A poesia filosófica embriagante de Lírian

A poeta e cronista Lírian Tabosa nasceu no Ceará, na cidade de Limoeiro do Norte. Vive no Rio de Janeiro há muitos anos, chegou a Nova Iguaçu em 1956. Os primeiros sonetos, escritos aos 15 anos, foram inspirados em Castro Alves e Guerra Junqueiro. Na adolescência foi seduzida pela política e chegou a ser exilada na Bolívia por cinco anos, onde reencontrou Che Guevara, amor eterno e “muso” inspirador de muitos poemas- o primeiro encontro foi no Rio.

“VAMOS BEBER QUE A VIDA É UM LÍQUIDO!”, filosofa enfática a poeta que endossa o caldo do Desmaio Públiko, aglomerado de poetas da Baixada Fluminense – eles bebem a poesia embriagante de Lírian e fazem dela hino. A poeta foi a grande homenageada do Calendário Poético de Mané do Café de 2015, lançado habitualmente na Fliporto, em Olinda, dentro do Alt Fest Fliporto, evento organizado por Tuppan Poeta nas ladeiras do Sítio Histórico. Lírian tem seis livros publicados e participações em várias antologias pelo País. Eis um pouco da sua obra, organizada pelo poeta Cézar Ray, um breve exemplo de MULHER e crítica neste 8 de março de 2015:

*

Ai amor, não faça isso!
Ai amor, não faça!
Ai amor, não!
Ai amor!
Ai

*
Recordando

O Silêncio invadia uma noite sem fim.
De súbito ouvi
Uma música clássica
e nostálgica.

Que falava de uma alma
e parecia ser a minha!

Um cigarro acendi
e a fumaça se perdia
como meu pensamento

que não tinha a quem lamentar.

A não ser aos versos
vivendo dentro de mim
a se manifestarem!

E meu Ego se expandia
Como um grito de terror,
ou era o silêncio da noite
ou era a música que eu ouvia

ou era a sentença da vida
que me jogava à solidão

Sem ter de ninguém o amor…

Bebi, bebi tanto
Até deixar que saísse
Do meu pensamento
a criatura que amo.

Bebi, bebi demais
E não sei dizer
Como passei a noite.

Só sei dizer

Que no dia seguinte,

o meu cinzeiro estava cheio de cinzas
as garrafas vazias…
E uma caneta sobre um poema…

*

O Que Estava Debaixo da Caneta

Um dia eu amei!
Não igual a Deus
porque ele ama muito!

De repente – traída –
que tristeza!
Amei como ninguém…

Tudo acabado.
Não te quis mais…
Pois só Deus ama demais
e eu não amo igual a Deus!

Apenas te amei
Como ninguém!!

Coitado
Dos homens…
Sofrem tanto
Com as mulheres!
Pobres mulheres…
Sofrem tanto
Com os homens

E assim,
reclamando
terminam ambos
numa cama!

*

Maldita sejas tu, Oh Fome!

Maldita, seja tu,
Oh fome, que flagelas
nada mais que meio mundo.

Maldita, seja tu,
Causadora de roubos
crimes
prostituição

Maldita seja tu
Que por aqui continuas
Até a decisão
Das massas!

Malditas sejas tu.

Que quando te sentimos
Perdemos a fé
nos Santos e em Deus!

E a esperança
Nos homens que governam!

*

Enquanto se bebe
O líquido se impõe
e num relance
já com ele em sintonia
pode-se proclamar
em só grito:

VAMOS BEBER

QUE A VIDA É UM LÍQUIDO!!!!

Livros Publicados:

  • Libertas quae sera tamem – 1967 (publicado no exílio)
  • Lírian Tabosa x Moduan Matus – 1993
  • Pequena Mostra Poética – 1995
  • O Quarto – 1997
  • Umas e Outras – 2002
  • Lírios – 2009
  • De Lá para Cá – 2014 (uma auto biografia poética)

LINKS:

Mapa de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro: http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/lirian-tabosa

Blog do Poeta Cézar Ray (fundador da fanzine Desmaio Públiko): http://www.zarayland.blogspot.com.br/2012/03/meu-povo-lirian-tabosa.html

Violência contra a mulher: nas ruas e na televisão

Dias antes da Semana da Mulher dois fatos trouxeram à tona uma relevante, porém, ainda incipiente discussão sobre a violência simbólica contra a mulher, veiculadas em concessões públicas. Em Olinda, a audiência judicial de escuta das testemunhas de Michele Maximino numa ação movida contra Danilo Gentili, Marcelo Mansfield e a TV Band, relembrou o achincalhamento pervesamente gratuito, em 2013, contra a maior doadora de leite materno do Brasil durante o programa Agora é Tarde.

O caso de Alexandre Frota, no mesmo programa e emissora, agora apresentado por Rafinha Bastos, ao relatar uma suposta cena de estupro, faz reiterar: o tema é atual, reincidente e revela a falta de ética e de limites legais numa busca desvairada por audiência. Evidencia também a necessidade da regulamentação da mídia enquanto ferramenta democrática e de garantia de direitos de grupos historicamente devastados por práticas de opressão como as mulheres.

Não é preciso pormenorizar os casos em si. O registro de tais atentados à liberdade estão em diversas mídias e podem ser facilmente encontrados na internet. Liberdade esta que, por sinal, é covardemente utilizada como justificativa para o suposto direito de expressar comentários e piadas que oprimem, humilham e estigmatizam.

Falar em respeito e garantia da dignidade não é sinônimo de atentado contra a tão falada liberdade de expressão, que se confunde ora com liberdade de empresas de comunicação, ora com liberdade para vociferar preconceitos e discursos de ódio. Liberdade de expressão sem filtros é selvageria. Quais seriam esses filtros? A consciência do respeito à dignidade, aos direitos e à liberdade das pessoas.

A violência contra as mulheres nos meios de comunicação não é nenhuma novidade. Os seus corpos, nossos corpos, são vilipendiados nas ruas e nestes meios. Exibir a imagem do corpo feminino, território onde se inscreve a vivência de cada uma, acompanhado de uma cruel dose de sexismo, racismo e objetificação em uma rede nacional de televisão, corrobora com os 50 mil estupros que acontecem por ano no Brasil. Número esse que é subnotificado, vale ressaltar.

Os dois casos que citamos no início deste texto são sacolejos necessários para se pensar na comunicação social como um campo político indispensável para a afirmação da cidadania das mulheres. Isto nada tem a ver com chapar a linguagem das mídias ou coibir o humor. Pelo contrário, se revela como desafio criativo e uso oportuno de instrumentos públicos de repasse e troca de informações. Traz também como necessidade o debate, a disseminação e apropriação das políticas de comunicação.

A banalização por parte da mídia da violência sofrida pelas mulheres é um fator de extrema importância na perpetuação de uma sociedade injusta e desigual. Resultado concreto disso é a acomodação e a falta de empatia com casos como o de uma mulher morta a tijoladas pelo ex-namorado. Ou de um estupro coletivo, amplamente compartilhado nas redes. Ou de uma mulher que doa leite para recém-nascidos em UTIs e é chamada de vaca e comparada a um ator pornô. Podem parecer coisas muito distantes, mas o machismo gritante de certas programações é retroalimentado pela morte de milhares de mulheres todos os anos. E isto precisa mudar.

O Jogador

O Jogo de Xadrez, 1943 (Pintura de Maria Elena Vieira da Silva)

Sempre menosprezei certas disputas, principalmente as dissimuladas. Acredito no destino, no velho o que tiver de ser, será! Mas de repente me vi como uma carta no baralho e questionei: é preciso jogar? Resolvi recorrer aos amigos, escolhi Dostoievski por admirar a sua alma existencialista. Para mim, escritos de um bom pensador são belos utensílios domésticos.

A ideia de roleta russa sempre me inquietou também, assim como o desejo de entender o jogo humano no mundo. Sente-se com sorte?O mundo às vezes pode parecer um jogo de azar. Algumas mentes atrozes bolam planos diabólicos, fazem contas, estudam profundamente o terreno, os inimigos. Costuram histórias, trapaceiam, dizem-se amigos, mentem – é difícil conversar com um mentiroso, sobretudo quando ele é um jogador decidido.

Aleksei Ivanovitch, o jogador de Dostoievski, ou o seu alter-ego, é um jovem astuto, desapegado, despreocupado. Ter tudo ou nada, possuir o status aleatório de rico ou pobre, amado ou detestado, são questões ditadas pela roleta, ou será melhor dizer, pela sorte? Por mais imprevisível que este elemento seja, a maioria dos jogadores desejam a presença do inexplicável facilitador. O russo de Dostoievski respeitava a sorte e a falta dela; acreditava que contaria com ela no momento certo. No fundo, altruísta e esperançoso, enxergava-a como uma poderosa carta na manga, uma salvação.

O personagem narrador de Dostoievski, Aleksei Ivanovitch, é o preceptor dos filhos de um general russo falido, porém confiante em herdar a fortuna da avozinha. Quando o general e os demais jogadores percebem que essa herança não sairá, as mascaras começam a cair e quase todos mudam as estratégias do jogo. Aleksei ironiza os aristocratas, seus medos, desejos, a forma de se relacionarem com o mundo e com as pessoas ao redor.

Os franceses e russos são bem caricaturados no livro O Jogador. Talvez pela necessidade de escrever a história rapidamente, para cumprir o prazo da editora e pagar as contas da casa. Mas ele conseguiu ser brilhante ao definir certos tipos de comportamento – detesto classificações mesquinhas. As pessoas são, antes de tudo, seres humanos, ou não? Um bom artista consegue descrever os seres originais, difíceis de encaixar um rótulo, escapolem das convenções sociais. Entretanto, o autor conseguiu ser pontual e universal, construindo o clima social das relações com as caracterizações.

“Des Grieus era igual a todos os franceses, isto é, jovial e amável quando necessário. O francês dificilmente é amável por natureza; dir-se-ia que sempre é amável por ordem, por cálculo. Se, por exemplo, vê necessidade de ser, fora dos hábitos, fantasista e original, a fantasia mais absurda e mais artificial assume nele formas de antemão admitidas e há muito vulgarizadas. Para mim, só as noviças e sobretudo as moças russas se deixam fascinar pelos franceses”.

“Às vezes, no estrangeiro, os russos são exageradamente poltrões, têm um medo horrível do que possam dizer os outros, do modo com que os vão olhar – será que isto ou aquilo fica bem? – em suma, portam-se como se estivessem metidos num espartilho, especialmente os que têm pretensões a importância”.

O jovem russo arrisca-se, ele é o personagem mais original, juntamente com a avozinha, uma idosa excêntrica, espalhafatosa – os únicos personagens livres. A roleta, com as suas voltas, pode ser metáfarora da vida. O zero repete-se, vermelho e preto, par, ímpar, pequeno e grande, depois de algumas horas a sorte pode mudar; a consciência, o lidar, a decisão de parar de jogar ou simplesmente brincar com o jogo no mundo. Os jogadores sabem, o vício/prazer é arrebatador, é difícil parar de jogar.

Por fim e recomeço, conclui o bom jogador de Dostoievski: “O que há agora é que… a uma só rodada tudo pode mudar, e esses mesmos moralistas serão os primeiros a aparecer felicitando-me e fazendo-me facécias amigáveis. Mas quero que se danem todos! Que sou agora? Um zero. Que posso vir a ser amanhã? Amanhã posso resurgir dos mortos e recomeçar a viver! Posso descobrir o homem em mim, antes que ele se perca!”.

O trabalho e os novos sofrimentos psíquicos da contemporaneidade

Hand (Foto: Pascal Renoux)

Os avanços da medicina, o acesso às informações que a Internet disponibiliza, os bens de consumo, avanços de incrementos tecnológicos e biotecnológicos e as exigências do mercado de trabalho operam sensíveis mudanças nas posições subjetivas e, consequentemente, mudanças nas formas de sofrimento psíquico do homem contemporâneo. Se a histeria foi o modo de sofrimento mais evidente no final do século 19 e início do século 20, a depressão sem dúvida é a marca mais constante do fim do século 20 e nascimento do século 21. Um crescente avanço de casos de depressão vem sendo constatados nos consultórios médicos, psicológicos e nas unidades de saúde mental.

Nos pacientes o que vemos é o desejo como um sofrimento quase insuportável. Talvez porque, na cultura contemporânea, desejar leva necessariamente a uma outra equação diferente da que remete à parcialidade. Alguns estudiosos acham que desejar não é mais conviver com aquilo que não se tem e que se almeja obter no futuro, desejar hoje “está” no concreto. Por sua vez, a dimensão do futuro parece assustadora para estes “novos pacientes da clínica contemporânea”. Para estes representar-se no futuro é quase impossível. O tempo não é percebido como contínuo. Entre uma coisa e outra, muitas vezes, o que emerge é o vazio que o tempo tenta a todo custo obturar, pois o presente está desvinculado do passado e da sua relação com o futuro.

Os desafios da clínica contemporânea são inúmeros e as demandas em saúde mental ilustram novas formas de mal-estar e sofrimento mental imbricadas no contexto sócio-político e econômico. Verifica-se ainda importantes mudanças de paradigma na atenção à saúde, que trabalha hoje com a noção de clínica institucional, em que vínculo, humanização, integralidade, responsabilidade e rede são alicerces para qualquer ação em saúde.

Diante destes fatos verifica-se que o profissional de psicologia tem se deparado com a necessidade de dispor e construir recursos para o trabalho de acolhida desses diversos contextos em crise da contemporaneidade. As demandas em saúde mental mobilizam não só os técnicos, mas colocam em questão as próprias práticas de atendimento problematizando acerca dos modelos tradicionais de atenção e ativando a implementação de uma clínica sensível à diversidade sociocultural e aos modos contemporâneos de produção de subjetividade.

A clínica vista como prática crítica realiza uma análise contextual do sofrimento e de sua relação com os processos de produção de subjetividade, o “vir a ser”. A clínica institucional trabalha a permanente contextualização do sofrimento com os contextos sociopolíticos, do psíquico com o social. No âmbito da clínica institucional, o trabalho em grupo constituiu-se como uma importante via de intervenção, atuando como fator de potencialização da construção de outros modos coletivos de existência.

A época atual ainda apresenta os principais fundamentos da modernidade: o pensar sempre no futuro, o querer estar sempre à frente e o consumo. Parece que os ideais iluministas de evolução e progresso ainda fazem parte desta sociedade. No entanto, as descobertas da ciência estão sempre visando um suposto aperfeiçoamento humano. Enquanto na modernidade perdeu-se a liberdade em prol da segurança; na pós-modernidade oumodernidade líquida trocou-se a segurança pela liberdade. O preço pela liberdade da atualidade é uma insegurança quanto ao futuro. Entretanto, não se pode esquecer que durante a maior parte da história ocidental o ser humano teve o trabalho de adaptar-se a mudanças, houve momentos onde a incerteza também prevaleceu. As guerras, os desastres, a fome, sempre estiveram presentes e, por causa disso, foi preciso viver em condições adversas de total incerteza.

Dessa forma, as possibilidades de escolhas infinitas e variadas, trazem mal estar na medida em que não se pode nunca viver tudo, ter tudo. O sofrimento está ligado à identidade do indivíduo contemporâneo permeada pela exigência de consumo nunca satisfeita. Este é o cenário contemporâneo que abre caminho para certa intolerância ao sofrimento e maior consumo de remédios para acalmá-lo. O ideal de perfeição contemporâneo dominado pela exigência de felicidade e alegria não abre espaço para a tristeza, a depressão, o luto. Os psicofármacos viraram os dispositivos atuais para o ser humano lidar com a dor psíquica.

A depressão é vista, portanto, como um problema de desequilíbrio químico do cérebro, e seu tratamento retira do sujeito qualquer implicação com as causas da sua própria dor, e privilegia o desaparecimento do sintoma em detrimento de uma elaboração psíquica.

Mas porque uma maior incidência de depressão nesta sociedade? Segundo alguns críticos isto ocorreu porque o sujeito contemporâneo está sob o domínio dos ideais de iniciativa e de responsabilidade ao mesmo tempo em que falta alicerces na sociedade para apoiá-lo. A depressão surgiria ,assim, como uma patologia da responsabilidade de ser si mesmo, na qual o sentimento que domina é a insuficiência, seria ainda como uma reação à demanda impossível de se cumprir algo.

Em recente pesquisa Cenci (2004) ressalta que aspectos da saúde e da doença estão claramente presentes no contexto de trabalho contemporâneo. Tais aspectos permeiam a vida dos trabalhadores que muitas vezes adoecem orgânica e psiquicamente no exercício diário das suas atividades laborais. Contudo, sabe-se que o trabalho possui um papel importante na vida do indivíduo e dessa atividade depende não só o sustento do trabalhador, mas a ela está também associado um significado que diz respeito a função e reconhecimento social. A manutenção do trabalho se constitui em forma de legitimação social enquanto sujeito. Sua atividade laborativa lhe confere reconhecimento e um lugar no mundo do trabalho. Para se manter nesse lugar o trabalhador cria estratégias defensivas. Ele depara-se com um ambiente sentido como hostil e muitas vezes gerador de doença.

Sexo! A terceira idade PODE

Os preparativos para a velhice (Foto: Claudia Meyer)

A expectativa de vida em países desenvolvidos tem crescido espetacularmente, aumentando a margem de idosos saudáveis e ativos mesmo quando o assunto é o sexo. Mas a sexualidade na terceira idade parece não receber a devida importância da sociedade, que acredita, comodamente, que a atividade sexual declina com o surgimento dos cabelos brancos. Certamente esse não é o caso de Maria Carla Marinho. Sexualmente ativa, brincalhona, gosta de namorar e, o mais importante, se sente feliz com o fato de ser como é. E, se a noite terminar em boa companhia, melhor ainda. A idade? Nem pense em perguntar.

A relação sexual tem sido considerada uma atividade própria e quase monopólio das pessoas jovens, com boa saúde e fisicamente atraentes. A ideia de que os idosos também possam manter relações sexuais não é aceita por muitos, que relegam a eles um personagem fictício repleto de castidade. De acordo com Amparo Caridade, especialista em sexologia humana, a atividade sexual não desaparece na terceira idade, mas se transforma. “Na pessoa madura, a sexualidade compõe o quadro de relacionamento estável e troca mais profunda de emoções. A pessoa idosa pode viver tudo isso, mas jamais deve se exigir um nível de desempenho próprio de um adolescente”, diz.

Maria Carla Marinho (Foto: Camila Ribas)

Carla Marinho (foto ao lado) ficou viúva aos 22 anos, com um bebê nos braços e uma gravidez em curso. Naquela época, não imaginava que aproveitaria tanto sua vida como hoje. Durante a transição, sofreu pressões psicológicas e “ficou amedrontada”, mas optou por não deixar a vida passar. Desde então, está focada em curtir, mesmo com os filhos e netos não gostando muito de seu modo de vida ‘namoradeira-assumida’. Carlinha, como é chamada pelos amigos, não deixa de sair e nem de ficar com os gatinhos, sempre que há oportunidade. Hoje está namorando um rapaz de 32 anos, o “lindinho”. E ela só consegue fazer isso porque não está “preocupada com o que os outros possam pensar”, explica.

Por conta do desconhecimento e da pressão cultural, alguns idosos experimentam um sentimento de culpa e de vergonha por se perceberem com desejos sexuais, chegando a pensar que são anormais. Além disso, tendem a associar o sexo à procriação, quando, na verdade, deveriam associá-lo também ao prazer imediato. “As pessoas idosas não devem se envergonhar de uma coisa bonita como é o desejo. É um sinal positivo de que sua saúde emocional lhe garante essa vitalidade”, diz Amparo. E Carla complementa: “amigos estranham o meu jeito de ser, mas minha idade não faz a menor diferença se há homens que gostam de mim e a gente termina se apaixonando, como pessoas em qualquer idade.

Outro ponto a ser discutido é o fato corriqueiro de considerar a sexualidade exclusivamente calcada no coito, não compreendendo ou concebendo outras atitudes, condutas e práticas igualmente prazerosas. “As pessoas sentem-se muito para baixo quando apresentam dificuldades com o desempenho sexual. No entanto isso pode ocorrer em qualquer fase da vida”, revela Amparo. Quando isso acontece é porque fala mais alto o preconceito em relação à idade. “A genitalidade pode entrar em cena, mas não se pode reduzir a sexualidade apenas a isso. É uma distorção cultural”, explica a especialista. O ideal, segundo Amparo, é começar a enxergar a sabedoria de conviver com a felicidade simples e bonita de estar com o outro numa troca amorosa e amável, o que, muitas vezes, é muito mais importante para manter uma relação amorosa viva.

Carlinha não tem esse problema. Admite que gosta de ser uma pessoa ativa e, às vezes, até dá conselhos para amigas que não querem mais saber de sexo com os próprios maridos. Ela diz que falta às mulheres saber “criar o clima” e se sentirem como mulheres desejadas, atraentes e vivas. “Não se vive sem amor. Se tem gente paquerando comigo e me procurando é sinal que ainda estou bem e principalmente agradando”, fala.

Amparo Caridade (Foto: Divulgação)

Para reativar sentimentos e sensações relacionadas ao corpo e à sexualidade, o primeiro passo é repensar a própria sexualidade. O que você pode, quer e deseja? E o que você deixa de fazer é porque não quer ou você se sente envergonhada? De acordo com Amparo, “não se deve seguir a cartilha de ninguém”. Carlinha pensa assim. Por isso, procura se ocupar, inclusive com atividades que estimulem sua sexualidade. Participa de aulas de hidroginástica, e também de dança do ventre. “Apesar de meu namorado não gostar da dança, não deixo de fazer nada. Se não estiver gostando de como eu sou, a fila anda”, brinca a ‘dançarina’, e finaliza: “não podemos parar a vida”.

Serviço: Projeto UFPE “A dança reinventando a imagem do envelhecimento”
Telefone: (81) 2126.8931

Dica do médico
Por Dra. Thereza Medeiros, ginecologistaAs idosas têm um déficit hormonal muito grande porque os ovários não estão mais atuantes. Sem os esteróides sexuais, a lubrificação fica comprometida, deixando a vagina mais sensível e delicada, portanto, muito mais exposta a lacerações, vaginites e vaginoses. É preciso um acompanhamento médico para manter a harmonia entre a sexualidade e a saúde.

Isadora Duncan

Isadora Duncan (Retrato por Charles L. Ritzmann)

Filha de uma pianista e de um poeta americano, Isadora Ducan é considerada a pioneira da dança moderna. Num momento, em que predominavam a técnica e a rigidez do balé clássico, sua dança foi inspirada pelas figuras das dançarinas nos vasos gregos tornando-se um ícone da dança contemporânea.

Sua proposta de dança era algo completamente diferente do usual à época. Ela trazia movimentos improvisados, inspirados, também, nos movimentos da natureza: vento, plantas, entre outros. Os cabelos meio soltos e os pés descalços também faziam parte da personalidade profissional da dançarina. Sua vestimenta era leve. O cenário simples era composto apenas por uma cortina azul. A dureza e rigidez deram lugar à simplicidade.

Outra mudança importante trazida pela dança de Isadora Duncan é que, por influência dela, se começou a utilizar músicas até então tidas apenas como para apreciação auditiva. Ao som de Chopin e Wagner, a expressividade pessoal e improvisação estavam sempre presentes, encantando o novo mundo que estava nascendo.

No tocante à sua própria história, registros apontam que Isadora tinha personalidade forte e não se curvava às tradições. Não era afeita ao casamento, tendo casado três vezes e só o fazendo porque tinha a possibilidade de separar-se, caso quisesse. Em Londres, no Século 19, Isadora consolidou fama.

Em 1913, um incidente tira a vida de seus dois filhos, Deirdre e Patrik, e de sua governanta, que tragicamente morrem afogados no rio Sena. Devido ao fato, Isadora passa alguns anos sem se apresentar. No ano de 1916 ela vem ao Brasil e se apresenta no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, aos 38 anos de idade. Passa seus últimos anos na França, depois do suicídio de seu terceiro marido.

Em 1927 escreve uma auto-biografia intitulada My Life e morre no mesmo ano, em um acidente de carro conversível, quando a sua echarpe ficou presa a uma das rodas, enforcando-a.

A vida trágica foi uma moldura para que a dança da época desse lugar ao que hoje conhecemos como dança contemporânea.

CONFIRA ABAIXO ALGUMAS FOTOS DA DANÇARINA

A dança de Isadora Duncan e Martha Graham – Parte 1: Isadora Duncan

Pequeno documentário sobre a vida e a dança de Isadora Duncan e Martha Graham. Imagens retiradas da internet, cenas do filme “Isadora Duncan, the Biggest Dancer in the World” produzido pela BBC TV em 1966 e vídeos das companhia de dança de Isadora Duncan e Martha Graham.
Trilha Sonora: Tori Amos.
Produção, edição e narração: Alan Villela.
Trabalho feito ao cumprimento da disciplina “Expressão Corporal III” do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto pelo aluno Alan Villela.

Ensaio fotopoético de Silvia Schmidt

Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador

Silvia Schmidt é uma andarilha corajosa, regida pelo sol e pela lua em Leão. Pai de origem judaica, mãe Alemã, um filho, cinco irmãos, muitos amores e amigos. Natural de São Paulo, viveu em Santa Catarina, aportou no Recife há alguns meses e agora vive nas ladeiras de Olinda. Formada em letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena (SP), deu aula de literatura e redação por dezesseis anos. Tem pós-graduação em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e em Sociologia e Política pela USP. Atua, há 10 anos, no mercado da economia criativa, desenvolvendo projetos na área da Educação, Literatura e Multimeios. É curadora do Festival de Animação de Fernando de Noronha e do projeto Escola Vocacional Livre. Possui dois romances em revisão, Duty Free (2000) e Empadão Goiano (2011), um livro de contos. Neste ensaio a escritora apresenta alguns dos seus poemas resignificados pelas lentes da fotógrafa Mari Patriota, do Projeto Provador.

 “Sou volátil como uma brisa que passa, mas deixa um aroma doce no ar. O meu sonho é poder viver materialmente do SONHO, tema principal de minha arte. A poesia nasceu em mim… é uma percepção, um estado de ser e sentir… ela flui a revelia quase sempre quando vi… já escrevi!”.

Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador
Cobalto (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Cobalto
Pintei as unhas de azul cobalto e sai por ai!

Sapato alto_astral…
-“por sua causa, apenas por sua causa”: disse- me um pequeno pássaro…. imaginário, soprando-me doces piados no florido quintal de meus sentidos.

Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador
Olho (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Olho

Meu olhöölhou
Seu só riso
Em vt preto e branco
Sim tonia
Sim patia
Tv em pele cristalina
Voce e eu for a do ar.
cavalo marinho
e mulher golfinho.

Seu jeito, meu jeito (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)
Seu jeito, meu jeito (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Seu jeito, meu jeito

Quando eu disser náo,
Você apela.. um sim…
Empurra-me à primeira parede
Junte-se a minha tez num destino sem fim..
Roube-me um beijo daqueles
Penetre-me pelo meio
Seus dedos , cabelos.. em mim..
Pegue-me de jeito, dentro

 Abra os meus  joelhos mais pra ti
Mordisque me os seios carmim
Puxe-me pro teu peito
Faça-me atrevida sentir
O seu mais perfeito masculino
Eu sem saída, uma deusa linda
Sem medo, sem resistência
Envolva-me em seu pênis
Mescle seu cheiro em meu jardim
Seu jeito ao  meu jeito Yasmin
Não vá  sem pensar antes um começo
Um caminho qualquer sem endereço..
Por mim e por você..tenha..sempre

Um querer muito mais que dizer  THE END.

Poeta (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)
Poeta (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Poeta

Há um frio, um frio latente
Há um poeta vindo ao meu corpo
Como leite de mama:
Hilda Hilst à cabeceira da cama
Uma fome_poema requer-me a alma
E o corpo ao ser tocado, lembra a si
A repetição do mesmo tema.
Fogo nele faz bolhas de ar quente
Como peidos e arrotos
Agasalhos jogados ao léu
falta de aconchego
Visto-me de luto goela a dentro porque não há
Papel que eu despeje tanto de cárcere
E falta de ciência.
A Lua se vai alta em nuvens densas
Qualquer linguagem soa-me falsa nesse transe
Quando sequer o desejo pulsa em falsa corrente
é ágil  a mão sobre  a bancada-laje de cemitério
A pena se cala nesse santo sacrilégio.

Amante (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)
Amante (Foto: Mari Patriota/ Projeto Provador)

Amante

Acordei com fome de tudo
De mãos em meio a minha vagina
Desejo de mordiscos em meus peitos eriços
Mamilos seus em arrepios
Acordei com fome de pênis
De lábios penetrando dentro
De línguas chupando línguas
Saliva- açúcar escorrendo tensão e alívio
Corpo em ardência neste sacro sono tardio
Não havia a pena , mas pura poesia
Nem os dedos , nem avidez de aprendizes
Não havia a flor-pétalas descendo meu corpo
Perfumando a pele em seus encantos
A preguiça o remanso, não havia
Acordei com sede de bacantes
Vinho sangue dança do ventre
Amada sem amante.

* * *

Troque figurinhas com a escritora na sua página de literatura no Facebook: www.facebook.com/pages/SILVIA-SCHMIDT/196055840459643

Conheça o Projeto Provador: https://www.facebook.com/projetoprovador

“Quando dormem as feiticeiras”

La Partida de las Brujas (Pintura de Luis Ricardo Falero, 1878)

Mulheres ativas, corajosas e sábias, costumam assustar os homens até hoje, imagine em 1491, nas velhas cidades de Albi e Cordes, na França – onde é ambientado o livro Quando dormem as feiticeiras, de Carlos Costa. É comum ver homens correrem sorrateiros quando encontram uma mente feminina desenvolta e autoconfiante. Só os mais sensíveis percebem que não somos uma grande ameaça. Na Idade Média, mulheres espiritualistas que adoravam plantas e animais eram chamadas de bruxa, investigadas e punidas pelos inquisidores.

Uma comunidade de feiticeiras é atacada e perseguida pela Inquisição. A nova líder e mestra, personagem principal do enredo, é Urtra, uma mulher determinada que usa sua “presciência” a serviço de um ideal: perpetuar os preceitos da ordem Irmandade das Lobas. Urtra foge com a pequena Yalana, as outras bruxas se dispersam, muitas são mortas. No caminho, conhecem a jovem Medrice, que abandona os estigmas católicos de pecado e penitência e se inicia na Irmandade.

A peregrinação das feiticeiras é uma aventura diária de sobrevivência, intuição, aprendizados, encontros. A meu ver, o grande feitiço do texto de Carlos decorre das mensagens, lições que pulam em cada página proporcionando reflexões para entendermos os mistérios universais e conhecermos a nós mesmos: “Deves temer sempre mais os vivos e apenas respeitar os mortos, embora estes, de fato, em muitos casos nos atrapalhem ou nos ajudem. De qualquer sorte, o mal existe no próprio coração do homem. E o maior deles á a ignorância, enquanto o desconhecimento de si mesmo, eis aí todo o mal e o verdadeiro demônio”.

Ficção, história e ocultismo se mesclam numa trama contagiante. Albi foi, historicamente, a cidade onde se iniciou a Inquisição, devido ao Catarismo, crença que pregava a existência de um deus do bem e outro do mal – assim como os chineses acreditam na filosofia da dualidade do Yin e Yang. O escritor possui perceptível habilidade no jogo das palavras, misturando as pouco convencionais como “azáfama”, “rijo”, “compleição”, “tez”, com um diálogo entusiasmado e muita poesia: “O calor crescia em nossos corpos, enquanto nossas roupas aprisionavam o mais indomesticável minotauro. Senti uma espécie de fome que não lamenta o agora, a fome do presente instante”, dizia Urtra sobre a Baronesa Isabelle. O encontro amoroso entre as feiticeiras é o ponto mais quente do livro. “Um gemido agudo se fez ouvir no vazio do quarto. (…) detive o quanto pude na orla dardejante de uns poucos pelos. Era um pedido quase religioso o seu, mas mantive a penitência para que a expiação final fosse plenamente recompensadora. Um ramalhete de pelos lisos e delicados ia indicando o ardente caminho (…)”.

Carlos Costa, em Quando dormem as feiticeiras, diz em cada página o que muito ficcionista não consegue dizer em um livro inteiro, como na passagem: “Existia dois tipos de visão: uma que toca a alma do mundo, a mais sagrada e difícil de exercer; e a outra, que é comum aos acontecimentos ordinários, mas que pode ser totalmente desfigurada de sentido se não houver treinamento e iniciação adequada”.

Se a história parece medieval, afirmo que existem muitas Urtras na contemporaneidade. Bruxas com PhD e tudo mais. Historiadoras, antropólogas, biólogas, professoras… Adoradoras da natureza, interessadas nos mistérios metafísicos e femininos, visionárias que podem “atar e desatar as coisas, ver entre as brumas da ilusão e ascender ao portar da luz, das trevas, das sombras e dos sonhos”, como as feiticeiras de Carlos.

Quando Dormem as FeiticeirasQuando Dormem as Feiticeiras
Carlos Costa
Editora Novo Século
240 págs, R$ 29,90


Carlos Costa (Foto: Divulgação)
Carlos Costa (Foto: Divulgação)

+ sobre o autor da obra, Carlos Costa

Formou-se em Odontologia e depois em Psicologia, e como ele mesmo costuma dizer, indo do dente ao transcendente. Desde tenra idade, possuía certa inquietação existencial, aliada ao interesse por astronomia, pelos grandes mistérios e pela vida além das estrelas. Desenvolveu cedo o gosto pelos livros, seus únicos companheiros nesta fase que, talvez, pudessem lhe dar respostas. Em Salvador, onde reside, iniciou sua busca espiritual, descobrindo as religiões orientais e o ocultismo. Mais tarde, aprofundou a vocação espiritual ao se iniciar no caminho da Magia e nas velhas religiões, tendo aí diversas experiências com o sagrado. Divide seu tempo entre a clínica em psicologia, o ensino e os escritos. Lançou nacionalmente em 2009 o livro, QUANDO DORMEM AS FEITICEIRAS. Atualmente, está escrevendo o seu quarto romance.

Uma Margarida faz revolução

Dona Margarina (Foto: Belisa Parente)

Os poderosos podem matar uma rosa, duas, até três rosas, mas jamais deterão a primavera“.
Che Guevara

A primavera para ela chegou em 1937, quando Getúlio Vargas desencadeou o golpe de estado, implantando o “Estado Novo”, regime ditatorial e autoritário que fez com que civis como Manoel Sebastião da Silva se engajassem na luta armada. Margarida Oliveira da Silva perdeu o pai nesse mesmo ano, ela tinha apenas cinco anos de idade, mas ainda recorda o vestido que “mal tirava do couro” feito com as sobras do tecido da camisa dele – ela conta que o trabalho de Manoel Sebastião na Revolução de 30 era sabotar os carros dos inimigos do Estado, conhecidos como “perigo vermelho”, os comunistas. “Meu pai ia lá, em surdina, e afrouxava os parafusos das rodas dos carros para que eles não atravessassem a ponte que dava na cidade”, fala meio a sorrisos.

Os direitos constitucionais estavam suspensos desde a Intentona Comunista de 1935, não existiam leis trabalhistas – essa só entrou em vigor em 1943 – que amparassem Margarida, sua mãe e mais dois irmãos. A família começava a passar necessidades quando Tereza Tavares da Silva resolveu procurar sua mãe, a avó de Margarida. “Nós fomos para Palmares atrás da minha avó, ela foi para lá e não voltou mais”, diz. É a partir daí que começa a saga de uma menina do interior de Alagoas que se tornaria um exemplo de luta, força, coragem e fé para os que a conhecem. “Foi a viagem mais longa da minha vida, só Deus sabe o que nós passamos”, afirma.

Margarida, a mãe e os dois irmãos fizeram boa parte do percurso a pé. Caminharam de União dos Palmares-AL Palmares, Alagoas, até a divisa do Estado de Alagoas com Pernambuco, no “encontro das águas”, daí pegaram um trem e, enfim, chegaram em Palmares, já em Pernambuco. Lá, com seis anos, Margarida passou um longo tempo ajudando a mãe na fabricação de tijolos, esse era o único sustento que a família tinha. “Lembro, eu pequena colocando o barro na forma e depois levando ao fogo, teve um dia que minhas mãos sangraram de tanto maçar os tijolos, já sofri muito nessa vida”, conta. Depois vendeu cachorro-quente na porta do mercado e laranjas na estação do trem, tudo isso para ajudar a mãe. “Uma vez subi no trem pra vender as laranjas e quando menos espero, ele começou a andar, corri pra porta, e me joguei, me relei todinha, mas hoje estou aqui contando a história”, lembra.

Seis anos depois, agora com doze anos de idade, Margarida consegue um emprego na fábrica de tecidos Amalita e muda-se para o Recife. Mas foi em 1958 que o espírito revolucionário fez-se visivelmente presente, uma nova luta começava, agora em favor da classe trabalhadora de Pernambuco. Ela e os seus companheiros reivindicavam aumento salarial de 20%, mas o dono da fábrica não queria acordo, foi quando os operários entraram em greve. “Greve é a última arma que o trabalhador tem quando não chega o diálogo, o entendimento com o patrão”, diz.

Depois de 49 dias de greve os trabalhadores resolveram fazer um piquete próximo à fábrica, na Praça Sérgio Loreto, localizada entre a Rua Imperial e a Avenida Sul, no bairro de São José. Alguns operários mais revoltados fizeram um coquetel com soda cáustica e jogaram nos funcionários mais antigos que furavam a greve, e nos novos contratados. Foi quando a tropa de choque interveio e machucou muita gente. “Os furões passavam nos carros de barriga cheia, mangando da gente, enquanto nós passávamos fome em prol de todos, da classe inteira, eles só pensavam neles. Sempre fui solidária aos meus companheiros”, afirma.

Nessa época Margarida já era mãe de sete filhos legítimos e quatro adotados, e um desses foi achado em uma caixa de sapato. Parece mentira, principalmente no mundo capitalista e individualista em que vivemos, mas não é. “Sofri muito, porque 49 dias de greve pra quem tem uma família grande é difícil… Eu sustentava catorze pessoas e a maioria eram crianças”, conta. Margarida foi presa no dia do piquete, no coreto da praça, porque ela significava a voz dos operários oprimidos, mas dias depois foi liberada por não haver provas que a incriminasse. “Eu era uma trabalhadora, queria um salário conforme o merecido, como Jesus disse: “Dá a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César”. E eu disse lá, só quero o de Deus, o de César pode ficar, mas eles só queriam nos explorar”, diz.

Na madrugada do dia 31 de março de 1964, um golpe militar foi deflagrado contra o governo legalmente constituído de João Goulart. A falta de reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável. Não se conseguiu articular os militares legalistas. Também fracassou uma greve geral proposta pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) em apoio ao governo. Nos primeiros dias após o golpe, uma violenta repressão atingiu os setores politicamente mais mobilizados à esquerda no espectro político, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC), a Ação Popular (AP) e Ação Católica Operária da qual Margarida fazia parte. “A gente discutia a situação do país, a situação do trabalhador dentro do plano de Deus”, comenta. Milhares de pessoas foram presas de modo irregular, e a ocorrência de casos de tortura foi comum, especialmente no Nordeste.

O líder comunista Gregório Bezerra, por exemplo, foi amarrado e arrastado pelas ruas de Recife. Milhares de pessoas foram atingidas em seus direitos. Parlamentares tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos suspensos e funcionários públicos civis e militares foram demitidos ou aposentados. Entre os cassados, encontravam-se personagens que ocuparam posições de destaque na vida política nacional, como João Goulart, Jânio Quadros, Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes e Miguel Arraes. “Nós paramos a fábrica em solidariedade a Miguel Arraes, as forças armadas cercaram o Palácio da Justiça, desde o Parque Treze de Maio. Um grupo de estudantes ainda conseguiu chegar ao Palácio, e um deles foi morto lá na frente”, afirma. O presidente do Sindicato dos Tecelões de Pernambuco, Amaro, sumiu nesse mesmo dia e nunca mais apareceu, muitos companheiros de Margarida foram presos no sindicato, arrastados e torturados, mas a sua vez só chegaria um ano depois.

Depois dessa crise toda, Margarida foi transferida da fábrica Amalita para a Macaxeira, do mesmo dono. As perseguições continuariam até o dia 8 de setembro de 1965, quando ela foi presa, humilhada, e acusada de subversiva pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). “Na repressão, quando você reclama um direito chamam você de subversiva, foi isso, levei o nome de subversiva, mas eles nunca provaram… Fui presa, fiquei com vergonha, mas meu grupo de amigos da Ação Católica me ajudaram, o povo de Dom Hélder também”, comenta.

Dona Margarida foi presa por lutar pelos seus ideais, mas sua luta de vida não se encerrou por aí, essa flor de mulher mesmo depois de 76 primaveras ainda não murchou, continua trabalhando na Rua do Lazer, ao lado da Faculdade Católica de Pernambuco. Logo após o golpe ela abriu um modesto fiteiro e há 45 anos passa seus dias vendendo livros, cartões telefônicos, chocolates, para sustentar-se e ajudar os filhos e netos que necessitam. Dona Margarida, com certeza, contribui com a evolução intelectual e política de muitos alunos que se encostam por lá para receber aulas de história, de vida, da revolução operária em Pernambuco. Como disse Bertold Brecht, “Há homens que lutam um dia, e são bons; Há outros que lutam um ano, e são melhores; Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; Porém há os que lutam toda a vida. Esses são imprescindíveis”.

100 anos do Eu (ou Augusto dando emoção à pedra)

Foto de Daniel Fernandes

“Vista de luto o Universo /E Deus se enlute
no Céu! / Mais um poeta que morreu, /Mais
um coveiro do Verso!”
Augusto dos Anjos. “Barcarola”

Há cem anos debatia-se entre a satisfação, a angústia e uma teia de desventuras o poeta Augusto dos Anjos. Era o momento de presentear o mundo com uma estrondosa bofetada estética: a obra EU – publicada as suas expensas e em parceria com Odilon dos Anjos, seu irmão. Foram 1.000 exemplares. A segunda edição só veio a público em 1928 (reedição póstuma, diga-se).

Se 1912 foi um ano contraditório para Augusto dos Anjos, 2012 pode ser ainda pior: paira a ameaça da pá de cal lançada por uma vertente da crítica literária que ainda precisa se nutrir para atingir a magnitude do EU. Para não incorrer nesse erro inicio a minha contribuição à Revista Zena com uma série de três textos sobre a obra de Augusto, para que o céu se converta numa “epiderme cheia de sarampos” e sejam demolidas as possibilidades de inércia diante desse universo. Se é para “desafinar o coro dos contentes”, como diz Torquato Neto, cá estamos.

Com a publicação do EU, ao ser oficialmente lançado no mundo das letras, em apenas um mês o nome de Augusto dos Anjos figurou nos principais periódicos cariocas. Se isso não significou o reconhecimento imediato do valor estético da sua obra, ao menos permite a visualização dos incômodos provocados. É certo que muitos dos poemas do EU já haviam sido publicados em jornais de João Pessoa, do Recife e Rio de Janeiro; essa circulação motivou a crítica a se manifestar por meio da imprensa.

Foto de Daniel Fernandes

Seis meses antes de lançar o EU, em sua estréia no Jornal O Estado (Rio de Janeiro), Augusto publicou um texto (carta) em tom de amargo desabafo. Dialogando com um interlocutor fictício, o poeta ironiza: “aqui o processo de emocionar ou de impressionar o público já é uma instituição veterana, com um número fixo de estatutos, sabiamente irrevogáveis”. Numa crítica audaz Augusto ainda disparou contra o recurso da “vassalagem inteligente” e advertiu o interlocutor a não alterar “o bem-estar sintomático que reina endemicamente no fervedouro quotidiano de nossa literatura”, sob pena de sofrer “justíssima obliteração no inventário rigoroso das letras pátrias”. O poeta, incisivo, apontou o destino dos que desafiam esse bem-estar: gozar “a importância astronômica de um satélite morto, a rolar, sem funções próprias, na dinâmica formidável do espaço”.

Se é verdade que Augusto optou pela “insistência em certos assuntos que perdem o condão de agradar” (crítica de Hermes Fontes no Diário de Noticias, em julho de 1912), eu vejo nisso o seu grande mérito. Esse poeta não foi uma aberração, um caso patológico e sua obra não é uma impressionante exceção no plácido panorama da Literatura Brasileira. Negar o EU por vezes se relaciona com o entendimento de que a angústia representada por essa poética tem a ver com um malogro individual. Cabe questionar: até onde esse reducionismo pode ser sustentado?

É preciso reconhecer: o EU veio para demolir modelos, seja no plano estético ou social. Nega um modelo secular que reflete no imaginário ocidental: a aproximação entre estética literária, padrões de linguagem, perfeição da forma, conteúdo lírico e imagens equilibrantes – modelo assimilado por autores brasileiros, como os árcades, românticos e parnasianos. Augusto dos Anjos despontou nesse cenário demolindo o que se aceitava como poético e, a partir daí, recompôs destroços e inaugurou uma poesia com elementos de choque. Isso não lhe pareceu ser o bastante, pois, a golpes de martelo, a sua obra aniquila a pureza e a possibilidade de se viver imune às constantes formas de degradação.

A poética de Augusto também desafiou a noção de progresso festejada pelas elites do entre-séculos XIX e XX. Por ser um observador agudo, o poeta representa a podridão social em detalhes, percorrendo os recônditos errôneos habitados por seres microscópicos. Há uma identificação com seres que estacionaram no primeiro estágio do desenvolvimento e se revoltam diante de tal condição, promovendo, a partir de galerias subterrâneas, a construção da ruína – espécie de ajuste de contas. Daí a imagem da cidade que vai sendo tomada nas entranhas pelos agentes da destruição.

No EU são percebidos os limites da aceitação, a tomada de consciência e a revolta relacionados com a morte. Nele está o homem que “desaprendeu a esperança”, o que faz da obra um desabafo trágico. “Trata-se de morrer irreconciliado e não de bom grado”, como afirma Albert Camus em O Mito de Sísifo. O poeta se insere numa luta constante marcada pela angústia: a falência do verbo, pois nem sempre a linguagem conseguirá representar os horrores da realidade.

Aqui lembro de Nietzsche (Além do bem e do mal): “De quantos séculos precisa um espírito para ser compreendido?”. Ou ainda (A gaia ciência): “homens de bem de todos os tempos são aqueles que plantam profundamente velhas idéias a fim de fazê-las frutificar, esses são os cultivadores do espírito. Mas todo terreno acaba por se esgotar, é preciso que o arado do mal o revolva”. A poética de Augusto é o “arado do mal” que ainda revolve o terreno da Literatura Brasileira.

Foto de Daniel Fernandes

Não há comparação para essa vivência arrebatadora: voltar para casa, na quarta-feira de cinzas, depois da apoteose no Marco Zero (em Recife), e encontrar, de um lado, Augusto dos Anjos atônito e eternizado no monumento criado por Demétrio Albuquerque; do outro, um espantoso baobá em estado de florescimento. A Praça da República transformada e transformando os raros transeuntes que se dão a tal deleite… Imediatamente lembro desses versos, retirados de Os doentes: “Quando eu for misturar-me com as violetas, / Minha lira, maior que a Bíblia e a Fedra, / Reviverá, dando emoção à pedra, / Na acústica de todos os planetas!”. Definitivamente Augusto é um “poeta visceralmente original”, como bem observa o crítico Alexei Bueno.

De um lado… e do outro… as notícias correm

De um lado… e do outro… as notícias correm por Belisa Parente

Pesquisa recente revelou que quase metade dos brasileiros nunca teve acesso à leitura. De acordo com a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, este ano foram investidos R$ 373 milhões na criação de bibliotecas, em feiras de livros, campanhas e compra de acervo para doar às bibliotecas. A presidente da Câmara Brasileira do Livro, Karine Pansa, olhou o lado positivo, mas bastante ingênuo, ao afirmar que o dado significa o grande potencial de crescimento do mercado editorial brasileiro. E os investimentos nos salários e melhores condições de trabalho dos pedreiros? Ou! PROFESSORES!!! Os principais agentes na construção dos novos leitores.

O advogado Henrique Abel disse em crítica publicada no site do Observatório da Imprensa o que eu gostaria de dizer há tempos: “Torna-se fácil perceber que o problema do Brasil não é que o nosso povo seja “mais ignorante”, pela média, do que a população dos Estados Unidos ou das maiores economias europeias. O problema, isso sim, é que o nosso país ostenta aquela que é talvez a elite social mais ignorante, presunçosa e intelectualmente preguiçosa do mundo. Que repele qualquer espécie de intelectualidade autêntica precisamente porque acredita que seu status social lhe confere, automaticamente, o decorrente status de membro da elite intelectual pátria, como se isso fosse uma espécie de título aristocrático”.

A reunião sobre o Código Florestal foi adiada para o dia 28 de agosto e a presidenta Dilma Rousseff cria empresa para desenvolver tecnologias do programa nuclear. A criação de um submarino é mais importante do que o destino das nossas florestas, rios, nativos? O Greenpeace lança projeto de lei popular e encabeça a mais nova campanha no Twitter (#DesmatamentoZero). “Governo afrouxa, ruralistas avançam e cerca de 50% dos cursos d’água na Amazônia perdem proteção no #CódigoFlorestal”, informam na rede social. Entre no site do Greenpeace e assine a petição. Uma lei popular precisa de 1,4 milhão de assinaturas de eleitores para ser aceita pelo Congresso.

Enquanto candidatos correm desbaratinados para angariar votos, começa a circular nas caixas de email dos brasileiros uma campanha pelo voto nulo. Um cidadão que compartilhou a mensagem comentou: “Ufa, até que enfim uma notícia boa”. Outro justificou: “Como não vejo um só candidato que mereça confiança nesse mar de lama da política nacional e como já cansei de errar, ou de me enganar com esses pilantras, só me resta essa possibilidade. Voto nulo!!!”. O email, além de ensinar a votar nulo (000 + tecla verde), informa que se a eleição for ganha por votos nulos (51%) é obrigatório haver uma nova com candidatos diferentes da primeira. E se a moda pega?

 

(Imagem compartilhada no Facebook)

A centenária força vital de Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues (Foto: Divulgação)

Quis escrever sobre o escritor Nelson Rodrigues, mas li textos maravilhosos de colegas que fizeram questão de registrar as inúmeras nuancem do pernambucano mais carioca que eu conheço. Afoita, me senti impelida a criar uma crônica à sua altura, mas preferi publicar um trecho de um conto para matar a nossa sede. O cara é realmente fodástico,  completo, e essa história de comemoração vale para nos fazer lembrar, conhecer, aprofundar. Uma amiga me ofereceu emprestada a biografia escrita por Ruy Castro, agora vou ler, antes, só através de pesquisas solitárias na internet – no Google Acadêmico existem vários livros do autor -, revistas e conversas em mesas de bar.

Pensei alto, sintomaticamente, sopra a tua genialidade aqui, a força da tua máquina, obstinada, noite e dia sem fim. O poder criativo, o fôlego, a força vital de Nelson conseguiu suplantar a exaustão, mortes, desdéns, as dívidas, os inimigos. Com 14 anos de idade Nelson Rodrigues lançou, no Recife e no Rio – 250 exemplares para cada cidade-, um tabloide colérico, escrito quase todo por ele, chamado “Alma Infantil”. Muitos anos depois, questionado, numa entrevista, sobre o que notava nas mulheres à primeira vista, respondeu: “A alma”.

Trecho do conto A Romântica:

No décimo quinto dia do casamento, Dinaura estranhou:
– O que é que há contigo?
Sobressalto do marido:
– Comigo? Nada, por quê?
E ela, num suspiro:
– Está com uma cara!
Muito sensível e perspicaz, Dinaura vinha notando o seguinte: que, a partir do quarto ou quinto dia de lua-de-mel, Joãzinho deixara de ser o esposo maravilhado e sôfrego. Por exemplo: seus beijos iniciais eram de uma exemplar voracidade e quase a sufocavam. Por vezes, queria protestar “Que é isso, meu filho? Calma no Brasil”. Ele, numa auto-satisfação profunda, feliz por esse temperamento, fazia cabotinismo:
– Você ainda não viu nada!
– Credo!
E, de repente, Dianaura começou a sentir pequenas mudanças e uma série de sintomas desagradáveis. Os beijos não tinham a mesma intensidade, nem a mesma duração. Ele passou a bocejar muito, na sua frente, sem o menor escrúpulo. Dianaura deixou passar uma, duas, três vezes. Por fim, não se conteve:
– Ih, meu filho!
– O quê?
– Tão feio isso que você faz!
Espanto honesto de Joãozinho:
– Mas eu não fiz nada!
– Fez sim, bocejou na minha frente!
– Ué!
Ela sentida, desencantada, insistiu:
– Considero isso uma falta de poesia tão grande!

(Elas gostam de apanhar, de Nelson Rodrigues, Bloch Editores, Rio, 1974).

 

(Trecho da minissérie “Engraçadinha”, inspirada no romance “Asfalto selvagem: Engraçadinha, seus amores e seus pecados”, escrita em 1959 por Nelson Rodrigues e adaptada para a TV por Leopoldo Serran, em 1995. A partir desta quinta (23) o canal Viva irá retransmitir a minissérie às 23h15).

Aromas e florais na cura psicossomática

Nos pergaminhos do Rig Veda, considerado a literatura indiana mais antiga, escrito entre 1200 AC – 3000 AC, há referências sobre o poder medicinal das plantas. Pesquisadores descobriram, no Iraque, ao lado de um esqueleto de seis mil anos, vasilhames contendo pólen de flores medicinais nativas. Indícios arqueológicos estimam que as práticas xamânicas têm de 20 a 30 mil anos de idade. O uso de ervas em tratamentos naturais contra doenças, fitoterapia, é cada vez mais usado no Brasil. Assim como as terapias que fazem uso do extrato dos aromas naturais e o óleo das flores. As práticas holísticas citadas acima são, respectivamente, aromaterapia e florais. Duas recém divorciadas na novela das 8 da Globo, Noêmia e Ivana, estão usando florais. Vocês já viram elas com um vidrinho na mão colocando gotinhas na boca?

O uso de flores para apaziguar sintomas que causam mal à saúde foi descoberto pelo médico inglês Edward Bach, em 1928, na época um bacteriologista reconhecido no meio. Impulsionado pelos primeiros conhecimentos homeopáticos, Bach observou sintomas mentais específicos do comportamento humano e criou 38 fórmulas florais para tentar dissolver os sofrimentos e enfermidades geradas na psique. Já a aromaterapia compreende uma série de práticas com base nos princípios ativos do perfume das plantas para sanar, psicossomaticamente, patologias físicas, emocionais e mentais.

Os aromas estão presentes em todos os lugares, na nossa memória e nas relações interpessoais. Lembra a sensação de bem estar ao sentir o cheiro reconfortante da casa da avó, da hora do lanche no jardim infância, de um perfume que gostamos? Quando estamos em contato com aromas apreciados a nossa fisionomia se alegra. Quando sentimos um odor ela se retrai. O nosso organismo responde, automaticamente, aos estímulos. O sentido do olfato na vida de um deficiente visual, por exemplo, é um verdadeiro piloto.

Os óleos aromáticos podem ser usados em banhos, massagens, inalações, assepsia bucal, gargarejos, compressas e posologia por via oral. Para cada sintoma é usado um aroma, por isso é necessário um conhecimento apurado para a automedicação ou a indicação de um terapeuta holístico experiente. Particularmente, gosto muito do Espaço Quintessência, “um verdadeiro oásis no bairro das Graças”, ouvi de uma aluna de yoga assídua. Lá redespertei os sentidos adormecidos do meu olfato. Primeiro ao me deparar com um armário de incensos de várias fragrâncias, vários lugares e finalidades.

Aromas (Foto: Divulgação)

Voltando aos Florais de Bach, e também à filosofia do Rig Veda, ele lembrou a importância de tratar a pessoa (a alma), além da doença. O médico acreditava que podia restaurar, por exemplo, a esperança perdida nas pessoas que acreditam que não conseguem mudar. “As ervas curam nossos medos, nossas ansiedades, nossas preocupações, nossas falhas e nossos erros, são estes que nós devemos detectar e não a doença, não importando qual seja, ela acabará” (Edward Bach, no livro “Os Doze Curadores”).

O floral “Star of Bethlehem” é receitado para curar traumas de uma notícia grave, a perda de um ente querido, o medo que se segue depois de um acidente. A flor “Water Violet” ajuda a levar alegria e abertura para as pessoas reservadas, sérias, solitárias. A “Gorse”, de acordo com Julian Barnard, no livro Remédios Florais de Bach – forma e função, “chacoalha e desperta a mentalidade de alguém que está doente e tornou-se resignado ao destino”. Existem florais que ajudam crianças a deixarem de fazer xixi na cama, ativam a concentração, ajudam a fechar escoriações, dão coragem para os que sofrem de síndrome do pânico, entre outras possibilidades.

De acordo com Carmen Monari, do Instituto Dr. Edward Bach do Brasil, fundado em 1990, em São Paulo, “cada floral fará a transformação da visão, dos sentimentos e emoções para que participemos da vida e sejamos nós mesmos, mas nunca mudará o nosso ser, mas o nosso estar. Os Florais de Bach são a vida que as flores nos doam para tocar essa parte sutil do nosso corpo. Vamos chamar essa parte sutil a que faz o contato da alma com o nosso corpo físico”. Já o pesquisador, escritor e fitoterapeuta Julian Barnard acredita que os florais nos ajudam a mudar de direção, “eles nos ajudam a mudar, por exemplo, do caminho que leva à dor da impaciência e da irritação para o caminho do suave perdão que aliviará o coração”.

Espaço Quintessência
O Espaço Quintessência oferece yoga, Florais de Bach e Saint Germain, aromaterapia, resurfincing/avatar, meditação, reike, massagens. Além de possuir uma loja linda com livros, cds, roupas, acessórios, incensos e produtos naturais. Estou viciada – como é bom ter vícios saudáveis, no Kefir da Biologicus encontrado no espaço. Se vendesse em todas as esquinas seria o meu refrigerante. A empresa tem um trabalho confiável, é incubada no Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep), e totalmente do bem. Entre no site da Biologicus, conheça o projeto e os alimentos probióticos.

Espaço Quintessencia (Foto: Divulgação)
Espaço Quintessencia (Foto: Divulgação)

Espaço Quintessência, Rua das Creoulas, 294, Graças.
Telefones: 3423-5653/ 8611-1960.

“Jards Macalé Canta”

Capa do disco “Jards Macalé Canta” de 1972

A série de shows Grandes Discos da Música Brasileira, realizada desde outubro de 2010 pelo Instituto Moreira Salles (IMS), relembra mais um vinil considerado histórico pelos estudiosos da MPB. O primeiro disco do compositor e intérprete carioca Jards Macalé, lançado em 1972, foi revivido em uma apresentação do próprio artista no auditório do IMS do Rio de Janeiro. As nove faixas que constituem o repertório do disco, uma síntese de rock e baião, abrangem as mais importantes parcerias da trajetória do compositor, como Waly Salomão, Torquato Neto e José Carlos Capinam.

O LP foi gravado após Macalé retornar de Londres, onde participou, como violonista e compositor, da produção do álbum Transa, de Caetano Veloso. Intitulado Jards Macalé Canta, o disco teve participação dos músicos Tutty Moreno, na bateria, e Lanny Gordin, na guitarra, violão e baixo. “O disco continua sendo muito emblemático, porque representa toda uma geração que naquela época estava às voltas com a Tropicália e com a quebra de paradigmas, em busca de um som mais contemporâneo na Música Popular Brasileira”, diz a coordenadora de música do IMS, Bia Paes Leme. “Foi o primeiro LP de Macalé, autoral, ousado e onde ele literalmente fez o que quis”.

Nascido em 1943, o carioca Jards Anet da Silva estudou orquestração, violão clássico, composição e análise musical, tendo como professores nomes como o maestro Guerra Peixe e o violonista Turíbio Santos. O apelido “Macalé”, uma alusão ao pior jogador do Botafogo na época, veio da infância, em função da falta de habilidade do artista com a bola.

Nas artes, Jards Macalé atua desde os anos 60 em diversas modalidades, principalmente na música, tanto popular como erudita. Na MPB, ficou famoso ao concorrer, em 1969, no 4º Festival Internacional da Canção com Gotham City, música em parceria com Capinam que fazia crítica ao momento político vivido na época pelo país. No mesmo ano, começou a compor para a cantora Gal Costa, intérprete que eternizou a composição mais conhecida de Macalé, Vapor Barato, feita em parceria com Waly Salomão.

Com o álbum de Macalé, já são oito os LPs marcantes da era do vinil relembrados na série criada pelo IMS. Segundo Bia Paes Leme, o critério de seleção dos discos se baseia na memória afetiva da equipe encarregada do projeto: além dela, os jornalistas Flávio Pinheiro, superintendente-geral do IMS, e Paulo Roberto Pires, ambos especializados em música.

“A gente escolhe os discos conversando, lembrando de LPs e pensando em possibilidades de show, se o artista está vivo ou não”, diz. Para cada show é feito um folder no tamanho de um LP, como se fosse a capa, com textos sobre a história do disco e do artista e comentários sobre cada uma das músicas. “Há um jornalista apresentando o show, que é um bate-papo entre o artista e o apresentador”, explica Bia, também instrumentista e arranjadora.

No caso de shows que revivem discos de artistas já falecidos, a interpretação ficou a cargo de outro cantor. Foi o que ocorreu este ano com o espetáculo que relembrou o LP lançado em 1967 por Sidney Miller, com as músicas do compositor interpretadas pela cantora Joyce.

“Abrimos a série com um disco, A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes, de 1980, que estava bastante esquecido. Depois disso, eles voltaram a fazer shows juntos e isso foi muito importante”, diz a coordenadora de música do IMS sobre a série, que segundo ela, não tem prazo para acabar.

O próximo show da série, ainda sem data marcada, vai reviver a polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista, que marcou o samba carioca na década de 30 do século passado. Caberá ao sambista Monarco defender as músicas de Noel, enquanto as de Batista ficarão a cargo de outro veterano do samba: Nelson Sargento.

Embora o embate no samba não tenha resultado em um LP protagonizado pelos dois protagonistas do duelo, a disputa foi gravada em um disco posteriormente em 1956 por Francisco Egydio e Roberto Paiva, entre outras regravações mais recentes.

A disputa musical teve início após o lançamento de Lenço no Pescoço de Wilson Batista sobre o estilo de vida do malandro carioca. Noel não gostou da forma como Wilson Batista retratou a malandragem e respondeu com Rapaz Folgado. A batalha musical resultou em clássicos como Palpite Infeliz e Feitiço da Vila, ambas de Noel, e Frankenstein Da Vila, de Wilson Batista.

* Nota da Zena:
A gravadora Polysom relançou o vinil “Jards Macalé Canta” em julho deste ano. (Por R$ 69,90)

A cosmoloucura familiar de Badida Campos

“Ouvindo estórias” 2011

Badida Campos abriu a exposição chamada “Memórias”. Me diverti procurando os quadros dela na Florense, parando na frente, os olhando dentro e fora dos contextos. Olhando, lendo, olhando, lendo, tantos estímulos… Fui atraída até para a cozinha, mas é praticamente impossível alguém colocar ela lá. Badida nasceu para as salas, quartos, bibliotecas. Janelas, jardins, mares, ares. Filha do escritor Moreira Campos e Maria José Alcides, prima de Rachel de Queiroz, afilhada de Aurélio Buarque de Holanda, um marido bom, filhos e netos que engrandecem o seu ser. Uma viagem no tempo dos relógios de Dalí que ela tanto ama.

Badida é cearense, gaiata por natureza, solte uma gracinha para ela na fila de um banco. É um humor arteiro, espirituoso, inteligente. Eu vivia tentando descobrir esse humor típico do Ceará na sua pintura. A maioria das mulheres de Badida estão com a boca fechada, são leves e ao mesmo tempo profundas, silenciosas, concentradas nos livros, animais, ou completamente etéreas, oníricas. Apesar de parecer, e ser, surrealista, descobri que Badida materializa relações cotidianas cujas percepções são verdadeiros sopros divinos. Sabe aqueles momentos simples onde tudo se encaixa perfeitamente e parece ter sentido? Mistérios divinos da existência. Sublimes. Encontrei todo o humor, inclusive na disputa com a neta pela janela.

Quando falo em sopro divino, me refiro, também, às figuras esvoaçantes que se sobressaem ou se escondem nas telas, formadas com as nuvens do céu, uma pareidolia, como no quadro “Preferência”. Que amigo lindo, Badida. Como é bom encontrar aos poucos os seus e os meus elementos. As suas imagens estimulam a nossa percepção sensorial e acabamos condensando figuras que saem de dentro de nós, das nossas vivências ou da imaginação. Uma espécie de cosmoloucura reveladora. O sorriso contente de olhos apertados e o vestido transparente lilás da menina do quadro “Infância” são um primor. Sou impressionada como Badida veste bem os seus personagens, estou com vontade de mandar costurar a indumentária da viúva alegre do quadro “A liberdade está lá fora”, tela do acervo pessoal de Ana Carolina Thé Garrido presente na exposição.

Encontrei nos novos quadros de Badida os seus bolos e brincadeiras da infância na casa da avó. Lembranças da Serra de Maranguape, em Fortaleza, onde ela escreve: “E tremem, azuis, os astros à distância”. O seu amor por Augusto dos Anjos na tela “Equilíbrio”. Uma leitura linda da lenda do Boto Cor de Rosa – pintada e escrita. As imagens de Badida ganham voz com as poesias e provocam um efeito coquetel impressionante. O desejo fabuloso de Moreira Campos, no qual ele diz: “Quero, filha, que todos os homens moram de amor por ti. Que ao ver-te fiquem inquietos, indóceis… Só não te quero ver, filha, à espera do namorado que não veio… ou confessando ao piano, ou ao papel, a solidão da tua música e do teu poema”. E Badida, calma e cheia de amor, responde à paixão:

Detalhe da tela “Ouvindo estórias”, 2011 (Foto Belisa Parente)

Descobri fetiches masculinos e femininos, poesias da pintora, quadros de coleções particulares, desenhos em papéis (técnica mista), mulheres suspensas por fios, sereias deleitadas. Ela teve a graça de colocar uma frase minha no título de uma das telas, para a minha infinita felicidade, amo o trabalho de Badida e o seu caráter, personalidade, jeito, energia, ou seja lá o que for, isso não é uma carta de amor, mas não posso negar o meu por ela só porque estou escrevendo sobre o seu trabalho. Contudo, deixo claro que primeiro fiquei louca pela obra e só depois conheci a autora. Inclusive, o título do quadro está num prosa poema meu inspirado, como num transe, nos quadros de Badida. Quando eu nem imaginava o seu rosto. O título  é ‘Não quero outro mundo, quero o profundo’ e ilustra a paixão de uma tia da pintora por um personagem de um livro – e a realização desse sonho num carnaval.

A exposição está aberta, de segunda à sexta-feira, das 9h às 19h, e nos sábados, das 9h às 13h, na loja de móveis Florense, situada na Av. Eng. Domingos Ferreira, 4242, Boa Viagem.

Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120x130 cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)
Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120×130 cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)

“A mãe, com o filho pequeno no colo, conta estórias na hora que ele vai dormir (daí o título). Há personagens no quadro que saíram das fabulas: a ovelha, o rato, o ganso, o cavalo, Comadre Florzinha, um gnomo, entre outros”. (Comentário de Badida Campos).

Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120x130 cm. 2012(Foto Belisa Parente)
Detalhe de “A noite e as Fábulas Chegam Juntas”. Óleo sobre Eucatex. 120×130 cm. 2012(Foto Belisa Parente)

 

“O equilíbrio maior neste quadro é a alusão ao livro “EU” de Augusto dos Anjos, poeta maior, nascido na Paraíba e morto pela tuberculose aos 30 anos. Quando ele descobriu que estava com a doença (na época incurável) escreveu: “Tome doutor esta tesoura e corte a minha singularíssima pessoa; que importa a mim que a bicharia roa todo o meu coração depois da morte, se um urubu pousou na minha sorte”. Um urubu ao longe vai pousar no livro e há uma tesoura em primeiro plano ilustrando a frase do poeta e também mostrando que todo o equilíbrio montado neste quadro só foi possível porque a tesoura não foi usada”. (Comentário de Badida Campos – “Equilíbrio”. Óleo sobre tela. 110x90cm. 2012).

 “Infância”
Infância

“A casa da minha avó era mágica. Todos os dias eu pensava que tinha festa de aniversário, pois nunca vi a mesa da sala sem bolo. Havia também uma bela rosa perfumando todo o ambiente. Meu polichinelo gostava de ler e possuía uma libélula como bichinho de estimação. Já o meu irmão tinha uma máscara que falava alto e um boneco que, quando não estava dentro da caixa, beliscava todo mundo… e eu acreditando em tudo isto!!! Magia pura”. (Comentário de Badida Campos).

Detalhe “Infância”. Óleo sobre Eucatex. 120x80cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)
Detalhe “Infância”. Óleo sobre Eucatex. 120x80cm. 2012 (Foto: Belisa Parente)
Preferência
Preferência

“Um amigo querido uma vez me contou que tinha grande encanto por mulheres com axilas depiladas, quase azulejadas e, assim, surgiu a ideia deste quadro”. (Comentário de Badida Campos).

Detalhe “Preferência”. Óleo sobre Eucatex. 120 x 80cm. 2007. Coleção Particular Armando Garrito (Foto Belisa Parente)
Detalhe “Preferência”. Óleo sobre Eucatex. 120 x 80cm. 2007. Coleção Particular Armando Garrito (Foto Belisa Parente)

Entrevista com Badida Campos

(março de 2012)

Quando você descobriu que tinha talento para a pintura?
Eu acho que não descobri, eu sempre desenhei, desde menina. E paizinho uma vez chegou para mim e disse: “Você que desenha tão direitinho, pro meu gosto pessoal, ilustre o meu livro Momento”. Aí eu fiz uma ilustração e ele gostou. Quando eu casei e vim morar aqui no Recife, o meu marido me colocou na Escola de Belas Artes. As minhas cartas para ele eram todas desenhadas com histórias em quadrinho. Ele achava interessante e quis que eu estudasse. Depois fiz a primeira exposição, comecei a ganhar prêmios e tomei gosto.

Quanto de imaginação existe nas telas de Badida e quanto de apreensão da realidade?
Me chamam de surreal, mas eu acho que sou simbolista, apesar de ser parecido. Você vê um quadro meu onde existe uma mulher velha lendo um livro e uma pomba na gola do vestido… tudo isso é imaginação. Sem criação tudo é menor, eu nem leio, nem pego, nem olho. Acho que criação é tudo.

Você releva a técnica em detrimento da inspiração? Ou é justamente a técnica que possibilita a concretização do imaginado?
Eu nunca tinha pensado nisso… Primeiro eu penso na história que me encantou, no livro que estou lendo, uma frase. Depois eu mancho a tela, faço um pano de fundo, e tento descobrir a mulher que está na minha cabeça, por exemplo. Eu relevo a técnica quando dou essas pinceladas, quando mancho, mas noutros momentos a técnica é fundamental.

Pintar dói, Badida? Dói como? Onde?
Dói, às vezes. Por exemplo, pintei um instrumento em madeira onde desenhei o sítio do meu pai que tinha cabras, galinhas, um galo da minha infância. A minha mãe, inclusive, escreveu o livro “O galo da minha infância”. Pintei, nesse instrumento, também, uma frase do meu pai, que diz: “Estes sons domésticos que são meus e tem a suavidade de música”. Essa pintura me doeu muito. Nela eu também coloquei uma maçã que fazia barulho à noite quando eu comia escondida. Meu irmão, por ser diabético, não podia comer doce, mas eu e a minha irmã podíamos. Aí o meu pai, inteligente como era, nos proibiu de comer as maçãs de Cid. Ele se sentiu o máximo e a maçã para mim ficou literalmente proibida. Ao pintar essa maçã me doeu muito. Quando o desenho não dá certo dói muito também. Ou quando você não gosta e apaga. Por outro lado, tem horas que é momento total de alegria.

Qual conselho você dá aos jovens que gostam de pintar, desenhar, escrever, criar?
O meu pai foi um menino rico e de repente não tinha mais nada. Dormiu numa rede atrás de uma porta de uma pensão em Fortaleza e começou a lutar pelos seus sonhos. Então é preciso lutar. Se, por exemplo, você tá sem tempo para escrever ou para pintar e liga alguém dizendo que irá lhe visitar, diga: – meu amor, não venha agora não que eu tenho que ir ao médico.

Foto da esquerda é o pé de Badida calçado e pintado pela própria. Foto da direira é Badida no seu quarto mágico (Fotos: Belisa Parente
Pé de Badida calçado e pintado pela própria e Badida no seu quarto mágico  (Fotos: Belisa Parente)

Zine “De Cara com a Poesia” completa 10 anos

Poeta Malungo na janela (Foto: Belisa Parente)

A história do idealizador da fanzine “De Cara com a Poesia”, José Carlos da Silva, mais conhecido como Malungo Poeta, começou em 2000, quando ele lançou o seu primeiro livro e ganhou o concurso de poesias da Biblioteca Popular de Afogados. Nessa época ele teve contato com a zine “Poesia Descalça” de Joca de Oliveira e Wilson Vieira e ficou encantado com a possibilidade de distribuir, gratuitamente, palavras. Depois desse primeiro contato, Malungo convidou o poeta Altair Leal e criaram a zine “Frente e Verso”, tendo oito números publicados. Logo conheceu Bruno Candéas e colocou nas ruas, no dia 24 de abril de 2002, mesma data em que começou a se publicada a fanzine Ovni de Leonardo Chaves, 500 exemplares da “De Cara com a Poesia”. Hoje a revista é distribuída em 21 estados, em universidades, bares, centros culturais, e tem a tiragem de cinco mil exemplares.

Nesta edição de uma década da fanzine, Malungo homenageou o poeta França, em memória, com a poesia “Guerreiro da Palavra”. Jomard Muniz de Brito recitou a poesia na festa de comemoração, realizada no Teatro Mamulengo. A poetisa Auzeh Freitas comentou extasiada: “A chuva caía lá fora e os pingos pareciam confetes dourados caindo do céu onde habita o Criador do universo, o poeta primeiro. Meu Deus, quanta magia. Poesia e mais poesia. Malungo, o homenageado, com sua poesia forte como Recife e os arrecifes”. De acordo com Bernardes Alves, na apresentação do livro “O terceiro olho usa lente de contato”, de Malungo Poeta, o autor “foge do tipo convencional ou estereotipado. Isto é, não é tuberculoso e não usa óculos intelectual. Bebe, fuma, cheira e dança. Bebe (e muito) inspiração nas pontes, rios e mangues do Recife. Fuma (e traga) os ares de Olinda. Cheira. Não aquele açúcar refinado colombiano, mas os pescoços das “neguinhas” suadas dos maracatus”.

“Guerreiro da Palavra”

Cabo de Santo Agostinho
Pirapama, canaviais
decolou
pousou em Olinda
Xângo, capoeira
A cor da exclusão
TNT_BUM
explodindo racistas
e universidades
teatro ateu
botijões subindo ladeiras
no ônibus lotado
viajam
Batmam e Jesus
na boca
cheiro de cream-cracker
e poesia
o seu poema grita na rua:
“Dez bolas de sorvete
por apenas um Real”
errante poeta
recitando frutas
cachaças e fumos
um rei negro
em elegância
silêncio sagrado
reflexão
e Isadora
morrendo de saudades.

 

(França)

CONFIRA ALGUMAS FOTOS DO EVENTO

Miró, o poeta que não aparece em Febre do Rato

Miró (Foto: Belisa Parente / Alt Fest Fliporto, 2010)

“Eu fiquei bastante triste por Cláudio Assis não o ter colocado no filme Febre do Rato. Eu disse a ele que era uma injustiça”, assim falou Zizo, citando Miró, poeta marginal, que inspirou o filme mas não aparece na tela”. (Dos jornais de 22 de junho de 2012)

Senhores e senhoras, temos a grata satisfação de falar sobre Miró. Sobre ele é quase inútil procurar informações no Google, porque entre os 47.000.000 resultados no máximo quatro se referem ao particular Miró que lhes apresento agora. De nome de batismo João Flávio Cordeiro da Silva, o poeta Miró nasceu no Recife há 52 anos. Mas nada do seu nome artístico vem do mais conhecido, o grande, um certo criador Joan, da convivência de João Cabral de Melo Neto. Não. Esse Miró, esse nome nobre… – e já sinto no ventre a cutilada do poeta – “todo nome é nobre” – essa denominação vem de outras plagas nobres. Vem de lá dos subúrbios do Recife. João Flávio foi transformado em Miró pelos amigos, porque lembrava ao jogar o bom Mirobaldo, um craque da pelota do Santa Cruz Futebol Clube. No tempo em que o maior talento de João Flávio era o futebol, os seus amigos o apelidaram de Miró, forma reduzida de Mirobaldo, que se pronuncia com a vogal “o” aberta na fala nordestina. Depois, na fase em que assumiu o jogo mais raro e difícil da poesia, ele achou por bem continuar assim, Miró, para melhor sorrir no íntimo com os dentes claros, diante de quem o confunde com o pintor catalão.

Em um mundo globalizado conforme a ótica WASP, Miró é um acúmulo de surpresas. Pois imaginem as senhoras ladies e os senhores gentlemen que ele é um poeta que jamais entrou na universidade. Pelo menos, para assistir a lições como estudante universitário, nunca. E, continuem a imaginar, isso lhe faz nenhuma falta, devíamos mesmo dizer, para a sua poesia é um bem, porque lê e se educa em obediência a uma ordem que não está no currículo de uma tradição estéril. A quem não o conhece, a sua pessoa, física, guarda uma grata e grada graça: Miró tem a pele escura, e, ladies and gentlemen, não finjam por favor naturalidade. Mesmo em um povo mestiço, Miró é uma exceção: as pessoas sensíveis, até mesmo no Brasil, têm uma estranha gradação na cor da pele da sua sensibilidade. Quanto mais claros, mais poetas. Quanto mais escuros, mais trabalhadores braçais, ou, se forem artistas, mais jogadores de futebol. Daí que faz sentido o poeta Miró vir de Mirobaldo, o craque do Santa Cruz Futebol Clube. Pero a melhor surpresa de Miró vem da sua poesia. Acompanhem-nos, por favor, assim como já o acompanhamos em um auditório de teatro.

Todos nós aprendemos, ou fomos como bons estúpidos para isso educados, que o poema realiza a poesia nas suas linhas. Ou, se quiserem, o poema não precisa da pessoa do poeta – a certeza única e exclusiva do seu valor está no que escreve. Certo? Senhores e senhoras, ladies and gentlemen, senõres y señoras: – Errado. Quem não viu Miró declamar os seus poemas não sabe o quanto esse conceito, preconceito, esta burrice ancestral está errada. Aquela justa observação feita por Manuel Bandeira à poesia de Ascenso Ferreira, no trecho

“Não me lembro se antes de me avistar pela primeira vez com Ascenso Ferreira eu já tinha conhecimento dos seus versos. Como quer que fosse, eles foram para mim, na voz do poeta, uma revelação. Pois quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar, arrotar os seus poemas, não pode fazer idéia das virtualidades verbais neles contidas, do movimento lírico que lhes imprime o autor”

Aplica-se também à poesia de Miró. Com alguns câmbios. Mirem. Onde Ascenso Ferreira realizava no recitar um uso extraordinário da voz, da modulação ao acento, do corte da sílaba à ênfase, como dizê-lo?, uma utilização da voz como um ator de rádio, (“Ascenso tinha a voz de Deus”, na lembrança do escritor Talis Andrade), Miró usa a imagem, física, melhor dizendo, ele usa o próprio corpo, ele faz evoluções pelo auditório, como um cantor de rap, quase diríamos. Mas sem microfone. E não só. Ele acrescenta caretas, esbugalha os olhos, fecha-os, e aponta os seus versos com um dedo contra a assistência. Como um Tio Sam invertido, que em vez de conclamar um alistamento, nos enfiasse a realidade cara a dentro:

– Tomem poesia, seus filhos da puta!

A plateia, divertida, sorri, gargalha, diante de versos que não chegam a ser bem cômicos. Como aqui:

“Tinha lido num livro de autoajuda, de um
desses psicólogos
De araque, que aparecem nesses
programas matinais que dão
Receitas pra tudo, inclusive de bolo,
Que na hora que a vida vira uma merda
O melhor é sair da fossa”

Ou nestes versos

“Acho que foi a primeira vez que conheci a dor
Um domingo de 1971
Naquele tempo o domingo era o dia mais
feliz,
Minha mãe fazia um macarrão com carne de
lata e Q-suco
Ficávamos brincando de mostrar a língua
vermelha
Pra provar que éramos felizes….

Norma era tão linda com seus cabelos
negros,
Que me deu um branco aos 11 anos
Quando me pediu um biscoito maizena e um
gole de fratele vita ….

Domingo era o dia mais feliz
Antes de Norma beijar um outro na boca”.

Miró (Foto: Belisa Parente / Alt Fest Fliporto, 2010)
Miró (Foto: Belisa Parente / Alt Fest Fliporto, 2010)
A plateia, o distinto público, vai ao delírio. De rir, de gargalhar. Miró fala de um mundo abaixo do nível social do auditório. O primeiro elemento cômico é que a miséria é cômica. A maior comicidade é a desgraça que não sentimos na própria pele. A dor que não é a nossa, a dor pela qual não temos empatia, ah, ladies and gentlemen, como é cômica. Não iremos consultar nada agora, mas em algum lugar deve estar observado que o riso é manifestação pela desgraça alheia.

O riso atesta a nossa superioridade ante o ridículo que não nos alcança. Quem jamais bebeu “sucos” em pacotinhos de pó, de “morango”, de “uva”, com açúcar e gelo, como bebem os que não podem comprar frutas em um país tropical, acha isso irresistivelmente cômico.

Quem jamais saboreou carne enlatada no país de maior rebanho bovino do mundo, quem jamais pôde sentir o sabor, o gosto e a maravilha da carne Swift, da carne da Wilson, com macarrão rubro de colorau aos domingos, porra, que piada genial é esse macarrão se transformar no dia da felicidade. E aquela prova de amor, da cumplicidade que tem o amor, quando a musa pede refrigerante, guaraná da frattelli vita, com o biscoito miserável de maisena. Caralho, esse cara é do peru! E Norma beija um outro, mirem o detalhe, na boca! na boca! Menos, por favor, você é demais, cara!

O poeta gira em torno da assistência. A sua arma, a sua graça e cômico é a verdade. Aquelas coisas mínimas, constrangedoras, que nem às paredes confessamos, ele, como um novo louco, arrebenta de si. Mais do que escrever por vezes transcreve. Com uma sensibilidade que observa o inobservável.

“Já perceberam como tem pontas de
cigarro em pontos de ônibus?
Tem uma tese de um amigo que diz:
Que as empresas de ônibus são
responsáveis por 5% dos cânceres de
pulmão.
Curioso perguntei, como assim?
É que os ônibus demoram”.

Ou mesmo, vejam que engraçado:

“O amor passou na tarde
Com a mão direita sobre o ombro de um
filho com síndrome de Down …

Aldeota, um jumento espera inquieto a
volta do seu dono que foi tomar uma
sopinha com pão, com o dinheiro das
migalhas que catou.
E eu fiquei tão emocionado,
Que não consegui escrever mais nada”.

A recepção da plateia a essas coisas é vê-las apenas como o lado sujo, trash, de uma estética suja e trash, de um maluco que escreve e não tem nenhuma vergonha de escrever sobre essa miséria como um bárbaro sem educação. (Nós, os cultos. Nós, os que, se algum dia fomos dessa desgraça, bem que a superamos. Nós, os de outro mundo. Nós, os limpos, cleans e educados.) O poeta gira, e deixa a aparência, como um bom gira, de fazer também uma rotação. Então ele declama, recita, pula, contorce-se, cospe e pragueja uns versos que a expectativa do distinto e cultíssimo público não percebe. O clima em torno da sua performance não permite a degustação, a permanência que tem a beleza, a que sempre por necessidade voltamos. Então ele fala, enquanto o público espera dar mais uma risada, então ele faz uma prece, um poema que somente hoje pela manhã pude sentir, ao ler e mastigar e ruminar como as cabras mastigam e ruminam uma erva muito amarga. Este poema não precisa do poeta. Da sua pessoa. Basta uma sensibilidade.

“Deus, Tu que agora carregas um homem,
Puxando pelas rédeas o seu cavalo e uns
sacos de cimento
De cada lado um sol insuportável …
Deus,
Choves agora no meu coração
Para que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas de balas
E fazer justiça com as próprias mãos.”

Esses versos preencheram toda esta manhã de hoje. Dormiram e não saíram do peito todo este dia. Talvez porque nos tenham recordado de outro João, de Os corações futuristas, que pleno de álcool em 1973 também se sentiu impotente e louco por justiça.

“Deus, choves agora no meu coração
Para que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas de balas”.

Senhoras e senhores, assim é Miró, o poeta que não apareceu no filme Febre do Rato.

Olhem:

Ative-se para um sexo melhor

Sexo e a Dança do Ventre (Foto: Divulgação)

Se você é daquelas mulheres que aos 15 minutos do primeiro tempo, de sexo, já está totalmente esgotada fisicamente, está na hora de repensar a sua saúde. Tão importante quanto transar em si, é manter um bom condicionamento físico, pois uma boa oxigenação e batimentos cardíacos adequados, junto a um tônus muscular que dê conta de pelo menos uma horinha de atividade sexual intensa, são imprescindíveis. O sexo, nessas condições, vai deixar você capaz de se movimentar melhor e ter mais prazer, além de manter sua pele e mente com aquela leveza que te deixa lindíssima. Seu corpo estará mais disposto para não somente as atividades do dia-a-dia, mas também com mais gás para encarar boas noites a dois (ou como você preferir).

Segundo a professora de Educação Física Letícia Antunes, professora de pilates do Studio Carol Monteiro, “existem vários exercícios pra fortalecimento do assoalho pélvico que vão, desde técnicas bem simples às mais avançadas, como o pompoarismo, que visa melhoria do desempenho sexual”. O assoalho pélvico, citado por Letícia, nada mais é que um conjunto de 13 músculos em torno da bacia que têm a função de sustentar os órgãos pélvicos. A fraqueza desses músculos pode ocasionar disfunções sexuais e outros transtornos em algumas mulheres, muitas das quais não sabem o que é períneo nem sua importância. “A disfunção sexual ou flacidez vaginal pode interferir tanto no seu orgasmo como no do seu parceiro, daí a importância das atividades físicas no desempenho da sexualidade”, diz Letícia.

O primeiro passo para começar a investir em um treino que visa o sexo é focar na resistência cardiorrespiratória (capacidade de resistir a um esforço prolongado sem entrar rapidamente em fadiga) e na resistência muscular, que segura o corpo para a realização de movimentos. Considerado por alguns como um exercício físico, a atividade sexual aumenta a circulação sanguínea, a pressão arterial, eleva o ritmo cardíaco e deixa a respiração ofegante. Também libera hormônios como a endorfina, dopamina e serotonina, mas com uma sensação de prazer diferente da anterior. “Durante uma relação sexual, o coração pode chegar a bater 190 batimentos por minuto. A melhoria do condicionamento físico e o aumento da resistência cardiorespiratória interfere no desempenho sexual. Quanto mais condicionado e saudável está seu corpo e mente, maior será a qualidade do ato sexual e mais fôlego você terá”, pontua a educadora física.

Mas se o sexo por si só já é um exercício, porque investir em uma segunda opção para mexer os músculos e liberar endorfina? O motivo é simples e muita gente já passou por isso: na hora de transar, diversas pessoas são acometidas por dores ou disfunções musculares, como as cãimbras. “No ato sexual, muitas vezes é necessário sustentar o corpo em determinadas posições por algum tempo, a melhoria do condicionamento físico já traduziria em uma menor incidência de câimbras e outros desconfortos como dor lombar e cansaço nas pernas. Ao evitar o sedentarismo, praticar alongamentos, manter-se hidratado e ter uma alimentação rica em cálcio, magnésio e potássio, é possível afastar e muito a probabilidade desses efeitos desagradáveis aparecerem durante a relação sexual”, explica.

É preciso lembrar que praticar atividades físicas é bom não somente para melhorar o sexo, mas também todos os outros setores que envolvem o corpo. “Essa melhoria do empenho sexual é decorrente da melhoria da saúde completa. É uma consequência de um melhor condicionamento físico, da autoestima e saúde mental”, explica Letícia, que deixa para os nossos leitores algumas exercícios que trabalham mais especicificamente a região pélvica: a corrida é um exercício completo; a musculação provoca ganho no condicionamento geral; o pilates trabalha a musculatura do assoalho pélvico; a ioga aumenta a flexibilidade e a consciência corporal; a dança do ventre mexe com a região pélvica e é uma dança muito sensual.

Com as dicas em mente, você já pode escolher a atividade mais adequada para você e sair dos 15 minutos para alcançar horas de sexo sem sentir um tiquinho de fadiga. Por cada horinha cada pessoa gasta de 200 kcal até 450 kcal dependendo da intensidade da relação, assim como do metabolismo de cada individuo. “Pode ser que algumas pessoas nem percam peso, mas o sexo saudável e em boas condições tem ótimos efeitos sobre o corpo”, conclui Letícia. E se lembre de usar preservativo. Se proteger é sempre uma ótima opção.

O submundo encantador de Zizo

Cena do filme de Cláudio Assis, Febre do Rato (Foto: Divulgação)

Fui assistir a Febre do Rato, novo filme de Cláudio Assis, com expectativas. Havia gostado do enredo e da equipe. O Cine São Luiz estava lindo e lotado. Entro e dou de cara com os queridos poetas marginais Lara e Valmir Jordão. Cadê, Miró? – pergunto. Outro membro da trupe da pesada. A mesa estava posta para Zizo e os recifenses undergrounds, literalmente, pois a história do filme acontece no Recife.

Zizo, interpretado eximiamente por Irandhir Santos, ganhador do prêmio de melhor ator de ficção no Festival de Cinema de Paulínia (SP), é um poeta marginal que presenteia amigos com versos, escreve poesias no corpo, vive a vida com entusiasmo e ideais humanistas. Assim, lança uma fanzine intitulada Febre do Rato. O poeta, como é chamado no filme pelos amigos, é um revoltado com causa, sem perder a doçura sensibilíssima da poesia.

Um daltônico pode enxergar cores diversas através da energia do outro, das coisas. O filme em preto e branco parece colorido. A fotografia do longa, assinada por Walter Carvalho, é belíssima. O fotógrafo se emocionou ao ver o trabalho ser exibido no São Luiz da sua adolescência. Conheço alguns Zizos no Recife, Jomard Muniz de Brito, por exemplo, para a nossa sorte, imprime suas crônicas e as distribui nas suas andadas. O poeta Miró chegou a recitar “A bicicleta de Belinha” para o filme, mas, infelizmente, a gravação ficou de fora.

Lembrei da fanzine beatnik EgoTrupe de 2003, de presenciar banhos embriagados no Capibaribe, das palafitas que construíamos na infância para os trabalhos da escola. Josué de Castro! – grita o Poeta. “Chico Science, me dá atua ciência”, clama Zizo ao céu. Ao céu? Não, porque no céu é tudo muito calminho… O ator Juliano Cazarré conta a piada ‘cronicada’ envolvendo o Recife com desenvoltura, no papel de um traficante amigo.

Matheus Nachtergaele interpreta um coveiro que trabalha no maior cemitério da cidade, construído em 1851. O Cemitério de Santo Amaro foi palco de uma juventude transviada e abriga túmulos muito visitados, como o de Joaquim Nabuco e o da Menina-sem-Nome. Na lápide da enigmática criança, existe a inscrição: “Sofrestes na terra, mas por prêmio ganhastes o céu”.  Belo cenário o Cemitério do Bom Jesus da Redenção de Santo Amaro das Salinas, no centro do Recife; ao redor encontramos lindos azulejos portugueses com santos e florais desenhados.

O roteiro de Hilton Lacerda é envolvente, as poesias são o ponto alto do filme. As sacadas são ótimas, as associações literárias, como Eneida, par romântico do poeta interpretado por Nanda Costa. “O filme foi inspirado na convivência com acidade, com Hilton, Xico Sá… É uma revolução e fala das nossas próprias vidas”, afirma o diretor sobre o “submundo” recifense.

Cláudio Assis  (Foto: Victor Jucá /Jana Internacional de CInema)
Cláudio Assis (Foto: Victor Jucá /Jana Internacional de CInema)

No Festival de Paulínia (SP), quando o filme estreou em julho de 2011, ganhou oito prêmios. A segunda exibição foi na terrinha, na IV Janela Internacional de Cinema do Recife, onde a equipe e os amigos se divertiram aos montes. Cláudio Assis, diretor de Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2006), mordeu, sorriu, dançou em cima da Variant azul estacionada na frente do Cine São Luiz. Parecia mesmo “o cão sem plumas” de João Cabral de Melo Neto.

A expressão Febre do Rato, no Recife, é usada em contextos diversos. As possibilidades da língua no roteiro foram bem exploradas. O coloquial ‘entendesse’ e ‘visse’ recifense são retratados sem clichês. O dito pode ser atribuído às pessoas endiabradas, loucas ou que tenham adquirido peste bubônica antes e depois da enchente de 75. Diante de tantos acertos, comentar pequenos erros é mesquinho, e esta crônica jamais esgotará o filme.  A trilha de Junio Barreto no longa…

Em Capitães de Areia, – o livro foi adaptado recentemente por Cecília Amado para o cinema, Jorge Amado afirma que os meninos maltratados do enredo eram os verdadeiros donos da cidade, pois a conheciam e amavam totalmente, eram os seus verdadeiros poetas. Na visão do escritor e pensador, o poeta é o maior amante e o maior conhecedor do espaço urbano. Mas ratos tomam conta da cidade e corroem corações quando liberdade e direitos são asfixiados.

Poesia recitada no filme por Zizo (publicada pela primeira vez na Revista Zena):

“Valetes a varejo”.

Assim, só sendo assim, posso falar
Das espadas que são nós.
Nós que se enrolam e se vertem
De forma tão infinita que nem a lâmina
(fina e precisa)
Consegue desfazer
A corda atada a nós.

Nem as espadas outras,
Mesmo que pareçam singelas,
Tem o poder de ferir e inferir.
Mesmo que seja fundo o corte
E mesmo que seja fácil,
O tempo todo nós:
Ali, Acima, abaixo.

Superfície e espelho de nós,
Que nada parece mudar e desfazer.
E quando o tempo deixar nós cegos
Vamos à beira do rio
(espelho ruminante da cidade)
Pensar em desatar.
…será tarde.

E no fluxo rio das idéias
Nós vão indo, afeitos, refeitos, rarefeitos…
E lá vão eles juntos. Afoitos se completam…
Eles nós. Cheios de nós.
Reinventam-se a cada dique: açudes.
E rompem Sobre nós, sob nós, sobre nós.

O filme pode ser visto nos cinemas:

Cinema da Fundação
16h50 (sáb, qui); 18h40 (sex, dom, ter, qua); 20h20 (exc seg)
R$ 8 e R$ 4 (meia)
Terças: R$ 4 para todos

Shopping Center Recife
Seg, ter, qui: R$ 15 e R$ 7,50 (meia)
Quarta-feira: R$ 11 e R$ 5,50 (meia)
Sex, sab, dom e feriado: R$ 19 e R$ 9,50 (meia)
Sessão família: sab, dom e feriado (sessões iniciadas até as 14h55): R$ 14 e R$ 7 (meia)
Sala 3D: seg, ter, qui: R$ 22 | sex, sab, dom, feriado: R$ 24 | qua: R$ 20

Saiba mais em: febredoratofilme.com | facebook.com/febredoratofilme | twitter.com/febre_do_rato/

“Magical Mistery Tour” de Paul no Recife

Paul McCartney ao vivo mo estádio do Arruda no Recife (Foto: Nixon Motta/ Divulgação)

Quando surgiu o boato, em 1968, que os Beatles gravariam Asa Branca não se podia imaginar que um de seus líderes chegaria um dia a pisar em solo pernambucano. Luiz Gonzaga chegou a afirmar, na década de 80: “Tudo não passou de uma grande mentira inventada pelo jornalista Carlos Imperial”. Até alguns dias atrás ninguém acreditaria, longe de qualquer lenda urbana, que no dia 22 de abril de 2012, segunda noite de espetáculo no Recife, diante de um público efervescente, Paul Maccartney saudaria o grande gênio: “Salve a terra de Luiz Gonzaga!”.

Na primeira noite os burburinhos pareciam, em sintonia, relatar a estória do artista. Cada um contava um fato e a ideia de que algo surreal estava para acontecer parecia unânime. Pontualmente, os dois enormes telões de LED instalados no estádio Arruda iniciaram a contagem regressiva com uma sucessão de fotos marcantes da carreira dos rapazes de Liverpool. Na preparação uma “ola” se instalou pelas arquibancadas. Paul abriu com “Magical Mistery Tour”, música que parecia denunciar a atmosfera que se instalou no Recife por todo fim de semana.

Durante os preparativos os fãs esperavam ter a sorte de encontrar o veículo que levava o artista pelas ruas da metrópole. Detalhe, a cidade recebeu mais de 25 mil visitantes de todo o País, que injetaram R$ 21.255.722,04 na economia do Estado, de acordo com a Secretaria de Turismo.  Aglomeração no hotel em Boa Viagem, pessoas de todo Brasil acampadas na frente do estádio. Noivos que adiantaram o casamento, mas permaneceram com a data do show cravejada nas alianças. Alguém perdeu a carteira com os ingressos da família e teve a sorte de ser presenteado com entradas por um casal de velhinhos desconhecidos na porta do evento. Só faltou um radialista narrar a chegada do avião do gentleman no espaço aéreo nordestino, como aconteceu em 1966 quando os besouros invadiram a América.

O público estava realmente decidido a soltar a garganta em todas as músicas e obedecer o chamado de Paul para entoar NA-NA-NA-NA (Let it Be). Cativado pelos espectadores, o ex-beatle chegou a brincar perguntando se era ele nas inúmeras máscaras espalhadas na multidão. Essa impressão foi publicada numa nota sobre o show no Recife pela assessoria de imprensa do seu site oficial, intitulada Macca Rocks Recife (twice!):As audiências arrebatadoras, composta por fãs de todas as idades, deixaram a certeza de que Paul teve uma noite para recordar em cada apresentação. Elas cantaram junto cada palavra enquanto seguravam bandeiras caseiras, com muitos em lágrimas ao ver Paul. Após três horas de grandes sucessos nenhum deles voltou pra casa decepcionado. De acordo com a tradição brasileira os fãs trouxeram muitas surpresas para o show, incluindo máscaras especiais de Paul Mccartney!“.

Uma curiosidade: no setlist do primeiro dia não consta o nome da canção “Yellow Submarine”, porém, ao falar do amigo Ringo (primeiro Beatles a se apresentar no Recife em 2011), na tentativa de ilustrar uma passagem da música, a empolgação dos pernambucanos fez o britânico ir adiante do começo ao fim. A canção que introduziu a emoção da segunda noite foi “Hello Goodbye”, talvez alertando que assim como o primeiro dia representava o “Hello”, o segundo seria o “Goodbye”. Começava a contagem regressiva, quem não viu provavelmente não o verá mais no Recife.

Maccartney, nas duas noites de apresentações, revelou-se gentil e intimista com a plateia, como de costume – os bons modos é sem dúvida algo típico dos britânicos. Mesmo sob o forte calor do Recife fez questão de entrar de terno no palco (tirando após a primeira música) e não beber água, característica que já explicou em entrevistas: “… para mim é estranho. Imagine se o Elvis Presley parasse uma apresentação. Nós somos do tempo em que não se fazia isso. Eu apenas vou lá, canto, me divirto e depois vou me recompor”. Mesmo ensopado de suor manteve o pique nas três horas de show por noite. Chegou a dançar enquanto o povo gritava em coro o seu primeiro nome. O esforço para falar português surpreendeu e atraiu a atenção dos brasileiros. Dedicou uma composição a cada esposa que teve (e ainda mantém lembranças afetivas), as belíssimas Nancy e Linda.

Ao falar de Lennon, o compositor explicou em inglês que a canção “Here Today” foi baseada numa conversa que nunca teve com seu parceiro de composição: “É sobre quando nos conhecemos/ Bem, eu acho que você diria que nós trabalhamos duro no começo/Não entendíamos nada/ Mas nós sempre podíamos cantar/ E sobre a noite em que choramos/Porque não havia razões para manter tudo aquilo/Nunca entendia uma palavra/Mas você estava sempre lá com um sorriso”. Something (escrita por Harrison e considerada por Sinatra a mais bonita canção romântica já feita) foi escolhida pelo Sir. para homenagear o “amigo George” – sempre intimista ao falar dos ex- parceiros de banda. Da fase que intitula a turnê “Band on The Run” (nome do terceiro disco da banda Wings, formada em 1973 por Paul e Linda) o hit “Jet” levantou a multidão. Em nenhum momento a Big Band deixou a desejar, integrada por Brain Ray (guitarra e baixo), Paul Wix Wickens (teclado), Rusty Anderson (guitarra) e Abe Laboriel Jr (bateria). Destaque para o baterista que em diversos momentos interagiu na performance de Paul. The End foi a última música tocada na capital pernambucana.

Foi interessante escutar Macca (como é chamado pelos britânicos) repetir o sotaque Pernambucano ao se referir ao “Récife. Denominar o povo de “arretado”, então, algo totalmente particular e especial para o povo do Nordeste. Alguns jornalistas não conterrâneos acreditaram que seria “povo bravo” e não “povo legal” o significado. Pode ser que o jovem de 69 anos (como gosta de ser chamado) tenha se sentindo como na adolescência em Liverpool – cidade portuária discriminada em alguns lugares do Reino Unido-, só que em uma “Liverpool tropical”, e, por isso, decidiu levantar a bandeira do Estado de Pernambuco. Ou talvez por que seja realmente um cavalheiro impecável.