Figuras de la Exclusión acorda a flaneur

Pensar sobre. Refletir acerca de. A arte, ainda que somente sirva para o puro deleite estético, tem suas funções. A arte pela arte também tem a sua seta e o seu alvo – para mim, o prazer alcançado pelo simples derramamento de cores amigas e inimigas em uma tela. Particularmente, gosto do esteta, mas penso que o papel mais nobre da arte está no questionamento acerca dela. Acordar o homem para o mundo, talvez seja este o maior poder da nossa querida amiga.

O sujeito blasé do sociólogo Simmel somos nós, inseridos no espaço contemporâneo dos excessos de informações, que atolam, engessam e atomizam as sensibilidades. Nós, homens blasés, olhamos, mas não vemos. A arte acorda, então, o nosso salutar aspecto flaneur, que tateia a superfície do mundo como um recém-nascido. Somente sem pressa o mundo pode ser experienciado, preconiza o poeta Baudelaire, a própria personificação da flaneurie.

Figuras de Exclusión: una mirada desde el género, exposição instalada no museu Patio Herreriano (Valladolid, Espanha), pode ser um verdadeiro alarme para o mundo real. A historiografia artística tradicional pode ser marcada primordialmente por figuras masculinas (e assim é), mas a arte em si sempre foi produzida independentemente de gêneros. São esforços individuais que permitiram fazer ver, por exemplo, uma Camille Claudel (alguns dizem, inclusive, que os melhores trabalhos de Rodin eram de sua autoria).

A exposição se volta, assim, para artistas mulheres que ficaram à parte da historiografia artística tradicional da Espanha e, simultaneamente, mostra as obras de temática feminina produzidas por artistas homens. Estrutura-se em seis blocos temáticos – Representacões, Identidades, Arte Política, Direitos Humanos, Espaco privado/Espaco público e Naturaleza versus Razón. Passeando pelas salas, conheci a pintora gallega Maruja Mallo e sua abordagem de novos tipos estéticos, distantes dos nossos ideais clássicos de beleza.

Maruja Mallo, Cabeza de negra (1946)
Maruja Mallo, Cabeza de negra (1946)

O multiartista catalão Antoni Miralda, com os seus “ensaios de melhora”, que consistem em propostas de como viver com mais vida.

Laura Torra, Essai d’amelioration IV (1967) e  ssai d’amelioration V (1969)
Laura Torra, Essai d’amelioration IV (1967) e Essai d’amelioration V (1969)

As obras da artista madrileña Laura Torrado, voltadas para as questões da identidade feminina. Em entrevista para a Photo España, confira aqui, diz: “Como mujer me acerco al mundo a través de mi experiencia, de la visión limitada de la identidad que me conforma y hay que trabajar mucho a todos los niveles para ampliar las experiencias y ofrecer nuevas lecturas sobre lo femenino”.

Laura Torrado, Transhumance (1993)
Laura Torrado, Transhumance (1993)

A artista valenciana Victoria Civera e suas mulheres andrógenas, poderosas e enigmáticas.

Victoria Civera, Saliendo del Paisaje. 2000
Victoria Civera, Saliendo del Paisaje (2000)

Os retratos FANTÁSTICOS de Pierre Gonnord. É francês, mas vive em Madri há tempos. As fotografias… Parecem guardar na superfície de papel as texturas de pele dos retratados. Gonnord fala das singularidades de cada um.

Fotos de Pierre Gonnord
Fotos de Pierre Gonnord

As figuras de exclusão urbanas também estão nas obras da pintora catalã Ángeles Santos. Podemos ver um mundo que se afasta de tudo e todos que não pertencem a ele.

Ángeles Santos, Un mundo (1927)
Ángeles Santos, Un mundo (1927)

O artista asturiano Dionízio Gonzáles e sua série “favelas”, de 2004. Dionízio superpõe imagens de favelas e de edifícios modernos e nos choca. Como a riqueza e a pobreza convivem nas cidades?

Dionízio Gonzáles, Cadáveres Exquisitos (2004)
Dionízio Gonzáles, Cadáveres Exquisitos (2004)

A artista barcelonesa Ester Partegas. O nosso corpo-mundo sofre nos pontos vitais Hong Kong, Marrocos, Indonesia…

Ester Partegas
Ester Partegas

Entrei blasé. Saí flaneur. É sempre bom pensar, fazer respirar temas que ficam guardados nos nossos rincões mais profundos. Tirar o mofo. Fazer ver os tabus. Figuras de la Exclusión pede que você, hombre ou mujer, olhe nos olhos do próximo. Ao mesmo tempo, me lembrei do Brasil. Quem são as figuras femininas desconhecidas, mas geniais? Onde estão os corajosos homens que resolveram falar de mulheres? Quais são os nossos museus que mostram a outra face do baralho? Brasil, mostra a tua cara!

Patio Herreriano – Museo de arte contemporâneo español

http://www.museopatioherreriano.org

CONFIRA DO TEXTO DE MARIABO NAVARRO SOBRE LAURA TORRADA, EM ESPANHOL