As caras e bocas de Pablo Picasso em vídeo

Nós sempre pensamos que os grandes mestres somente são reconhecíveis em suas obras, em seus auto-retratos ou em suas assinaturas espalhadas por aí. Os grandes mestres surgem, em minha mente, como pessoas geniais que não chegaram a conhecer os encantos da fotografia. Já os contemporâneos, por outro lado, ocupam minha mente como figuras de carne e osso. Eles podem ser geniais, mas também são muito humanos, demasiadamente humanos.

Acho engraçado esse paradoxo, por que muitos grandes mestres do passado (não tão longínquo) chegaram, sim, a conhecer a fotografia. E muitos chegaram a expor suas loucuras maravilhosas em fotografias e vídeos preciosos. Um achado é o vídeo de Picasso pintando. O trecho de 2 minutos e 35 segundos é parte do documentário “Visit to Picasso”, do diretor Paul Haesaerts, imperdível pra quem curte arte e afins. Em preto e branco, Haesaerts mostra Picasso pintando na superfície de espelhos.

O lugar é a casa do pintor em Vallaurius, na Franca. O anfitrião, à vontade com a presença do documentarista, faz cara e bocas para nós, espectadores. Picasso fazendo caras e bocas! Ninguém espera. Damien Hirst, talvez. Mas Picasso?! Só para mostrar que nem tudo, quando nos referimos a Pablo Picasso, acaba em Guernica.

Picasso pintando:

Ser, ter e renascer

Ser, ter e renascer por Camila Ribas

Se você está em um caminho de busca, provavelmente já se deu conta da diferença entre alguém que quer ser uma pessoa melhor daquela que quer ter algo melhor. Por algum motivo especial, isso me lembrou da Páscoa. O evento, ora associado ao cristianismo, ora ao coelhinho da Páscoa (comercial), vai muito além do que pode ser feito dentro de nós mesmos para SERMOS alguém diferente. Não é o TER um final de semana de luxo em Gravatá ou GANHAR diversos bombons. Vamos resignificar a Páscoa em nós, mesmo que não sejamos cristãos.

Pessoalmente, eu fui educada em colégio católico. Tinha missa e todos os rituais para aprender sobre o sofrimento de Cristo durante a Semana Santa. Mas, olhando para essa história com um pouco mais de distância, sinto que a ideia de salvação, sofrimento e culpa não me traz nenhum alívio, visto que a ideia é sentir o que ele sentiu. Prefiro pensar na metáfora do renascimento, mesmo porque a lição deixada por ele me lembra muito mais o amor e a compaixão pelo próximo do que qualquer outra coisa.

Jejuar sem querer crescer, deixar de comer carne ou ir à missa sem se apropriar de significados são atitudes que não vão fazer a menor diferença para seu crescimento.

Nós, a cada dia, temos esse poder de amar, ficar compadecido e, principalmente, renascer, mesma que seja só um tiquinho de cada vez. E não é tão difícil. Basta querer tirar um momento do dia e nos avaliarmos. Na medida em que o autoconhecimento vai crescendo, vamos nos transformando. O ato de pensar em nossos erros, acertos e no nosso crescimento, se nós quisermos mudar para melhor de fato, é o meu entendimento sobre esta Páscoa.

Então, tire meia horinha do seu dia nesse feriado. Depois de um banho quente, sente-se ou deite-se em um ambiente agradável, ponha uma música que lhe acalme, ligue seu incenso ou use uma boa essência. Não tem nada disso? Use um creme de massagem e apenas encontre o seu próprio jeito de ficar APENAS com você mesmo. Feche os olhos e pense no que você quer mudar. Deixe claro para sua consciência: – eu quero transformar o meu eu, quero ser assim ao invés de assado e, dessa maneira, serei uma pessoa melhor para mim e para os demais. Faça isso em um ambiente calmo e sinta as mudanças acontecerem no seu coração. Na medida em que for falando, imagine uma luz lilás, que é transformadora, e respire lenta e profundamente. Lilás, lilás e lilás. Essa luz deve entrar em todo o seu corpo e aura enquanto você inspira e expira profundamente.

Sinta o lilás. E sorria.

Uma feliz Páscoa dentro de você, renovado, renascido. Depois nos conte como foi.

O colosso de Sylvia Plath

Sylvia Plath (Foto: Divulgação)

Sob a melancolia abstrata de tardes cinza, frias, tortuosas, o espírito de Sylvia Plath se debruçava com impetuosidade no desejo de atingir a perfeição. Quem via sua beleza cruzando uma rua, dobrando uma esquina, jamais imaginaria o turbilhão interior escondido no semblante amável. Começou a escrever na infância, chamava seus diários de “mar de sargaço”. Quando Sylvia tinha oito anos, o seu pai herói, Otto Plath, faleceu. Meses depois ela nadou, nadou, nadou até aonde pôde, mas o mar insistia em lhe cuspir. Talvez soubesse que não havia chegado sua hora, que suas palavras com sabor de mar em fúria correriam o mundo. A morte do pai havia afetado a sua essência e deixaria cicatrizes profundas, inclusive a fascinação pela morte. Nesse mesmo ano, Sylvia conseguiu publicar o seu primeiro poema no Boston Herald.

A poesia de Sylvia Plath é enigmática, ao mesmo tempo expõe e guarda a cabeça dentro do casco. Suas metáforas são domésticas. A vida de uma mãe que banha as crianças, faz bolos e conversa com plantas se misturam com um ser febril genial. Elas não servem apenas para aproximar o conceito da imagem, mas as imagens, captadas nas emoções cotidianas, são o próprio conceito. Diferente de muitos, ela não conseguia elencar um tema aleatoriamente e discorrer sobre ele, como fazia o seu marido, o consagrado poeta inglês Ted Hughes. A inspiração de Sylvia vinha numa machadada, ao se olhar no espelho, lembrando as abelhas do pai, contemplando uma árvore morta ou viva – Sylvia morria e revivia todos os dias, havia uma luta constante pela sobrevivência, ocasionada pelas fortes crises de depressão.

Sylvia nasceu em Boston, Massachusetts, em 1932. Terminou seus estudos no Smith College em 1955, ganhou um concurso literário e foi para Nova York trabalhar na revista Madeimoselle. Um ano depois foi para Inglaterra, havia conseguido uma bolsa de estudos na Universidade de Cambridge pelo mérito da tese: “The Magic Mirror: A Study of the Double in Two of Dostoevsky’s Novels” – o cineasta italiano Bertolucci também se inspirou no assunto, em 1968, para criar o longa “Partner”. Sylvia estudava, escrevia, publicava em jornais e revistas da época, como o Varsity e St. Botolph’s Review, quando conheceu o seu futuro marido, o garanhão inveterado Ted Hughes.

Quatro meses depois se casaram, em 1956. Dois anos depois o casal foi para Boston, onde Sylvia lecionou e conviveu com o poeta Robert Lowell e a poetisa Anne Sexton. Em 1959 voltam para Londres, onde ela escreve The Colossus (O Colosso) grávida de Frieda Rebecca, sua primeira filha, e o livro infantil The bed book (Livro de cabeceira), publicado apenas em 1976. “A poesia que sinto é uma disciplina tirânica, você tem que ir tão longe, tão rápido, em um espaço tão pequeno, que você apenas tem que desviar de todos os periféricos. E eu sinto falta deles! Eu sou uma mulher, eu gosto de curiosidades, e eu acho que num romance posso obter mais da vida. Talvez não seja uma vida tão intensa, mas certamente mais da vida”, escreveu no seu diário.

Em 61 engravidou novamente, mas teve um aborto espontâneo, o qual ela descreve em Parliament Hill Fields. Em 61 muda-se para o condado de Devon, região rural da Inglaterra, e escreve The bell jar (Redoma de Vidro), onde há referências sobre as suas tentativas de suicídio. O livro recebeu críticas positivas, mas Sylvia se queixava cada vez mais do cansaço, da falta de tempo para escrever devido aos cuidados com o bebê e a casa. Em janeiro de 62 nasce o seu segundo filho, Nicholas Farrar; em março ela escreve e grava para a BBC a peça “Three woman: a poem for three voices”.

Invadida constantemente pela verdade, descobriu cedo que a existência é muitas vezes cruel; sim, o sofrimento é parte indissociável da vida – assim como fatores pessoais e poéticos foram e sempre serão indissociáveis da sua obra. Ela criava com fúria, com os sentidos agitados, descomunalmente. “Dentro de mim mora um grito. De noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar”, registrou no seu diário.

O casamento com o escritor Ted Hughes foi conturbado devido às traições do mesmo. Aos poucos Sylvia se deixou consumir pelo ciúme, tornando-se uma mulher neurótica, intempestiva, rasgava e queimava os escritos do marido, que acabou a deixando para viver com a sua amiga, com quem tinha um caso, a poetisa Assia Gutman.

Em carta para mãe, Plath escreveu: “Viver para além de Ted é maravilhoso, eu não estou mais na sua sombra”. Na verdade ela nunca conseguiu recompor-se, mesmo separados existia uma cumplicidade e amor monstros. Abalada pela separação, com gripes fortes e a solidão, Sylvia produz os primeiros poemas do seu próximo livro, o aclamado Ariel, lançado postumamente. “Esses meus novos poemas têm uma coisa em comum. Foram todos escritos em torno das quarto da manhã – naquela hora ainda azul e quase eterna, antes do choro do bebê, antes do tilintar musical do leiteiro arrumando suas garrafas”, comentou na gravação da BBC.

Sylvia voltou com os filhos para Londres no fim de 1962, contente por ocupar o apartamento em que o escritor Yeats havia vivido – a vida no campo estava insuportável devido ao isolamento. Entretanto, a mudança, com o passar o tempo, não havia conseguido dar jeito na solidão, no seu estado de saúde e espírito, nas obrigações cotidianas de uma dona de casa separada.

Na madrugada de 11 de fevereiro de 1963, Sylvia prepara o pão e o leite das crianças, as agasalha, olha como quem olha pra sempre, as beija e veda a porta do quarto. Vai até a cozinha, sem tristeza, limpa a mesa, a pia, abre o forno e deita a cabeça dentro sobre uma rodilha. Ela resolve, depois de várias tentativas, abraçar a morte, sua eterna amante. O pequeno Nicholas, 46 anos depois, comete o mesmo erro da mãe no Alasca, onde vivia.

Quem fala no poema é uma mulher que tem o dom grandioso e terrível de renascer. O único problema é que ela tem de morrer primeiro. Ela é a Fênix, o espírito libertário, se o quiserem. Ela é também apenas uma mulher boa, simples e muito desembaraçada”, comentou sobre o poema acima.

Espelho

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.

Tradução de Vinicius Dantas

Os Mannequins de Munique 
A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.

Desprendendo suas luas, mês após mês, sem nenhum objetivo.
O jorro de sangue é o jorro do amor,

O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu

Eu e você.
Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus sorrisos

Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,

Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata

Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.

Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.
Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,

Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos

Cintilando
Cintilando e digerindo

A mudez. A neve não tem voz.

Tradução de Claudia Roquette-Pinto

PAIZINHO

Não serves, não serves,
Não serves mais, sapato preto
Em que eu vivi como um pé
Trinta anos, pobre e branca,
Mal me atrevendo a respirar ou atchim.

Paizinho, eu tive de matar-te,
Morreste antes que eu tivesse tempo,
Mármore pesado, saco repleto de Deus,
Estátua medonha de dedo grande cinzento
Do tamanho de uma foca de Frisco

E uma cabeça no Atlântico mais esquisito
Onde ele derrama o verde-feijão sobre o azul
Nas águas da lindíssima Nauset.
Eu costumava rezar para te recuperar
Ach, du.

Na língua alemã, na vila polaca
Aterradas pelo rolo
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é vulgar.
Diz o meu amigo polaco

Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde tu
Fixaste os pés, as tuas raízes,
Contigo nunca consegui falar.
A língua presa no maxilar.

Arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em qualquer alemão estavas espelhado.

E a linguagem porca
Uma máquina, uma máquina
Em vapores leva-me como judia.
Uma judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Comecei a falar como uma Judia.
Acho que é boa ideia ser Judia.

A neve do Tirol, as cervejas clarinhas de Viena
Não são muito puras ou genuínas
Com a minha angelical cigana, o meu destino estranho
E as minhas cartas de tarot, cartas de tarot
Eu posso ser um pouco Judia.

Sempre me provocaste medo,
Com a tua Luftwaffe, a tua conversa vazia.
E o teu bigode lavado
O olho ariano, muito azul.
Homem-panzer, homem-panzer, oh tu_

Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu.
Qualquer mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Bruto coração de um bruto da tua espécie.

Estás de pé na pedra, paizinho,
Na imagem que trago comigo,
Em vez do pé, o queixo partido,
Não menos canalha por isso, oh não
o homem que partiu em dois
o meu lindo e vermelho coração.

Eu tinha dez anos quando foi a enterrar.
Aos vinte anos, eu tentei morrer
E voltar, voltar, voltar para ti.
E até pensei que os ossos serviriam.

Mas não me deixaram,
Juntaram os meus bocados com cola.
E então eu soube o que fazer.
Fiz um modelo de ti,
Homem de preto, com um aspecto de Meinkampf

E o amor de tortura e torniquete.
E eu disse eu aceito, eu aceito
E então, paizinho, finalmente estou acabada.
Arranquei o telefone preto da ficha,
As vozes já não se arrastam até aqui.

Se matei um homem, matei dois_
O vampiro que me disse seres tu
E bebeu o meu sangue por um ano,
Sete anos, se queres saber
Paizinho, podes voltar para trás.

Há uma estaca no teu coração negro e gordo
E os homens da vila nunca gostaram de ti.
Eles dançam e espezinham-te.
Eles sempre souberam que eras tu.
Paizinho, paizinho, seu canalha, estou acabada.

Tradução de Pedro Calouste

As super mulheres e a desvolução masculina

Das inúmeras características femininas, somente uma eu abomino profundamente: O cheiro de mulher. Esse perfume doce e sedoso me dá uma náusea triste. Talvez por este motivo eu não seja gay, nem nunca tenha vivido experiências homossexuais. De resto, pra mim, as mulheres são as criaturas mais encantadoramente lindas e complexas da humanidade. Mais do que os lêmures, as borboletas e até mesmo as girafas, com seus pescoções elegantes e toda aquela altivez. O negócio é que venho percebendo um fenômeno negativo desenhado na alma de Vênus. As meninas têm passado por um conflito no quesito emocional, uma oscilação entre o que se é e o que se gostaria/ ou deveria ser; e com isso, toda a subjetividade e ônus prático que a questão acarreta. Tá confuso né? Vou explicar.

Eu sempre fui muito moleca. Pouca frescura, afoita, com habilidade física aguçada, corajosa (beirando tendências suicidas) e aventureira. Passei a vida com as pernas emperebadas e os joelhos ralados (essa parte não mudou, mesmo beirando os 30). E isso me possibilitou uma ótima circulação entre os seres de Marte, aqueles do sexo masculino. Mas um excesso de sensibilidade nunca me impediu de circular muito bem entre as meninas, o que fez de mim uma abençoada criatura de muitas e boas amigas das mais variadas linhagens, pra todo tipo, todo gosto, todo jeito; e principalmente uma boa ouvidora de suas histórias. Tive uma sorte medonha nesse aspecto.

Cresci rodeada de grandes mulheres. Dona Zeza, a mãe desta humilde escrivinhadora que vos fala, tem defeito a dar com o pau, mas tinhosa e valente é ela. Minha irmã, já falecida, era alguém com uma postura bem à frente do seu tempo; independente, linda, trabalhadora e com uma personalidade, diria, peculiar e nada discreta – qualquer semelhança é mera definição genética. A maioria das mulheres que me rodeiam têm também um pouco desse perfil. Elas são independentes, lindas, inteligentes. Muita opinião, informação e vida social. Usam roupas que acham que devem usar, exercem livremente a sexualidade, exageram nas botas e no vermelho do batom e se intrometem nas conversas balizadas com muito entusiasmo, seja sobre carros, economia, política ou esmaltes e promoções de sapatos. Isso tudo porque perceberam que não existe contradição alguma entre ser linda, inteligente e bem sucedida.

Esse comportamento não brotou nas trevas do além. Ele tem um motivo de ser totalmente antropológico. Enquanto em um passado recente as mulheres ainda eram criadas para serem donzelas do lar, terem um esposo macho-alfa provedor, parir, cuidar da cria e morrer sem ter orgasmos; uma geração inteira delas – ainda que não se autodenominem feministas – foi criada com base em princípios feministas de igualdade de gêneros, iniciados timidamente no início do século XX, mas popularizados somente entre 1960 e 1980, com a famosa revolução sexual e aquela maldita queima de sutiãs em praça pública, lembram?

Sejamos práticas: a minha mãe, por exemplo, é uma linda criatura machista e sonhou a vida inteira em me ver de branco em um altar, fez das tripas coração para que eu entrasse em uma faculdade, estudasse e tivesse minha independência financeira (possivelmente para não cometer o mesmo equívoco fez justamente o oposto). Assim como eu, as minhas amigas vivem a mesma peleja (aquelas todas lindas que me referi) e mais uma pá cheia de mulheres, que cresceram dentro de outro contexto cultural.

E a questão é: Você aí, que tá dizendo #mimimi lá vem Manuella com as feminizes dela, sinto muito informar, mas também é feminista. Porque esse direito de escolher com quem você vai transar, de discutir política na mesa de um bar tomando cerveja e sair no dia seguinte pra trabalhar – que te parece óbvio – não seria tão obvio assim se não fossem as chatas das feministas aperreando e batendo na mesma tecla durante anos e anos. Sem elas você poderia ir e para a fogueira ou sofrer apedrejamento. Como ainda acontece em algumas instâncias geográficas.

Onde eu quero chegar com esse arrodeio todo? No grande problema que pode extinguir definitivamente a raça humana (isso foi uma piada hiperbólica): O velho paradoxo das relações homem mulher, e o grande –se não maior – equívoco histórico disso tudo. O responsável por esse pagode todo esqueceu de avisar que os homens também precisavam participar deste processo de transformação.

Perceba. Enquanto temos um exército de mulheres filhas dessa transformação; os homens continuam exatamente no mesmo lugar. Sendo criados da mesma maneira, com a mesma perspectiva de trabalhar para ser provedor macho-alfa ache buscar uma esposa-padrão para ser a mãe de seus filhos; com cara de boneca, que fale baixo, cruze as pernas ao sentar e lembre algo próximo ao desejado troféu/taça do Brasileirão de 1987. Essa contradição histórica resulta em um processo duro de construção dos novos relacionamentos.

A conclusão é que a maioria dos homens não tem o psicológico preparado para receber essa ‘nova mulher’ nas suas vidas. Ele pode se aproximar, tentar, iniciar, dar o start, mas num dado momento… somem – pelas experiências vividas e ouvidas. É muita informação para apenas uma unidade de mulher. Bonita demais, inteligente demais, interessante demais, independente demais. Veste-se bem, mora só – ou não, não faz diferença – algumas têm filhos, vida de adulto, trabalha, sustenta, faz tarefa e feira. Bota o salto e tem a gargalhada muito alta, dessas que engole o mundo.

E então, antes que ela termine de contar a própria história, quando pisca o olho, aquele homem lindo (alguns até mais evoluídos, trabalhados em baixos índices de machismo) que até cinco minutos atrás estava super interessado – e muitas vezes, realmente falava a verdade quando dizia que te achava uma mulher maravilhosa-, já desapareceu. Por receio, insegurança, covardia ou preconceito (ou todas as alternativas). No dia seguinte você vai pagar uma conta no caixa eletrônico do shopping e o encontra de braços laçados com uma Barbie, como num desfile de apresentação da sua dama à sociedade. (Que fique claro: isso não é o relato de uma experiência particular, mas uma teoria formulada com base em centenas de histórias – centenas – ouvidas atentamente no meu Recife afora).

Mas ora, porque o drama se as tais moças são assim tão independentes? É que justamente essa mesma antropologia mostrou a essas moças – nós – que além de conseguirmos ser bonitas e inteligentes em um pacote só; também não era pra existir contradição em ser independente e moderna e viver um amor, uma bela história, dividir momentos com alguém. E por mais desenrolada que seja, ninguém está livre do sentimento de frustração da expectativa, da saudade e da consideração e responsabilidade com o sentimento cativado.

Não confundam independência com frieza e falta de coração. Dou garantia. Elas não querem transformar vocês, homens, em príncipes encantados, não esperam cavalos brancos e menos ainda que você a leve para o altar vestida de branco. Ela só precisa sentir-se amada do jeito que é, sem precisar entrar em crise existencial, reprimir-se ou se submeter a um processo de mutação de mulher de verdade à princesinha de cristal.

A fugacidade das impressões

Tela “Jogadores de Xadrez”, de Antonio Abellán

Ah, Dostoiévski, aquele mesmo, o romancista… Eu integro uma das comunidades em homenagem a ele. Foi assim que tudo começou, por causa de uma comunidade. Estava na casa de uma amiga e aproveitei que o computador dela estava ligado para fazer uma pequena inspeção no meu Orkut. Quando abri, tinha um rapaz me pedindo, encarecidamente, para adicioná-lo, alegando que tínhamos muito em comum. Bom, pensei, o que pode acontecer? Aceitei. No dia seguinte, eu mal conseguia ler o depoimento que ele havia escrito, tamanha era a minha ansiedade em saber o conteúdo daquilo em segundos. Numa tentativa de leitura dinâmica achei algumas palavras-chave como: Pink Floyd, Nietzsche, xadrez, Tarantino…

Aquilo foi arrebatador pra mim e de uma só vez, sem anestésicos. Foi a compilação erigida por um desconhecido mais exímia que eu li na vida! Ao longo de horas a fio conversando no msn e atestando que ele era realmente tudo que eu sonhava, marcamos um encontro. Tinha foto dele no Orkut, mas você nunca sabe como é verdadeiramente uma pessoa apenas por foto. um infinidade de coisas compõem um ser humano e o tornam atraente. Trejeitos, manias, forma de falar, senso de humor. Um redemoinho de medo, excitação, receio, percorriam meu espírito e se transformavam em um nó, mas um nó excitante. Comecei a divagar sobre aquela fantasia que algumas mulheres alimentam de ir pra cama com um desconhecido e quando me vi nessa provável situação, tudo ficou cinematográfico.

Marcamos no Shopping. Fiquei esperando em um lugar seguro e furtivo. Odiava ser vista sem saber, então fiquei esperando-o num lugar estratégico onde eu sabia que podia vê-lo, mas ele não. E lá vem ele, na escada rolante. Ele não era lindo, mas tinha uma feição intrigante, era alto, seguro, altivo, boca grande, olhar oblíquo. Fiquei esmiuçando-o secretamente, até ser avistada. Quando isso aconteceu eu ri e ele correspondeu. Me senti na idade púbere, pensando se ele ia gostar de mim pessoalmente e todos essas apreensões e vícios característicos da maioria das mulheres.

A tensão ficou pairando no ar, incessante e implacável. Conversamos exaustivamente sobre temas variados, passando por trocadilhos inteligentes, citações de escritores, referências a filmes, xadrez (ele queria me ensinar a jogar). Eu mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo. E o melhor é que eu não tinha feito um mínimo de esforço. Ele tinha me achado! E no Orkut!

Fomos ao cinema, definitivamente foi um atarefa árdua escolher em que me concentrar. Se no cara inacreditável que estava do meu lado ou na trama hipnotizante estrelada por Brad Pitt – tentei conciliar. Quase no final do filme, depois de muitas tentativas dele me seduzir sutilmente, aconteceu um beijo. Que beijo foi aquele? O cara beijava em câmera lenta, à la Marlon Brando. Eu consegui sentir milimetricamente a consistência da língua dele. Aquilo me deixou louca!

Fomos pra casa dele, e aconteceu. Foi a me-lhor da minha vida! Eu me arrepiei dos pés à cabeça. Teria sido o homem da minha vida não fosse por, no outro dia, ele deixar a outra personalidade vir à tona: psicopatia obsessiva. Ligando de cinco em cinco minutos, dizendo que queria viajar comigo. Eu pensei: “Era bom demais pra ser verdade”. Como sou muito espontânea, fiz uma pergunta retórica: “você gosta de ligar não é?” . Ao qual ele retrucou: “eu sou um homem e sei o que quero”, incisivo, mas ainda assim não-convincente.

Para resumir, ele ficou magoado, ficou fazendo joguinhos emocionais… mas sendo um dos meus favoritos, ele perdeu. Desapareceu, reapareceu, mas eu tenho sentimentos e quando ele sumiu, fiquei decepcionada. Liguei várias vezes chamando ele pra fazermos algo e ele sempre dava uma desculpa. Estava se vingando, desconhecia o efeito que aquela pergunta havia causado nele. Como um bom Marquês de Sade, dias depois, ele parou a “sessão tortura” e ficou todo pacífico e carente tentando, inutilmente, remediar a situação.

Travamos uma discussão febril, esgotando quase todas as falas do filme “Ligações Perigosas”, afinal, nesse jogo vale tudo para desestabilizar o outro emocionalmente e meu orgulho de mulher “abandonada” falou mais alto. Simples e friamente, fingi que não sentia mais nada por ele, principalmente ao fim de sua confissão-desabafo de que ele havia fugido de mim por medo – isso potencializou ainda mais meu desejo de derrotá-lo cega e obstinadamente.

Não resisti, o final era bem mais emocionante se eu saísse como a vilã. No final ele virou uma lembrança em forma de dois livros que havia me emprestado – ele não conseguiu reunir forças e coragem suficiente para reaver – e de uma camisa do filme “Laranja Mecânica” que ele comprou num posto onde tínhamos parado pra comprar umas cervejas, antes de irmos pra casa dele, antes da noite memorável. Ainda assim, foi uma experiência singular e intensa, da qual vou me lembrar sempre que ler Dostoiévski e sempre que jogar xadrez.

Carta social

Bokeh Love Hearts (Foto: Pixel Artistry/ Creative Commons)

O silêncio da noite anunciou a manhã descobrindo os desejos. Encontrei-o como quem não quer nada. Você, meu eterno Visgueiro, arrastou o horizonte do meu novo dia. Caso o amor não seja uma razão do coração com um sistema orgânico involuntário, invento novas bombas, fórmulas, desvendo sonhos, viro esteta ou ao avesso, meu precioso bem.

Arrisca-se como um cavalo afoito, seja o meu casaco, a sombra da minha árvore no calor da tarde. Serei a flor pomposa e fina do teu mandacaru, o teu copo de leite, a tua dama da noite. Sim! Eu posso ser a sua Fanny. Por que eu ri e agora quero te sentir no vento, em um beijo com gosto de lágrimas sorridentes, no suor do teu tormento, nas nuvens brancas de um céu azul.

Abri uma janela para você entrar com a brisa gostosa da lua esdrúxula. Você é o Elvis da minha carteira de solteira, meu boi estrela. Dá-me um cacho do teu cabelo, serei tua ama com zelo. Galopa astuto nas minhas correntes, te darei espíritos evoluídos de presente. Além de serras para te fazer suplantar, te colocarei na beira de um abismo e você aprenderá a voar  comigo.

A falta da voz brasileira na Globo

Mais de uma vez eu já havia notado que os apresentadores de telejornalismo têm uma língua diferente da falada no Brasil. Mas a coisa se tornou mais séria quando percebi que, mesmo fora do trator absoluto do Jornal Nacional, os apresentadores locais, de cada região, também falavam uma outra língua. O que me despertou foi uma reportagem sobre o trânsito na Avenida Beberibe, no bairro de Água Fria, que tão bem conheço. E não sei se foi um despertar ou um escândalo. Olhem aqui.

Na ocasião, o repórter, o apresentador, as chamadas, somente chamavam Beberibe de Bê-Bê-ribe. O que era aquilo? É histórico, desde a mais tenra infância, que essa avenida sempre tenha sido chamada de Bibiribe, ainda que se escrevesse e se escreva Beberibe.

Ligo para a redação da Globo Nordeste. Um jornalista me atende. Falo, na minha forma errada de falar, como aprenderia depois:

“Amigo, por que vocês falam bê-bê-ribe, em vez de bibiribe?”

“Porque é o certo, senhor. Bé-Bé é Bebê.”

“Sério? Quem ensina isso é algum mestre da língua portuguesa?”

“Não, senhor. O certo, quem nos ensina é uma fonoaudióloga.”

Ah, bom. Para o certo erram de mestre. Mas daí pude ver que a fonoaudióloga, como autoridade da língua portuguesa, é uma ignorância que vem da matriz, lá no Rio. Ou seja, assim me falou a pesquisa:

“Em 1974, a Rede Globo iniciou um treinamento dos repórteres de vídeo… Nesse período a fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller começou a trabalhar na Globo. Como conta Alice-Maria, uma das idealizadoras do Jornal Nacional, ‘sentimos a necessidade de alguém que orientasse sua formação para que falassem com naturalidade’.”

Foi nesta época que Beuttenmüller começou a uniformizar a fala dos repórteres e locutores espalhados pelo país, amenizando os sotaques regionais. No seu trabalho de definição de um padrão nacional, a fonoaudióloga se pautou nas decisões de um congresso de filologia realizado em Salvador, em 1956, no qual ficou acertado que a pronúncia-padrão do português falado no Brasil “seria do Rio de Janeiro” (destaque meu).

Mas isso é a morte da língua. É um extermínio das falas regionais, na voz dos repórteres e apresentadores. Os falares diversos, certos/errados aos quais Manuel Bandeira já se referia no verso “Vinha da boca do povo na língua errada do povo/ Língua certa do povo” ganham aqui um status de anulação da identidade em que os apresentadores nativos se envergonham da própria fala. Assim, repórteres locais, “nativos”, se referem ao pequi do Ceará como “pê-qui”, enquanto os agricultores respondem com um piqui.

De um modo geral, as vogais abertas, uma característica do Nordeste, passaram a se pronunciar fechadas: nosso é, de “E”, virou ê. E defunto (difunto, em nossa fala “errada”) se transformou em dê-funto. Coração não é mais córa-ção, é côra-ção. Olinda, que o prefeito da cidade e todo olindense chamam de Ó-linda, nos telejornais virou Ô-linda. Diabo, falar Ó-linda é histórico, desde Duarte Coelho. Coisa mais bela não há que a juventude gritando no carnaval “Ó-linda, quero cantar a ti esta canção”. Já Ô-linda é de uma língua artificial, que nem é do sudeste nem, muito menos, do Nordeste. É uma outra coisa, um ridículo sem fim, tão risível quanto os nordestinos de telenovela, com os sotaques caricaturais em tipos de físicos europeus.

Esse ar “civilizado”de apresentadores regionais mereceria um Molière. Enunciam, sempre sob orientação do fonoaudiólogo, “mê-ninô”, “bô-necÔ”, enquanto o povo, na história viva da língua, continua com miní-nu e buneco. O que antes era uma transformação do sotaque, pois na telinha da sala os apresentadores falariam o português “correto”, atingiu algo mais grave: na sua imensa e inesgotável ignorância, eles passaram a mudar os nomes dos lugares naturais da região.

O tão natural Pernambuco, que dizemos Pér-nambuco, se pronuncia agora como Pêr-nambuco. E Petrolina, Pé-tró-lina, uma cidade de referência do desenvolvimento local, virou outra coisa: Pê-trô-lina. E mais este “Nóbel” da ortoépia televisiva: de tal maneira mudaram e mudam até os nomes das cidades nordestinas, que, acreditem, amigos, eu vi: sabedores que são da tendência regional de transformar o “o” em “u”, um repórter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou JÔ-azeiro! O que tem lá a sua lógica: se o povo fala JUazeiro, só podia mesmo ser Jô-azeiro.

Coração sem fio

Coração sem fio por Dani Leão

Em meio ao comodismo de uma conjuntura tecnológica portátil, a invasão de privacidade deixou de ser mera coadjuvante das calçadas para as chamadas janelas contemporâneas. Os pontos da conexão, que parecem batimentos cardíacos, são viscerais para a relação emotiva entre máquina e ser-humano. Uma espécie de back up social à distância. Um enorme banco de dados interligados por um só espaço cibernético.

O olhar habituado ao quadrado mágico da globalização é o espelho da realidade. As salas de reuniões foram substituídas por salas de bate-papo. Os telefones, televisões, jornais e rádios estão linkados na versatilidade democrática de informações. Essa interligação faz jus à frase de Sherlock Homes: “Você vê, mas não observa.” As pontes que ligam o virtual e o real andam desligadas do insubstituível contato corporal.

As imagens e as palavras não fazem parte de cartas ou cartões postais. Nesse mundo o correio eletrônico é bem pessoal, não é endereçado nem no google maps, mas disponibiliza de fotografias e textos assinados por muitos artistas até então codificados em sites e em@ails. A abreviatura e os símbolos da linguagem internetês são responsáveis por sensações. Inclusive a de ameaça à língua culta =P.

O ideário da contracultura dos anos 60 voltado à liberdade e integração universal é um quadro perfeito da realidade. Os aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos de intervenção contestatória da sociedade estão alçados a intercomunicação sem fio. O sistema ancorado no mar de softwares desempenha seu papel em tempo real, não funciona emstand by. Cada indivíduo é responsável por seu repertório, pela sua pesca. Há favoritos e deletados como lixo visual e sonoro.

Essa relação informal e ausente mexe com o íntimo das escolhas e desperta a sedução. A vida pede o F5 nas realizações. A convenção do plano físico chamado “mundo real” está inserida na plataforma geográfica inter(multi)cultural da virtualidade. Embora a internet seja algumas vezes verdadeira, o perfil on line interliga e se difunde do off line, num tempo intermitente. O quadrado das telas toma a forma de um gelo que aparenta ter esfriado a naturalidade. Como por exemplo: as flores sem aroma, as gargalhadas silenciosas =), as doações de órgãos. Um tipo de prisão da essência, do necessário, do vital.

Não aceite um coração desenhado , abra as portas do mundo real e veja o sol brilhar na pele, abrace outro coração sorrindo para o movimento da existência. À noite a lua te convida para dançar e você escolhe a trilha. (Des)conecte os laços. Viva!

Poesias de Nando Pessoa

Poesias do Fernando Pessoa recifense

Meu reinado

Porco incomunicável
Vida miserável
Ideia insuportável
Como eu sou intragável

Insuperável viver na cama
Inseparável minha paixão por lama
Pois vivo como um rei dançando
De outro jeito nem sonhando

Alimento-me de sorte
Não sei como é a morte
Minha cabeça dormente
Anda viva livremente

Gosto de movimento
Apesar de ser lento
Quando canso me sento
Viver bem, eu tento.

Sofreguidão

Minha alma não dói
Minha calma corrói
dentro a sufocante epidemia
E o mal estar contínuo solidão e mania

Matando em agonia
Estar sempre breve
Leve na água fria
Torta melancolia de neve

Deve
Mas deve de fato…
Mesmo chovendo e clareando no mesmo ato
Nostalgia se repete
Sujeita sujeira da imaginação
Perigo iminente e competição
Fantasia evidente e satisfação
Desfeita para mim o acaso em vão.

Meio sem fim

Meu coração batendo porque não me entendo
No meio sem fim eu procuro por mim
O tempo está se estendendo
E o sim é não e o não é sim

A finalidade não existe onde tudo é tão claro
Mas insiste em deixar sempre o vago
Eu me vendo me deparo
Mas termino no espelho e paro

Tudo está ao contrário e me contrario
Sem poder me proteger, me contagio
A impureza do ar que respiro
Não tenho onde guardar o que aspiro.

Belisa

Eu não vejo bem
Nem sei bem de você
Parece tudo tão obscuro
Apesar do abstrato
Meu trato
Sinto
Me atrai cheiro
Cor, textura
És linda
Me atrai por seu enigma
Seu mistério
Parece que o meu olho viu
O que não se vê a olho nu
Meu pensamento já não era tormento
Que despida da despedida
Da minha partida
Eu era mais eu.

Relevando

Relevando
Temendo o medo
Imaginando
Cedendo enquanto é cedo

Revelando
Qualquer que seja o fim
Inadequando
A fé se instala em mim.

Fernando Pessoa é recifense e começou a escrever por necessidade de expor as suas angustias, o que lhe incomodava, inquietava. É músico, violonista. Estudou no Centro Educacional de Música de Olinda e no Conservatório Pernambucano de Música. E compõe músicas instrumentais.

Vida: uma peça sem ensaios

Vida: uma peça sem ensaios por Mirthyani Bezerra

Eis que nas primeiras páginas do seu clássico de 1982, “Insustentável leveza do ser”, um tal de Milan Kundera me dá um soco na cara. “Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço.”

Volta e meia me sinto no lugar daquele ator que entrou em cena sem ensaiar. Faltam falas, sobra o improviso e um monte de escolhas a serem feitas. Vestido ou short? Pizza ou salada? Fácil ou difícil? Terminar ou recomeçar? Como boa libriana, não sou a rainha indecisão. Apenas superestimo as escolhas. É que a escolha errada tem o poder de martirizar.

Mas como saber exatamente se determinada decisão foi a certa? O sábio Kundera pondera: não tem como, afinal, a vida é um eterno esboço. Ou melhor, esboço não, já que o termo remete a um projeto, algo que poderá ser concretizado, retiradas as imperfeições. Acontece que a vida é imperfeita mesmo, e decisões equivocadas é parte essencial dela. É a partir de escolhas erradas que aprendemos a acertar… elas nos fazem amadurecer.

Se não tivesse colocado o dedo no ventilador, quando bebê, nunca saberia o perigo aquele ato. Escolher filar na prova em vez de estudar, pode até ter me rendido um zero na segunda série e um puxão de orelha de mainha, mas me ensinou a conquistar bons resultados com o meu próprio esforço. Terminar um relacionamento longo pode ter molhado o meu travesseiro de lágrimas, mas me fez olhar a vida por outra perspectiva. A dor e o choro foram essenciais em todos esses momentos. Já dizia Vinícius de Morais, “se não tivesse o amor, se não tivesse essa dor, se não tivesse o sofrer e se não tivesse o chorar, melhor era tudo se acabar”.

Vistosidades

Vistosidade por André George Medeiros

Sentimos na pele o fluxo de informações que brotam por todas as vias do mundo: desde um autofalante numa bicicleta anunciando a oferta do dia de um supermercado do bairro, panfletagem em sinais de trânsito, outdoors, comerciais de TV, marketing de guerrilha, marketing de experiência, e toda e qualquer forma “nova” que os criativos e mídias das mais variadas agências puderem bolar. Inserido neste contexto – elétrico e um tanto quanto angustiante – existe a questão das necessidades de quem está do outro lado, nós, recebendo esta avalanche persuasiva e toda sua postura tendenciosa em criar no público – nós – uma série de necessidades que, muitas vezes, nem tínhamos parado para pensar que existiam.

E esta mesma angústia, corriqueira e saciável ao ser inserida na dinâmica do consumismo básico nosso de cada dia, quando colocada no lugar errado em nossa vida pode ser algo desanimador, nebuloso e em certos casos, destrutivo. Nesta mesma dinâmica, a maioria esquece a lição de casa, também nossa de cada dia: olhar para dentro. E não estou falando em ser introspectivo full time ou entrar agora numa terapia e cair de cabeça num processo analítico. Não. A inquietação é mais simples: por quê esquecer a pessoa que tem aí [aqui] dentro?

Primeiro ponto: facilidade. Facilidade e felicidade, em termos fonéticos, até que rimam, e em minha opinião, apenas neste ponto. Ponto. É mais fácil viver no automático, afinal de contas, se para uma pessoa ser questionada por outra já é uma barra, imagina ser questionado por si mesmo? Sem ares de receita de bolo, vamos à segunda possibilidade: preguiça. Para quê pensar em algo mais aprofundado sobre si mesmo quando eu escuto/vejo o que quero e penso precisar ouvir da mídia, das minhas marcas preferidas, dos que me rodeiam, da minha rede social do momento e do meu espelho? Terceiro ponto provável: acomodação, afinal, “ninguém tá nem aí em ser profundo, tu acha que eu vou perder tempo com isso, a vida é uma festa, uhuuuuu!”… E por aí vai, a lista pode ser bem maior até.

O problema é quando as inquietações vêm à tona, quando elas gritam dentro de cada um – e é de um grito bem dissonante – ao ponto de ensurdecer, jogando na cara de cada um os valores interiores que se possui e que estão sendo esquecidos ou deixados de lado. A começar por mim, quem não quer ter um corpo vistoso e em dia com a estética? Se vestir de acordo com o que há de mais atual e vistoso, em sintonia com as principais passarelas? E a impagável sensação de ostentar um corte de cabelo, trato na barba [quando há] e uma pele saudável e resplandecente ao ponto de deixar qualquer pêssego morto de inveja? Quem não quer ter fotos curtidas, no facebook, de lindas viagens ao redor do mundo? Todos querem. Todos merecem ter tudo isso e mais alguma coisa, afinal, estamos aqui para isso também. Mas, de quê adianta ser tão vistoso por fora e um farrapo por dentro? Esta é a questão.

Subir na vida, termo tão geração X, é uma necessidade. Reinventar-se, também.

É tempo de faxina geral, gente! Sair do lugar comum de como nos enxergamos e encarar a realidade do que somos. É a busca por saber entrar e sair de cena. É tirar – não sei de onde ainda – algum nível de generosidade que dê um norte dentro de uma entrelaçada rede de relações, com ou sem algum nível de afetividade, na qual estamos imersos. É optar por ser correto no sentido de fazer o certo, sem se submeter a humilhações ou joguetes de terceiros, e muito menos descer ao nível deles em termos de ação. É buscar coragem para se questionar em relação ao seguinte: o que é supérfluo e o que é necessário, hoje em dia, em minha vida prática e afetiva?

Ser sempre leve é uma bênção e estamos aqui para ter leveza com tudo, até para que tenhamos condições de enfrentar essa batalha tão pesada que é a vida, porém, penso que pessoas mais aprofundadas em si mesmas fazem a diferença nesse mundo que nos obriga tanto a ser homogêneos em padrões de comportamento e pensar [e não me venha dizer que todo esse papo de diversidade, identidade e todo o blá-blá-blá tribal é uma forma de libertação, para este que vos escreve, é apenas posicionamento de mercado daqueles a quem interessam esses padrões de consumo].

Não é fácil e não será em momento algum, porém, com um riso lindo no rosto, momentos de festa, vinhos e queijos, viagens, compras exorbitantemente deliciosas, corpo-pele-cabelo impecáveis, não esqueça quem você é de verdade: reforma íntima para todos. E me pergunto: o ideal seria encontrar o ponto de equilíbrio entre o que sou, minha Carrie Bradshaw antenada com todas as tendências e o meu Sartre interior? Realmente, paz de espírito é um artigo de luxo hoje em dia.

A nossa essência

A nossa essência por Camila Ribas e Foto de Daniela Feldman

É sempre mais fácil reclamar. Mas, mudar que é bom, nada. E o motivo é bem simples: sair da nossa zona de conforto dá trabalho, abre – ou fecha – feridas, recria situações. Isso dói. Quem não quer ver a poeira levantada, fica ali, quietinho, esperando o cano estourar. E aí, meu amigo, pode ser um pouco tarde. Quer saber do que mais? Se mexa. Mudar é bom, faz bem.

Eu percebo que muita gente tem amigos dos quais reclama. Juliana detesta gente que dá toco para o guarda. Mas tem vários amigos assim, viaja com eles e às vezes precisa ser conivente, afinal, não dá pra sair do carro no meio da estrada. Marta é protetora dos animais e cuida de alguns deles, sempre que pode. Mas tem amigos que odeiam – e maltratam – gatos. As discussões sempre terminam em brigas um pouco tensas. Felícia é adepta do budismo, mas sua melhor amiga é ateia. E assim por diante, vivemos em eternos conflitos uns com os outros.

O que eu quero colocar é que, na medida em que a gente convive com pessoas sem a mínima afinidade, ou pelo menos que haja um pouco de respeito, não seremos capazes de viver em plenitude. Imagine casar com alguém que acha simplesmente que seus valores são “idiotas”. Crenças, estilo de vida, abre-se a boca e surge uma crítica. Esse buraco negro entre as duas pontas do relacionamento não só nos torna infelizes, mas nos atrasa. Empacamos como bichos perdidos na escuridão de um céu sem lua.

Uma grande amiga foi um exemplo de como um relacionamento atrasou a sua busca espiritual. Inconscientemente ela não fazia o que queria e desejava para não despertar no noivo sentimentos de desprezo, desrespeito. Por culpa dela, que não percebeu o quanto isso a fazia infeliz, continuou naquela condescendência até o cano estourar. Em menos de um mês depois que se afastou dele, se matriculou na ioga, na dança, frequentou templos budistas, leu tudo o que queria ler. Era ela para ela. Por fim cresceu e se reencontrou.

Muitas vezes nos cegamos por medo de perder algo ou alguém. Mas é preciso pensar mais na frente. Perceber que alguns valores são muito mais importantes que pessoas. É preciso que o outro se encaixe em nós, e não o contrário. É preciso conviver com as diferenças, obviamente, mas sem reprimir o que você tem de bonito aí dentro desse corpo e alma: a sua essência. Seja você, sempre. E potencialize este você com pessoas que querem mais e mais de você, que somem positividade, que andem para o mesmo caminho. Alguém que te dê a certeza de que o futuro os espera. Seja um amigo, um parente, um amor.

“A Transfiguração do Psiconauta”

Ilustração de Tales Francino

“‘Ligar’ significava ativar seus equipamentos neurais e genéticos. Tornar-se sensível aos muitos e variados níveis de consciência. Drogas eram uma maneira de realizar esse fim. ‘Tune in’ significava interagir harmoniosamente com o mundo ao seu redor-exteriorizar, expressar suas novas perspectivas internas. ‘Drop out’ era um processo de desprendimento de compromissos involuntários ou inconscientes”. Flashbacks , 1983, Timothy Leary

 

* Tales Francino é de Palmeira dos Índios (AL), pinta e desenha desde pequeno, e se considera um psiconauta.

La Grande Dame

Vuve (Pintura de Carlos Coccarelli, anos 2000)

As coxas são grossas e rijas, tantos homens já as sentiram tapando-lhes as orelhas.

Ela é luxuria em carne e vida. Escolhe quem vai ser, onde vai ser e quando vai ser. A dama faz de qualquer leito prazer, com seus modos de dominatrix. A morte da luz faz com que ela desponte no solo mortal com um vestido de textura fina, cabelos de cachos perfeitos e pés equilibrados em gigantescos salto agulha.

A noite é d`Ela. Entra e escolhe a vítima. Depois sai furtivamente para que o escolhido a siga.

– Cale-se!

– Mas, mas…

– Mas porra nenhuma. Quero pensar que estou transando com um morto. Fique estático como um defunto. Quero você gelado!

Ela nunca fez questão de esconder que era vidrada em álcool. Estava bebendo antes, durante e depois do sexo. Quando acabava, pegava a garrafa e olhava o rosto do jovem. E costumava dizer em alto e bom som:

– La Grande Dame. Veuve Clicquot, 1979.

Depois cantarolava bizarrices.

Eu nunca entendi porque o coitado do Sebastian era feito de morto e com os outros gritava e fazia selvagerias. Não importa, no fundo. Ela nos abandonou. Foram mais de dois anos sem a sua presença.

Só voltou a aparecer depois de que um vizinho novo chegou. Logo fez amizade com os pais do garoto. Assistia todos os ensaios de piano do menino surdo, pálido e com cabelos dourados e desgrenhados.

Certa noite o púbere se viu só – a sua maior espectadora não tinha ido…

Ela havia reservado algo para o tenro pianista. Já tarde, abriu vagorosamente a porta e ficou de pé para o menino. Deixou o seu vestido cair e colocou na sua boca um grande gole de champanhe. Levo-o ao chão calmamente e pôs a mão no ombro do franzino rapazote.

Na manhã seguinte, sorriu do concerto que havia preparado por tanto tempo, e novamente desapareceu.

Texto originalmente publicando no site: coccarelli.art.br

O axé elucubrado das Olinda

O axé elucubrado das ladeiras de Olinda por Mirthyani Bezerra

Descer as ladeiras de Olinda, rumo à Praça do Carmo, depois de ter ingerido certa quantidade de cerveja e Axé (Ô bebida maldita!) não é uma tarefa das mais fáceis. E se a façanha for executada por uma forever alone qualquer, recém saída do Aloma, Juvenal ou Gentileza, é bem capaz da pobre pessoa chegar acidentada na avenida principal e ter que pegar o bacurau mais cedo. Por isso, toda assídua frequentadora da aura boêmia da Cidade Alta (não vou dizer “Original Olinda Style”, porque odeio rótulos) vai e volta acompanhada das “azamiga” dos bares de cima em direção ao Xinxim da Baiana.

É nesse meio caminho andado que repercussões de acontecimentos começam a ser discutidas. Nas vezes em que o nível de álcool no sangue ainda está baixo, as conversas são mais variadas, passando de lembranças da balada do final de semana anterior às últimas novidades sobre as noites gastas com o paquerinha no Facebook. Até ai nada demais. A bronca é quando já foram tomadas várias garrafinhas de Axé (aquelas de três contos). O papo fica mais sério, porque dor de corno não se esquece, fica guardada em algum lugar do coração esperando uma oportunidade para se mostrar e o Axé (Crê em Deus Pai!) proporciona o momento oportuno.

E dor de corno todo mundo tem. Existe sempre aquele carinha especial que te levou para as nuvens e depois te fez perder o chão. Lembrar dele, nesse momento, é inevitável. Até porque ele nunca foi realmente esquecido, pois quem marca permanece dentro de nós, das nossas lembranças, para sempre. E se inicia o momento deprê em que lágrimas podem até jorrar dos olhos. Há quem relembre todos os relacionamentos frustrados, os foras que levou, os homens “lobo em pele de cordeiro” em que caiu na besteira de se envolver emocionalmente, aquele cara que só liga quando não tem mais opções disponíveis e, mesmo assim, a apaixonada incorrigível ainda morre de amores, etc.

Mas esse momento não dura mais do que 15 minutos. Porque a noite deve ser de festa, de alegria. Passados os instantes de exaltação à baixa auto-estima, é hora de dar o último gole de Axé, levantar a cabeça, enxugar as lágrimas (no caso das mais emotivas) e seguir em frente, tanto na vida, como em direção ao Xinxim da Baiana, onde a cerveja está cara, mas ninguém consegue deixar de ir, nem que seja para dar uma passada e olhar o movimento.

*Mirthyani Bezerra é jornalista, letrista e vocalista da banda Clube do Acaso

Porto Seguro

Porto Seguro por Neide Carvalho

Numa manhã de domingo, Teca de Adília Ribeiro, que como eu era ainda garota, foi até minha casa, no Exu, convidando-me para um passeio nos arredores da cidade. Não perdi tempo. Nem perguntei o percurso. Só imaginei que se tratasse de um passeio rápido que nos permitisse voltar para o almoço. Da sala da frente, gritei: “Mãe, vou ali e volto já”. E saímos.

Chegamos ao Sítio Santa Luzia, fomos à casa de dona Bela Apolinário e de lá nos dirigimos ao Uruguai, uma fazenda cuja casa principal é belíssima. Valeu a pena conhecê-la. Nessa época, lá, morava a família de Netinho Coelho, que nos recebeu carinhosamente, apesar de não termos muito conhecimento. Até hoje me admiro da atenção que nos deram, pois éramos umas garotas meio malucas.

Pedi a teca para não prosseguirmos, já que não conhecíamos aquela região. Ela, muito calma, porém decidida, não desistiu. Sem saber aonde chegar, tomamos um caminho que, por acaso, nos levou à casa onde morou o beato José Lourenço. Ali ninguém nos deu a menor importância, apenas água depois de tanto bater palmas e gritar “ô de casa”. Ainda perguntamos o caminho do Pau-Ferrado, a fazenda da mãe de Teca. A mulher, indiferente, nos apontou o fim do terreiro: “É por ali”. Que ali era aquele, se havia mais de um caminho?

A essas horas, o sol já ia alto, e o calor estava sufocante. A fome, meu Deus, eu já não suportava. Para encurtar a história, andamos a esmo. Não sabíamos se íamos ou se voltávamos, passando por casas onde nem pensar em chegar à porta, pois os cachorros vira-latas lá estavam a nos mostrar os dentes. Até que enfim Teca reconheceu o caminho do Pau-Ferrado e disse, alegremente: “- Aqui estou em casa!”. Eu já duvidava de tudo. Além da fome e da sede, veio-me o medo da chegada em casa. A essas alturas, Mãe já devia estar me procurando por toda a Exu. Quis voltar dali mesmo. Parecia que estava adivinhando o que estava por vir.

Ao caminharmos um pouco, nos deparamos com uma vaca brava que, nos pressentindo, veio correndo ao nosso encontro. Mal tivemos tempo de subir numa cerca de madeira. Ela não desistiu. Ficou a cavar a terra pronta a nos atacar. Tudo isso ciúme do filhote recém nascido. Felizmente o vaqueiro conseguiu levá-la para longe em sentido contrário da estrada. Descemos da cerca e, não demorou muito, ouvimos um barulho que mais parecia trovões. Quase não nos apercebendo do perigo, lá vinha num sei quantos jumentos de lote, mordendo uns aos outros, sem respeitar os obstáculos, na disputa por uma fêmea. Iam e vinham, na estrada, conforme a direção que a jumenta tomava.

Os jumentos de lote sempre foram perigosos. Por muitas vezes, nos dias de feira, no Exu, eles se soltavam e saíam de feira adentro, arrastando tudo, em meio a correrias e gargalhadas. Ai de quem e do que estivesse à sua frente. Corremos de novo para a cerca e por ela continuamos caminhando até uma casinha de taipa onde nos refugiamos.

Inesquecível casinha! Apesar da pobreza, era difícil outra igual. Limpa, cheirosa, aconchegante. As panelas de barro, arrumadas num jirau de varas raspadas, eram lisas sem o costumeiro carvão. Os potes cobertos com tampas de madeira e sobre elas paninhos redondos, “alvos como coco”. No piso de terra batida não se viu um fragmento de sujeira. E os copos de alumínio, estes espelhavam. A parede do Coração de Jesus e do Coração de Maria era forrada de papel colorido, dando maior destaque àquele ambiente saudável. Até perdi o medo da volta.

A dona da casa, dona Belisa, ao nos ver cansadas e famintas, prontamente nos armou umas redinhas velhas, porém super limpas. Enquanto repousávamos, ela pôs feijão pra cozinhar, temperado com pimenta de cheiro, pimentão e coentro colhidos na hora. Foi uma das mais gostosas refeições que provei. Não pelo dizer: “O melhor tempero é a fome”. Não, não foi somente a fome que lhe deu aquele sabor. Foi, principalmente, a paz, o aconchego daquela casinha.

Se fui castigada, na volta, não me lembro. Só sei que nunca me esqueci daquele nosso porto seguro. Que é de você, Teca, para confirmar a nossa aventura? Para eu poder ver aquele seu sorriso afogado, travesso ante as boas recordações? Se não o vejo, pressinto-o. Nem a morte consegue nos roubas nada do que fomos, principalmente se nos tornamos eternos por meio dos amigos.

A arte de agradecer

Sorria e Agradeça (Foto: Google Imagens)

Não é apenas questão de educação. É principalmente questão de reconhecimento. Algumas pessoas – por ignorância – simplesmente não sabem dizer obrigada. Talvez por terem sido criadas à rédea curta, talvez porque os pais não eram gratos, talvez por não terem sensibilidade. Saia para um restaurante, um bar, um local com todo tipo de gente e observe. Observe quando o garçom servir um refresco, uma carne, uma água. Tire um dia para observar. Ver a atitude dos demais para com os demais. Veja quem agradece, quem não agradece. Mas veja, principalmente, aquele que é sempre ignorado. Veja o frentista, o motorista, o cobrador, o atendente, o caixa. Veja o seu colega de trabalho, a copeira, a moça que liga oferecendo cartão. Olhe nos olhos deles e diga: – Obrigada! Faça isso. Depois nos conte.

O ato de agradecer vai muito além de agradar a outra pessoa ou de agradar a si mesmo. Aqui, não cabe o discurso da culpa cristã. Não é porque somos todos iguais. É porque existe respeito pela existência do outro. É um: – Oi, tô te vendo, viu? Ou melhor: Oi, estou vendo o que você tá fazendo por mim, muito obrigada! Mas, estereótipos à parte. Vamos para o igual para igual. Que tipo de gratidão você carrega no peito em relação às pessoas mais próximas de você? Gratidão por uma amizade, por um abraço, por um favorzinho besta. – Que legal que ele é, veio aqui me visitar! – Me mandou um texto lindo, bacana! – Que bom que você está comigo todos os finais de semana! OBRIGADA! Mesmo que seja apenas um sincero sorriso acompanhado daquele brilho nos olhos.

A gratidão às pessoas é um ato de reconhecimento do outro, da importância dos outros, da atitude dos outros. É uma emoção de quem agradece para o outro. E o outro também se emociona. É um pouco como uma dívida, mas muito além. Muita gente já alcançou o significado da gratidão na arena das pessoas e dos relacionamentos. Mas e ao universo, a Deus? Àquilo que nos rege? Será que tudo nessa vida é mérito exclusivamente nosso? Pare para pensar em quantas vezes nos livramos de poucas e boas.

(pense mesmo!)

Pensou?
Foi sorte, destino ou Deus?

Seja a explicação que você tenha escolhido qual for, o universo corre conforme a própria vontade. E somos parte disso. Você já deve ter passado por essa situação: algo muito ruim acontece e faz você sofrer. Anos depois, já quando consegue rir de tudo, você pensa que foi melhor assim. – Obrigada por ter me livrado daquele mau amigo. – Que bom que eu saí daquela vida. – Ainda bem que perdi meu emprego, depois disso, tudo mudou pra melhor. Perder, muitas vezes, é uma grande oportunidade. Simplesmente agradeça. O universo sabe o que faz. Simplesmente sorria, e o que tiver que ser será.

Folheie o mundo e marque sua vida

Ilustração de Milo Nanara

A vida é um livro aberto dentro de um cofre de banco, onde são escritas páginas que relatam chaves de guardar segredo. É preciso ser alfabetizado para entender as lições de cada capítulo, assim como entender os investimentos. Não necessariamente ser um doutor das letras, mas um mestre da experiência. Isso requer mais do que diploma ou cálculos. É preciso dar as mãos e não cruzar os braços. O mapa da mina é de quem sente e faz sentir. No pobre mundo rico, riqueza é ser feliz. Segundo Marisa Monte, “é só mistério não tem segredo”.

Evite parar no tempo! A válvula de escape para fugir do unhappy end é preencher o branco das laudas com livre docência na Faculdade Federal da Sabedoria. O medo é uma das causas que reprova a felicidade. A busca pelo “eu” se perde no ego e encontra no eco do vazio somente bem material. É quando confundem o ato de doar com apenas receber. Triste a história desses personagens, prisioneiros egoístas de calculadoras, fadados à falência. Esses poderiam ter suas vidas historiadas a lápis como rascunhos para depois passar a borracha limpo. Viver é atemporal, mas não existem sete vidas como nas lendas do reino animal.

As lembranças fazem parte de alguns títulos que nomeiam o famoso feedback, enumerados por sentimentos que injetam ânimo. É preciso dar continuidade. Equilibrar doses homeopáticas com doses cavalares é, piamente, a nota máxima de equilíbrio. Todos deveriam sacar que para a fila andar é preciso depositar na caixa de seguros, valores que não tem preço. A adaga da vida requer coragem, peito aberto e mente livre. Esses são os bastidores tangíveis debitados no saldo da existência. A ferida amanhã é uma cicatriz do futuro dentro do bolso de uma roupa velha que será dada de presente. Viva até as intempéries!

Uma biografia deveria ser escrita em letras garrafais com marcador de texto nos tons fluorescente, em braile como língua universal para que todos pudessem ler, em tinta como arte para colorir o mundo, em foto como registro resumido de um olhar, em megafones para invadir a solidão das ruas, em bilhetes dependurados nos ramalhetes para florir os dias. Em sorriso de gentileza que perdoa o tempo, em amor que dura eternidade, em cobertores que acolhem os pés descalços das calçadas, em guarda-chuvas fechados para molhar a pele, em guarda-sol aberto para olhar o horizonte, em mãos que se estendem por afeto e não por dinheiro. Saiba fazer o “HAPPY END” de sua narrativa.

Pobre Leninha

Pobre Leninha por Belisa Parente

Pow Pow Pow Pow Pow

Leninha olhou rapidamente de um lado ao outro. Ela sabia que não eram fogos de artifício, nem crianças estourando bolas velhas catadas na frente de um prédio classe A – antes fosse.

– Corre João, corre! Foram as últimas palavras de Leninha.

A menina de 16 anos morreu imaginando bolas coloridas sendo pisoteadas por crianças. Nos cadernos de Leninha, jogados no chão, muitos corações vermelhos desenhados. E um lembrete em letras garrafais: “DIA 20, DENTISTA. DENTES ENTRAMELADOS NUNCA MAIS. EBAAA!” Toninho, seu irmão mais velho, havia dividido em 12 vezes o aparelho que parecia mudar a vida da menina.

João não quer mais ir à escola. Não quer comer, sair para brincar na rua, nem aquele big sorvete o atrai. Dona Zuleide não tem dinheiro para pagar um tratamento psicológico para o pequeno que viu a irmã caindo ensanguentada. João está em choque.

Além de Leninha, mais três homens foram mortos por “balas perdidas” da polícia; que fazia uma ação contra traficantes no Morro dos Macacos. Três trabalhadores assassinados e considerados criminosos, sempre as mesmas desculpas. O filho de um deles não cansa de chamar pelo pai. Sua avó conta uma história bonita, diz que papai está no céu, com santos e anjos, em paz. Mais tarde ele irá descobrir quem matou o pai: o Estado, a Polícia. Talvez se torne um traficante, daqueles que amam matar policiais, afinal, ele já não tem quem coloque o pão na mesa, já não tem bom estudo, nem perspectivas de um futuro promissor.

Leninha é enterrada; João ficou em casa deitado no chão, segurando uma flor arrancada da única coroa. As amigas choram, a comunidade faz uma homenagem linda. E lá no meio, um cartaz de cartolina, com a frase: “Queremos vingança”.

Janela panorâmica

Janela Panorâmica por Dani Leão

São tantos homicidas neste vasto hall de sensacionalismo, andam matando até o amor. Quem dirá o próprio? A guerra é de artilharia. Quem acerta mais na era dos profiles ou quem se alimenta mais dos fast foods. É como um binário de on e off line, no trocadalho do carilho de quanto mais on mais off life. No campo da frugalidade os comerciais são doses cavalares da crua realidade deparada nos balcões das boates, bares, shoppings, vielas… Até mesmo na religião.

A ostentação tomou a forma dos espelhos e ainda há quem duvide do seu brilho oportuno em meio a dialetos chulos e ensinamentos piriguetês dos veículos de comunicação. Sem mencionar o tanque de guerra virtual da generalização – tudo em demasia na velocidade dos segundos- embarreirado por telas, numa forma de mascarar seus cumplices.

Na semiótica das cores independente da categoria sociopolítica e econômica- o vermelho- é uma cor de poder, energia e vida. Bem contraditório! A magia do controle remoto, o passe do mouse e a tendência tecnológica são produtos no campo de batalha da nova temporada do botão vermelho. Perante todos os efeitos tem o mesmo significado; desligar. Andam desligando o passado, a realidade e até mesmo o afeto.

Se bem pensado, a análise da evolução cibernética em controversa da civilização é tão radical quanto pensar nos pré-históricos sendo um personagem do woodstock, por exemplo. No entanto com valores de vivência ainda preservados e fazendo valer a palavra de paz e amor com preeminência. Atualmente como cálculo quase que totalitário podemos ouvir no relatar de tempo que muitas pessoas ficam conectadas 24h ou mais. E daí a pergunta: Onde ficam os sentidos do corpo humano?

Talvez o plugin da criminalidade tenha culpa dessa exclusão interpessoal de relação. O que não ofusca os delitos virtuais. Nem tão pouco a autodefesa dos sentimentos. Uns atacam, outros defendem, enquanto a massa consome o pop. Qual será a próxima tendência do banal? Jamais uma escolha será perda de tempo. Digamos que seja um item da experiência que a vida nos dá desde que racionais. E a busca do ser-humano continua infinda quando almejamos a felicidade. Para isto é preciso que qualquer coisa que queime ou gele, estremeça ou pare, toque ou aperte a pele dos sentidos, pulse vida.

A coragem e o tempo são aliados para os perseguidores dos relacionamentos pessoais praticáveis. Hoje em dia ser proativo é o perfil da sobrevivência. Bitolar-se nas redes virtuais é o limite do panorama de viver. Nas ruas… O barulho das buzinas conota um cotidiano de passos, risos e abraços. Os olhares sob a perspectiva do olho no olho e naquela praça dos romances ainda há o registro da beleza natural que sombreia o banquinho da vida.

Aprecie a natureza!