Por Clarice

Nem lembro quando conheci Clarice, tenho a sensação que ela me veio por intuição em uma escadaria do colegial, com o tal dejavú. Fui devorando-a em pequenos tragos, sentando em degraus para degustar. Me encontro ao bebê-la.

Um dia me embriaguei e surgiu uma vontade louca de entrar na casa rosa da sua infância, na Praça Maciel Pinheiros, hoje uma loja de móveis. Entrei no comércio e fingi interesse em um sofá, uma mesa de madeira mais na frente. Por dentro o mundo rodava, eu estava lá, precisava conseguir pedir para subir. A atendente disse precisar falar com o dono, pegou o telefone e discou. A ânsia tomou conta do meu ser. Pensava no dono, quem seria? Pensava em Clarice, na mesa de madeira, supunha que a escada fosse de madeira também.

Minha consciência ficou tão tagarela como os ponteiros do relógio antigo na parede. O néscio não me deixou subir, ele não me deixou! Lembrei as inúmeras vezes que Monteiro Lobato foi negado à Clarice, caminhei até o banco da praça e sentei. Olhei para a sacada do primeiro andar e imaginei Clarice sorrindo para mim, retribuí complacente.

As palavras de Clarice sorriem plenas, sem extravagâncias, reflexivas e líricas flores de lis. Um verdadeiro êxtase de Deus, um milagre da literatura feminina pelo olhar existencial maduro, sensibilidade e amizade com a inspiração. O amor e o ódio em Clarice se complementam e ganham equilíbrio. A morte, tema recorrente nos seus escritos, é uma figura cálida e bela, o mistério lhe fascinava.

Clarice começou cedo, escrevendo pequenas histórias, crônicas oferecidas aos jornais, revistas, publicou o seu primeiro romance e não parou mais de escrever – necessidade pulsante. Publicou livros infantis e para adultos, com muitas mulheres de nomes estranhos como Macabéa. Típica e genuína escritora feminina, matriarca, talvez a crítica literária acadêmica possa atestar a linguagem peculiar da mulher em Clarice.

Espero um dia, breve, poder subir no primeiro andar do antigo casario rosa… Maravilhoso seria se ele fosse público, como o mar olindense e recifense da escritora. Nos embebedaríamos juntos cada vez mais de Clarice.  Que os poderes me ouçam.

  • Olá, Belisa.
    Gostei muito de sua crônica na Revista Zena. A revista me adcionou no orkut e logo encontrei o seu texto cheio de sentimentos. Observo que Clarice vive em vc assim como também vive em mim. Pbéns. Sou leitor de clarice e também gostaria de conhecer o casarão e também que ele fosse público.

  • Lucimara Cunha

    Belisa,
    Amo Clarice.Ela faz de todas nós casas rosas,infância, maturidade.Mulheres…o doce amargo de suas existências sem medo e fronteiras,consciência de ser, amar, existir.
    Bela crônica.Doce lembrança.
    Obrigada, Beliza e Zena.