Peite a vida!

O câncer de mama pode ser devastador para a autoestima da mulher, mas depois de enxugar as lágrimas chega a hora de renascer

Em Pernambuco, por ano, cerca de três mil mulheres descobrem uma das mais complicadas doenças pela qual uma mulher pode passar: o câncer de mama. Não por acaso a doença está associada à frustração e a diminuição do desejo sexual por parte tanto das mulheres, como por parte dos parceiros. As mulheres tendem a se sentir menos bonitas e mais infantilizadas. Isso sem falar nos diversos medos que assombram a pessoa adoecida. “Além de seu papel importante na vivência e na demonstração da feminilidade, as mamas são, também, órgãos que produzem e carregam o leite, são as fontes simbólicas da vida e da maternidade”, explica a psicóloga Daniele Leite.

Quando existe a necessidade de uma intervenção cirúrgica da gravidade de uma mastectomia, que é a perda total ou parcial da mama, pode-se considerar, metaforicamente, o tratamento como uma espécie de castração, que priva a paciente do desempenho simbólico de seu papel, de mulher sensual e mãe provedora, fazendo com que diversas mulheres se enxerguem de uma maneira bastante debilitada como mulher. Isso se torna ainda mais grave numa sociedade que cultua tanto o corpo como a brasileira, podendo trazer sérios danos à estima e à qualidade de vida. A psicóloga acrescenta que ao receber um diagnóstico de câncer de mama “a mulher passa a ter muitas dúvidas e questionamentos, muitos destes devido ao estigma da doença, que leva a muito sofrimento e quebra da rotina para o tratamento adequado”, avalia.

Em um estudo da Universidade Presbiteriana Mackenzie foram investigadas as modificações ocorridas na autoimagem da mulher mastectomizada, abordando tanto as mudanças percebidas pela paciente, como também as fantasias e angústias mais inconscientes que acompanharam a nova condição. No tocante à sexualidade, os dados obtidos apontaram que, após a cirurgia, 100% das mulheres apresentaram repressão dos impulsos sexuais, dizendo elas não serem mais capazes de obter prazer por este meio e também proporcionar prazer ao companheiro. 80% das mulheres pesquisadas apresentaram regressão a um modo de funcionamento mais infantilizado após o diagnóstico da doença. Também 80% das mulheres pesquisadas diziam se sentir menos mulheres em decorrência da doença.

Shirley Cunegundes nunca havia pensado em fazer uma mamografia, até que uma conhecida foi vitimada pela doença. Ela não sabia, mas já estava com um nódulo de dois centímetros quando descobriu que também teria que passar pela saga da amiga. Porém, diferente dela, que conta esta história para a gente, a amiga faleceu.

Como então, fazer com que mulheres possam superar um trauma tão grande como este e participar novamente de mundo social mantendo uma vida ativa e independente? Para Shirley, a resposta foi confiar o seu corpo à equipe que a tratou e se apegar à única coisa que poderia torná-la uma mulher feliz: “valorizar a vida que tinha”. Quando questionada sobre problemas a respeito de sua sexualidade e da relação com o marido, ela é enfática: “melhorou muito, pois passamos a valorizar mais o nosso tempo, as pequenas coisas da vida”, diz.

Depois de uma mastectomia radical, realizada há 16 anos, por opção dos médicos e com a qual ela concordou, Shirley conseguiu “cortar o mal pela raiz”, e tentar aproveitar a vida numa maratona em busca de informar outras mulheres sobre a importância de fazer exames periódicos. Vaidosa, ela conta que não teve problemas com o corpo. “Eu me acho linda maravilhosa, nunca tive problemas em relação à perda da mama. Não fiz reconstrução e nem faria. Vou à praia, uso biquíni e prótese numa boa”, revela, com um costumeiro sorriso no rosto, típico de pessoas felizes.

Há uma enorme chance de reabilitação social para as mulheres mastectomizadas. A terapia ocupacional é uma das alternativas capazes de ajudar nesse papel de retomada de atividades como tomar banho, por exemplo, com maior independência ou fazer adaptações com esse mesmo objetivo. Se sentindo mais autônoma, esta mulher pode encontrar de novo uma certa independência emocional, o que, intuitivamente, pode torná-la mais viva e importante para si própria, melhorando a imagem que tem de si mesma. O que, na verdade, pode resultar em um trabalho psicológico que colabora com a estima do paciente. Uma terapia psicológica ou até mesmo sexual, também pode ajudar as mulheres a se sentirem mais atraentes. Mas é necessário que a família e o parceiro possam demonstrar apoio e segurança e que haja incentivo e amor, alimento indispensável para nós, seres humanos.

Outras opções bastante recorrentes para quem quer continuar seguindo o ‘padrão de beleza’ são o uso de perucas – para quem perde os cabelos – e sutiãs especiais, que vão tornar a aparência dessas mulheres altamente positivas, tirando delas o estigma que muitas delas carregam por terem passado por um cirurgia tão delicada. Para quem tem fôlego de enfrentar uma sala de cirurgia, silicones e outros tratamentos estéticos estão à disposição no mercado. Mas, é preciso estar atento. Segundo Daniele, é preciso ficar atento para não nos preocuparmos demasiadamente. “A certeza de outrora dá lugar apenas às dúvidas e indagações e se as mulheres não tomarem verdadeira consciência de si mesmas e de seus corpos, podem ficar sujeitas às manifestações e arquétipos (padrões de comportamento) ao qual a sociedade impôs e impõe a mulher a cada minuto e sobre os quais podemos nos tornar reféns.”

Quando a mulher se vê novamente podada do poder de despertar o mito da Deusa, em função da descoberta de um câncer, precisa se reestruturar. São as lágrimas que necessitam ser enxugadas que levam essas mulheres a se reconstruírem e a renascerem. Shirley confirma: “o que mudou na minha vida foi dar mais valor as coisas que achamos pequenas, trabalhar, correr atrás da vida, aproveitar cada dia, agradecer, não procurar coisas para estar sofrendo”, diz ela. E finaliza: “em qualquer situação temos que pensar em nós, em sobreviver, e não ficar se lamentando. O resto Deus ajuda”.

  • Cláudia Daniele B. Leite

    Parabéns pela clareza do texto Camila! Acho que a cada dia temos que tocar e “retocar” neste assunto que mutila a mulher pelas diversas perspectivas. E que peitemos a vida!