A cosmoloucura familiar de Badida Campos

Badida Campos abriu a exposição chamada “Memórias”. Me diverti procurando os quadros dela na Florense, parando na frente, os olhando dentro e fora dos contextos. Olhando, lendo, olhando, lendo, tantos estímulos… Fui atraída até para a cozinha, mas é praticamente impossível alguém colocar ela lá. Badida nasceu para as salas, quartos, bibliotecas. Janelas, jardins, mares, ares. Filha do escritor Moreira Campos e Maria José Alcides, prima de Rachel de Queiroz, afilhada de Aurélio Buarque de Holanda, um marido bom, filhos e netos que engrandecem o seu ser. Uma viagem no tempo dos relógios de Dalí que ela tanto ama.

Badida é cearense, gaiata por natureza, solte uma gracinha para ela na fila de um banco. É um humor arteiro, espirituoso, inteligente. Eu vivia tentando descobrir esse humor típico do Ceará na sua pintura. A maioria das mulheres de Badida estão com a boca fechada, são leves e ao mesmo tempo profundas, silenciosas, concentradas nos livros, animais, ou completamente etéreas, oníricas. Apesar de parecer, e ser, surrealista, descobri que Badida materializa relações cotidianas cujas percepções são verdadeiros sopros divinos. Sabe aqueles momentos simples onde tudo se encaixa perfeitamente e parece ter sentido? Mistérios divinos da existência. Sublimes. Encontrei todo o humor, inclusive na disputa com a neta pela janela.

Quando falo em sopro divino, me refiro, também, às figuras esvoaçantes que se sobressaem ou se escondem nas telas, formadas com as nuvens do céu, uma pareidolia, como no quadro “Preferência”. Que amigo lindo, Badida. Como é bom encontrar aos poucos os seus e os meus elementos. As suas imagens estimulam a nossa percepção sensorial e acabamos condensando figuras que saem de dentro de nós, das nossas vivências ou da imaginação. Uma espécie de cosmoloucura reveladora. O sorriso contente de olhos apertados e o vestido transparente lilás da menina do quadro “Infância” são um primor. Sou impressionada como Badida veste bem os seus personagens, estou com vontade de mandar costurar a indumentária da viúva alegre do quadro “A liberdade está lá fora”, tela do acervo pessoal de Ana Carolina Thé Garrido presente na exposição.

Encontrei nos novos quadros de Badida os seus bolos e brincadeiras da infância na casa da avó. Lembranças da Serra de Maranguape, em Fortaleza, onde ela escreve: “E tremem, azuis, os astros à distância”. O seu amor por Augusto dos Anjos na tela “Equilíbrio”. Uma leitura linda da lenda do Boto Cor de Rosa – pintada e escrita. As imagens de Badida ganham voz com as poesias e provocam um efeito coquetel impressionante. O desejo fabuloso de Moreira Campos, no qual ele diz: “Quero, filha, que todos os homens moram de amor por ti. Que ao ver-te fiquem inquietos, indóceis… Só não te quero ver, filha, à espera do namorado que não veio… ou confessando ao piano, ou ao papel, a solidão da tua música e do teu poema”. E Badida, calma e cheia de amor, responde à paixão:

Detalhe da tela “Ouvindo estórias”, 2011 (Foto Belisa Parente)

Descobri fetiches masculinos e femininos, poesias da pintora, quadros de coleções particulares, desenhos em papéis (técnica mista), mulheres suspensas por fios, sereias deleitadas. Ela teve a graça de colocar uma frase minha no título de uma das telas, para a minha infinita felicidade, amo o trabalho de Badida e o seu caráter, personalidade, jeito, energia, ou seja lá o que for, isso não é uma carta de amor, mas não posso negar o meu por ela só porque estou escrevendo sobre o seu trabalho. Contudo, deixo claro que primeiro fiquei louca pela obra e só depois conheci a autora. Inclusive, o título do quadro está num prosa poema meu inspirado, como num transe, nos quadros de Badida. Quando eu nem imaginava o seu rosto. O título  é ‘Não quero outro mundo, quero o profundo’ e ilustra a paixão de uma tia da pintora por um personagem de um livro – e a realização desse sonho num carnaval.

A exposição está aberta, de segunda à sexta-feira, das 9h às 19h, e nos sábados, das 9h às 13h, na loja de móveis Florense, situada na Av. Eng. Domingos Ferreira, 4242, Boa Viagem.

Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120x130 cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)
Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120×130 cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)

“A mãe, com o filho pequeno no colo, conta estórias na hora que ele vai dormir (daí o título). Há personagens no quadro que saíram das fabulas: a ovelha, o rato, o ganso, o cavalo, Comadre Florzinha, um gnomo, entre outros”. (Comentário de Badida Campos).

Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120x130 cm. 2012(Foto Belisa Parente)
Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120×130 cm. 2012(Foto Belisa Parente)

 

“O equilíbrio maior neste quadro é a alusão ao livro “EU” de Augusto dos Anjos, poeta maior, nascido na Paraíba e morto pela tuberculose aos 30 anos. Quando ele descobriu que estava com a doença (na época incurável) escreveu: “Tome doutor esta tesoura e corte a minha singularíssima pessoa; que importa a mim que a bicharia roa todo o meu coração depois da morte, se um urubu pousou na minha sorte”. Um urubu ao longe vai pousar no livro e há uma tesoura em primeiro plano ilustrando a frase do poeta e também mostrando que todo o equilíbrio montado neste quadro só foi possível porque a tesoura não foi usada”. (Comentário de Badida Campos – “Equilíbrio”. Óleo sobre tela. 110x90cm. 2012).

 “Infância”
Infância

“A casa da minha avó era mágica. Todos os dias eu pensava que tinha festa de aniversário, pois nunca vi a mesa da sala sem bolo. Havia também uma bela rosa perfumando todo o ambiente. Meu polichinelo gostava de ler e possuía uma libélula como bichinho de estimação. Já o meu irmão tinha uma máscara que falava alto e um boneco que, quando não estava dentro da caixa, beliscava todo mundo… e eu acreditando em tudo isto!!! Magia pura”. (Comentário de Badida Campos).

Detalhe “Infância”. Óleo sobre Eucatex. 120x80cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)
Detalhe “Infância”. Óleo sobre Eucatex. 120x80cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)
Preferência
Preferência

“Um amigo querido uma vez me contou que tinha grande encanto por mulheres com axilas depiladas, quase azulejadas e, assim, surgiu a ideia deste quadro”. (Comentário de Badida Campos).

Detalhe “Preferência”. Óleo sobre Eucatex. 120 x 80cm. 2007. Coleção Particular Armando Garrito (Foto Belisa Parente)
Detalhe “Preferência”. Óleo sobre Eucatex. 120 x 80cm. 2007. Coleção Particular Armando Garrito (Foto Belisa Parente)

Entrevista com Badida Campos

(março de 2012)

Quando você descobriu que tinha talento para a pintura?
Eu acho que não descobri, eu sempre desenhei, desde menina. E paizinho uma vez chegou para mim e disse: “Você que desenha tão direitinho, pro meu gosto pessoal, ilustre o meu livro Momento”. Aí eu fiz uma ilustração e ele gostou. Quando eu casei e vim morar aqui no Recife, o meu marido me colocou na Escola de Belas Artes. As minhas cartas para ele eram todas desenhadas com histórias em quadrinho. Ele achava interessante e quis que eu estudasse. Depois fiz a primeira exposição, comecei a ganhar prêmios e tomei gosto.

Quanto de imaginação existe nas telas de Badida e quanto de apreensão da realidade?
Me chamam de surreal, mas eu acho que sou simbolista, apesar de ser parecido. Você vê um quadro meu onde existe uma mulher velha lendo um livro e uma pomba na gola do vestido… tudo isso é imaginação. Sem criação tudo é menor, eu nem leio, nem pego, nem olho. Acho que criação é tudo.

Você releva a técnica em detrimento da inspiração? Ou é justamente a técnica que possibilita a concretização do imaginado?
Eu nunca tinha pensado nisso… Primeiro eu penso na história que me encantou, no livro que estou lendo, uma frase. Depois eu mancho a tela, faço um pano de fundo, e tento descobrir a mulher que está na minha cabeça, por exemplo. Eu relevo a técnica quando dou essas pinceladas, quando mancho, mas noutros momentos a técnica é fundamental.

Pintar dói, Badida? Dói como? Onde?
Dói, às vezes. Por exemplo, pintei um instrumento em madeira onde desenhei o sítio do meu pai que tinha cabras, galinhas, um galo da minha infância. A minha mãe, inclusive, escreveu o livro “O galo da minha infância”. Pintei, nesse instrumento, também, uma frase do meu pai, que diz: “Estes sons domésticos que são meus e tem a suavidade de música”. Essa pintura me doeu muito. Nela eu também coloquei uma maçã que fazia barulho à noite quando eu comia escondida. Meu irmão, por ser diabético, não podia comer doce, mas eu e a minha irmã podíamos. Aí o meu pai, inteligente como era, nos proibiu de comer as maçãs de Cid. Ele se sentiu o máximo e a maçã para mim ficou literalmente proibida. Ao pintar essa maçã me doeu muito. Quando o desenho não dá certo dói muito também. Ou quando você não gosta e apaga. Por outro lado, tem horas que é momento total de alegria.

Qual conselho você dá aos jovens que gostam de pintar, desenhar, escrever, criar?
O meu pai foi um menino rico e de repente não tinha mais nada. Dormiu numa rede atrás de uma porta de uma pensão em Fortaleza e começou a lutar pelos seus sonhos. Então é preciso lutar. Se, por exemplo, você tá sem tempo para escrever ou para pintar e liga alguém dizendo que irá lhe visitar, diga: – meu amor, não venha agora não que eu tenho que ir ao médico.

Foto da esquerda é o pé de Badida calçado e pintado pela própria. Foto da direira é Badida no seu quarto mágico (Fotos: Belisa Parente
Pé de Badida calçado e pintado pela própria e Badida no seu quarto mágico  (Fotos: Belisa Parente)
  • Wladson Marques

    Parabéns Badida, suas obras são fantásticas. Acho cativante o fato de tentar descobrir a histório por trás das imagens.

  • Margarita Solari Pascual

    Badida querida, esse Seu Universo rico, único, onde dançam pessoas, lugares, livros, conversas… dáo como resultado essa pintura maravilhosa que vocé cria. Adoro sua familia, embora muitos deles já foram, mas são inesquecíveis, a MEMORIA os trae sempre para ficar dentro de nós. Mil bjs, com saudade desde Fortaleza, Otto Cavalcanti e Margarita Solari – Desejamos muito sucesso!!