O Jogador

Sempre menosprezei certas disputas, principalmente as dissimuladas. Acredito no destino, no velho o que tiver de ser, será! Mas de repente me vi como uma carta no baralho e questionei: é preciso jogar? Resolvi recorrer aos amigos, escolhi Dostoievski por admirar a sua alma existencialista. Para mim, escritos de um bom pensador são belos utensílios domésticos.

A ideia de roleta russa sempre me inquietou também, assim como o desejo de entender o jogo humano no mundo. Sente-se com sorte?O mundo às vezes pode parecer um jogo de azar. Algumas mentes atrozes bolam planos diabólicos, fazem contas, estudam profundamente o terreno, os inimigos. Costuram histórias, trapaceiam, dizem-se amigos, mentem – é difícil conversar com um mentiroso, sobretudo quando ele é um jogador decidido.

Aleksei Ivanovitch, o jogador de Dostoievski, ou o seu alter-ego, é um jovem astuto, desapegado, despreocupado. Ter tudo ou nada, possuir o status aleatório de rico ou pobre, amado ou detestado, são questões ditadas pela roleta, ou será melhor dizer, pela sorte? Por mais imprevisível que este elemento seja, a maioria dos jogadores desejam a presença do inexplicável facilitador. O russo de Dostoievski respeitava a sorte e a falta dela; acreditava que contaria com ela no momento certo. No fundo, altruísta e esperançoso, enxergava-a como uma poderosa carta na manga, uma salvação.

O personagem narrador de Dostoievski, Aleksei Ivanovitch, é o preceptor dos filhos de um general russo falido, porém confiante em herdar a fortuna da avozinha. Quando o general e os demais jogadores percebem que essa herança não sairá, as mascaras começam a cair e quase todos mudam as estratégias do jogo. Aleksei ironiza os aristocratas, seus medos, desejos, a forma de se relacionarem com o mundo e com as pessoas ao redor.

Os franceses e russos são bem caricaturados no livro O Jogador. Talvez pela necessidade de escrever a história rapidamente, para cumprir o prazo da editora e pagar as contas da casa. Mas ele conseguiu ser brilhante ao definir certos tipos de comportamento – detesto classificações mesquinhas. As pessoas são, antes de tudo, seres humanos, ou não? Um bom artista consegue descrever os seres originais, difíceis de encaixar um rótulo, escapolem das convenções sociais. Entretanto, o autor conseguiu ser pontual e universal, construindo o clima social das relações com as caracterizações.

“Des Grieus era igual a todos os franceses, isto é, jovial e amável quando necessário. O francês dificilmente é amável por natureza; dir-se-ia que sempre é amável por ordem, por cálculo. Se, por exemplo, vê necessidade de ser, fora dos hábitos, fantasista e original, a fantasia mais absurda e mais artificial assume nele formas de antemão admitidas e há muito vulgarizadas. Para mim, só as noviças e sobretudo as moças russas se deixam fascinar pelos franceses”.

“Às vezes, no estrangeiro, os russos são exageradamente poltrões, têm um medo horrível do que possam dizer os outros, do modo com que os vão olhar – será que isto ou aquilo fica bem? – em suma, portam-se como se estivessem metidos num espartilho, especialmente os que têm pretensões a importância”.

O jovem russo arrisca-se, ele é o personagem mais original, juntamente com a avozinha, uma idosa excêntrica, espalhafatosa – os únicos personagens livres. A roleta, com as suas voltas, pode ser metáfarora da vida. O zero repete-se, vermelho e preto, par, ímpar, pequeno e grande, depois de algumas horas a sorte pode mudar; a consciência, o lidar, a decisão de parar de jogar ou simplesmente brincar com o jogo no mundo. Os jogadores sabem, o vício/prazer é arrebatador, é difícil parar de jogar.

Por fim e recomeço, conclui o bom jogador de Dostoievski: “O que há agora é que… a uma só rodada tudo pode mudar, e esses mesmos moralistas serão os primeiros a aparecer felicitando-me e fazendo-me facécias amigáveis. Mas quero que se danem todos! Que sou agora? Um zero. Que posso vir a ser amanhã? Amanhã posso resurgir dos mortos e recomeçar a viver! Posso descobrir o homem em mim, antes que ele se perca!”.

  • Gostei muito! Apesar de ser um “cético” desgraçado… O inesperado acontece com alguma frequência… E a distância entre um passo ou a abertura de um novo horizonte é meio que o âmbito desse imponderável. Estarmos lançados a esse “jogo humano” nos cobra definitivamente tudo para sentarmos a mesa. Massa Belisa 😉

  • Lili Pereira

    Adorei o texto. Sou suspeita pra falar pq eu adoro teus textos.
    Eu também penso muito assim quando se trata de futuro. Será que já ta tudo escrito certinho, ou eu posso mudar algum! Vamos filosofar =) beijos

  • Leo Resende

    Gostei do seu texto criatura. Vou ler outros agora…beso