Primavera Interrompida

Quando éramos mais novas e conversávamos abertamente sobre tudo, ela transparecia que seria a última a viver longamente um amor, a provar da comunhão de corpos e tudo mais que uma relação amorosa proporciona. A maternidade passava longe dos seus anseios juvenis. Ana Maria parecia Marketa de Kundera antes de conhecer Karel – o caçador irresistível. Liberta, solta ao vento, não deixava homem algum a oprimir. Carregava no peito a coragem de enfrentar uma interminável solidão e encarava as paixões com uma leveza invejável.

Corria solta no pasto, desembestada, mas nunca era a presa. Conduzia sua vida como uma boa jogadora de xadrez fazendo o jogo perfeito. Doce nos momentos certos, nunca deixava açucarar. Macia quando pegava um couro duro. Sedutora como Touch Me, de The Doors, mesmo sem conhecer a canção. Maria Bonita quando queria mandar partir.

Dizem que cada primavera tem um sabor diferente, algo mais fica, amadurece dentro de nós. Não há como negar que o tempo é o elixir da vida – mesmo que para alguns a vida demore a fazer sentido, efeito. Outros se descobrem por experiências casuais onde o final da estória é inimaginável. E há todo um meio termo. Somos também responsáveis pelo nosso caminho, por um novo dia, por aquilo que queremos ser.

Ana Maria, agora, parecia máscara e disfarce. Irreconhecível, pulava fora de qualquer segurança, se entregava a paixão, só ouvia o coração, saltava para a vida com sede de amor. Aos poucos a angústia da transição transformou-se em bem aventurança, e com ela um fruto inesperado chamado VIDA.

É certo que forças superiores atuam no nosso destino, assim como a lua dita as marés, há todo um poder maior agindo sobre nós. Quando estamos abertos a isso e não atropelamos as primaveras, invernos, verões, tudo fica mais bonito.