Eterna busca por sentido

Peguei-me pensando no sentido da vida. No desenrolar dos fatos, dos anos que se arrastam ou voam, nas buscas pessoais, profissionais, nos sonhos, nas lutas cotidianas. Nas pessoas que entram em nossas vidas sem pedir permissão, nas que sonhamos ter para sempre ou já nos despedimos para nunca mais. O nasce, cresce, reproduz e morre já não é regra. Não, não é para mim. Nem é o sentido de tudo. Não viemos aqui unicamente para parir, ganhar um mini palácio no cemitério ou ser uma responsabilidade, um elo para alguém. Não só para isso. Somos e queremos mais. Mais de um motivo para acordar no dia seguinte e sentir satisfação por estar vivo.

Todo ser humano sofre de algo, mesmo os donos dos mini palácios, o rei do pop, rock. Qual o sentido do sofrimento, então? Essa angústia que pede sempre mais do mundo, e se corrói, sente dor, passa mal, quer morrer. Até os mais sábios provaram. O sentido de tudo seria a dor? Já dizia Schopenhauer: “Alles Leben Leiden ist” (Toda vida é sofrimento). Frase considerada catastrófica em pleno século 21 quando é uma das mais simples verdades existenciais. Para os budistas, a origem da dor e do sofrimento está na volúpia humana, nos desejos – por isso tentam reprimi-los. Lembro do Sidarta Gautama de Hesse cedendo por completo aos encantos de Kamala, experimentando e se entregando a todos os tipos de desejos e paixões, descobrindo uma felicidade nova, desconcertante, avassaladora.  Às vezes pegamos uma trilha, um desvio, e nos afastamos do caminho inicial. Mas nada é em vão, e sempre há luz atrás das ilusões.

Fiquei pensando nas pessoas as quais escolhemos a dedo, dizemos: É você! E depois nos enganamos, arrependemos, ou enfim encontramos nossa alma gêmea e estamos ligados até o sexosemfimamém. Muitos casais de namorados, e amigos, conseguem conservar uma convivência boa por toda a vida, pois a existência de um e outro faz todo sentido – mesmo distantes. A vida comporta desavenças, pode sim reconhecer ter ido pelo caminho errado. Como também pode morrer presa a situações indesejadas, onde o comodismo fala mais alto, o moralismo, a falta de capacidade de assumir o erro, a falta de clarividência, coragem ou amor próprio. Ouvi dizer que clarividência é um dom, ou se tem ou não, nenhum livro pode ensinar. Cada caso é um caso e “a vida é o que está acontecendo enquanto estamos pensando em outras coisas”, como disse há tempos minha amiga Leda Vahalla Crowley. O sentido é único, particular, e ao mesmo tempo ligado às pessoas, valores, noções. E o caminho é a verdade, o amor e a luz.

Dúvidas sobre o significado da existência humana costumam ser silenciosas, e sempre vão existir. Dificilmente os suicidas, descrentes que a vida tenha algum sentido, anunciam antecipadamente essa renúncia. Ao contrário, eles se deixam consumir por dentro, como uma chama crescente que um dia se espalha por todo o corpo e inflama. E o Homem Absurdo de Camus, descrente do sentido profundo das coisas?! É bom falar, pensar, tentar entender o destino que se interpõe constantemente no nosso dia a dia, no agora, no que passou e no que virá. Afinal, só colhemos o que plantamos.

  • Manu Bezerra

    As reflexões nos levam a evolução plena. Mas isso só vem no tempo e na medida certa. E paciência é dom.
    :*

  • Leda Pinheiro

    Acredito que a gente está sempre escolhendo e sentido, mesmo sem saber!
    Texto lindo!
    =**

  • Rejane Ulisses

    Belo texto e bela ilustração, parabéns!

  • Mercuryo Arcano

    “Admito que já resolveste o enigma da Criação;
    e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;
    e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes
    e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?

    ….

    O meu nascimento não aumentou o Universo,
    nem a minha morte lhe fanará o esplendor.
    Ninguém me dirá por quê vim ao mundo,
    ou porquê um dia irei embora.

    ….

    No turbilhão da vida são felizes aqueles
    que presumindo saber tudo não se instruem.
    Fui buscar os segredos do Universo e voltei
    invejando os cegos que encontrei pelo caminho.”

    OS RUBAYAT (Omar Khayyan)

  • É Mercuryo; é mais fácil, talvez mais feliz, ser boi no pasto.

    Desconhecer os mistérios e as verdadeiras verdades. Mas existem bois estrelas, àqueles sabe, com uma estrela na testa, desgarrados da massa, marcados pelo destino.

  • Lulu Dareal

    É Belisa, muitas pessoas entram na nossa vida sem pedir permissão, a muitas não dariamos esta permissão se nos fosse pedida, a outras não permitiriamos sair nunca mais de tão importante que se tornam para nós, mas, infelizmente é a lei da vida, algumas vão para os “mini palácios”, outras para longe sem que possamos fazer nada para impedir.

    Mas eu acho que o real sentido da vida é o Amor verdadeiro, incondicional, o Amor de se dar aos outros sem esperar nada em troca.

    Excelente matéria minha linda, aliás como todas que você faz.

  • Francisco Couto

    Belisa, me surpreende um pouco menos a beleza dessa matéria por entender que ela veio de ti, e desconheço quaisquer linhas escritas por ti que não sejam cheias do perfume da elegância, sagacidade e sensibilidade. Ótima discussão!
    Eu vejo a vida pelos olhos de um Budismo japonês do século 13, o do Buda Nitiren Daishonin, propagado hoje pela Organização Não-Governamental (que atua pelos Direitos Humanos, Paz, Cultura e Educação) Soka Gakkai Internacional. Nessa perspectiva, o sofrimento inerente à condição humana é material em cima do qual trabalhamos para despertar nosso estado de Buda imanente ao Universo.

    (penso aqui no conceito de imanência de Baruch Spinoza).

    Eu acho que a maior felicidade na vida é construir felicidade sempre, é nunca se dar por derrotado por saber que nossa capacidade de aprendizado e, portanto, de superação dos obstáculos, é incomensurável: ser uma pessoa melhor a cada dia, eis o desafio pelo qual despertamos nossa sabedoria de Buda!

    Me lembro de um “causo” que me foi relatado por amigo historiador de confiança e praticante de Kung-fu. Rafael, um jovem de Franco da Rocha/SP e praticante de Kung-Fu há anos, se classificou para ir disputar o campeonato mundial do “esporte”(eu penso como “arte”). Procurou que só, mas não teve patrocínio algum. Mas Rafael foi determinado, batalhou, conseguiu dinheiro de seu trabalho e foi a China e venceu o campeonato mundial!

    A história é triste se pensarmos em como o Brasil desperdiça talentos como Rafael,( e como você minha cara, que acho que faria um bem enorme se conseguisse escrever na grande mídia!), mas ela pode ser positiva se pensarmos que a determinação que ele teve, qualquer pessoa pode vir a desenvolver…. Auto-Desenvolvimento sem fim, pra mim essa é a Vida!

  • Flávia Oliveira

    Texto muito bom, me faz pensar mais sobre o tema. Adoro textos que me fazem pensar! Parabens!!!

  • Décio Dias Vaz

    Clarividência para mim é a certeza do consciente em pleno funçao e é um Dom num valor comum da natureza sendo essa “Natureza” a dona do nosso acontecer em vida. Parabéns!!

    • É bem isso mesmo, Décio. Obrigada. Clarividência!, até a palavra é bonita =)