Vamos dançar reggae

A primeira vez que o reggae chegou ao Brasil, oficialmente, foi na apresentação de Jimmy Cliff, final dos anos 60. Hildelarques, líder vocal da Bantus Reggae, um dos propulsores do reggae no Recife, afirma que o ritmo chegou aqui nos anos 70, quando surgiu o grupo Os Caretas de Casa Amarela, com a música Vento Norte. “Um dos fundadores dos Caretas era marinheiro e, viajando ao Caribe, conheceu os discos de Bob Marley e trouxe para cá – na época era proibido pelo governo a importação e veiculação no rádio”, declara.

Os propulsores desse ritmo contagiante no Recife foram: A Bantus Reggae, Ívano e Banda Rebeldia, Marcelo Santana e o Bando do Reggae, Valdir Afojá, Telmo Anum, Brasáfrica e Favela Reggae. Segundo Ívano, nessa época já existia o lado politizado do reggae music, que além de cantar Deus e ganja (mais conhecida como maconha) falava das dificuldades cotidianas como forma de indignação. A maioria desses propulsores são afro-descendentes, que, possivelmente, perceberam o poder da mensagem do reggae para a auto estima do africano “escravizado” na metrópole.

Segundo Hildelarques, no princípio houve uma identificação com a música, o balanço, depois o cabelo começou a crescer, as músicas começaram a ser compostas e as primeiras bandas surgiram tendo como ideal as bandas de reggae jamaicanas, principalmente Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer. Recife tem um cenário diversificado, bandas jovens como a Jerivá e a Homem do Mato. Antigas atuantes como a Bantus Reggae, com uma proposta musical de louvor a Deus, relacionando com o cristianismo que existia na Etiópia. Recife tem Tchida, de Cabo Verde, com a voz mais próxima de Bob, doce, suave. E a Coração di Negu, com seu reggae carimbó, cumbia, salsa.

A N’zambi com suas influencias no ska, dub, ragga, cubana e blues, é a querida do público recifense. Afeto merecido, os meninos são profissionais. Com um lema sensível e político, “Ser a voz da liberdade sem perder a ternura”, a banda cumpre com o ditado e completa sete anos no dia quatro de julho. George Marinho, vocalista da N’zambi, fala sobre o reggae recifense: “A cena tem muito potencial, mas falta acreditar mais nessa potencialidade. Precisamos levantar a cabeça e pensar que podemos ser bandas profissionais e respeitadas em Recife, sem se fechar em guetos e achar que apenas o reggae traz a verdade”. Segundo ele, para que esse cenário se consolide ainda mais é preciso quebrar uma idéia de isolamento e se engajar em associações como a AMP (Articulação Musical Pernambucana). “A AMP desempenha um papel fenomenal de esclarecimento e fortalecimento da categoria de músicos. Por que não ao invés de criamos um movimento reggae nos somarmos a essa galera que tem uma visão artística legal, também uma visão política libertadora. Sem dissociar a arte do nosso contexto social”, comenta.

Realmente o Recife acolhe muito bem o ritmo Africano, mas a cidade nem sempre se mostrou um bom mercado de shows, dizer que Recife é “circuito internacional de reggae” é mentira. A cidade não possui casas de shows adequadas para acolher bem a massa regueira, o público é mal tratado. A cena às vezes parece apagada, não por falta de competência dos músicos, mas de incentivo, de produtores dispostos a investir e trazer atrações de outros estados e do mundo. Ainda há reclamações frequentes sobre a falta de cumprimento dos contratos de pagamentos firmados. Os meninos do Recife que fazem reggae são verdadeiros guerreiros. É por isso, e muito mais, que parabenizo bandas como a N´Zambi, bato palmas e grito: – Viva! A comemoração será na linda Concha Acústica da UFPE, às 15h, na Várzea, reduto dos “daleloucos” mais artistas. Vamos lá mais uma vez, dançar: “A nossa dança tem suingue, tem alma”.

*É Reggae! – Aniversário de 7 anos da N’Zambi.
4 de julho, às 15h
Concha Acústica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Bandas: Homem do Mato, Filhos de Rudá, Augustinhu´s Dub, DJ Leon (Argentina) e N´Zambi