Sentimento ingrato

Carência é aquilo que falta, o abraço não dado, a mão não apertada, o beijo discreto de lado, palavras não trocadas, o encontro que ficou para depois. E é tudo muito subjetivo também, como quando nem sabemos o que nos falta. Ou esse vazio vem de algo tão banal que o próximo não consegue notar, nem temos coragem de falar.

Algumas pessoas são carentes de si próprias, e imitam, se espelham nos outros para suprir o que não acham nelas, com uma tentativa frenética de se encontrarem. A modernidade traz com o imediatismo, com as inúmeras possibilidades de entretenimento e tecnologias, a falta de conhecimento do eu. Além de afetar as relações presenciais; alguns sinais corporais deixam de ser entendidos, conversamos mais com a televisão e as redes sociais do que com o vizinho. Como sempre estamos vivendo, apesar de molas e porcas já terem saltado da cabeça de muitos.

Vejo também tantos se sabotando, esquecendo objetivos, perdendo metas, por pura carência. Fico triste quando percebo uma mente brilhante perder o ar da graça por necessidades tão humanas. Mas é isso, somos humanos, fazer o que? Às vezes me entristeço comigo mesma, mas a poeira logo baixa, descobri o antídoto.

A carência tem cara, tem cheiro, tem gosto, jeito. O que disse Gilmour em “Wish You Were Here”? O que grita Janis Joplin em “Pierce Of My Heart”? Se não é a falta, o desejo de estar junto. A carência, pura carência vestida de saudade, de amor ou falta dele. Hã? Contra o veneno indico, primeiramente, o pensamento de Sidarta Gautama, depois um bocado de amor próprio, os discos fase racional de Tim Maia, indico vida, olho no olho, tudo dar sem esperar nada receber.