Tudo novo, um disparo, um jogo

Suécia Escandinávia Estocolmo (Foto: Divulgação)

Sonhei várias noites com a mistura disso tudo. Meu corpo diluído em acontecimentos funestos e pensamentos infindos. Fantasias incríveis e pequenos medos disfarçados de pormenores. Arrumei as malas e não pensei mais que duas vezes, duas vezes além de tantas outras, depois de tanto revirar arquivos e memórias. Não havia outra escolha a não ser colocar o dedo no gatilho e arriscar um disparo.

A consequência eu não sei, como não se adivinha jamais em que parte do tambor mora a última bala, como não se conhece o final de qualquer roleta russa. Dado o tiro, as consequências podem variar entre o fim completo ou um sofrimento descomunal, talvez uma paraplegia emocional… Contudo, otimismo é uma das minhas imensas virtudes, imagino uma nova memória. Depois da amnésia anterógrada, um mundo novo, quiçá com os mesmo personagens. Eu e você sem desacertos dessa vez. Olhei o espelho diferente hoje. Fui à rua. Comprei uma barra circular dois mil e seis, branca. Vou esperar o resultado disso tudo, pedalando.

Do amor e seu calendário.

O poeta me sussurrou ao pé do ouvido: “não seja imortal posto que é chama, mas seja infinito enquanto dure”, eu acreditei. Que quando uma história começa, é como um conto que escolhemos escrever, mesmo sabendo que não nos cabe escolher o final. A gente começa acreditando que é pra sempre, que vai ser a mais incrível de todas as histórias, o futuro mais lindo e completo de todos os sonhos realizados.

Colecionamos fotografias, dias, noites. Colecionamos cores de pôr-do-sol. Letras, músicas, saudades. Esperamos ansiosamente cada novo mês, cada aniversário. Criamos rituais só nossos, planejamos os anos seguintes. Dormimos abraçados, acordamos juntos. Noites ébrias, manhãs de sol, mergulhos intensos.

Aí o amor subiu no telhado…

Eu sei que se pudéssemos escolher não errar, não magoar, o faríamos. Se pudéssemos evitar o erro do outro… Mas, isso é impossível saber e fazer! A gente nunca percebe quando está escrevendo o fim do conto, ou nunca queremos acreditar que possa haver um final. Estamos acostumados a esperar que dure pra sempre o que sempre tem fim.

E existem amores que podem acabar, mas não morrer nunca. Ficam ali, estacionados, esperando as voltas do mundo, esperando pra retomar o que pode ter virado terreno de nunca mais… Enquanto a grama vai crescendo, enquanto os carros transitam, enquanto o sol adormece e acorda no horizonte, outras pessoas existem, outras histórias convergem, outros mundos se criam.

Sempre dói quando acaba, sempre parece insubstituível (e acredito que o seja!), não existirá outro amor igual, isso é certo! Também é certo que já não somos mais aqueles que de repente se descobriram namorando há anos atrás, que contavam as horas para um encontro, que usavam madrugadas e bancos de praça como testemunhas. Duas novas pessoas existem depois que um amor acaba. Se melhores ou piores, é possível escolher.

As despedidas são difíceis, eu sei. Mas não dá pra saber o que escolherão, o que escolheremos nas próximas páginas. Eu só desejo um sonho novo, mais intenso e forte, que os personagens sejam felizes, sejam quais forem! Que o amor que morre seja uma porta imensa, aberta para tudo o que pode nascer. E que esteja certo o poetinha, porque o mais importante do amor é que ele existe, mesmo que não dure para sempre!

Para ler ouvindo o Pet Sound dos Beach Boys. Por que a vida tem trilha sonora.