Luísa, prazer

Viciado em Sexo (Foto: Shutterstock)

Pobre Marcelo.
Era um bom sujeito, o rapaz.
Mas tudo foi por água abaixo, que nem merda: sua faculdade, seu emprego, sua boa vida de comedor de macarronada da mamãe.
Culpa da Luísa, aquela maluca.
Foi depois que ele a conheceu que as coisas começaram a amarelar. A iniciar por sua pele.
Emagreceu, andava irritado, nervoso, abatido.
É claro, não lhe sobrava tempo pra mais nada.
Luísa era muito simpática, e bonita, e tinha um belo par de coxas e outro melhor ainda de peitos, mas não deixava o infeliz em paz porque precisava transar.
Nunca vi mulher assim.
Era de manhã, meia manhã, meio-dia, início da tarde, entardecer, noite, madrugada.
E ai do Marcelo, se não comparecesse.
Também, o pobre tinha um medo danado que, se não satisfizesse a namorada, outro satisfaria.
Deus me livre, ele amava Luísa.
Só que não dava conta de comê-la todas as vezes que ela o requisitava.
– Temos outras coisas para fazer além de sexo, querida.
Era o que ele lhe dizia, em vão.
Luísa não queria nem saber.

Um dia caiu doente, meu amigo Marcelo.
E os médicos proibiram a namorada de visitá-lo, afinal, o rapaz precisava de um pouco de paz, e soro, e sossego, e descanso.
Estava fraco e estressado demais.
Muita gente invejava Marcelo, mas eu não. Era dureza para ele, e sem trocadilhos.
A menina não podia vê-lo que já começava seu jogo de fêmea no cio. E não importava onde estivesse, mercado, padaria, cinema, banheiro de universidade, fila de banco, ônibus, banca de jornal.
Ela não dava folga.
Quando Marcelo deixou o hospital, um pouco reabilitado e mais coradinho, vi que estava diferente. Não sei explicar, era um olhar mais obstinado, um jeito mais decidido. O pobre vivia à míngua, mas naquele dia tive a nítida impressão de que iria tomar uma providência.
Fiquei chocado quando soube.
Imaginei que ele iria terminar tudo com Luísa, ou quem sabe decidira dividi-la com seus amigos, como se divide uma tarefa complicada demais ou uma pizza tamanho família.
Mas comê-la, como ele comeu, eu não esperava.
Não com cebolinha e tempero misto.
Não cozida em fogo alto.
Pobre Luísa.

Meritocracia

Esta palavra esquisita, que aparece como título neste texto é, em minha opinião, a única saída para vivermos em um mundo melhor, mais justo e, porque não dizer, mais feliz e suportável também.

Para quem não sabe, meritocracia vem do latim mereo, que significa merecer. Trata-se de um sistema que considera o mérito a razão para se atingir determinada posição. Resumidamente quer dizer que, se você não faz por merecer, você não ganha. Ponto final.

Muita gente, naturalmente, é contra a meritocracia. Dizem que, numa sociedade desigual, é impossível aplicá-la sem cometer injustiças terríveis. Ora, argumentam, como um aluno sem condições de estudar pode, por exemplo, competir com outro, que teve acesso às melhores escolas e cursinhos, baseado apenas no seu mérito? As chances de um são, claramente, inferiores as do outro. Igualá-los baseado unicamente no mérito seria uma injustiça, não?

Não.

Muito pelo contrário.

No caso do exemplo dado, sempre pensei que, em se tratando de educação, 50% do mérito está, sim, com a escola e com os professores (teoricamente melhores, em instituições privadas). Mas os outros 50%, sem dúvidas, estão com os alunos. Isto é: se o estudante quiser aprender, ele irá aprender, não importam as adversidades – basta, para isto, que se dedique. Basta que tenha seus méritos pessoais.

Eu mesma estudei a vida inteira em colégio particular, fiz minha faculdade em uma universidade também particular, e sinceramente: meus professores, tanto do colégio quanto da faculdade sempre me pareceram mais perdidos do que cachorro em dia de mudança, e eu posso contar nos dedos aqueles que tinham, verdadeiramente, algo a ensinar. E destas salas de aulas pelas quais passei, despontaram alunos sensacionais, quase geniais (não, realmente não foi o meu caso), e alunos sofríveis (oi!), que possivelmente saíram sabendo menos do que quando entraram.

Como se explica isso, se todos tiveram os mesmos professores?

Através dos outros 50%, que dizem respeito aos alunos.

Pode-se sair de colégios tradicionais e caríssimos alunos completamente abestalhados, e de escolas pobres e públicas estudantes altamente competentes, pois não há instituição capaz de suprir os 50% que dizem respeito, unicamente, a cada aluno. Eu até compreendo que aplicar a meritocracia integralmente, em um país com tantos problemas básicos seja, para dizer o mínimo, complicado. Mas trata-se de um dos poucos sistemas no qual eu acredito, o único que talvez colabore para que se aumente a qualidade, seja da educação, seja da saúde, seja da política, seja lá do que for.

Mas vamos continuar na sala de aula. Imaginemos uma turma com 20 alunos, prontos para fazer uma prova. Nesta turma, alguns estudaram muito, outros estudaram pouco e outros simplesmente não estudaram. A professora aplica a prova, todos respondem as questões e, ao final, a docente avisa que a turma não terá notas individuais, e sim uma nota média entre todos os alunos. Somar-se-ão todas as notas, e dividir-se-á pelo número de estudantes. Qual o resultado? Os alunos que não estudaram e que iriam se dar mal de qualquer maneira, possivelmente não iriam reclamar. Mas e o que dizer daqueles que, sim, estudaram, se esforçaram, e agora terão a nota baseada na média da turma? É provável que, já na próxima prova, estes alunos estudiosos não o fizessem com tanto afinco, chegando até mesmo a deixar de estudar, já que não faz a menor diferença; já que seu mérito não será levado em consideração. E o resultado final desta ‘igualdade’ será uma turma inteira com notas pífias.

Agora imaginemos que não estamos em uma sala de aula, mas em um país. Que país será esse?

Há quem diga, ainda, que o mérito é algo difícil de medir. Afinal, quem decidiria quem tem e quem não tem mérito? Bem, eu acho esta questão muito simples, e depende apenas da área na qual o profissional em questão atue: é professor? Seu mérito pode ser medido pelas notas e pelo aprendizado de sua turma. É vendedor? Baseiam-se, então, nos números de sua venda. É pintor, médico, pedreiro, cozinheiro, arqueólogo? Tudo medido através da qualidade e dos frutos de seu trabalho.

Não tem erro e fim.

Acontece que muita gente, principalmente aqueles alunos que não estudaram para a prova, teme a meritocracia. Afinal, sabem, seu mérito é ínfimo, e com uma avaliação baseada neste mesmo mérito, sem dúvidas sairão prejudicados. Porém o que devemos entender é que são justamente estes que empacam e não deixam andar para frente nenhum trabalho e nem nenhum país, porque não fazem a sua parte e nem o seu trabalho direito, e ainda por cima desmotivam aqueles que fazem – e que ganham o mesmo salário, ou as mesmas notas, de quem não faz.

Na faculdade (particular, lembrem-se) que eu fiz, a meritocracia só não passava mais longe do que a qualidade do ensino. Aliás, posso dizer que se aplicava ao inverso: cansei de ver excelentes professores serem sumariamente demitidos porque não participavam da panelinha triste que era a direção de minha faculdade. Vi sair, sem maiores esclarecimentos, professores idolatrados pelos alunos porque tinham o que ensinar – e ensinavam. Enquanto outros, que mal entendiam a diferença entre dia e noite, permaneciam perpetuamente ensinando o que simplesmente não podiam ensinar – porque não sabiam sequer do que se tratava. Se fosse aplicado na UPF o sistema de meritocracia, ouso dizer que não sobraria uma viva alma no núcleo de professores da Faculdade de Artes e Comunicação.

Tem também quem pense que a meritocracia poderia gerar uma sociedade demasiado competitiva. No entanto, o que são os países de primeiro mundo, senão sociedades altamente competitivas? Ser competitivo não significa passar uns por cima dos outros e viver como abutres doidos por sangue. Significa apenas competir, tentar ser sempre o melhor, ganhar espaço, superar seus concorrentes e a si mesmo. E quem ganha com isso? Todo mundo – menos aqueles que não possuem mérito algum. E se não possuem mérito algum, é simplesmente porque não querem; porque são preguiçosos, acomodados e, arrisco afirmar sem medo de errar: estúpidos também.

Eu acredito na meritocracia, seja em se tratando de nação, seja em se tratando de pequeno núcleo familiar. Pois é justo que aqueles que fazem mais e melhor sejam reconhecidos por seu esforço e dedicação.

Além do mais – e me desculpem aqui os socialistas-comunistas-anti-capitalistas – eu não creio na igualdade social. Não que eu não gostaria que ela existisse; é óbvio que sim. Mas qualquer pessoa que pense por um minuto vai perceber que a igualdade plena é completamente utópica. Evidente que eu acredito que é possível acabar com a miséria, onde ainda vivem inacreditáveis bilhões de pessoas ao redor do mundo, mas igualar a todos, no mesmo patamar social, é impossível.

Se o mundo, o Brasil, nosso estado, nosso bairro, nosso emprego e nossa família adotassem a meritocracia como sistema vigente, ao contrário do que muitos pensam, seria mais difícil o acometimento de injustiças. E, vejam bem: a meritocracia não se abaliza através de quem é o melhor. Mas de quem merece. E esta diferença é muito importante de ser entendida.

O que me lembra outro exemplo, que gostaria de dar por ilustrar magistralmente esta questão: como alguns de vocês sabem, eu organizei duas coletâneas pela Editora Multifoco, a Assassinos S/A Vol. I e II. Nesta ocasião, tive oportunidade de ler textos deveras sensacionais, de autores verdadeiramente promissores e talentosos. Porém – e sempre há um porém – tratavam-se, igualmente, de autores descompromissados, megalomaníacos, metidos a besta e, acima de tudo, chatos. Chatíssimos, chatésimos, super chatonildos. Em compensação, tive acesso a textos medianos, de autores também medianos, mas que, ao contrário, eram dedicados, compromissados, responsáveis. Quais eu escolhi? Optei pelos medianos em detrimento dos excepcionais. E aí alguns de vocês me dirão: mas isto não vai contra o que diz a meritocracia? Não deveriam ser os melhores a serem escolhidos? E eu lhes respondo: não. Porque, no caso do exemplo citado, o melhor escritor não é, apenas, aquele que escreve os melhores textos, do mesmo jeito que o bom médico não é aquele que detém os maiores conhecimentos sobre medicina. Imaginou um super médico, mas que não cumpre horário, não atende nos finais de semana, não é capaz de tratar seus pacientes com consideração e carinho? De que adianta ser um super médico?

Meritocracia não é premiar, necessariamente, quem é melhor, mas quem é merecedor, e alguém só se torna merecedor se for esforçado.

Eu sei que tudo o que escrevi aqui não deixa de ser, também, um pouco utópico, e é complicado encontrar uma única solução que resolva todos os problemas que, atualmente e enquanto nação, enfrentamos.

Mas fico feliz que esta palavra tão estranha – meritocracia – já esteja começando a ser levantada, debatida, analisada. Talvez levemos mais 500 anos para conseguir encontrar o jeito certo de colocá-la em prática, de modo a não piorarmos o que já está ruim.

Contudo, não me resta nenhuma dúvida de que, apenas valorizando o esforço e, conseqüentemente, o mérito de uma pessoa, é que poderemos fazer justiça, e ver nosso país realmente crescer e prosperar.

Quem faz o que deve fazer, da melhor maneira que pode fazer, não precisa temer a meritocracia. Ela só é perigosa para quem sabe que ocupa uma posição e recebe um salário que simplesmente não condiz com aquilo que merece.

Profissão: Juiz implacável

Djiabo (Ilustração de Alexandre Dantas)

Ninguém gosta de ser julgado. E sempre que o somos, ficamos com aquela sensação revoltosa que nos faz pensar:

– Mas quem é você para dizer isso ou aquilo sobre mim?

– O que você sabe da minha vida?

– Te conheço?

E estamos com a razão. Poucas coisas são piores do que sermos avaliados (duramente avaliados, diga-se de passagem) por pessoas sem conhecimento de causa que, invariavelmente e sem remissão, acabam nos condenando – na maioria das vezes, injustamente. É lamentável, mas ainda não inventaram um jeito de impedir que os outros achem coisas sobre nós que não correspondem a verdade.

No entanto, cento e um por cento das pessoas que costumam reclamar que são julgadas implacavelmente, são as primeiras a vestir a toga e a peruca branca com cachinhos e sair Brasil afora batendo o martelinho e apontando o dedo para os alheios.

Estou falando sobre isso porque eu sou exatamente assim: uma juíza besta e insensível, que acredita piamente que conhece tudo sobre todos e todas as coisas e, por isso, posso dar meus veredictos nada misericordiosos indiscriminadamente. Há algum tempo atrás aconteceu um episódio que me fez ver que, ao contrário do que gostaria de acreditar e até mesmo aparentar, eu não era nem nunca cheguei perto de ser a flor de candura que supunha.

O bom senso me impede de relatar aqui, minuciosamente, o que de fato aconteceu e me fez ter este duro e doloroso choque com a realidade, nem quais pessoas estiveram envolvidas neste imbróglio. Contudo, posso dizer que havia uma moça a qual eu detestava. Sim, detestava, e nada do que viesse dela era considerado por mim aprazível nem, ao menos, suportável. Ela chegava e eu já estava toda armada, e bastava ela dar um pio que eu já revirava os olhos e pensava: qualquer dia eu mato essa desgraça de mulher.

Esta moça, de fato, é meio xarope. Fala besteiras o tempo inteiro, e ri das próprias besteiras que, a rigor, não têm graça nenhuma. Mas é só. Fora isso, a pobre nunca fez absolutamente nada contra mim. Na verdade, nunca fez nada contra ninguém. Eu é que impliquei, e para ela não dava tréguas.

Acontece que esta moça é da minha família, de modo que eu não tinha como não conviver com ela. E justamente por ser parente, eu me munia de hipocrisia e civilidade para que, pelo menos, pudesse estar ao lado dela sem ter ímpetos de pular em seu pescoço e mastigar sua jugular enquanto a chamava de nomes pérfidos. E pelo jeito sou boa em fingir que gosto de quem não gosto porque ela, aparentemente, nunca percebeu minha ojeriza, e sempre me mandava beijos, me abraçava e me tratava com todo carinho e consideração. E eu ali, remoendo minha fúria assassina pelo que eu considerava sua enorme estupidez.

Foi que foi que esta moça ficou doente. Não uma doença física, que pode ser tratada com comprimidos e injeções, mas uma doença emocional. Esta doença emocional a fragilizou de tal forma que eu fui obrigada pela minha humanidade (sim, eu a tenho) a me compadecer dela. Não importa o quanto detestamos alguém; quando vemos este alguém sofrendo, fodido e esculhambado – e se não formos sociopatas malucos – iremos nos sensibilizar.

Bem. Esta moça adoeceu, e eu fiquei com muita pena dela. E, comovida pela minha própria compaixão alheia, me aproximei dela de um jeito improvável. E sem querer, esta moça deixou transparecer para mim todos os seus problemas e dificuldades, que datam inclusive de sua infância.
Problemas estes que eu nunca enfrentei. Dificuldades estas que sequer conheço. Nada é o que parece. Acreditem nisso.

E foi ali, naquele momento, percebendo tudo o que ela havia vivido de ruim, e eu não, que compreendi o quão idiota e intransigente eu estava sendo. Havia criado mil teorias escrotas sobre ela. Julguei-a implacavelmente, sem querer saber como ou porque ela havia chegado até ali. De súbito, até seu jeito meio descompensado de ser, com suas piadas sem graça e sua risada fina que tanto me aborreciam, pareceu apenas uma
maneira de se defender de uma vida que não havia pegado leve com ela.

Esta percepção, que se descortinou bem na minha frente, me fez deitar na cama e, naquela noite, no silêncio sepulcral da madrugada, chorar. Por ela, mas, principalmente, por mim. Por vergonha de ter falado e pensado tudo que dela falei e pensei. Por ter agido exatamente da mesma maneira que eu tanto repudiava, quando quem agia eram os outros. Logo eu, que sempre me achei tão tolerante e sensacional, tão libertária, liberal e compreensiva, de uma hora para outra me vi como uma déspota sem noção que odiava tudo e todos que não coubessem em meus apertados padrões Janaína Lauxen de qualidade. Justo eu, que sempre abominei gente que julga sem de nada saber, estava ali, o indicador apontado para o outro, discorrendo minha opinião vazia de quem não conhece deste outro senão a superficialidade.

Isto me fez pensar em todas as vezes que, assim como fiz com esta moça, julguei e condenei os outros sem dó. Em quantas vezes fui injusta e babaca – e porque não dizer, maldosa até. A verdade, meus amigos, é que se não estamos dentro das calças do outro, não podemos falar sobre ele. Podemos, sim, ter uma opinião, mas de maneira alguma temos o direito de transformar nossa simplória opinião em verdade absoluta, e sentenciar que fulano ou beltrano é isso ou aquilo. Porque fulano e beltrano são muito mais do que isso ou aquilo; muito mais do que nossa vã percepção pode apreender. Fulano e beltrano são, como somos todos, um universo imenso, cheio de becos, vielas, ruazinhas sem fim, buracos e ruas íngremes. E somente cada um sabe sobre si tudo o que carrega em seu coração. Mais ninguém.

Eu tenho tatuado em meu braço um trecho de uma música do saudoso Raul Seixas que diz exatamente isso: cada um de nós é um universo. E apesar de tê-la eternizado em meu braço, parece mais difícil do que podemos imaginar entender esta pequena frase em sua magnitude. Então eu sugiro que pensemos melhor antes de reclamarmos que estamos sendo julgados, que estão apontando o dedo para nós, que estão falando da gente sem saber da missa a metade.

Recomendo que reflitamos com clareza e lucidez se, nós mesmos, não estamos dando uma de juízes, de sócios-proprietários da verdade, e condenando a todos com rigor e severidade, como se fôssemos perfeitos, como se estivéssemos em condições morais de apontar o dedo para alguém. Deveríamos – e esta é a verdade – ter pelo próximo a mesma clemência que temos para com a gente mesmo. Porque se você se sente julgado pelos outros, não esqueça de que, para os outros, o outro pode ser você.

Complicadas Resoluções

Complicadas Resoluções Por Jana Lauxen

Virada de ano é a velha história: todo mundo de branco comendo uvas e lentilhas e fazendo listas de resoluções. Eu sempre achei as festas de final de ano meio xaropes porque tudo me parecia demasiado artificial, beirando a afetação. E nem falo das relações entre parentes que se odeiam e precisam dividir um chester no natal, mas do interminável protocolo das festas. É cheio de TEM QUE. Tem que ter peru à meia-noite e tem que ter árvore e tem que ter guirlanda e tem que comprar presentes e tem que ter Simone cantando ‘então é natal’ e ufa.

Reveillon então, requer uma verdadeira operação cerimonial. Tem que passar de branco e tem que comer porco e lentilha e pular ondas e estourar champagne e fogos de artifício e. Bem. Vocês já entenderam. Vocês conhecem bem todos os TEM QUE de festa de final de ano, tenho absoluta certeza disso. E era exatamente esta burocracia toda que me dava um tédio.

Mas o tempo passa e a gente cresce e descobre que existem problemas bem mais sérios do que se entediar com o natal e deixa isso para lá. E é justamente porque vivi num passado nada distante esta rixa com as festas de final de ano que eu sempre procurei me abster das formalidades. A última lista de resoluções que eu fiz tinha 11 anos e entre elas estava ‘jogar menos videogame’.

Porém, 15 anos depois, cá estou eu, decidida a fazer novamente a tal da lista. Como não sou maluca, coloquei nela apenas coisas que dependem de mim realizar – e somente de mim. Caso contrário precisaria contar também com a sorte, e sorte é o tipo da coisa com a qual temos de ter cautela. O fato é que desta lista exclui coisas como emagrecer cinco quilos ou ganhar mais e comprar um carro. Isto, por mais que pensemos o contrário, é fácil de obter. Um pequeno esforço e as chances de conseguirmos, ou chegarmos muito perto de, aumentam vertiginosamente. O que não entendemos é que, na maioria das vezes, nossos problemas não se resolvem emagrecendo, ganhando mais ou andando de carro novo. Isto pode, sem dúvidas, nos satisfazer momentaneamente, mas honestamente não é o que vai tornar nossas vidas melhores. É claro que preferimos pensar que, sim, é claro que vai tornar nossa vida melhor. Afinal, o ser humano é adepto ferrenho da lei do menor esforço, e no fundo todo mundo sabe que é mais fácil comprar uma Ferrari amarela do que deixar definitivamente para trás velhos e desprezíveis hábitos.

Nunca vi em lista de resolução de ano novo ‘ser menos egoísta’. ‘Tratar com mais afabilidade os outros’. ‘Ser mais tolerante e menos ferino’. ‘Exercitar a paciência’. Não. Ninguém pensa em mudar a vida que acontece dentro de cada um de nós; estamos interessados apenas na vida aqui fora – aquela que não faz sentido nenhum. E então temos um carro, estamos magros e ganhando bem e somos estressados. Agressivos. Impacientes. Preconceituosos. Estúpidos. Mal educados. Infelizes e insatisfeitos, outra vez. Do que adianta, eu pergunto? Esta lista que busca resolver os problemas que de fato interessam e muito, mas muito mais difícil de cumprir. Porque estamos de tal forma enraizados em antigos e odiosos hábitos, que abandoná-los é quase uma mutilação. Sabemos quais são os nossos erros, e mesmo assim continuamos errando, batendo com a cabeça na parede, teclando a mesma tecla quebrada com compulsão. Aliás, é impressionante nossa incapacidade de aprender com os nossos erros, mas isso já é outra história.

Creio que precisamos, todos nós, sem exceção, parar, sentar, pensar e escrever num papel quais os defeitos vamos nos comprometer a trabalhar para abandonar neste ano que se inicia. Naturalmente não podemos ser exagerados e querer virar Jesus Cristo em três centenas de dias, mas dá para começar aquilo que será uma verdadeira mudança em nossas vidas. E para melhor. O meu mal, por exemplo, chama-se cólera e preguiça. Sou daquele tipo de pessoa que é adorável e querida, desde que tudo caminhe conforme eu quiser. Desde que não me contrariem. Caso contrário, deus do céu.
E a preguiça, essa vilã. Me esforço diariamente para vencê-la, mas quando vejo lá estou eu me entregando para ela, despudoradamente.

Não dá mais para viver assim, e carro nenhum, salário nenhum nem cinco quilos a menos me tornarão alguém mais feliz, se eu continuar dando vez e voz para estes males que, apesar de parecerem inofensivos, podem ser fulminantes e fazer um tremendo estrago.E acredito que assim como eu, o que todos almejam, essencialmente, é a felicidade. Seja através de que resolução for, o que as pessoas querem mesmo é sentirem-se felizes e satisfeitas. Todavia, penso que seguimos o caminho proporcionalmente inverso e por isso estamos cada vez mais malucos e isolados dentro de nós mesmos.

Então este ano vamos tentar ser pessoas melhores. E eu disse apenas TENTAR. Vamos pensar em pelo menos um defeito que nos faz sofrer e batalhar para derrotá-lo. E quando digo batalhar, não uso nenhuma força de expressão. Abandonar um velho jeito de ser é mais complicado do que parece, e exige um policiamento diário e contínuo para que não nos entreguemos aos nossos desastrosos instintos. Mas quando conseguimos vencê-lo, ah. Que delícia. Isto sim é felicidade. Saber que evitamos sofrer e fazer sofrer apenas por nossa máxima vontade. Sentimo-nos fortes, seguros e contentes porque vencemos a nós mesmos – nosso único, maior e mais destemido inimigo. Parece pequeno e pedante falando assim, em um blogue, em um início de ano, depois do carnaval. Mas se você parar para pensar, verá que é a mais pura verdade.

Evidente que não precisamos esperar nenhum reveillon ou carnaval para parar de repetir as mesmas idiotices de sempre, e que só nos colocam em enrascadas. Mas já que é tempo de resoluções, que optemos por começar já.

Vamos tentar mudar para melhor neste 2011, meus amigos.
Sinceramente, é só o que eu posso desejar para todos nós.

A solução do Bullying – EU TENHO!

A solução do Bullying - EU TENHO! por Jana Lauzen

Em 1996 eu estava na sexta série e tinha um colega chamado Paulo que era o terror. Ele literalmente transformava num inferno a vida de metade da turma, e é claro que eu estava nesta metade da turma que ele amava infernizar. O Paulo detectava e abertamente debochava de todos os nossos defeitos – até mesmo aqueles que a gente nem sabia que tinha. E eu, que era enormemente alta, terrivelmente desengonçada, gordinha e com um corte de cabelo semelhante ao de Rick Martin na época dos Menudos, era um alvo mais do que fácil.

Paulo tinha seus asseclas, é verdade. Meninos que, provavelmente para escapar de suas humilhações, uniam-se a ele e, junto dele, ajudavam a tornar a vida escolar de todos ainda mais difícil. O mais estranho e sinistro era que muitas das vítimas de Paulo, numa atitude claramente defensiva, transformavam outros colegas em suas vítimas também, como numa roda-viva malévola e aterrorizante. Nesta época ninguém falava em bullying. Tudo não passava de ‘brincadeiras de criança’, mesmo que as tais brincadeiras ferissem, machucassem e magoassem profundamente.

A primeira vez que ouvi o tal termo, pensei: gente! era o que me acontecia, era o que acontecia a boa parte de nós. E, dentre outros, muitos outros, me lembrei do Paulo. Por isso, quando apareceu o vídeo do menino Casey que, cansado das agressões diárias sofridas no colégio e possivelmente fora dele também, resolve reagir, foi inevitável dar um sorrisinho brejeiro. Não sabe do que eu estou falando? Então, meu amigo, tire alguns segundos do seu dia para entender. E se você foi vítima de bullyng, assista ao vídeo até sua internet cair, que o prazer é inenarrável e chega a beirar o êxtase.

Assistiram? Pois acreditem: eu sou contra a violência. Porém, sou igualmente contra agüentar todo tipo de desaforo sorrindo e sem gemer. E da mesma maneira de Casey se tornou meu herói para sempre – o cara que, finalmente, reagiu às investidas do seu agressor – ele também se tornou o herói de todo mundo que um dia sofreu as humilhações gratuitas e violentas de algum coleguinha babaca.

No entanto, disso já sabemos. O que queremos mesmo saber é o que fazer para terminar definitivamente com o bullying. Pois bem, caros leitores e leitoras: eu sei esta resposta. Sim, eu sei. Como a vítima de bullying que fui – e como algoz também, pois infelizmente, lá pelas tantas, aderi a sinistra roda-viva de que acima falei e passei a atacar aqueles a quem eu considerava mais fracos do que eu – voz digo com toda a certeza do universo: EU TENHO A SOLUÇÃO.
E a solução está na própria escola.

É claro que educação vem de casa, e que se os pais fossem mais participativos e responsáveis teríamos crianças menos desequilibradas e violentas, mas esta não é uma alternativa viável, pois não há como fiscalizar todos os lares que possuam crianças e adolescentes para ver se estes estão recebendo a devida atenção e boa educação que merecem.
O problema do bullying é que, em praticamente cem por cento dos casos, a escola é a primeira a se omitir, a fingir que nada houve, a varrer a sujeira para debaixo do tapete e sair chupando um picolé. E eu pergunto: cadê a direção da escola que não viu Casey ser socado e maltratado em pleno corredor, em pleno horário de aula? Onde estavam os professores, diretores, administradores e toda essa gente que fez faculdade de pedagogia e mestrado e doutorado e toda essa porra do caralho? Tomando cafezinho na sala dos professores? Resposta: possivelmente sim.

Na minha época e na época do Paulo era assim. Ele fazia o que queria e ninguém via, ninguém ouvia, ninguém sabia. A direção só ia se meter se começasse um quebra-pau, mas no caso do bullying, sabemos: dificilmente se inicia um quebra-pau. O bullying acontece silenciosamente, à surdina, justamente porque o agressor não quer ser descoberto, e o agredido tem medo de denunciar e sofrer ainda mais maus tratos.

Tem também um detalhe, que não deve ser regra, mas era o que acontecia na Escola São José Notre Dame, de Não-Me-Toque, onde eu estudava nesta época que tento esquecer: Paulo tinha dinheiro. Seu pai era um empresário bem sucedido que trocava de carro todo ano e pagava as altas mensalidades daquele apavorante colégio de freiras malucas em dia. Ora, como poderemos punir o filho do senhor doutor excelentíssimo Fulano de Tal? E assim Paulo foi acobertado durante toda a sua maldita infância e adolescência, e nós, que não éramos filhos de nenhum senhor doutor excelentíssimo, e que talvez nem pagássemos nossas mensalidades em dia (eu não pagava), que agüentássemos o cretino e suas ‘brincadeiras de criança’.

CANSEI de ver a direção fazer vista grossa para o Paulo. CANSEI de ver a vítima levar castigo enquanto ele saía assobiando e rindo – sim, RINDO! E, vejam bem: Paulo era o algoz da minha turma, mas havia os outros algozes, das outras turmas e, no fim das contas, todo mundo acabava machucado, menos os autores de tanta violência e bestialidade. E a direção? Tomando cafezinho na sala dos professores.

Richard Gale e Casey Heynes (Foto: Reprodução da TV)
Richard Gale e Casey Heynes (Foto: Reprodução da TV)

O que eu quero dizer é que enquanto as escolas não punirem severamente os promotores do bullying nos aposentos de suas instituições NADA VAI MUDAR. É preciso colocá-los de castigo, repreendê-los publicamente, dar-lhes punição, suspensão, expulsão. E que se dane se um ou outro é filho daquele ou daquela.

O cara é um aprendiz de bandido, minha gente, e fim de papo! Afinal, se com 13 anos o animal está chutando um coleguinha caído no chão com a anuência da direção da escola (eu vi isso acontecer, juro!), o que fará quando tiver 20, 30, 40 anos? Cortará a garganta da namorada e atirará seu corpo num córrego? Abafa.

Vejam novamente o vídeo de Casey: vítima e carrasco, aparentemente, estão na hora do recreio ou algo que o valha, nos corredores do colégio, com vários alunos em volta. O pobre Casey tomou vários socos e cadê a direção? CADÊ A MALDITA DIREÇÃO? Por isso, apesar de ser contra a violência sempre, deixo aqui uma salva de palmas ao Casey.

Porque eu o entendo. Não havia ninguém ali para defendê-lo. Todos estavam fazendo de conta que o seu martírio não existia, e ele precisava se proteger. E por isso – só por isso – praticamente quebrou no meio seu agressor com um golpe que deixaria Steven Segall inspirado.

Eu confesso que me vi ali, fazendo o mesmo com o Paulo e com tantos outros que conheci, e isso fez com que eu me sentisse muito bem, obrigada. Porque não há nada pior do que a injustiça, do que a covardia – e do que o consentimento de quem não poderia, jamais, se omitir numa situação como esta. E já que quem está sendo pago para manter a ordem dentro da escola não faz nada – direção, professores, enfim – então que façamos nós mesmos, do jeito que der.
Se as escolas simplesmente se recusam a tomar qualquer iniciativa, então que não reclamem quando as vítimas de bullying resolverem fazer justiça com as próprias mãos. E neste caso, a violência só tenderá a aumentar, até que perderemos o controle que sequer sabemos se ainda temos.

De qualquer maneira, te amo Casey.

Bolsonaro, Tas e os Cães que Ladram

Jair Bolsonaro (Foto: Janine Moraes/ Divulgação)

A história foi assim: o deputado federal Jair Bolsonaro participou de um quadro do programa CQC, da Rede Bandeirantes, chamado O Povo Quer Saber, onde respondia a perguntas feitas por diferentes pessoas, de diferentes lugares e sobre os mais variados assuntos. Nesta pequena entrevista, nosso excelentíssimo deputado fez o que todos esperavam que ele fizesse: repetiu seu discurso preconceituoso sobre negros e gays sem tirar nem pôr. Sim, porque Bolsonaro nunca disse absolutamente nada de diferente do que falou no CQC. Seu histórico racista e homofóbico data dos primórdios de sua candidatura, e mesmo assim ele está em seu sexto mandato. É. SEXTO. Durmam com um barulho desses.

O fato é que eu não havia visto o CQC neste dia, mas passei a semana inteira ouvindo falar sobre o assunto, que repercutiu estrondosamente. O programa seguinte eu estava assistindo, e naturalmente o tema foi abordado mais uma vez, até porque o episódio, que tanto pano deu pra manga, aconteceu justamente ali. Os CQCs entrevistaram pessoas, políticos e, claro, o próprio Bolsonaro, que não retirou nada do que disse, mas puxou do bolso uma foto de um sujeito que, segundo ele, é seu cunhado – além de mulato – e pronunciou: vejam, ele é negro, é meu cunhado e eu o amo. Ok. Não foi exatamente isso, mas era por aí. Quando voltou ao estúdio, Marcelo Tas também puxou de baixo de sua bancada uma foto de sua filha Luiza, de 22 anos, que estuda nos Estados Unidos, possui excelentes credenciais e é gay. Marcelo afirmou que sente muito orgulho dela, e terminou o CQC.

Eu achei aquilo bem bacana da parte do Tas, e até comentei o acontecido com a minha mãe. No entanto, durante a semana, ouvi comentários de alguns chatonildos sobre o que consideravam a ‘atitude mesquinha’ de Marcelo Tas. Disseram que mostrar a imagem de sua filha e dizer que ela é gay e que tem orgulho dela e iabadabadú foi ‘apelativo e desnecessário’. Aparentemente, algumas pessoas acharam que Tas insinuou que ‘APESAR DE’ gay, ele se orgulhava de sua filha – logo, foi preconceituoso também. E mais: que nem deveria ter dado espaço em seu programa para xiitas malucos da categoria de Bolsonaro, pois isso apenas insuflava e dava eco aos cidadãos que não somente pensam como Bolsonaro, como também votam nele.

Uma frase que muito li e ouvi por parte destas pessoas foi a proferida certa vez por Millôr Fernandes: “Não se amplifica a voz dos imbecis”. Bem. Eu não acredito em nada disso, e considero o conceito de imbecil tremendamente relativo, já que aquilo que é imbecil para mim pode não ser para você. Mas acredito, sim, que somos todos iguais, não somente perante a lei, mas perante qualquer situação. Nossa constituição diz exatamente a mesma coisa. No entanto, apesar disso, muita gente, muita gente mesmo, pensa diferente de mim, de ti e da constituição, e acredita piamente que algumas pessoas, por serem gay, negras ou jogadoras de rúgbi, são diferentes, e mais: são inferiores também.

É um absurdo, eu sei, mas o mundo está cheio de militantes hitleristas disfarçados sob as mais variadas formas – e é exatamente aqui que reside o problema. É consenso que ninguém tem o direito de atentar violentamente contra quem quer que seja. Contudo, a mesma lei que pune crimes como homofobia e preconceito, garante o direito a liberdade de expressão de qualquer cidadão, independente de suas crenças e opiniões, e isto se chama DEMOCRACIA. Como disse o economista americano – e negro – Walter Willians, em entrevista que tive oportunidade de ler recentemente, “o verdadeiro teste sobre o nosso grau de adesão à idéia da liberdade de associação não se dá quando aceitamos que as pessoas se associem em torno de idéias com as quais concordamos. O teste real se dá quando aceitamos que as pessoas se associem em torno de idéias que julgamos repugnantes. O mesmo vale para a liberdade de expressão. É fácil defendê-la quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas”.

Isso significa que, por mais que eu, você e nossos amigos acreditemos na igualdade, e achemos o preconceito de qualquer espécie tão absurdo que chega aos limites do inacreditável, nem todo mundo concorda conosco. E da mesma maneira que temos o direito garantido por lei de acreditar que somos todos iguais, outros possuem o mesmo direito, garantido pela mesma lei, de achar que não, que não somos todos iguais.

Preconceito, homofobia e racismo são assuntos que precisam ser levantados e debatidos à exaustão, bem como, por exemplo, aborto e legalização de drogas. A discussão destes temas, por mais inútil e desagradável que nos pareça, necessita acontecer com a seriedade e a atenção devida.

O CQC, quando trouxe Bolsonaro para uma entrevista, sabia o que Bolsonaro pensava. E o objetivo era justamente este. Colocar um homem que ocupa um cargo representativo em nossa sociedade na frente dos holofotes, e apresentar a quem pudesse interessar tudo o que ele pensa, tudo no que ele acredita. E, sendo ele representante de uma parcela da população brasileira (repito: ele está em seu sexto mandato), expor o que boa parte dos brasileiros também pensa, também acredita. Pois, podem crer os politizadões: a maioria das pessoas sequer sabia que o Bolsonaro existia.
Trazendo o Bolsonaro para a TV aberta, em um programa assistido por milhares de jovens (muitos, apesar da pouca idade, já bastante preconceituosos), o CQC, além de apresentar para a maioria da população brasileira o excelentíssimo deputado e suas excelentíssimas opiniões, trouxe também à tona o assunto preconceito & homofobia. A prova foi a semana que procedeu a fadada entrevista, onde todo mundo se debruçou sobre este assunto que, inacreditavelmente e em pleno século 21, ainda é tabu. Pode não ser para mim, pode não ser para você nem seus amigos; mas o é para mais gente do que sua vã filosofia pode supor.

É de suma importância que entendamos que o problema é bem maior do que parece, ou do que nos é confortável acreditar. E quando arrancamos um assunto deste porte do fundo do baú e nos propomos a falar sobre ele, encara-lo de frente, nem que seja na marra, alguma coisa começa a se modificar. E isso é saudável. Somente falando sem medo sobre um tabu é que poderemos quebrá-lo. Tas mostrou a foto de sua filha para nada, além de dizer para um país racista, porém enrustido, que ele tem uma filha homossexual e não somente caga para isso como se orgulha dela pela pessoa que ela é. E Tas, independente do que você pense sobre ele, é um homem conhecido, respeitado e solicitado, ídolo de algumas milhares de pessoas que o vêem como exemplo, que o admiram, que assinam embaixo de tudo o que ele escreve.

Acham pouco? Pois saibam que existem mais pais e mães escondendo até mesmo de si próprios que o filho é gay do que andorinhas no verão. Logo, não seria corajoso assumir isto assim, ao vivo, publicamente, nacionalmente e, mais importante do que tudo: tranquilamente? Eu acho que é. E digo mais: tenho certeza absoluta que mais da metade destes cães que agora ladram contra a atitude de Tas não teriam a mesma coragem que ele teve, caso estivessem em seu lugar, ocupando a sua posição. Lógico que isso devia ser comum, e dizer em rede nacional que sua filha é gay deveria ser tão sem sentido quanto dizer que sua filha é, sei lá, ruiva. MAS NÃO É ASSIM QUE É, BÊIBES. Para além dos barzinhos onde as pessoas alternativas-e-descoladas se reúnem para tomar cerveja e citar Rimbaud existe um mundo alienado, potencialmente perigoso, que não pode ser ignorado. Que não deve ser renegado nem mesmo desmerecido em sua importância. O preconceito existe, e muito, quer queiram, quer não queiram, e para ser eliminado precisa, antes de tudo, ser identificado.

Aliás. Aproveito para deixar aqui o link de um projeto muito legal chamado Sejamos Gays. A idéia é que cada pessoa envie para o e-mail projetoeusougay@gmail.com uma foto sua (“sozinho ou acompanhado da família, namorado, namorada, marido, mulher, amigo, amiga, presidente, presidenta”) com um cartaz, folha, post-it, o que for mais conveniente, com a seguinte mensagem estampada: #EUSOUGAY. O objetivo é usar estas imagens numa vídeo-montagem que será divulgada no YouTube. A idéia é, nada mais nada menos, do que manter este assunto em voga, mais ou menos como eu tentei fazer com a campanha Todos Contra o Crack!, pois, como já disse a Avon, é conversando que a gente se entende. Por isso e muito mais, apóio a iniciativa #EUSOUGAY, e em breve enviarei minha foto.

Também apóio o CQC, e achei a atitude do Tas bacana e corajosa. E, muito importante: apóio qualquer iniciativa que saia dos barzinhos alternativos-e-descolados, onde os cães politizadões ficam sentados a madrugada inteira acreditando que o mundo é um submarino amarelo, e vá para as ruas, alcançando o máximo possível de pessoas e esfregando em suas caras uma verdade que, apesar de discordamos, de repugnarmos, de abominarmos, existe, e precisa ter um fim.E este fim só acontecerá quando pararmos de agir baseados naquilo que deveria ser, e não naquilo que é.

Eleitores-Nulos

Eleitores-Nulos por Jana Lauxen

Fiz uma pesquisa rápida através do meu twitter perguntando: quem foi de Marina, agora vai de Serra, Dilma, anula ou vota em branco?

E como quem pergunta quer saber, vos digo que me arrependi amargamente de ter perguntado.

Porque quem respondeu, salvo exceções, garantiu que ou anula ou vota em branco.

Naturalmente, quando eu tinha 16 anos, também achava que anular ou votar em branco era uma maneira inteligentíssima de protestar. E, assumo, cheguei a cometer este despautério certa vez. Porém o tempo passou, eu cresci e aprendi, rapidamente, que invalidar meu voto é uma maneira (bastante estúpida, aliás) de me abster, de lavar as mãos e dizer ‘não tenho nada a ver com isso, oi?’.

Acontece que temos, sim, tudo a ver com isso.

Inclusive, somos os únicos que temos alguma coisa a ver com isso.

Mais de 24 milhões de pessoas anularam ou votaram em branco neste primeiro turno. Bem mais do que todo o aclamado eleitorado de Marina, a quem petistas e tucanos (além de milhares de coligações), neste exato momento não cansam de cortejar e mandar beijocas. Se eu fosse um deles, estaria mais interessado na vertiginosa massa de eleitores que simplesmente optou pela opção de não optar.

No entanto, não estou aqui para falar de manobras politiqueiras, e sim deste tapa na cara da democracia, dado por quem deveria ser o primeiro a defendê-la e a zelar por ela.

Analisemos: as pessoas que me dizem que anularão ou votarão em branco não são analfabetos que passam fome e fumam crack embaixo de marquise. Não têm mais 16 anos faz tempo. A maioria estudou, fez faculdade, pós-graduação, mestrado, o escambau. São tidas como intelectuais. A “massa pensante” de nosso país; gente que lê e escreve livros e assiste documentário e sabe quem é Rimbaud.

Esses caras votam em branco.

Por quê?

O discurso geralmente é o mesmo, e é tão profundo quanto uma poça de água: protestar. Já que nenhum candidato presta, “olha aqui o que eu faço com meu voto seus bobos e feios”, e rasgam em mil pedacinhos, desdenhosamente, um dos poucos poderes que ainda lhes restavam enquanto cidadãos: seu voto.

Sempre – e eu disse SEMPRE – será melhor poder escolher, nem que as opções não sejam exatamente as que gostaríamos. Se não tivéssemos alternativa, acredite, seria ainda muito pior. Imagine você num restaurante, cheio de apetite, mas sem cardápio nenhum para optar por qual prato deseja, sentado numa mesa esperando que o garçom lhe traga uma comida que você não pediu nem sabe se irá gostar.

Votar em branco é mais ou menos assim.

E se você está aqui, lendo um texto na internet ao invés de ficar em salas de bate-papo inúteis ou em sites de pornografia, saiba que és tu o cara que tem a obrigação moral e cívica de zelar pela liberdade e pela democracia do país onde, querendo ou não, você vive.

Você, caro leitor-eleitor, que votou e pretende novamente votar em branco, precisa entender que poder escolher ainda não é um privilégio de todos, e justamente por isso você não deveria tratar tal regalia com tamanha desconsideração.

Por mais que nos pareça muito natural, e mesmo aborrecível, o hábito de ir até uma urna e participar de uma eleição democrática livre de fraudes, saiba que, para muitos, tal costume não passa de um sonho distante.

Aliás, tem gente aqui mesmo, dentro do Brasil, que vive em zonas consideradas à margem da lei, e que, justamente por isso, se tornaram verdadeiros currais eleitorais. Pessoas com os mesmos direitos constitucionais que eu e você possuímos, mas, que em pleno século 21, não escolhem em quem vão votar; votam em quem o chefe mandou.

E você que pode, que deve, que precisa, fica aí, à toa, vendo a grama crescer.

Faça-me o favor.

Por isso, vote no próximo dia 31.

Seja lá em quem for, vá até sua sessão eleitoral e deixe registrado o seu voto.

Se você acha os dois candidatos horríveis, ok. Vote, então, no que considerar o menos horrível. Afinal são as opções que temos, e, ou escolhemos um deles ou alguém vai escolher por nós. Além do que, se agora existem apenas dois candidatos, lembre-se que no primeiro turno havia nove – NOVE! – e não consigo acreditar que mais de 24 milhões de pessoas acharam que nenhum dos nove estava de acordo com pelo menos parte de suas convicções. Talvez porque sequer exista alguma convicção.

Mas enfim.

Entendo também que você esteja completamente desiludido com a política. Eu também estou, amigo, e dá cá um abraço! Mas acontece que, na prática, isso não faz a menor diferença, e é imprescindível que nós, cidadãos integrantes da classe que não usa a cabeça só para separar as orelhas, continuemos fazendo a parte que nos cabe, que é votar em quem acharmos melhor ou ‘menos pior’.

O Brasil é um país subdesenvolvido e cheio de problemas, mas nem por isso não possui qualidade nenhuma. E uma destas qualidades, sem dúvidas, é o fato de ser um país democrático.

Logo, não se pode lavar as mãos, tal e qual fez Pilatos certa vez, e depois reclamar mudanças, apontar defeitos, fazer barulho. Achar um absurdo alguém que vende seu voto, sem perceber que nem ao menos uma pilha de tijolos ganhou para desfazer-se do seu, como se este não valesse absolutamente nada.

Não adianta retuitar acaloradamente protestos contra a censura, a favor da liberdade de expressão e da democracia, e votar em branco.

Esta desvalorização eminente do direito de escolha do cidadão comum sobre quem governará o país onde vive é que preocupa.

Estes sujeitos que apertam a tecla BRANCO e confirmam realmente acreditam que, fazendo isto, estarão automaticamente pulando fora desta canoa furada chamada Brasil?

Porque não estarão não.

Eles continuarão aqui dentro, junto com a gente, e sem um dos remos, que é para complicar ainda mais sua situação.

Eu não gostaria que nenhum eleitor-nulo tivesse de sentir na pele o dissabor de se viver em um país onde a democracia não passa de uma doce utopia.

Eu mesma não sei.

Quando abri os olhos e o berreiro pela primeira vez no hospital, no comecinho de 85, o Brasil já caminhava a passos largos para se ver finalmente livre da ditadura e de seus milicos intolerantes; logo, desde que me conheço por gente, nosso país é um país livre e democrático. Só que não foi sempre assim, e nós sabemos. Até bem pouco tempo atrás ninguém escolhia nada, nem o que lia no jornal, e para reaver seu fundamental direito de votar muitos brasileiros tiveram que ficar roucos de tanto gritar pelas diretas já. Ou seja: deu um tremendo trabalho. Alguns nem sobreviveram para contar a história.

E agora nós, que na época dormíamos sossegados em nossos bercinhos enquanto outros batalhavam duro para nos deixar um país mais decente e democrático, chegamos nesta altura do campeonato esculhambando tudo e fazendo discursos vazios sobre não exercer um direito que outros brasileiros lutaram para que pudéssemos desfrutar.

Quer dizer, além de tudo, é muita ingratidão!

Votar em branco não é sinal de inteligência nem de protesto ou indignação.

É sinal de burrice.

Não dá para acreditar que o seu voto não fará a diferença. Estes mais de 24 milhões de eleitores-nulos que acreditavam que o seu voto não fazia diferença poderiam inverter completamente o resultado desta eleição.

Não podemos acabar comandados apenas por quem gosta de política e por quem a ignora completamente.

E é por todos estes argumentos, e pelo bom senso geral da nação, que peço mais uma vez e encarecidamente ao caro leitor-eleitor que, neste momento, me lê: VOTE.

Dia 31 pegue seu documento com foto, vá até sua zona eleitoral, clique no número do seu candidato e aperte CONFIRMA.

Ignore por completo aquela tecla escrito BRANCO.

Porque uma coisa é certa: em janeiro de 2011 o Brasil estará nas mãos de um novo presidente, quer você queira, quer não queira.

O Tribunal Superior Eleitoral não vai pensar: “Oh, 24 milhões não votaram, vamos repensar nossos rumos políticos?”.

Então, se você não pretende se candidatar à presidência da república e tentar resolver os problemas deste país do seu jeito, trate de eleger alguém, porque alguém vai ter que fazer este trabalho.

E é melhor que possamos escolher.

Na pior das hipóteses, o menos ruim.

“Vagabunda tem que morrer mesmo, mereceu”

Bruno Fernandes (Foto Divulgação)

Por estes dias, a badalada Copa do Mundo e a própria eliminação brasileira da competição precisaram dividir suas atenções com dois casos graves envolvendo violência contra a mulher.

Um destes episódios vocês já devem estar carecas de saber: o goleiro e capitão do Flamengo, Bruno Fernandes, não apenas matou Eliza Samudio, 25 anos, mãe de seu filho, como a matou com requintes de crueldades beirando o inacreditável.

Eliza foi seqüestrada, espancada, asfixiada, desmembrada e partes de seu corpo foram lançados para a alimentação de cachorros da raça rottweilers.

Tudo isso em meio à música, churrasco e cerveja.

O outro caso, de menor repercussão, não é menos sádico. Uma adolescente de 13 anos foi estuprada e, por pouco, não foi assassinada por dois garotos, ambos de 14 anos, em Florianópolis (SC). Ao que consta no inquérito, a menina foi até o apartamento de um deles, bebeu vodka e não se lembra de mais nada. Investiga-se se havia alguma droga em sua bebida, quem sabe o famoso e poderoso sonífero conhecido popularmente comoBoa Noite, Cinderela.

O fato é que, quando a menina acordou, o mal já estava feito, e só não foi pior porque a mãe de um dos meninos chegou ao apartamento na hora em que um deles tentava asfixiar a adolescente, que continuava desacordada.

Um dos estupradores é filho de um delegado de polícia e o outro, de um dos diretores da RBS TV – Santa Catarina, afiliada da Rede Globo.

Naturalmente, o caso, que aconteceu em meados de maio, foi sumariamente ignorado pela RBS TV (que controla 46 emissoras de televisão e rádio e oito jornais diários no sul do país) e, não fosse a internet – santa internet! – e a concorrência – santa concorrência! – talvez morrêssemos sem ficar sabendo de uma vírgula sobre este crime.

No entanto, apesar da sordidez, estes dois casos não me surpreenderam.

Todo mundo parece muito impressionado e aterrorizado com o que Bruno e estes dois adolescentes foram capazes de fazer, e eu juro que não entendo o porquê de tanta surpresa.

Talvez – e provavelmente – porque se tratem de um jogador de futebol famoso e de dois jovens da elite catarinense, mas horrores desta categoria acontecem todos os dias, o tempo inteiro, e mesmo assim todo mundo vira para o lado e dorme com os anjinhos.

Mas a verdade é que, se continuarmos virando para o lado e dormindo com os anjinhos, a violência vai acabar com nossas mulheres, sejam elas ricas ou pobres, famosas ou anônimas, jovens ou velhas.

O que aconteceu com Eliza e com esta adolescente de Santa Catarina, apesar de horrível, é corriqueiro.

A coisa tá ficando feia, e faz tempo, e se a justiça e a lei e todos nós não começarmos a dar um jeito nessa bagunça, eu sinceramente não sei onde vamos parar.

Porém, mais chocante do que o crime em si, é a reação quase doentia das pessoas, inclusive de mulheres que, em pleno século 21, ainda tem a coragem de culpar a própria vítima pela violência sofrida.

Eliza, ao que se sabe, já fez filmes pornôs e parece que tinha uma, digamos assim, simpatia especial por jogadores de futebol, se é que vocês me entendem.

Por isso – e só por isso – muita gente não apenas explica como endossa o crime bárbaro: “Bem feito pra ela” e “Vagabunda tem que morrer mesmo, mereceu” são alguns dos descalabros mais leves que tive a desventura de ler e ouvir durante esta semana.

Já a adolescente, dizem, nem estuprada foi, transou porque quis e agora está aí, fazendo cena. Neste caso, teve até um delegado, chamado Nivaldo Rodrigues, diretor da Polícia Civil de Florianópolis, que foi para a TV dizer que, sim, o ato sexual aconteceu, agora ‘se foi estupro ele não pode dizer, porque não estava lá’.

Isto me assusta mais do que a violência propriamente dita.

Porque depois destes dois crimes, que deixou um bebê de quatro meses órfão e uma menina de 13 anos traumatizada para todo o sempre, ainda somos obrigados a constatar o quanto nossa sociedade está com seus valores completamente distorcidos, e o quanto somos machistas e maldosos, cruéis e equivocados, ultrapassados e patéticos.

Somos tão condescendentes com a violência sofrida pela mulher, que crimes desta natureza já se tornaram estatística e não valem mais nem uma notinha de cinco linhas no rodapé do jornal.

A lei não condena o criminoso e a sociedade não perdoa a vítima.

Antes de tudo, é absolutamente necessário que se entenda que NENHUMA MULHER GOSTA DE APANHAR.

A MULHER QUE SOFRE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NÃO É UMA VAGABUNDA SEM VERGONHA.

É UMA VÍTIMA.

UMA VÍTIMA!

Entenderam ou querem que eu desenhe?

E enquanto vítima, ela precisa de proteção e respeito, e não de pedradas e acusações.

Repetirei isso até meu último suspiro.

E também repetirei, sem medo do que possam dizer ou pensar sobre mim, que eu também já fui vítima de violência doméstica.

Também apanhei, também fui ameaçada de morte, perseguida, aterrorizada, humilhada, o caralho.

E não registrei sequer um boletim de ocorrência.

E não o fiz não porque sou uma vagabunda sem vergonha que gosta de apanhar.

Não o fiz porque estava morrendo de medo.

Por sorte – e só por sorte – as ameaças do criminoso que eu chamava, na época, de namorado, não saíram da teoria.

Mas foi sorte minha.

Eliza Samudio na 39ª semana de gestação (Foto Divulgação)
Eliza Samudio na 39ª semana de gestação (Foto Divulgação)

Sorte que Eliza, por exemplo, não teve.

Poderia, sim, ser eu no lugar dela.

Poderia, sim, ser sua filha, sua mãe, sua melhor amiga no lugar dela.

Poderia, sim, ser você, prezada leitora, no lugar de Eliza Samudio.

Todos os dias, dez mulheres são assassinadas no Brasil – um país que, a propósito, é o que mais sofre com violência doméstica no mundo. Aqui, a cada sete segundos uma mulher é agredida em seu próprio lar. A violência doméstica é a principal causa de morte e deficiência entre mulheres de 16 a 44 anos e mata mais do que câncer e acidentes de trânsito. Cinqüenta e um por cento da população brasileira declaram conhecer ao menos uma mulher que é ou foi agredida por seu companheiro. Trinta por cento das mulheres brasileiras com mais de 15 anos já sofreram violência extrema. Entre 25% e 50% das sobreviventes são infectadas por doenças sexualmente transmissíveis. Setenta por cento dos incidentes acontecem dentro de casa, sendo que o agressor é o próprio marido ou companheiro. Mais de 40% das violências resultam em lesões corporais gravesdecorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos. Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que cerca de 70% das vítimas de assassinato do sexo feminino foram mortas por seus maridos. Pelo menos uma em cada três mulheres ao redor do mundo sofre algum tipo de violência durante sua vida. Mais de 41 mil mulheres foram assassinadas no Brasil entre 1997 e 2007. *

Após a leitura destes dados, o que dizer?

Que todas estas mulheres são vagabundas que gostam e merecem apanhar?

Não, meu chapa.

Quer dizer que as mulheres são presas fáceis para homens violentos e covardes – homens estes que deveriam estar envelhecendo atrás das grades, e não espancando mulheres dentro de casa, com a anuência de uma sociedade enferma com valores enfermos e, desculpem a generalização, tremendamente estúpida.

Porque, de um modo geral e salvando-se as exceções que, graças a Deus, sempre existem, nossa sociedade é estúpida. Mil vezes estúpida.

E burra.

Imoral.

Irracional.

Retrógrada.

Estamos no século 21 e até hoje as mulheres vítimas de violência sentem vergonha de falar sobre o assunto porque, se o fazem, correm um sério risco de serem apontadas não como a vítima que são, mas como a culpada, como a responsável por seu próprio martírio.

Precisamos parar imediatamente de defender e proteger o criminoso, e dedicar nosso carinho, atenção e, principalmente, proteção para a vítima.

Eliza Samudio e a adolescente de Florianópolis representam, neste contexto, todas nós, mulheres, inclusive aquelas que nunca sofreram nenhuma forma de violência – mas que continuam sendo mulheres, logo, vítimas em potencial desta sociedade alienada e machista.

Neste exato momento, enquanto você lê este texto sossegadamente no conforto de seu lar doce lar, uma mulher está sendo espancada, quiçá assassinada, bem debaixo dos seus bigodes e sem que você possa sequer perceber.

A vítima é vítima, e por ser vítima não está em condições de se defender sozinha.

Ela precisa de nós.

Eu sei, eu sei.

Nossa justiça é um lixo.

A Lei Maria da Penha, nossa máxima conquista nos últimos mil anos, tem até boas intenções, mas na prática não serve para nada – e a prova é que, há oito meses, Eliza fez um Boletim de Ocorrência por causa das ameaças de Bruno, e todo mundo, mais uma vez, virou para o lado e dormiu com os anjinhos.

O que fazer, então?

Enquanto cidadão, denunciar, denunciar e denunciar, incansavelmente.

E rezar para todos os santos para que nossa magnânima Justiça tome vergonha na cara e faça jus ao nome que têm.

Que prendam esses canalhas antes que eles concretizem suas ameaças.

Porque, na minha opinião, o sujeito que ameaça está a um passo de fazer o que diz que fará.

Não podemos mais pagar para ver.

E, garanto, com cem por cento de certeza: basta que se prenda e condene com maestria meia dúzia de machões covardes para que os crimes contra a mulher caiam pela metade.

A lei não serve para nada se não houver punição.

E a punição nunca será suficiente e justa enquanto nós não aprendermos a diferenciar a vítima de seu agressor.

* Segundo dados da Sociedade Mundial de VitimologiaFundação Perseu Abramo; IBOPE 2006; UNIFEM 2007; Organização Mundial da Saúde (OMS); Anistia Internacional e Instituto Zangari.

Cala a Boca Tadeu Schimidt

Tadeu Schmidt (Foto: Divulgação)

Não preciso nem entrar em maiores detalhes sobre qual é o assunto deste texto, né?

Este título é auto-explicativo.

Qualquer criatura que não habite uma caverna numa ilha deserta no meio do oceano ouviu falar que, no Twitter, teve gente que resolveu usar seus 140 caracteres para mandar um pessoal aí calar a boca.

Primeiro foi o Galvão Bueno, logo na estréia da copa. O comentarista da Globo, talvez o mais popular e certamente o mais odiado do país, foi alçado ao topo do Trending Topic BR (lista brasileira que reúne os assuntos mais comentados do dia no Twitter) graças ao CALA A BOCA GALVÃO, assim, tudo em maiúsculo.

A brincadeira foi tão longe que, quando chegou ao Trending Topic Mundial (que reúne os assuntos mais comentados do dia em todo mundo) e os gringos começaram a se perguntar que diabos era CALA A BOCA GALVÃO, um brasileiro peraltinha resolveu dizer que se tratava de uma campanha pela preservação do pássaro Galvão, em extinção no país. Logo havia cartazes e vídeo circulando na rede, e o assunto ultrapassou fronteiras.

Não dá para negar que é engraçado, apesar de ser só engraçado.

A coisa começou a ficar séria na noite de domingo, dia 20 de junho.

Durante o programa Fantástico, da Rede Globo, exibido todo domingo de noite faz mil anos, Tadeu Schmidt entrou ao vivo, diretamente da África, e em tom cerimonial queixou-se, ‘em nome de toda a imprensa’, da maneira indelicada com que o treinador da seleção brasileira, Dunga, tratava os jornalistas. Tudo porque na tarde daquele dia, e depois de uma bonita atuação contra a Costa do Marfim, na qual a seleção saiu vitoriosa, Dunga tratou com ironia um repórter da Rede Globo, durante uma coletiva de imprensa.

Tudo bem, todo mundo sabe que Dunga não é nenhuma Miss Simpatia. Todo mundo é conhecedor da birra do técnico com a imprensa, que vem lá dos anos 90 e da fatídica ‘Era Dunga’.

E a despeito do que cada um de nós pense do Dunga, o fato é que, enquanto Tadeu ainda choramingava, ‘em nome de toda a imprensa’, a má criação de Dunga, no Twitter o Cala Boca Tadeu já era o assunto mais comentado do país. Em algumas horas, o mais comentado do mundo.

Só que desta vez não era piada.

O pessoal, que em sua maioria até domingo de tarde tinha ojeriza ao Dunga por causa do que consideravam sua péssima escalação, passaram a defendê-lo ferrenhamente, mandando que o jornalista, porta-voz do desabafo global, calasse sumariamente sua boca.

Na verdade, Tadeu foi apenas um bode expiatório; o pessoal mandava era a Rede Globo calar sua boca. Uma emissora que, independente em que você acreditar, possui um histórico de especulações em torno de sua idoneidade, sendo acusada de manipuladora, de alienadora e outros adjetivos extremistas dos quais ninguém é capaz de duvidar.

É a primeira vez que, coletivamente, mandamos a Globo – um emblema inegável de força e poder – calar sua boca.

Imagina se houvesse Twitter por aqui em nossos anos de chumbo?

Tudo poderia ter sido completamente diferente.

Acharam exagerada minha comparação?

Pode ser.

Vocês podem estar certos quando dizem que uma ferramenta como a Internet (e tudo que vem dentro dela) não seja capaz de derrubar um governo tirano e opressor, mas vocês hão de concordar que, no mínimo, atrapalharia. No mínimo, causaria uma bela dor de cabeça em qualquer ditador metido a besta.

E para quem pensa que, num governo déspota ninguém poderia sequer acessar a internet, saiba que está redondamente enganado.

Cuba, um país tradicionalmente conhecido por ser comandado a mão de ferro pelos irmãos Fidel, não apenas possui o acesso a internet limitado, como também o acesso a comida e a luz elétrica e a papel higiênico e a água encanada. Falta tudo; tecnologia então, nem se fala. E mesmo num cenário aparentemente inóspito, eis que surge o blogue Generación Y (www.desdecuba.com/generaciony), da blogueira e filósofa cubana Yoani Sánchez – um blogue que fala basicamente de seu país, e da situação de penúria na qual se encontra o povo cubano. Yoani já foi ameaçada de morte, já foi presa, já foi proibida de sair do país e, recentemente, também foi seqüestrada e espancada por agentes da polícia política cubana, sem maiores explicações. Mesmo assim continua escrevendo e publicando, e não parece ter planos de parar.

Yoani só não foi ainda eliminada dessa história porque matá-la seria chamar escandalosamente a atenção para o grave problema que assola Cuba. Afinal o mundo inteiro conhece Yoani, e só a conhece por causa da internet. Se ela for assassinada, o governo cubano estará estupidamente assinando a autoria do crime, e certamente será cobrado a dar satisfações – e não apenas para Cuba, já acostumada aos seus descalabros cotidianos. Mas ao mundo todo, do Brasil ao Canadá, da Ásia a Groenlândia.

Pegaria muito, muito mal.

Talvez as pessoas ainda não saibam, mas parece que começam a descobrir o poder desta singela invenção chamada Internet, que traz o mundo inteiro para dentro de nosso computador e permite que naveguemos por ele, tal e qual os primeiros descobridores, porém no conforto de nossas casas e ao trabalho de um click.

Cala a Boca Tadeu pode até parecer uma imensa bobagem, pois, como lembraram muitos tuiteiros e retuiteiros, enquanto todo mundo se preocupa em mandar o Tadeu calar a boca, o senado aprovou 18% de aumento para os seus já endinheirados senadores.

Correto, é um absurdo 18% de aumento. Todo mundo concorda, do mesmo jeito que todo mundo está careca de saber que políticos surrupiam nossos níqueis todos os dias, descaradamente, seja através de aumentos despropositados, seja através de todo o resto.

Porém não é todo dia que nos mobilizamos para mandar a maior emissora do país calar a boca.

E, vejam bem: não tenho nada contra a Globo, particularmente falando. Também não sou daquelas ativistas neuróticas que culpam a emissora por todos os problemas da humanidade. Apenas a utilizo aqui como exemplo de um símbolo de poder, que poderia ser qualquer outro.

E é por isso que acredito que mandar um Cala a Boca Tadeu no Twitter é, também, uma forma de fazer política, quiçá mais significativa e interessante (além de bem humorada) do que ficar retuitando notícias do Senado e armando discussões bobinhas em mesa de bar.

Precisamos entender que estamos em 2010, e muita coisa mudou dos anos 70 pra cá.

A manipulação, antes escancarada, hoje vem travestida, disfarçada, perigosamente sutil. Os abusos são tão homeopáticos que mal e mal os percebemos. Não podemos continuar na tolice de acreditar que é pintando a cara e indo pra rua enfrentar a polícia e quebrar vidraça de loja que estaremos fazendo revolução e mudando o país.

Se isso adiantou no passado, não sei, mas agora não faz mais sentido nenhum.

A ditadura terminou, pelo menos do modo como a conhecíamos. E mudou a maneira com a qual o povo (eu, você, todos nós) se manifesta, e também se relaciona com a política.

Ouço muita gente dizer que a juventude é alienada, despolitizada. Eu discordo. Acredito que o que mudou foi a maneira de se fazer política. Ser politizado não se resume, apenas, a candidatar-se a cargos políticos, empunhar bandeiras, tornar-se militante e ficar retuitando notícias sobre seu candidato.

Eu, quando escrevo minha opinião livre de qualquer forma de censura aqui, na Revista Zena, ou em meu blogue, faço política.

O CQC e o Pânico, dois programas de humor muito populares da TV aberta, quando vão ao Congresso constranger nossos representantes e fazer piadinhas, estão fazendo política.

Todo mundo que assinou a petição on-line pedindo a aprovação do projeto FICHA LIMPA fez política.

Mudou as formas, o sentido ainda é o mesmo.

E por isso que, quando alguém escreve Cala a Boca Tadeu no Twitter também está fazendo política, no sentido de que a Rede Globo faz e sempre fez o que bem entendeu com a opinião popular.

É como se disséssemos: ainda estamos aqui, oi?

Vocês podem achar isso medíocre, e podem dizer que os revolucionários de hoje em dia são preguiçosos, medrosos, estúpidos.

Podem argumentar que um Cala a Boca Tadeu não significa nada, não muda nada, não representa nada – trata-se apenas de uma babaquice virtual e fim.

Todavia, caros amigos, grandes transformações sociais começam a partir de pequenas mudanças individuais, e a tal da revolução, que muitos ainda esperam chegar espalhafatosa, está vindo taciturna e discreta, porém mais rápida do que imaginávamos.

E a internet, acreditem, é nossa grande e principal aliada.

Os pessimistas que se dizem realistas discordarão, mas só não vê quem não quer que as coisas estão começando a mudar, e a mudar para melhor.

Evidente, nada acontece da noite para o dia, de um minuto para o outro. Não é num piscar de olhos.

No entanto, aos poucos e cada vez mais, vamos redescobrindo nossa força enquanto nação.

E isso simplesmente faz toda a diferença.

Yoani que, em Cuba, aos trancos e barrancos continua escrevendo seu blogue, faz política e é líder de sua revolução individual. Quem poderia imaginar que um simples blogue iria fazer o que Generación Y faz todos os dias, postagem após postagem?

Óquei, os Fidéis não cairão porque causa de seu blogue. A liberdade de expressão e os direitos mais básicos não serão devolvidos ao povo cubano por causa de suas postagens.

Mas Yoani faz barulho e incomoda, lá de Havana, sentada quietinha na frente de seu computador.

E nós, aqui, demonstramos através do aparentemente pacóvio Cala a Boca Tadeu que não somos tão cegos, surdos e mudos como poderíamos parecer.

Estamos aprendendo a incomodar, e isso é o início de uma barulheira impossível de não se fazer ouvir.

Avante, então.

E que assim continue sendo.

Legalize.

Gustavo Castro Alves foi detido (04/05/2008) por policiais militares na Praia do Arpoador (RJ) por apologia as drogas durante a Marcha da Maconha, proibida pela Justiça do Rio. (Foto: Marcos D’Paula/ Agência Estado)

Eu acredito muito no poder dos pratos-limpos.

Do preto-no-branco.

E entendo que não existe maneira melhor e mais confiável de resolver qualquer problema do que colocando-o sobre as luzes dos holofotes, tratando-o com a devida e merecida seriedade.

Proibir, criar tabus, blefar, varrer para debaixo do tapete e assobiar para disfarçar nunca resolveu problemática nenhuma, muito pelo contrário: apenas acresceu àquelas que sempre existiram.

E é por isso que afirmo, com convicção: está na hora de começarmos a falar sério sobre legalizações.

Sem histeria, fanatismo ou crendice.

Inicialmente, sugiro debatermos a regularização da maconha e do aborto.

Sim, maconha e aborto.

E desfaçam essas expressões de chocados, que isso não colaborará para tirar nossos pés da areia movediça na qual nos enfiamos.

Primeiro: esqueçam, definitivamente esqueçam, essa conversinha mole-pra-boi-dormir de que legalizar irá promover uma enxurrada de gente atrás de baseados e clínicas de abortos.

Isso não vai acontecer.

Sabem por quê?

Porque isso já acontece.

É, acontece.

Basta ligar a TV e abrir o jornal.

Os dados – estarrecedores – estão ali: só no Brasil, 3 milhões* de pessoas fumam maconha, e todo ano são feitos mais de 1 milhão e meio** de abortos clandestinos.

Ou seja: do jeito que estamos tentamos resolver até agora não está funcionando.

E não sou eu quem diz, são as pesquisas, os números, os fatos.

Seria inteligente, talvez, mudar de tática, porque esta que estamos usando, há tanto tempo, categoricamente não está dando certo.

Segundo: não confundam, peloamordedeus, legalizar com incentivar.

Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Quando falo em legalizar a maconha e o aborto, não quero dizer que vá  passar propaganda no intervalo da novela das 8 dizendo ‘fume’ ou ‘aborte’.

Não, não mesmo.

A legalização irá permitir, inclusive, um debate mais seguro e saudável sobre porque não se devefumar ou abortar.

Veja, por exemplo, o cigarro.

Mesmo legalizadíssimo e de fácil acesso, graças a campanhas de conscientização o número de fumantes cai ano após ano.

Porque não utilizar deste mesmo artifício para combater o aumento descontrolado de abortos e maconheiros Brasil afora?

Terceiro: não, eu não sou a favor do aborto.

Para mim é assassinato, não interessa se feito na primeira ou na última semana de gestação.

Acredito que, no momento da concepção, já existe vida e fim.

E ninguém, ninguém mesmo, vai demover esta ideia da minha cabeça.

Não faria, jamais, e não posso negar que tenho um certo desprezinho por quem já fez.

Sou contra, mil vezes contra, cem milhões de vezes contra.

No entanto, ninguém deixa de abortar por causa disso.

Muita gente não pensa como eu, e da mesma maneira que ninguém vai demover da minha cabeça a ideia de que aborto é, sim, um assassinato, ninguém vai demover da cabeça dessas mulheres que aborto não é, não, um assassinato, e que elas têm direito sobre seu corpo e blábláblá.

Aí vocês me dirão: então você é a favor de que legalizem o que chama de assassinato?

Sim, sou.

Porque vão fazer de qualquer jeito, então que façam dentro da lei, para que o assunto possa ser discutido abertamente, sem dogmas e preconceito.

E depois, que cada mãe se entenda com sua consciência.

Quarto: também acho melhor não fumar maconha do que fumar maconha.

Para algumas pessoas a dita cuja faz muito mal, é fato.

Não deveríamos fumar maconha.

Nem consumir gordura trans, açúcar, álcool, sal, chás alucinógenos.

Mas ninguém se importa.

Todo mundo fuma maconha, e consome gordura trans, açúcar, álcool, sal e chás alucinógenos.

Não  é porque está proibido, ou porque especialistas não recomendam, que alguém deixa de fazer qualquer coisa.

Com a maconha é a mesma conversa.

Ninguém se importa se a maconha está proibida; muita gente fuma e acabou.

Até a velha e estereotipada imagem do maconheiro fedido e chapado atirado na valeta já ficou para trás há muito tempo.

Hoje em dia sabe-se que, quem fuma maconha pode, além de fumar, trabalhar, sustentar uma casa, ter filhos, emprego, sucesso profissional e uma vida perfeitamente normal. Podem até serem atletas olímpicos, não é Giba?

Ou não, pois a maconha também faz muito mal e etc, mas isso é problema do sujeito que resolveu fumar.

Legalizando, descentralizaríamos o comércio das mãos de traficantes armados e aliciadores de menores, e teríamos, o estado e os cidadãos, mais controle sobre o estado e os cidadãos.

Capitão Nascimento até poderia deixar de lado seu discurso sobre ‘a maconha que financia o tráfico de drogas e mimimi’.

Não financiaria mais, iés.

Na minha opinião, é mais simples e eficaz legalizá-la do que esperar que os 190 milhões*** de maconheiros que existem no mundo parem de fumar apenas porque um publicitário espertão inventou um slogan espertão que diz ‘quem fuma maconha financia a violência’.

Ponto final.

Quinto: precisamos, urgentemente, deixar a hipocrisia de lado e encararmos nossos problemas de frente, com coragem e boa vontade para resolvê-los.

Varrê-los para debaixo do tapete ou torná-los ilegais não está funcionando, e precisamos aceitar isso com maturidade e lucidez.

Legalizando-os, poderíamos mais facilmente falar sobre eles, discuti-los, criar meios e maneiras de preveni-los, combatê-los, reduzir seus danos.

Já  passou da hora do estado deixar de ser nosso papai & mamãe e nos emancipar, cortar o cordão umbilical, nos deixar responsáveis pelas nossas escolhas.

Por mais que você não concorde com uma só palavra do que escrevi aqui, é preciso que reconheça que pessoas abortam e pessoas fumam maconha, quer queira, quer não queira, e proibir não tem ajudado a diminuir estes números.

Bem pelo contrário.

E se legalizar não for a melhor saída, que levante a mão e se manifeste quem tiver uma ideia melhor.

* Segundo Relatório Mundial sobre Drogas 2008, ONU.
** Segundo dados da Universidade de Brasília
*** Segundo dados da ONU.

HPV

Imagem com enquadramento entre o final dos seus até a area superior do joelho, segurando uma toalha apenas com mão direita o cobrindo a sua vagina despida (foto preto e branca)

Sabe o que é?

Pois deveria, camarada.

O HPV é um vírus capaz de provocar, inicialmente, microscópicas lesões de pele ou mucosa.

Na maior parte dos casos, tais lesões têm crescimento limitado e geralmente regridem espontaneamente.

No entanto, às vezes, o vírus se transforma em câncer no colo do útero e causa um tremendo estrago.

E nem adianta ir assobiando e saindo de fininho, mocinha.

Falo justamente para você.

Veja só: segundo dados do Instituto Nacional de Câncer, entre 50% e 80% das mulheres sexualmente ativas serão infectadas por um ou mais tipos de HPV, em algum momento de suas vidas.

Um número pra lá de significativo, concordemos.

Por motivo que desconheço, o HPV não é muito popular.

Quase ninguém fala, quase ninguém sabe, quase ninguém viu.

Eu mesma, que tenho curso superior completo, acesso à informação e muitos outros atributos que me candidatam a ser considerada alguém intelectualmente ativa, só tinha ouvido falar superficialmente do dito.

Sabia que existia uma doença com este nome, e aqui terminava meu número de informações sobre o assunto.

Até que num belo dia do ano de 2006, chocada, descobri que eu tinha HPV.

Engraçado como nunca pensamos que qualquer coisa vá um dia acontecer com a gente.

Mas acontece.

Não é  só com Os Outros, acredite.

E não: grupos de risco não existem mais, e tem tempo.

Isso significa, cara leitora, prezado leitor, que você, sua irmã, seu sobrinho e até sua tia-avó podem estar com o vírus ali, bem quietinho e há muito tempo, e sequer imaginar que isso é possível.

É que o HPV é um vírus cretino.

Pois, se você enxergá-lo, é porque a coisa já complicou.

Ele não causa NADA, absolutamente.

Nem dor, nem coceira, nem corrimento, nem sintoma nenhum.

Apenas fica ali, na dele, como quem não quer nada.

Até que um dia, e se por azar seus anticorpos não o expulsarem dali, vira câncer.

Considero importante assinalar que 99% (sim, noventa e nove por cento) dos casos de câncer do colo de útero estão diretamente relacionados ao HPV.

E todo ano, mais de sete mil mulheres morrem no Brasil em decorrência deste tipo específico de câncer.

Por isso, amiga, vá o quanto antes fazer um exame chamado Papanicolau.

É ele quem vai lhe mostrar se você também faz parte destas estatísticas.

O tratamento é simples, e nem dói.

E caso se confirme, além de se tratar não esqueça de pedir ao seu parceiro que procure um urologista e busque fazer os exames necessários também.

Apesar de não existirem estudos conclusivos, no homem o HPV pode causar câncer de pênis – além do que, por mais que o vírus seja consideravelmente mais cruel para elas do que para eles, os homens, se infectados e não tratados, continuarão a passar o vírus indiscriminadamente, mundo afora.

Por isso é  tão importante que tanto homem quanto mulher busquem descobrir se não estão hospedando um vírus que, apesar da pouca popularidade, é um verdadeiro e silencioso vilão.

Para saber mais informações, acesse a página de perguntas e respostas sobre o vírus do site do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e procure um médico.

Agora.

Os Grandes Valentões da Madrugada e O Dia Internacional da Mulher

Hoje, como a tevê já deve ter avisado através de suas inúmeras e, muitas vezes, constrangedoras propagandas, é o dia internacional da mulher.

E você, rapazinho, deve estar em casa neste exato momento, pensando o que vai comprar para dar de presente para sua mãe, irmã, namorada, avó ou professora.

Perfume? Roupas? Jóias? Rosas?

Não, companheiro, aceite meu conselho: não compre nada.

Instauraram o dia internacional da mulher com os mesmos objetivos escusos que instauraram o dia da criança, dos namorados, das avós, dos amigos.

Motivo para vender mais, blablabla e fim.

Acontece que mulher não precisa de perfume, roupas, jóias ou rosas.

Mulheres precisam de respeito.

E, algumas delas, além de respeito, precisam de ajuda.

Sim, ajuda.

Tem marmanjos demais por aí dando uma de valentão para cima de nossas mulheres.

E não faça essa cara de abajur!

Este é  um problema grave e perigoso, apesar de silencioso, e mais cedo ou mais tarde, acredite, vai bater na sua porta.

Acompanhem estes dados aterrorizantes, por favor.

Os negritos são meus.

  • Brasil é o país que mais sofre com violência doméstica, segundo pesquisa da Sociedade Mundial de Vitimologia (www.ipas.org.br);
  • No Brasil, a cada 7 segundos uma mulher é agredida em seu próprio lar (Fundação Perseu Abramo);
  • A violência doméstica é a principal causa de morte e deficiência entre mulheres de 16 a 44 anos e mata mais do que câncer e acidentes de trânsito (www.violenciamulher.org.br)
  • 51% da população brasileira declaram conhecer ao menos uma mulher que é ou foi agredida por seu companheiro (IBOPE 2006);
  • 30% das mulheres brasileiras com mais de 15 anos já sofreram violência extrema (UNIFEM 2007);
  • Entre 25% e 50% das sobreviventes são infectadas por DST (doenças sexualmente transmissíveis);
  • 70% dos incidentes acontecem dentro de casa, sendo que o agressor é o próprio marido ou companheiro;
  • Mais de 40% das violências resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos;
  • Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que cerca de 70% das vítimas de assassinato do sexo feminino foram mortas por seus maridos;
  • Pelo menos uma em cada três mulheres ao redor do mundo sofre algum tipo de violência durante sua vida, de acordo com estimativa da Anistia Internacional;

Por isso, amigo, flores e perfumes são bobagens quando, a cada sete segundos, uma mulher é vitimada física ou moralmente dentro de sua própria casa. Faça as contas e veja a gravidade da situação: enquanto você lê este texto, cerca de 25 brasileiras irão sofrer algum tipo de agressão.

É claro, não sou ingênua o bastante para acreditar que um sujeito capaz de bater em uma mulher leia um texto como esse e se sensibilize, assim como não creio que vá se sensibilizar com campanhas contra a violência e etc.

Também não boto fé que uma vítima de violência doméstica, depois de ler o que escrevo, seja possuída por uma súbita e arrebatadora bravura e resolva tomar uma atitude drástica – elas estão muito ocupadas morrendo de medo.

Por isto, este texto é para aqueles homens que não batem em mulheres, e acham isso o ó do borogodó, o fim da picada, o cúmulo dos cúmulos.

Vocês, homens de verdade do meu Brasil, podem ajudá-las.

Sim, vocês!

E explicarei aqui como e por que.

Primeiramente, é importante que todos saibam: nenhuma mulher gosta de apanhar.

Nenhuma; nenhumazinha sequer!

Então, paremos com esse discurso lavo-as-minhas-mãos-e-que-se-foda.

Se a mulher apanha, e continua apanhando, e não denuncia o sujeito, é porque tem medo, camarada.

Só isso.

Ela tem medo.

Medo de sofrer represálias, medo de ser assassinada, medo de sofrer mais agressões, medo por elas, pelos filhos, pelos familiares.

Eu sei, agora existe a Lei Maria da Penha, mas, cá entre nós, substancialmente, a dita cuja não serve para nada.

O agressor recebe uma intimação judicial que o proíbe de se aproximar da vítima, talvez pague umas cestas básicas e pinte alguns muros e canteiros, e tudo continua exatamente igual.

A prova do que digo é o número obsceno de mulheres que acabam assassinadas por seus companheiros, mulheres estas que, muitas vezes, fizeram não apenas um, mas dezenas de BO’s que não resultaram em absolutamente nada.

E estes casos de assassinatos, que só aparecem na televisão porque chegaram ao extremo, são apenas a ponta do iceberg.

Porque, além das vítimas fatais, milhares de outras continuam na mira da violência doméstica, caladas, envergonhadas, apavoradas.

Potencialmente condenadas à morte.

Nem critico a lei.

Não se pode prender todos os homens que ameaçam suas mulheres de morte, porque as cadeias mal possuem vagas para aqueles que, de fato, mataram. Também não existem policiais suficientes para que fiquem de prontidão na casa da vítima 24 horas por dia, pois o efetivo policial está em frangalhos, mal consegue cumprir com suas funções mais básicas.

Logo, a Lei Maria da Penha serve mais para um descarrego de consciência do que, de fato, para proteger a mulher de seu agressor.

Enquanto o homem que bate não tiver medo da punição, continuará batendo.

E acredite: para a maioria deles, meia dúzia de cestas básicas e algumas pinceladas de pincel na parede da delegacia valem à pena, desde que possam continuar aterrorizando sua mulher – esta, aliás, sua maior diversão.

Mas então o que fazer?

Eu respondo: essas mulheres agredidas devem ter um pai, um irmão, um amigo, um vizinho.

Não é  possível que não!

Não acredito que estejam sozinhas no mundo, a mercê.

E são esses homens que possuem a obrigação moral e cívica de defendê-las.

Sim porque, todos sabem: homens que batem em mulheres não passam de grandes covardes bundas moles.

Gostam bater nos mais fracos, porque, de igual para igual, parecem hamsters assustados.

É fato.

E sabem por que afirmo isso com toda a convicção do mundo?

Porque já  sofri violência doméstica também.

Sim, já.

E não tenho vergonha nenhuma de assumir isso publicamente – até porque, sob o meu ponto de vista, quem deve ter vergonha disso é ele, e não eu.

Faz tempo, eu era uma adolescente idiota e abobalhada, e o traste seguiu à risca a cartilha dos valentões: ameaçou, fez chantagem, descontrolou-se, fez e aconteceu.

E só  parou quando tomou meia dúzia de tabefes muito bem dados na orelha.

Exatamente.

O grande e perigosíssimo valentão da madrugada parou de latir assim que tomou o primeiro sopapo.

Cessou com as ameaças, parou de encher o saco, sumiu do mapa.

Sossegou.

E eu, mais ainda.

E foi só aí que entendi: os valentões da madrugada, que gostam de bater em mulheres, só são valentões da madrugada até encontrarem alguém mais valentão da madrugada do que eles – e vamos combinar: de valentões esses ditos cujos só tem a pose.

Ou seja: quem pode, de verdade, ajudar estas mulheres a se defender desses companheiros (?) violentos são os homens que estão à volta dela.

Seus amigos, seu pai, seu novo namorado, seu irmão, seu vizinho, seu colega de trabalho.

Boletins de ocorrência até são válidos, mas, no frigir dos ovos, acabam não servindo para nada.

As mulheres agredidas continuam em risco, continuam amedrontadas, aprisionadas ao seu próprio terror.

Sou daquele tipo de pessoa que acredita que alguns problemas a gente resolve no olho por olho, dente por dente e que se dane.

Homem que bate em mulher é covarde e só por isso bate em mulher.

Porque sabem que, em relação a elas, são mais fortes.

Mas na hora de encarar um homem ‘do seu tamanho’, se mijam nas calças pateticamente e fim.

Garanto.

Eu sei, este é um texto politicamente incorreto.

Afinal, estou sugerindo que resolvamos a violência com mais violência.

Mas, infelizmente, não consigo enxergar outra saída para este mal que atormenta uma mulher a cada 7 segundos, só aqui no Brasil.

E se você  acha que estou errada, e que violência se responde com amor e ternura, e que estes homens precisam de ajuda ao invés de punição, é porque nunca foi agredida, ou porque nunca viu sua amiga, sua mãe ou sua filha sofrer qualquer tipo de violência, qualquer tipo de covardia.

Eu já  fui vítima de violência doméstica, e faço parte destas estatísticas que você acabou de ler ali em cima.

Eu sei exatamente a dimensão do terror sob o qual vivem estas mulheres, sei exatamente qual a grandeza e a gravidade deste problema – e também sei o quanto são acovardados esses grandes valentões, que enquanto latem parecem cachorros grandes, mas é só você sapatear na sala e descobre que não passam de poodles cor de rosa amedrontados e comedores de ração.

Se não podemos prendê-los, então precisamos pará-los.

Temos a obrigação de impedir que suas ameaças se tornem reais.

Precisamos apresentar para estes homenzinhos meia boca homens de verdade, homens que os façam sentir exatamente o mesmo medo e o mesmo terror que incutem em suas parcerias, covardemente, estupidamente, grosseiramente, para que provem o gosto do próprio veneno.

Não dá  para esperar que mais mulheres morram para, só então, puni-los.

Homem que bate em mulher merece apanhar.

Precisa apanhar.

Tem o direito e o dever de apanhar.

É a única maneira de fazer com que estes grandes valentões da madrugada coloquem seu pequenino rabo entre as pernas e deixem suas ex-companheiras viverem em paz.

Ademais, que tenham todos um feliz dia internacional da mulher.

Sem perfumes e jóias, roupas e rosas, com respeito e proteção, agora e sempre.

Amém.

O amor é a vista de um ponto

Um ponto individual e intransferível, que varia conforme a sentença de cada cabeça.
Não existe quem, neste mundo inteiro, seja capaz de determinar, com exatidão e perícia, o que, de fato, é o amor.
Porque o amor é diferente para cada um.
E cada um, por sua vez, o manifesta e o recebe de um jeito igualmente diferente.
No meu ponto de vista, o amor é calmo.
Profundo tal qual o oceano, sereno como uma pequenina lagoa.
Amores arrebatadores, incendiários, que levam do céu ao inferno em menos de 5 segundos – amor a cento e vinte por hora – para mim, não são amores sérios.
Primeiro porque estão mais para paixão do que, propriamente, para amor – convenhamos.
E paixão, vocês sabem, é cão que late mas não morde.
Embucha, para logo em seguida esvaziar, deixando uma sensação cretina de fome.
A paixão, inclusive, só é boa porque termina.
Atire a primeira pedra quem já não teve um amor que não aconteceu, e por isso cristalizou-se com perfeição em sua fértil imaginação?
O amor perfeito é aquele que não existiu.
Apenas foi idealizado.
E o meu amor, além de sereno, precisa durar.
Durar para sempre.
Sim, acredito em amor eterno.
O desejo pode acabar, as afinidades desaparecerem, mas se houve amor em algum momento, continuará havendo, mesmo que termine.
Amor não existe sem amizade, são co-dependentes.
E um sem o outro é água no chope.
Ciúme?
Para mim uma das maiores máscaras caluniosas disfarçadas de amor.
Egoísmo puro, insegurança mal direcionada.
Crueldade na maioria dos casos.
E não venha me dizer que o amor desconfia.
Senão não é amor, como poderia ser?
Sob o pretexto de ‘cuidar’, estes amores afetados, mascarados, decepam indiscriminadamente a liberdade alheia.
Liberdade esta que mantém as pessoas vivas.
Quem ama quer o outro feliz acima de seus próprios desejos megalomaníacos.
Eu acho.
Amor passa pela tempestade, parcialmente ileso. Amor que vive só na bonança, não; definitivamente não é amor.
O amor morre e renasce também – tem mais vidas que o gato. Num dia você o enterra, jurando que ele se foi para sempre, no outro ele bate na porta, ramalhete de rosas na mão.
Amor é detalhe. Doses diárias e homeopáticas de amor são mais fundamentais que arroubos amorosos dilacerantes – quase sempre muito barulho para pouca sinceridade.
Amor só é amor quando vem da fonte: é preciso ter amor para poder dá-lo, recebê-lo, compartilhá-lo.
Se não tê-lo, como entendê-lo?
Amor é adaptação, sim senhores.
Não castração, muitíssimo menos autoridade.
Apenas adaptação.
Se não existe adaptação, não há troca, é amor egocêntrico, interesseiro, comodista.
Ou seja: não é amor.
Amor é silêncio também.
Não fala o tempo todo sobre o quanto é grande e forte e inabalável.
Amor que diz, na maioria das vezes, não faz.
Este, é claro, é o amor que vejo pelo ponto da minha vista.
É o que procuro dar, é o que busco receber de volta.
Apenas um gosto, uma opção.
Uma mera preferência.
É o que eu acredito que seja, verdadeiramente, o amor.
O resto é fogo que queima palha e não deixa nem brasas, só cinzas, e justifica que analistas e psiquiatras troquem de carro todo ano.
Tudo gente que ainda não descobriu que tipo de amor deseja para si – por isso nunca percebe quando encontra, sequer sabe o que está procurando.
Isso, é claro, na minha humilde opinião.
Na vista que vejo sob meu ponto.
Provavelmente o seu amor seja diferente do meu, mas e daí?
O amor sempre vale, até quando não o é.

A batata, o crack e a gente

CRACK - Quando a vida é trocada pela pedra (Por Daniel Marenco)

Um grupo de comerciantes de um bairro de São Paulo se reuniu, tocou fogo em alguns pneus no meio de um cruzamento, e iniciou assim um protesto, pedindo que a polícia, o governo, Deus ou qualquer outra autoridade disponível desse um jeito na cambada de fumadores de pedra – chamados por eles de nóia, de paranóia – que vivem por ali e estão espantando a clientela da região.

As vendas caíram estrondosamente, as ruas vivem imundas, o comércio fecha mais cedo porque, a partir das cinco da tarde, os primeiros viciados começam a chegar.

E de manhã, ainda é preciso mandar embora os remanescentes.

Realmente, uma situação difícil.

A noite cai, a pequena fogueira acesa em protesto se apaga e todo mundo vai para suas casas.

Então eles voltam.

São 40, 50, talvez muito mais.

E todo dia o movimento é maior.

Uma viatura da polícia se aproxima, estaciona.

Os nóias vão saindo devagar.

Não fogem e não parecem assustados, muito menos apressados.

O policial caminha entre eles, chuta uma latinha, dá um suspiro e vai embora.

Sentindo-se frustrado, imagino eu.

E a pergunta que não quer calar é: o que fazer com os muitos viciados em crack, que definham e multiplicam-se Brasil afora?

Levar para a cadeia e colocar onde?

Tocá-los, como se toca cão sarnento também não resolve pois, como cães sarnentos, eles sempre voltam, e voltam, e voltam, e voltam, cada vez em número maior e mais estropiados.

Apenas com uma pequena diferença: eles não são cães sarnentos.

São pessoas.

A verdade, meus amigos, é que a famosa crackolândia dos anos 90, distante e improvável, quase irreal, ganhou filiais por todo o Brasil e, posso apostar, tem uma perto da sua casa.

E junto com ela aumentou também (e consideravelmente) o problema: o que fazer agora, meus caros, que a merda já bateu contra o ventilador?

Levante a mão quem tiver uma solução.

Não temos clínicas e muito menos cadeias para abrigar tanta gente.

Não temos hospitais, não temos profissionais disponíveis.

Não podemos varrê-los para debaixo do tapete e está cada vez mais difícil fingir que eles não existem.

É realmente uma pena que tenhamos deixado o fogo atingir o picadeiro, pois agora, apesar do meu absoluto otimismo (daqueles incorrigíveis) começo a pensar que perdemos o combate.

Batalha a batalha, cavamos nossa própria cova.

Ao contrário do que parece, não pretendo aqui alarmar nem deprimir ninguém.

Apenas acredito que já passou da hora das iniciativas saírem do papel e do trololó para a vida real, o dia-a-dia, o vamos-ver.

Campanhas de conscientização e prevenção são fundamentais.

Organizações e associações, imprescindíveis.

Mas a verdade única e incontestável é que precisamos investir, sim, na saúde.

Antes de qualquer outra coisa precisamos de dinheiro, de grana, de verba pública.

São mais de 60 mil usuários, só aqui no Rio Grande do Sul.

Número este que aumenta enquanto você lê este texto.

Precisamos de investimentos para criar vagas nas cadeias, nos hospitais, nas clínicas. Precisamos de médicos especializados, de psicólogos, psiquiatras e remédios, muitos remédios.

Até porque, está mais do que provado que ações de curto prazo simplesmente não resolvem a questão. Apenas a empurra com a barriga e logo tudo volta, pior do que estava antes.

Precisamos dar um jeito para ontem nesta problemática, que é minha, e é sua, e é de todos nós.

Trocar os usuários de crack de lugar é simplesmente passar a batata quente para outras mãos e, no círculo vicioso que se tornou o consumo da droga no Brasil, logo, logo a batata torna para o mesmo lugar de onde saiu.

Ainda mais quente.

Ainda mais perigosa.

Diretamente e de volta para suas mãos.

 

ACOMPANHE DO VÍDEO DO FOTOJORNALISTA DANIEL MARENCO :

Mulheres-Macho

Nana was always a strong woman (Foto Lisa Folino)

Que a liberdade feminina, conquistada a trancos, barrancos e muita calcinha queimada em praça pública veio a calhar, ninguém duvida. Que nós, mulheres deste Brasil, estamos a passos largos desbravando nosso espaço em uma sociedade grosseiramente machista, também.

Sim, minhas amigas, chegamos chutando a porta e fazendo um gritedo: também queremos, oras bolas! Trabalho, salários altos, cargos importantes, responsabilidades, direito de dar para quem quisermos sem que, para isso, precisemos nos apaixonar perdidamente e querer subir ao altar.

A questão é que, desde os primórdios da existência humana, onde está o antídoto está também o veneno. E é aqui, justamente aqui, que se encontra o problema.

A maioria de nós, empolgada com essa história de liberdade e igualdade, perdeu a linha e, ao invés de aproveitarmos apenas as vantagens conquistadas (que antes pertenciam somente a eles), acabamos assumindo também seus defeitos, suas falhas, suas distorções. Pior que isso: seus mais estúpidos defeitos, falhas e distorções.

Resultado? Mulheres estressadas, frustradas, sobrecarregadas, a beira de um ataque de nervos. E por quê? Porque se eles podem ser vulgares, nós também podemos. Se eles podem comer qualquer uma e ir embora assoviando, nós também podemos. Se eles podem trair, mentir, enganar, iludir, nós também podemos. Se eles podem… Epa, calma lá! Não é exatamente assim que a banda toca, minha gente!

Explico-me: vocês sabem e eu também sei que nós, mulheres, possuímos características biológicas e emocionais completamente diferentes de nossos amigos homens, e não há revolução feminina capaz de mudar esta condição. Somos mais sensíveis, e usamos com muito mais vontade o lado direito do nosso cérebro, responsável pelos tais sentimentos.
Por exemplo: sexo. Todo mundo sabe e, inclusive, já está bege de tanto saber que os homens separam, com espantosa facilidade, o sexo do amor.

Nós, não. E não adianta fazer essa cara de que sim, você também separa, porque é mentira e você sabe. Lá no fundo, você sabe. A mulher se envolve, e sempre acaba acreditando que, desta vez, quem sabe?

Todas, TODAS são assim. Inclusive eu e você, e principalmente aquelas que gostam de dizer justamente o contrário. Mas não entre em pânico, isso não é culpa nossa. Não só nossa. É culpa também de nosso cérebro, de nossas emoções, de coisas sob as quais não temos controle. Por isso, sempre que uma mulher assume para si aquilo que pertence, somente e tão somente, aos homens, acaba se estrepando.

E sofrem, e se decepcionam, e tomam Prozac, e se tornam amargas e deprimidas.

Não, chega disso, meninas! Vamos parar de brincar de mulher-macho e tratar de nos conhecermos melhor. Saber o que, enquanto mulher e enquanto indivíduo, realmente queremos, e o que realmente serve e interessa para a gente.

Não precisamos e, principalmente, não devemos assumir, junto com as conquistas e direitos, os erros e os defeitos e as besteiras que os homens sempre impuseram sobre nós.

Se eles podem comer qualquer uma e sair assobiando, deixem que comam e saiam assobiando. Problema deles.
Se eles podem ser machões e ignorantes, vulgares e estúpidos, que sejam.

Nós podemos ser apenas quem realmente somos.

E para isso, não podemos cair no erro de acreditar que, para conquistarmos nosso lugar por aqui, e para sermos respeitadas e termos liberdade, precisamos ser exatamente como eles.

Deixe esse estereótipo patético de mulher-macho para lá, e vá tratar de ser a mulher que você é.

Porque essa sim é única, e verdadeiramente livre.