Tudo pelo contrário

O último homem que levei para comprar roupas comigo fez birra, bateu o pé e ficou de cara feia sentado num puf rosa nas lojas Marisa, enquanto eu fazia as compras – e eram apenas três calcinhas idênticas. Nunca mais levei ninguém do gênero para esse tipo de atividade, ainda que inclua algo no nível mental-libidinoso. Eles são assim, estranhos machistas, e jamais entenderiam porque nós precisamos entrar em lojas apenas femininas, ler editoriais de moda (fashion?) que mal usamos e nos sentirmos mais mulheres assim, mesmo que algumas de nós odeiem umas e outras. Equivale ao chop da quinta? Temo nunca ter essa resposta. Mas nem a Marisa é mais só feminina. Então não preciso me preocupar com a pergunta.

O tempo que nos cerca, ameaçadoramente, tem feito de nós presas. Não temos tempo para uma hora de ducha, e, mesmo que tenhamos, temos que pensar no desperdício da água e nas próximas gerações. Não temos tempo para comprar várias cores de esmalte e de tintas novas para o cabelo. E nem sempre a questão é tempo. Ao longo das primaveras, você começa a ter vergonha de certas coisas. Por exemplo, a vida me ensinou que a ida ao mercado com marido e filhos tem que ser objetiva, ou seja, comida, sobrevivência, e as futilidades femininas que se lasquem para lá. Ou prefere que ele fique enchendo sua cabeça com coisas ‘menos fúteis’? Como conseguiria calar três bocas mostrando as fantásticas cores do novo lançamento de esmalte? E aí eu penso onde cheguei: minha confidente é mesmo a dona do salão? É tudo uma lástima. Eu me perdi tentando me encontrar…

Estou ficando velha, feia e irritada. Tenho dúvidas se pinto ou não o meu cabelo, se pareço com Meryl Streep, em pura Prada, ou viro uma Marimoon sem os penduricalhos, porque aí já é demais. Não tenho mais meu quarto só para mim, não posso mais chegar em casa, ficar na rede até as 2h da manhã lendo Marian Keyes ou soluçando de chorar com o romance açucarado de Bridget Jones e Mark Darcy. Ah! Mark Darcy, você foi promovido ao número 1 na minha lista de TDBS, sigla a ser inventada ainda no próximo período de felicidade solitária.

Mas, sério, às vezes quero ficar feia também, passar dez dias de pijama e pantufas, quem sabe esqueço um pouco do trabalho? E queria chegar em casa, colocar as crianças no modo mute, reviver meus anos de princesa sonhadora que hoje esperaria por um Mark Darcy irlandês, e assistir sem parar Banquete do Amor, Vestida para Matar, O Diabo Veste Prada, e mil vezes De Repente 30. De Repente 30, aliás, deixa meu marido com vergonha de mim. Eu escondi uma cópia. Assisto quando estou sozinha, num sofá imenso, o filme rodando e, claro, acompanhada apenas por dois litros de sorvete do meu sabor preferido, bem egoísta mesmo. Há quanto tempo não realizo meus desejos mais moçoilas… E há quanto tempo meu marido está para ser promovido? Assim, se ele me deixar dois dias sozinhas na semana, na cara de pau mesmo, juro que iria amá-lo ainda mais.

Há poucos anos estávamos – quatro amigas inseparáveis – na casa de mamãe, no meu quarto rosa, adolecentes confusas com as confusões de adolecentes – e tome dúvidas! – assistindo Shaeskepeare Apaixonado e Show Dance, rindo às 3h da manhã, contando nossas vidas, as fofocas das amigas das amigas, e no auge de sermos amigas e de termos compromisso apenas com nossa felicidade. Dormíamos, nós quatro, em uma cama de casal num quarto desconfortável e rosa. Era a melhor coisa da vida! Não que eu goste de rosa, não me cai bem, mas é aquela coisa do cheiro e das cores da melhor época da vida de alguém.

Hoje, simplesmente, não tenho tempo de ficar sozinha. Juro que tento, mas não me deixam fazer isso. Pegar o carro sem rumo, saindo dos Aflitos para tomar uma água de côco na praia de Boa Viagem, e voltar, desencanada. Todo tempo que tenho para relaxar é durante a ioga e as aulas budistas uma vez no mês, que, pode acreditar, deixa meu marido encanado. Não tenho tempo para dormir cedo, porque me sinto menos produtiva. Preciso repensar a minha vida debaixo de uma cachoeira, acho que estou ficando viciada no trabalho. Era tão mais divertido quando estava viciada em álcool. Pelo menos tinha tempo de me lambuzar de creme hidratante – um para cada parte: unhas, cabelos, pele. E de ter ressaca todos os dias, juro!

Às vezes, só queremos estar sozinhas (no máximo com amigas ex-alcoólatras), entrar em uma loja de grife, e se sentir a própria Gloria Kalil. Mas ela, certamente, tem menos tempo que eu. E mais grana. Mas deve superar tudo com um guarda-roupa-chique-nas-últimas. Ou com um pijama da C&A, vai saber?!