Ceridwen A tríplice luz da vida

No Mabinogion, livro que relata as lendas celtas, Ceridwen é o princípio feminino do universo. Também Cerridwen, ou ainda, Caridwen, é uma Deusa Tríplice (donzela, mãe e velha), uma Grande Mãe, cujo animal sagrado é uma porca branca. Seu domínio tanto é do nascimento quanto da morte, pois o mesmo fio que tece o processo da vida, tece o da morte e, por conseguinte, o do renascimento. Na verdade, um fio continuo, olhando-se de uma realidade maior ou divina.

Está relacionada com os grãos, as ervas, a fertilidade, a regeneração e a cura. Como deusa lunar representa a lua minguante e um dos seus símbolos é o caldeirão. Além disso, é senhora da inspiração, da magia, da ciência, da poesia, dos encantamentos e do conhecimento.

Conta-se que tinha um filho horrivelmente feio, e quis dotá-lo de sabedoria. Um dia, quando preparava no seu caldeirão uma poção com esse fim, algo aconteceu de inesperado. A mistura deveria ser cozinhada por um ano e um dia. Um homem cego mantinha o fogo aceso sob o caldeirão enquanto um menino, de nome Gwion, mexia a porção. As três primeiras gotas do preparo tornariam o homem sábio, porém o restante o mataria num átimo*, já que era um veneno letal. Três gotas quentes espirraram na mão de Gwion, queimando-o. Num ato reflexo, devido à dor, o menino levou a mão à boca, tornando-se um sábio ali mesmo.

Ceridwen foi atrás de Gwion para o punir. Na tentativa de fugir da deusa, ele transformou-se em alguns animais. Por fim, em um grão de milho. Ceridwen metaforseando-se numa galinha o comeu, mas ficou grávida. Ela então decidiu que mataria a criança ao nascer. Não o fez encantada com a beleza do recém-nascido, e como na maioria das mitologias, a criança foi exposta a própria sorte e salva milagrosamente. Essa criança renascida se tornaria Taliesin, um lendário bardo.

O mito começa com uma tentativa de compensação. A condição exterior seria compensada por uma beleza interior. Não são poucos os casos de pessoas, que dispondo de poucos atrativos físicos, buscam e desenvolvem a riqueza que se encontra no próprio ser. De certa forma, são forçadas a isso, pois o belo (físico ou espiritual) tem força divina e é um facilitador da realização no mundo. Sócrates dizia: “dei-me a beleza interior, pois a beleza exterior eu talvez nunca a tenha”. Nos chama atenção também, o preparo da beberagem. Existe um tempo, um local e uma condição. É necessário um ciclo completo e mais alguma coisa para que algo mude de fato. O caldeirão é símbolo poderoso de transformação da matéria e da energia, do inconsciente e da vontade, sendo um processo alquímico que ocorre no útero da existência, da vida, dos acontecimentos e dos fatos, em última instância, da própria Deusa.

O homem cego ali revela o status e o trabalho do inconsciente na sua função mantenedora. O garoto é o ego que ao entrar em contato, por acaso, com essa gigantesca riqueza experimenta um vislumbre desse potencial. Mas isso tem um preço, embora o “por acaso” não fosse tão “por acaso” assim. Essa aproximação com o inconsciente traz o lado sombrio e tenebroso (as neuroses ou até psicoses, e na esteira disso, os medos, os traumas, os complexos e etc.). Dessa forma, o componente venenoso deverá também ser purificado, é o que ocorre numa psicoterapia. A face terrível da Deusa aí se manifesta, pois é preciso uma integração autêntica e voluntária. Um caminhar, um trabalho de superação, maturação do ego e crescimento na vida, culminando num processo de entrega a natureza maior e divina. Morrendo, assim, para as formas antigas e mais primitivas e renascendo no esplendor de um conhecimento de si até a sabedoria.