o prêmio de compositora do ano pela Associação Paulista de Criticos de Arte (APCA).

The Runaways

The Runaways (Foto: Tom Gold/ Divulgação)

Uma pitada de estrógeno no mundo da música

Quando o rock’n’roll nasceu parecia ser algo relegado apenas ao universo masculino e que as mulheres só fariam parte de maneira inócua, fanática e coadjuvante como admiradoras ou meras ouvintes simpatizantes do estilo. Sem falar nas groupies oficiais de algumas bandas que tornavam o simples fato de escoltá-las, e de se relacionar com os músicos, o máximo de  prazer já experimentado.

Bom, o passar dos anos provaria que as mulheres têm muito mais poder que isso. No final dos anos 60, Janis Joplin, texana, deu início a uma histeria feminina comportamental e sonora com suas letras contundentes, voz visceral e atitudes totalmente genuínas, sem falar na sensualidade que ela imprimia nas musicas ao cantá-las, vociferando-as ou em tom de acalanto.

Nos anos 70, foi a vez do The Runaways, Califórnia, abrir espaço na redoma machista. A banda era encabeçada por nada menos que Joan Jett. Letras provocantes e bem humoradas fizeram dessa banda a líder dasheadbangers femininas. O grito de Joan não só acordou a vizinhança como fez insurgir o talento antologicamente velado pela condescendência e anacronismo resultante do comportamento da época. Ela sabia o que estava fazendo e sentenciava exaustivamente em cada música o pensamento “é isso aí, é a nossa hora de fazer rock´n´roll!!!”.

Joan foi além e preconizou o movimento riot grrrls, incentivando a formação de bandas contestadoras femininas e fertilizando o solo para bandas como Babes in Toyland, de Minnesota, Estados Unidos, l7, de Los Angeles, Bikini Kill, Olímpia, entre outras. Mais tarde formaria o Joan Jett and The Blackhearts.

Os anos 80, por privilegiar a maquiagem pesada e roupas extravagantes e insinuantes, devido ao glam rock,fez deslanchar de vez a onda das mulheres nos palcos. Foi nessa época que a banda Vixen apareceu e vendeu milhões de cópias em 88.

Com um estilo mais pop surgiu o Blondie, de Nova Iorque, e na mesma época a banda Heart com influência do folk e hard rock, mas que, na década de 90, seguiram por uma linha mais grunge. Também em 90, surgiu o atual The Donnas que lembra em muito o The Runaways, mas com garotas desta vez – e não mulheres – o que lhes confere uma atitude simultaneamente charmosa e pseudo-inofensiva.

As americanas monopolizaram a era das riot grrrls e deixaram mais do que claro que as mulheres sabem sim fazer rock de qualidade. A não ser por alguns detalhes: deram mais sensibilidade, glamour e muuuuuuuuito mais sensualidade….yeahhhh. Sigamos seus exemplos, fazendo com que este não seja um acontecimento isolado e fortuito. As mulheres devem e podem se impor de todas as boas formas, e a música é uma das melhores delas! Façamos também poesia, filosofemos, argumentemos! Afinal, quando somos nós a fazermos algo assim, a repercussão é potencialmente ‘dinamitizada’.

[audio:http://www.revistazena.com.br/wp-content/uploads/audio/you-drive-me-wild-runaways.mp3]
You Drive Me Wild

You know when you’re close you really turn me on
That’s why I miss you so bad when you’re gone
Come on, come on and take me home
Please stay, don’t leave me alone.

You drive me wild
Oh, you know you do
You drive me wild
You know I need you.

You’re under my whole, my one desire
Let’s get together and start us a fire
Don’t make me tremble, don’t make me shake
Kissin’ each other, rock until day breaks.

You drive me wild
You know you do
You drive me wild
I need you.

Don’t hold off, I need your lovin’
It’s so hot, it feels like an oven
My head is all filled with crazy thoughts
When I come down I can’t be fought.

You drive me wild
You know you do
You drive me wild
I need you.

Você me deixa selvagem

Você sabe que quando você esta perto de mim você me transforma
É por isso que sinto saudades tão ruins quando você vai embora
Venha, venha e me leve pra casa
Por favor fique, não me deixe sozinha
Você me deixa selvagem
Oh, você sabe que deixa
Você me deixa selvagem
Você sabe que eu preciso de você
Você esta em mim toda, meu único desejo
Vamos ficar juntos e começar um incêndio
Não me faça tremer, não me faça mexer
Beijando uns aos outros, até que o rock pause no dia
Você me deixa selvagem
Oh, você sabe que deixa
Você me deixa selvagem
Eu preciso de você
Não se afaste, eu preciso do seu amor
É tão quente, me sinto como um forno
Minha cabeça está cheia com todos os pensamentos loucos
Quando eu for não poderei ser combatida
Você me deixa selvagem
Oh, você sabe que deixa
Você me deixa selvagem
Eu preciso de você

CONFIRA O TRAILER SOBVRE A VIDA DAS ROQUEIRAS

Um pouco de androginia

David Bowie (Foto Divulgação)

Sensibilidade. Inquietude. Dúvida. Necessidade de equilíbrio afetivo. Confusão.

Estes sentimentos, eminentemente femininos, frequentemente permeiam a mente das mulheres, sobretudo quando estão experimentando conflitos internos ou quando estão com um mal-estar  relativo à pessoa amada.

Porém, artistas renomados têm aberto suas portas e permitido que essas questões gritem alma adentro, lapidando-as e transformando-as em música. Alguns de maneira tão intensa que acabam por imbuir-se nesse universo e em tudo o que ele traz à tona de forma extremamente autêntica e contundente, e o resultado disto, claro, tem sido frutífero e marcante.

Enquanto uma gama considerável de homens gastam seus preciosos minutos discorrendo acerca de temas previsíveis como auto-afirmação-másculo-hormonal, conquistas, diversões etílicas ou esportes, outros fazem poesias sonoras, na maioria das vezes, confessionais.

Ilustrando isso, pode-se citar David Bowie com  seu estilo glam rock, artista setentista e londrino que dispensa apresentações, dada a sua trajetória antológica, vanguardista e brilhante. Entre alguns de seus petardos estão “Absolute beginners”, em que ele diz: “As long as we´re together, the rest can go to hell, I absolutely love you, but we´re absolute begginers, with eyes completely open, but nervous all the same1, “Oh! You pretty things” e “Queen bitch”: (“She’s so swishy in her satin and tat, In her frock coat and bipperty-bopperty hat, Oh God, I could do better than that”)2, que, indubitavelmente desvela seu lado tendenciosamente feminino.

Já nos anos 80, Morissey com a sua banda The Smiths – que já se encaixou em categorias musicais como indiepop rock e ate pop – de Manchester, Inglaterra, virou-se do avesso através de suas canções. Ele é a própria música. Sua voz e performance inconfundíveis foram, sem dúvida,cruciais para vitalidade da mesma.Entre elas estão “Ask” (“Coyness is nice, and Coyness can´t stop you, From setting all the things in, Life you’d like to”)3 e “Stop me if you think you´ve heard this one before”.

Duran Duran, banda inglesa “new romantic” também oitentista, encabeçada pelo vocalista Stephen Duffy, detentor de uma voz tenra, suave e sexy, conferia à banda uma atmosfera difenciada das outras bandas de mesmo estilo. Entre seus sucessos podemos citar “Come undone” e ”The reflex”, que diz: “ You gone too far this time, but I’m dancing on the Valentine, tell you somebody’s fooling around with my chances on the dangerline4 e “The seventh stranger”.

Placebo (Steve Forrest, Stefan Olsdal e Brian Molko)
Placebo (Steve Forrest, Stefan Olsdal e Brian Molko)

Finalmente, surgidos na mesma década, estão as bandas Placebo (Londres) de gênero rock alternativo/glam rock e Suede (Reino Unido) no estilo britpop. Os vocalistas dessas bandas (Brian Molko e Brett Anderson, respectivamente) tem um ponto em comum, que é o fato de suas vozes serem extremamente andróginas, assim como suas compleições físicas lânguidas, comportamento, trejeitos….

Do Suede destacamos “Animal Nitrate” e “Obssesions”: “ It’s the way you pick your clothes off the floor, It’s the way you scratch your skin when you yawn, It’s the t-shirts that you choose, like you’re in the Air Force, Yeah the language that you use reacts like chemicals5 e “The 2 of us”. Do  Placebo “Without you i´m nothing” (com participação de Bowie), “Breathe underwater” e “Plasticine” (“ The only thing you can rely on is that you can’t rely on anything, don’t go and sell your soul for self-esteem, don’t be plasticine”)6.

CONFIRA ABAIXO ALGUMAS FOTOS DE DAVID BOWIE, BIAN MOLKO (PLACEBO) E BRETT ANDERSON (SUEDE)

Traduções:

  1. “Contanto que estejamos juntos, o resto pode ir para o inferno, eu absolutamente amo você, mas nós somos principiantes absolutos, com olhos completamente abertos, mas igualmente nervosos”;
  2. “Ela é tão fresca em seu cetim colorido, com seu casaco longo e seu chapéu espalhafatoso, Oh Deus, eu poderia fazer melhor do que isso”;
  3. “A reserva é legal, mas a reserva pode te impedir de dizer todas as coisas que você gostaria de dizer na vida”;
  4. “Você foi longe demais desta vez, mas eu estou dançando em cima do cartão do dia dos namorados, digo pra você que alguém andou brincando com as minhas chances até não poder mais”;
  5. “É o jeito com que você pega suas roupas do chão, É como você coça suas costas enquanto boceja, São as camisetas que você escolhe, como se estivesse na Força Aérea, é a linguagem que você usa, que reage como química com a minha”;
  6. “A única coisa na qual você pode confiar é que você não pode confiar em coisa alguma, não saia por aí vendendo sua alma por auto estima. Não seja camuflada”.

Double Take

Richard Nixon - The Kitchen Debate, Moscow, Julho, 1959 (Foto: Nikita Khrushchev/ Divulgação)

Johan Grimmonprez nasceu em Roeselare, Bélgica, em 1962. Ele costuma manusear imagens de todo tipo fazendo colagens em seus filmes e dispor de Hitchcock neles, a exemplo de “Grimmonprez´s looking for Alfred” (2005). Quem o diretor também faz alusão neste filme é ao pintor surrealista René Magritte (Lessines, Bélgica) do qual provavelmente deve ter tido influencia considerando os paradoxos visuais e perspectivistas em suas obras.

Double Take (2001) é um filme sobre duplicidade, no qual o diretor se vale da figura de Hitchcock como um verdadeiro prisma do qual emana gradativamente e adquire forma todo o desenlace de detalhes que compõem a trama. Isso se deve ao fato de Alfred estar ligado diretamente ou não aos temas abordados, como cinema, TV, guerra fria…

O longa começa um tanto monótono e confuso, intencionalmente, para só depois prender, hipnoticamente, os olhos do telespectador. Mesclando, inteligentemente, a comedia, o bom-humor, a música grave e assustadora, Hitchcock, o suspense e a transição aleatória quase que instantânea das cenas.

Ao estilo do mestre do suspense, Johan Grimmonprez usa paradoxos, adequando contrariamente às situações que aparecem ás músicas tocada simultaneamente, provocando ora a seriedade ora o riso, ora a tensão ora o relaxamento. Como não poderia deixar de ser, o filme requer uma reflexão filosófica sobre quem somos, o que podemos ser, o que nos tornamos, a partir da idéia do duplo e isso é bombardeado nas mais variadas nuances.

É incontestável que o filme apesar de não ser sobre Hitchcock rende-lhe uma homenagem latente, pois o mesmo aparece mais ou menos em 85% das cenas e o desfecho culmina com sua morte, o que deixa pairando no ar a hipótese de homenagem póstuma construída de uma maneira extremamente singular e inusitada.

Double Take (Idem, Bélgica/ Alemanha/ Holanda, 2009). Direção: Johan Grimonprez. Roteiro: Johan Grimonprez e Tom McCarthy. Elenco: Ron Burrage, Mark Perry, Delfine Bafort. Documentário. 80 min. (Colorido e Preto e Branco).