O colosso de Sylvia Plath

Sob a melancolia abstrata de tardes cinza, frias, tortuosas, o espírito de Sylvia Plath se debruçava com impetuosidade no desejo de atingir a perfeição. Quem via sua beleza cruzando uma rua, dobrando uma esquina, jamais imaginaria o turbilhão interior escondido no semblante amável. Começou a escrever na infância, chamava seus diários de “mar de sargaço”. Quando Sylvia tinha oito anos, o seu pai herói, Otto Plath, faleceu. Meses depois ela nadou, nadou, nadou até aonde pôde, mas o mar insistia em lhe cuspir. Talvez soubesse que não havia chegado sua hora, que suas palavras com sabor de mar em fúria correriam o mundo. A morte do pai havia afetado a sua essência e deixaria cicatrizes profundas, inclusive a fascinação pela morte. Nesse mesmo ano, Sylvia conseguiu publicar o seu primeiro poema no Boston Herald.

A poesia de Sylvia Plath é enigmática, ao mesmo tempo expõe e guarda a cabeça dentro do casco. Suas metáforas são domésticas. A vida de uma mãe que banha as crianças, faz bolos e conversa com plantas se misturam com um ser febril genial. Elas não servem apenas para aproximar o conceito da imagem, mas as imagens, captadas nas emoções cotidianas, são o próprio conceito. Diferente de muitos, ela não conseguia elencar um tema aleatoriamente e discorrer sobre ele, como fazia o seu marido, o consagrado poeta inglês Ted Hughes. A inspiração de Sylvia vinha numa machadada, ao se olhar no espelho, lembrando as abelhas do pai, contemplando uma árvore morta ou viva – Sylvia morria e revivia todos os dias, havia uma luta constante pela sobrevivência, ocasionada pelas fortes crises de depressão.

Sylvia nasceu em Boston, Massachusetts, em 1932. Terminou seus estudos no Smith College em 1955, ganhou um concurso literário e foi para Nova York trabalhar na revista Madeimoselle. Um ano depois foi para Inglaterra, havia conseguido uma bolsa de estudos na Universidade de Cambridge pelo mérito da tese: “The Magic Mirror: A Study of the Double in Two of Dostoevsky’s Novels” – o cineasta italiano Bertolucci também se inspirou no assunto, em 1968, para criar o longa “Partner”. Sylvia estudava, escrevia, publicava em jornais e revistas da época, como o Varsity e St. Botolph’s Review, quando conheceu o seu futuro marido, o garanhão inveterado Ted Hughes.

Quatro meses depois se casaram, em 1956. Dois anos depois o casal foi para Boston, onde Sylvia lecionou e conviveu com o poeta Robert Lowell e a poetisa Anne Sexton. Em 1959 voltam para Londres, onde ela escreve The Colossus (O Colosso) grávida de Frieda Rebecca, sua primeira filha, e o livro infantil The bed book (Livro de cabeceira), publicado apenas em 1976. “A poesia que sinto é uma disciplina tirânica, você tem que ir tão longe, tão rápido, em um espaço tão pequeno, que você apenas tem que desviar de todos os periféricos. E eu sinto falta deles! Eu sou uma mulher, eu gosto de curiosidades, e eu acho que num romance posso obter mais da vida. Talvez não seja uma vida tão intensa, mas certamente mais da vida”, escreveu no seu diário.

Em 61 engravidou novamente, mas teve um aborto espontâneo, o qual ela descreve em Parliament Hill Fields. Em 61 muda-se para o condado de Devon, região rural da Inglaterra, e escreve The bell jar (Redoma de Vidro), onde há referências sobre as suas tentativas de suicídio. O livro recebeu críticas positivas, mas Sylvia se queixava cada vez mais do cansaço, da falta de tempo para escrever devido aos cuidados com o bebê e a casa. Em janeiro de 62 nasce o seu segundo filho, Nicholas Farrar; em março ela escreve e grava para a BBC a peça “Three woman: a poem for three voices”.

Invadida constantemente pela verdade, descobriu cedo que a existência é muitas vezes cruel; sim, o sofrimento é parte indissociável da vida – assim como fatores pessoais e poéticos foram e sempre serão indissociáveis da sua obra. Ela criava com fúria, com os sentidos agitados, descomunalmente. “Dentro de mim mora um grito. De noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar”, registrou no seu diário.

O casamento com o escritor Ted Hughes foi conturbado devido às traições do mesmo. Aos poucos Sylvia se deixou consumir pelo ciúme, tornando-se uma mulher neurótica, intempestiva, rasgava e queimava os escritos do marido, que acabou a deixando para viver com a sua amiga, com quem tinha um caso, a poetisa Assia Gutman.

Em carta para mãe, Plath escreveu: “Viver para além de Ted é maravilhoso, eu não estou mais na sua sombra”. Na verdade ela nunca conseguiu recompor-se, mesmo separados existia uma cumplicidade e amor monstros. Abalada pela separação, com gripes fortes e a solidão, Sylvia produz os primeiros poemas do seu próximo livro, o aclamado Ariel, lançado postumamente. “Esses meus novos poemas têm uma coisa em comum. Foram todos escritos em torno das quarto da manhã – naquela hora ainda azul e quase eterna, antes do choro do bebê, antes do tilintar musical do leiteiro arrumando suas garrafas”, comentou na gravação da BBC.

Sylvia voltou com os filhos para Londres no fim de 1962, contente por ocupar o apartamento em que o escritor Yeats havia vivido – a vida no campo estava insuportável devido ao isolamento. Entretanto, a mudança, com o passar o tempo, não havia conseguido dar jeito na solidão, no seu estado de saúde e espírito, nas obrigações cotidianas de uma dona de casa separada.

Na madrugada de 11 de fevereiro de 1963, Sylvia prepara o pão e o leite das crianças, as agasalha, olha como quem olha pra sempre, as beija e veda a porta do quarto. Vai até a cozinha, sem tristeza, limpa a mesa, a pia, abre o forno e deita a cabeça dentro sobre uma rodilha. Ela resolve, depois de várias tentativas, abraçar a morte, sua eterna amante. O pequeno Nicholas, 46 anos depois, comete o mesmo erro da mãe no Alasca, onde vivia.

Quem fala no poema é uma mulher que tem o dom grandioso e terrível de renascer. O único problema é que ela tem de morrer primeiro. Ela é a Fênix, o espírito libertário, se o quiserem. Ela é também apenas uma mulher boa, simples e muito desembaraçada”, comentou sobre o poema acima.

Espelho

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.

Tradução de Vinicius Dantas

Os Mannequins de Munique 
A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.

Desprendendo suas luas, mês após mês, sem nenhum objetivo.
O jorro de sangue é o jorro do amor,

O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu

Eu e você.
Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus sorrisos

Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,

Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata

Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.

Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.
Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,

Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos

Cintilando
Cintilando e digerindo

A mudez. A neve não tem voz.

Tradução de Claudia Roquette-Pinto

PAIZINHO

Não serves, não serves,
Não serves mais, sapato preto
Em que eu vivi como um pé
Trinta anos, pobre e branca,
Mal me atrevendo a respirar ou atchim.

Paizinho, eu tive de matar-te,
Morreste antes que eu tivesse tempo,
Mármore pesado, saco repleto de Deus,
Estátua medonha de dedo grande cinzento
Do tamanho de uma foca de Frisco

E uma cabeça no Atlântico mais esquisito
Onde ele derrama o verde-feijão sobre o azul
Nas águas da lindíssima Nauset.
Eu costumava rezar para te recuperar
Ach, du.

Na língua alemã, na vila polaca
Aterradas pelo rolo
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é vulgar.
Diz o meu amigo polaco

Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde tu
Fixaste os pés, as tuas raízes,
Contigo nunca consegui falar.
A língua presa no maxilar.

Arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em qualquer alemão estavas espelhado.

E a linguagem porca
Uma máquina, uma máquina
Em vapores leva-me como judia.
Uma judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Comecei a falar como uma Judia.
Acho que é boa ideia ser Judia.

A neve do Tirol, as cervejas clarinhas de Viena
Não são muito puras ou genuínas
Com a minha angelical cigana, o meu destino estranho
E as minhas cartas de tarot, cartas de tarot
Eu posso ser um pouco Judia.

Sempre me provocaste medo,
Com a tua Luftwaffe, a tua conversa vazia.
E o teu bigode lavado
O olho ariano, muito azul.
Homem-panzer, homem-panzer, oh tu_

Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu.
Qualquer mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Bruto coração de um bruto da tua espécie.

Estás de pé na pedra, paizinho,
Na imagem que trago comigo,
Em vez do pé, o queixo partido,
Não menos canalha por isso, oh não
o homem que partiu em dois
o meu lindo e vermelho coração.

Eu tinha dez anos quando foi a enterrar.
Aos vinte anos, eu tentei morrer
E voltar, voltar, voltar para ti.
E até pensei que os ossos serviriam.

Mas não me deixaram,
Juntaram os meus bocados com cola.
E então eu soube o que fazer.
Fiz um modelo de ti,
Homem de preto, com um aspecto de Meinkampf

E o amor de tortura e torniquete.
E eu disse eu aceito, eu aceito
E então, paizinho, finalmente estou acabada.
Arranquei o telefone preto da ficha,
As vozes já não se arrastam até aqui.

Se matei um homem, matei dois_
O vampiro que me disse seres tu
E bebeu o meu sangue por um ano,
Sete anos, se queres saber
Paizinho, podes voltar para trás.

Há uma estaca no teu coração negro e gordo
E os homens da vila nunca gostaram de ti.
Eles dançam e espezinham-te.
Eles sempre souberam que eras tu.
Paizinho, paizinho, seu canalha, estou acabada.

Tradução de Pedro Calouste

  • Belisa, você nasceu para escrever. Mas aceite o conselho do seu tio LARA: não invente de entrar nesse sonho infatilóide de querer viver apenas de literatura num país horrível como o Brasil. OK?

  • Tio Lara, obrigada pela preocupação e carinho familiar. Vou seguir o seu conselho, também é bom viver outras realidades para melhor descrevê-las. Mas os sonhos permanecerão na minha alma infantil.

  • silvia schmidt

    Belisa… incrível seu artigo , adoro Sylvia Plath, você consegue trazer dela o que todos deixam de lado … a poesia , que é roubada pela biografia… Parabéns

  • No One

    Lara, esqueça a própria ideia de Brasil – e continue. As palavras permanecem…

  • Leo Resende

    Muito bom viu…O carinha lá do sul tem razão… também existem bons escritores no calor do nordeste. Beso