Sexo! A terceira idade PODE

A expectativa de vida em países desenvolvidos tem crescido espetacularmente, aumentando a margem de idosos saudáveis e ativos mesmo quando o assunto é o sexo. Mas a sexualidade na terceira idade parece não receber a devida importância da sociedade, que acredita, comodamente, que a atividade sexual declina com o surgimento dos cabelos brancos. Certamente esse não é o caso de Maria Carla Marinho. Sexualmente ativa, brincalhona, gosta de namorar e, o mais importante, se sente feliz com o fato de ser como é. E, se a noite terminar em boa companhia, melhor ainda. A idade? Nem pense em perguntar.

A relação sexual tem sido considerada uma atividade própria e quase monopólio das pessoas jovens, com boa saúde e fisicamente atraentes. A ideia de que os idosos também possam manter relações sexuais não é aceita por muitos, que relegam a eles um personagem fictício repleto de castidade. De acordo com Amparo Caridade, especialista em sexologia humana, a atividade sexual não desaparece na terceira idade, mas se transforma. “Na pessoa madura, a sexualidade compõe o quadro de relacionamento estável e troca mais profunda de emoções. A pessoa idosa pode viver tudo isso, mas jamais deve se exigir um nível de desempenho próprio de um adolescente”, diz.

Maria Carla Marinho (Foto: Camila Ribas)

Carla Marinho (foto ao lado) ficou viúva aos 22 anos, com um bebê nos braços e uma gravidez em curso. Naquela época, não imaginava que aproveitaria tanto sua vida como hoje. Durante a transição, sofreu pressões psicológicas e “ficou amedrontada”, mas optou por não deixar a vida passar. Desde então, está focada em curtir, mesmo com os filhos e netos não gostando muito de seu modo de vida ‘namoradeira-assumida’. Carlinha, como é chamada pelos amigos, não deixa de sair e nem de ficar com os gatinhos, sempre que há oportunidade. Hoje está namorando um rapaz de 32 anos, o “lindinho”. E ela só consegue fazer isso porque não está “preocupada com o que os outros possam pensar”, explica.

Por conta do desconhecimento e da pressão cultural, alguns idosos experimentam um sentimento de culpa e de vergonha por se perceberem com desejos sexuais, chegando a pensar que são anormais. Além disso, tendem a associar o sexo à procriação, quando, na verdade, deveriam associá-lo também ao prazer imediato. “As pessoas idosas não devem se envergonhar de uma coisa bonita como é o desejo. É um sinal positivo de que sua saúde emocional lhe garante essa vitalidade”, diz Amparo. E Carla complementa: “amigos estranham o meu jeito de ser, mas minha idade não faz a menor diferença se há homens que gostam de mim e a gente termina se apaixonando, como pessoas em qualquer idade.

Outro ponto a ser discutido é o fato corriqueiro de considerar a sexualidade exclusivamente calcada no coito, não compreendendo ou concebendo outras atitudes, condutas e práticas igualmente prazerosas. “As pessoas sentem-se muito para baixo quando apresentam dificuldades com o desempenho sexual. No entanto isso pode ocorrer em qualquer fase da vida”, revela Amparo. Quando isso acontece é porque fala mais alto o preconceito em relação à idade. “A genitalidade pode entrar em cena, mas não se pode reduzir a sexualidade apenas a isso. É uma distorção cultural”, explica a especialista. O ideal, segundo Amparo, é começar a enxergar a sabedoria de conviver com a felicidade simples e bonita de estar com o outro numa troca amorosa e amável, o que, muitas vezes, é muito mais importante para manter uma relação amorosa viva.

Carlinha não tem esse problema. Admite que gosta de ser uma pessoa ativa e, às vezes, até dá conselhos para amigas que não querem mais saber de sexo com os próprios maridos. Ela diz que falta às mulheres saber “criar o clima” e se sentirem como mulheres desejadas, atraentes e vivas. “Não se vive sem amor. Se tem gente paquerando comigo e me procurando é sinal que ainda estou bem e principalmente agradando”, fala.

Amparo Caridade (Foto: Divulgação)

Para reativar sentimentos e sensações relacionadas ao corpo e à sexualidade, o primeiro passo é repensar a própria sexualidade. O que você pode, quer e deseja? E o que você deixa de fazer é porque não quer ou você se sente envergonhada? De acordo com Amparo, “não se deve seguir a cartilha de ninguém”. Carlinha pensa assim. Por isso, procura se ocupar, inclusive com atividades que estimulem sua sexualidade. Participa de aulas de hidroginástica, e também de dança do ventre. “Apesar de meu namorado não gostar da dança, não deixo de fazer nada. Se não estiver gostando de como eu sou, a fila anda”, brinca a ‘dançarina’, e finaliza: “não podemos parar a vida”.

Serviço: Projeto UFPE “A dança reinventando a imagem do envelhecimento”
Telefone: (81) 2126.8931

Dica do médico
Por Dra. Thereza Medeiros, ginecologistaAs idosas têm um déficit hormonal muito grande porque os ovários não estão mais atuantes. Sem os esteróides sexuais, a lubrificação fica comprometida, deixando a vagina mais sensível e delicada, portanto, muito mais exposta a lacerações, vaginites e vaginoses. É preciso um acompanhamento médico para manter a harmonia entre a sexualidade e a saúde.