Lote sem começo, sem número, sem fim

Foi difícil começar a escrever sobre o livro de Daniela Galdino, o título da autora baiana, de Itabuna, prenuncia: ela é Inúmera. Como condensar o infinito e entrelinhas múltiplas? A minha ingênua aspiração poética e a forte lembrança dos recitais da poetisa me seduziram. Gosto de desafios e começo contrariando Manoel de Barros, quem a própria cita no prefácio e tem tatuado na perna esquerda: “Pelo corpo/Das latas podres/Relvam rosas”. Sim, concordo neste ponto, querido Manoel, mas por outro lado, perdoe-me, a poesia de Daniela é um belo utensílio doméstico para mim.

Em Inúmera não existe pessimismo, a leopardia realista dos homens é metáfora cheia nas mãos da poetisa. Lembro, neste aspecto e em outros, a prosa de Bukowski: “Estava caminhando ao longo da estrada, minhas meias duras e apodrecidas e fedorentas, os pregos estavam atravessando a sola do sapato e para dentro dos meus pés e eu colocava papelão nos sapatos: papelão, jornal, qualquer coisa que encontrasse”. Também nas suas performances, inesquecíveis, ela incorpora elementos que encontra pela frente e recita, declama e interpreta divinamente – “Deram um fuzil ao menino”, de Firmino Rocha, ainda soa nos meus ouvidos.

Li o poema “Quarto conselho infantil” e adquiri uma atitude diferenciada sobre o belo e o grotesco, um peso caiu das minhas costas, na verdade. Dois dias antes eu havia falado sozinha, feito doida, no Cais de Santa Rita: – Não aguento mais conviver com a miséria desses mendigos! A leitura de Inúmera, como uma luva, me fez desvencilhar do insuportável e enxergar a poesia no escarro cotidiano, na sarjeta, no trabalho árduo, sem dor, como diz a menina Samira do poema, debochada, sem saber: “Poesia é minha mãe/ Vendendo água mineral/ Na porta da agência bancária (para sobreviver)”.

Em “Redemoinho”, a poetisa, cáustica camaleoa, retrata as entranhas da separação:

Fatias à mesa
contra
a luz solar.

Répteis que
não se sabem
sonham dilúvios.

Incompatível é
contornar o caos
soprando fertilidades.

Já não há signos
a pôr desfecho
nas desgraças
generalizadas.

Ensaio o fim
-suicídio
compassado.

Perco tempo
e vomito
desalinhamentos.

Minha metade diabólica
é cúmplice
do vital assomo.

Leitora concentrada no Domingo Cultural da Casa de Hilton (Olinda)
Leitora concentrada no Domingo Cultural da Casa de Hilton (Olinda)

Seu universo poético é permeado por aventuras, chegadas e partidas pungentes, memórias, picadeiros, despudores, romances. Em determinado momento ela questiona: “Devo abrir a minha caixa de Pandora? Ou fechar o meu balaio para balanço?”. Daniela consegue ser clara e ao mesmo tempo nos faz parar para imaginar o que pode ser cada linha. Esse delicioso exercício estético me fez degustar saborosamente o livro. Como no trecho:“Acordaram-nos doces demônios./ Despertaram-nos arcanjos lunáticos./ Essa pequena multidão embriagada,/ esses saltimbancos da existência/ carregavam, aos risos, o corpo da aurora,/ anunciavam, aos gritos, o estalar do dia”.

Inúmera de Daniela Galdino (Editora Mondrongo)
Inúmera de Daniela Galdino(Editora Mondrongo)

Inúmera conta a vida das rameiras, de Maria, Dona Joana fiandeira, da tia Mercedes, do Capitão Rodrigo, Dandara, Luana, Dalila. A poesia de Daniela parece romper com ela mesma com a inebriante função emotiva e o uso feliz de hibridismos. Não há apelos, nem mesmo nos atos obscenos, ou nos cuspes atirados do sofá. “Suposição”dialoga com o prazer expresso por Rimbaud, quando ele diz: “Obscuro e franzino, um cravo de luz violeta/ respira humildemente, em espuma agachado,/ inda úmido de amor após tudo acabado/ das nádegas de leite ao coração da greta”.

Daniela é palco, aurora de si mesma. Em Fiat Lux!, uma das minhas favoritas, ela vira baleia, alga, peixe, estrela do mar, espírito de luz. A poesia de Daniela é inquieta. Assusta aqui e ali, sobe e desce ladeiras, estradas. Abre-se e lapida, revela e encanta. Pretensão oportuna atingir “as Macabéas, Úrsulas, Rebecas, Amarantas, Genis, Carolinas, Janis, Fridas, Claras, Elzas e obscenas Senhoras D que em nós sobrevive”, na voz da “lagarta listada” de Manuel Bandeira. Criança, dona, menina, senhora, filha, cortesã, mãe, amiga, mestra, senhorita… Daniela Galdino é realmente Inúmera.