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	<title>Revista Žena &#187; Capa</title>
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	<description>Flores com caule de Ferro</description>
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		<title>O esteta e o mancebo do sedutor Kierkegaardiano</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Apr 2012 21:00:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorenza Mucida</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capa]]></category>
		<category><![CDATA[Diário de um sedutor]]></category>
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		<description><![CDATA[Tanto no Diário de um Sedutor quanto no O Banquete, obras filosóficas de Soren Kierkegaard, encontramos um ser dotado de uma capacidade extremamente sofisticada para abrir caminhos lúdicos e tortuosos e adentrar poeticamente na vida. A minha pretensão é examinar o sedutor Kierkegaardiano, sua arte e os finos traços da estética. Engendrei uma análise do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tanto no <em>Diário de um Sedutor</em> quanto no <em>O</em> <em>Banquete,</em> obras filosóficas de <em>Soren Kierkegaard</em>, encontramos um ser dotado de uma capacidade extremamente sofisticada para abrir caminhos lúdicos e tortuosos e adentrar poeticamente na vida. A minha pretensão é examinar o sedutor <em>Kierkegaardiano,</em> sua arte e os finos traços da estética. Engendrei uma análise do conceito de <em>exacerbatio cerebri</em>, termo em latim que significa exacerbação, exaltação da mente do esteta, que como um motor leva-o constantemente aos estímulos. Esses estímulos, manipulados por ele próprio com os rigores do intelecto, tornam-se necessários para alimentar a sua mente. Coisa que a realidade só consegue proporcionar de modo fugidio e efêmero. Em última análise, tratarei os traços sofisticados do sedutor <em>Kierkegaardiano</em> em oposição ao lamurioso mancebo &#8211; personagem presente nas duas obras, que deseja reformar a mulher com seus moldes idealizados. O esteta, ao contrário, faz uso da constante busca pela exaltação da mente, contra os augúrios triviais do quotidiano romântico, criando uma obra-prima a cada sedução.</p>
<p>A natureza de <em>Kierkegaardiano</em> é dotada de uma capacidade de transitar por caminhos tênues que se escondem entre a realidade e a poesia. Como se seus passos intelectualmente precisos e esteticamente calculados deslizassem conscientemente nas entrelinhas dos versos de uma das obras de <em>Goethe</em>. O tom poético capaz de moldar interpretativamente a realidade é fornecida em excesso por ele próprio, na ânsia de livrar-se dos grilhões enfadonhos do cotidiano. O gozo desse esteta é regido pelos estímulos colhidos na realidade que ele retomava vez-após-vez através da reflexão. O próprio Kierkegaard (1979; 147) o descreve da seguinte forma:</p>
<p><em>“Primeiro ele gozava pessoalmente a estética, depois gozava esteticamente a sua personalidade. Gozava egoisticamente, ele próprio, o que a realidade lhe oferecia, bem como aquilo com que se fecundava essa realidade; (&#8230;) Tinha a constante necessidade, no primeiro caso a realidade ficava imersa na poesia.”</em></p>
<p><em>Kierkegaard,</em> ao descrever o contexto do sedutor estético, faz alusão a um mundo que subsiste em um plano último, detrás do mundo que vivemos. A relação recíproca entre esse e o mundo real assemelha-se à relação que existe entre duas cenas num teatro ou numa ópera, uma cena por detrás da outra. Através de uma leve cortina pode-se distinguir um mundo mais leve, mais etéreo, do mundo real. O esteta pode, sem muito esforço, atravessar essa cortina e transitar de um lado para o outro, entre a realidade e a poesia, ao seu bel prazer. O sedutor estético não pertencia à realidade e, no entanto, tinha muito a ver com ela. Passava a jogar, friamente, sempre acima da realidade, e mesmo quando mais se entregava, estava longe dela. Contudo, não era o bem que o afastava da realidade, nem tão pouco o mal, mas sim, <em>a exacerbatio cerebri. N</em>este sentido, portanto, essa exaltação estética da mente do esteta suprimia a deficiência da realidade cotidiana quanto a um estímulo suficientemente forte para saciar a sua mente sedenta de contínua contemplação.</p>
<p>A realidade, com efeito, lhe oferecia fragmentos soltos de estímulos e sempre de modo fugidio e efêmero. Logo que a realidade perdia sua importância como estimulante, ficava desarmado, e nisso consistia a sua contínua busca por inspiração<em>.</em> Ele não sucumbia ao peso da realidade. Para ele, suportar esse peso era uma fraqueza. Ele era demasiado forte, mas tal fortitude era a sua busca constante pelos estímulos. Tinha consciência disso, mesmo no momento da exacerbação da mente. A sua frieza estava nessa consciência, seus dotes intelectuais e suas exigências estéticas eram os instrumentos que o norteavam. Neste sentido, portanto, o estímulo para o esteta não está no objeto da sedução, está na seduçãoem si. Com efeito, a sedução é incrementada de tal forma e formatada por mãos tão hábeis, de refinamentos quase prestidigitadores, que ao término da sedução tem-se uma obra-prima.</p>
<p>Para o sedutor estético, todos os objetos de sua sedução &#8211; isso inclui Cordélia, a tia de Cordélia, o próprio mancebo e todos os outros alvos que foram peças no grande tabuleiro do sedutor não passaram de instrumentos para a realização pessoal e unilateral dessa satisfação, desse estímulo que alimenta <em>a exacerbatio cerebri;</em> dessa excitação diante da obra-prima terminada.</p>
<p>O artista para esculpir uma obra precisa de ferramentas e instrumentos adequados para lapidar a pedra e transformar a bruta assimetria material em formas milimetricamente simétricas. No entanto, esses instrumentos desgastam-se, perdem a forma e a sutileza de sua utilidade, fazendo com que o artista a substitua depois de esgotar tudo o que aquela ferramenta podia oferecer. Como poderia um cirurgião, com um bisturi cego, realizar a arte de um transplante de córnea ou de outro órgão de igual importância e delicadeza? Seria impossível. A realização de grandes gênios podem nos ajudar a compreender as entrelinhas de como o sedutor estético escolhe e abandona os objetos de sua sedução artística.</p>
<p>Com efeito, o grande gênio renascentista, <em>Michelangelo,</em> ao esculpir a escultura de Davi em mármore carrara, obra que levou três anos para ficar pronta, precisou necessariamente de ferramentas e instrumentos apropriados para lapidar com cortes quase cirúrgicos a expressão no mármore. Naturalmente a substituição dessas ferramentas foi crucial para a perfeição estética da obra, pois uma simples fissura, ou dente, poderia por toda criação a perder. O que fazia com que o artista necessariamente trocasse o instrumento por outro mais adequado rumo ao <em>exacerbatio cerebri.</em></p>
<div id="attachment_1773" class="wp-caption aligncenter" style="width: 670px"><img src="http://www.revistazena.com.br/wp-content/uploads/2012/04/Michelangelo-Moisés-1513–1515.-Igreja-de-São-Pedro-Acorrentado-Roma.-Foto-por-Eliomar-Ribeiro-e1335127602872-660x456.jpg" alt="Moisés de Michelangelo, 1513–1515. Igreja de São Pedro Acorrentado, Roma. (Foto: Eliomar Ribeiro)" title="Moisés de Michelangelo, 1513–1515. Igreja de São Pedro Acorrentado, Roma. (Foto: Eliomar Ribeiro)" width="660" height="456" class="size-large wp-image-1773" /><p class="wp-caption-text">Moisés de Michelangelo, 1513–1515. Igreja de São Pedro Acorrentado, Roma. (Foto: Eliomar Ribeiro)</p></div>
<p>Com os instrumentos apropriados <em>Michelangelo </em>terminou a escultura de Moisés, uma dos principais frutos do gênio. Sabe-se que após terminar a obra, em um momento de delírio e êxtase diante da perfeição, golpeou-a com o martelo e exclamou repetidas vezes: “<em>Perché non</em> <em>parli?”. </em>Como se a obra, que alcançou estágio tamanho de perfeição, por um momento de exacerbação da mente quase pudesse falar com o autor; se é que realmente, sob o efeito do <em>exacerbatio cerebri, </em>não tenha falado, num momento único entre realidade e a exacerbação estética pós-criação. Eis um exemplo patente de <em>exacerbatio cerebri</em>. A excitação que nutre e alimenta o sedutor estético.</p>
<p>O esteta Kierkegaardiano encontra no <em>exacerbatio cerebri</em> o sentido de sua sedução estética. A busca constante por estímulos singulares, que serão lapidados por ele próprio, com os instrumentos e ferramentas certas, para chegar à sedução como obra de arte e poeticamente colher, unilateralmente, os frutos do <em>exacerbatio cerebri </em>que o inclinarão ao orgasmo artístico e estético. O próprio <em>Johannes</em>, através da pena afiada de Kierkegaard (1989: 135) nos revela um pouco dessa exaltação dos sedutores estéticos que nas duas obras ganham expressão sob o nome de <em>eróticos:</em></p>
<p><em>“Os eróticos são os homens felizes. Vivem com maior magificiência do que os deuses, por que se alimentam de um manjar muito mais delicioso que ambrosia, e bebem um licor mais inebriante do que o néctar, (&#8230;) gozam o delicioso sabor da isca, e entre prazeres inigualáveis vão levando uma vida de felicidade, sem que passem além da isca, sem que nunca mordam o anzol.”</em></p>
<p>Seguindo a obra de <em>Kierkegaard, O Banquete, </em>podemos encontrar pistas mais sutis e nortear nossa investigação para melhor compreensão do <em>exacerbatio cerebri </em>de um artista. <em>O Banquete de Kierkegaard</em>, com efeito, segue uma formatação peculiarmente similar ao <em>Banquete</em> de <em>Platão. </em>A espinha dorsal da discussão é o amor examinado em duas vertentes bem delimitadas de argumentação, a saber, a monogamia e a sedução. O banquete é regido por uma atmosfera extremamente <em>donjuanista</em>. Todos conhecem a lenda de <em>Don Juan</em> que, aliás, tem dado motivo e inspiração a várias obras literárias e atingiu a mais sutil expressão artística na ópera musical de <em>Mozart.</em> <em>O Banquete</em> de <em>Kierkegaard</em> é regido por esta ópera. O próprio <em>Kierkegaard </em>(1989: 59) descreve a chegada dos convivas ao banquete sob a presença inebriante da ópera de <em>Mozart</em>:</p>
<p><em>“As portas abriram-se de par em par, a luz faiscante, o inesperado frescor, os incensos inebriantes, a visão de uma sala armada e adornada com perfeito gosto, tudo causou de entrada um instante de violenta surpresa; nesse momento estavam já os convidados a ouvir o bailado da ópera Don Juan (&#8230;) Oh, música invisível e solene! Oh, acordes sedutores que outrora me fostes arrancar à solidão monacal de uma juventude tranqüila! (&#8230;) Mozart imortal, tu a quem tudo devo&#8230;&#8221;.</em></p>
<p>O <em>Banquete</em> de <em>Kierkegaard</em> segue regido pelos manjares, pelo vinho e boa música. Conta com a participação direta de cinco convidados que apresentam seus discursos sobre o amor; desses cinco irei destacar dois principais que também estão na obra <em>O Diário de um Sedutor</em>. Johannes, o sedutor estético, ou erótico, e Eduardo, o mancebo. O antagonismo entre os dois personagens é patente: o primeiro escolhe, seduz e cria uma obra, usando e substituindo os seus objetos de sedução. O outro, o mancebo, idealiza a mulher e o amor, tenta reforma-los, e por não conseguir, lamenta, apresentando no banquete, um discurso lamurioso e quase niilista. O que fica patente na seguinte passagem do discurso de Johannes (1989; 130).</p>
<p><em>“Quem aos vinte anos, não sabe que há um imperativo categórico é: Goza, é uma pessoa ridícula. Quem não cumpre esse dever, é um puritano ou um doente. Vós não estais nesse caso, vós sois amantes infelizes, e aprova é que quereis reformar a mulher. Que os deuses nos protejam dos reformadores! “A mulher agrada-me tal como é absolutamente tal como é”.</em></p>
<p>Nesse sentido, portanto, o esteta não idealiza a mulher, nem procura reformá-la, ela já está pronta; a única coisa esculpida, pelo sedutor estético, através de uma idealização, é a sedução, a obra em andamento, e não os objetos de sedução. O sedutor estético Kierkegaardiano, com efeito, escolhe os instrumentos adequados para construir a sua obra. Da mesma forma que <em>Michelangelo</em> precisou escolher usar e trocar de ferramentas para lapidar a escultura de <em>Moisés,</em> o sedutor estético precisa dos seduzidos, como instrumentos, para realizar sua obra de maneira mais poética possível. No discurso de <em>Joahannes </em>isso fica nítido: (1985: 131)</p>
<p><em>“A mulher tem um valor inexcedível. É algo que eu digo a cada uma delas, e digo a verdade, uma verdade da qual só eu é que não sou vítima. Não vejo que, na minha tabela de preços, a mulher perdida tenha menos valor que um homem. Não que eu me dedique a colher flores murchas, porque deixo esse cuidado aos homens casados que enganam as suas esposas nos dias de carnaval.”</em></p>
<p>As flores murchas, da passagem do discurso de <em>Joahannes,</em> podem ser entendidas como instrumentos inapropriados à sedução como obra de arte, ou ainda, ferramentas que perecem de beleza e sutileza útil. Ganham rápida funcionabilidade para o vulgar e o grosseiro fluxo lascivo das festas carnavalescas, nas mãos daqueles que disseram amém quando assinaram o contrato com a monogamia. O esteta está consciente no jogo, e movido pelos ventos do <em>exacerbatio cerebri </em>torna-se criterioso ao extremo para a escolha e execução da obra. Por outro lado, o mancebo fraqueja na sua esférica reflexão e no seu ímpeto estéril de tentar reformar a mulher com os imperativos e formas idealizados. Sonha e lamenta, sem nunca concluir nem entender as entrelinhas que não só são percebidas pelo esteta, mas também são moldadas por ele. O mancebo não pode ter essa compreensão porque ele também é objeto de sedução, ele é passivo e também foi usado como instrumento, no <em>Diário de um Sedutor</em>, pelas hábeis mãos de <em>Joahannes,</em> que não exitou em substituí-lo, quando o mancebo se tornou uma ferramenta obsoleta para a conquista de Cordélia por Johannes. O mancebo não foi reformado pelo esteta, foi usado e substituído por ele.</p>
<p>Para o esteta, portanto, a mulher não deve ser idealizada, muito menos engessada numa idéia nem acorrentada em fórmulas racionais e lógicas. Como mostra numa passagem de seu discurso: (1985: 137)</p>
<p><em>“A idéia da mulher não se encerra, pois, numa fórmula qualquer, é um infinito de coisas finitas. Quem quiser pensar essa idéia, faze-la passar por todas as categorias lógicas, ver-se-á na situação de quem mergulha ou seus olhares profundos num oceano de fantasmagoria em perpétua formação (&#8230;) A idéia da mulher, para o pensador, não é mais do que uma oficina com a categoria do possível, e para o erótico, a categoria do possível é uma fonte inesgotável de fantasia.”</em></p>
<p>O sedutor estético, com efeito, mostra a armadilha de se idealizar o sujeito numa relação amorosa, essas são as entrelinhas usadas por ele próprio no seu jogo. Na sua sedução, ele se torna objeto de idealização, faz parte do labirinto que ele cria entre ele e os objetos de sedução. Quanto mais se idealiza o sujeito sedutor, mais distante fica o objeto seduzido das reais intenções do agente que seduz. <em>Joahannes</em> entende e usa isso com maestria pra realizar sua arte. Mostra, no entanto, que é nessa armadilha que estão fadados à queda; todos os que idealizam a mulher ou quaisquer que sejam os objetos de interesse amoroso. O esteta não quer a ideia do objeto, quer, com efeito, as impressões dos estímulos constantes de sua sedução. Como muito nos instrui <em>David Hume</em>, em sua <em>Investigação</em><em> acerca do entendimento humano, </em>onde sistematiza a origem das ideias, mostrando-as fracas e desbotadas cópias das impressões, a saber, as impressões são as percepções mais vividas e imediatas que se apresentam de forma mais impactante à percepção humana.</p>
<p>A busca do sedutor não é pela ideia do objeto, mas sim, a busca pelas impressões constantes dos estímulos. O esteta é ativo, porque ele não encontra satisfação na nostalgia nem na idealização do ente seduzido. Ele quer o contato imediato com as impressões dos instrumentos que, através de suas hábeis mãos darão forma e vigor a sua arte, que fará o intercâmbio entre ele e a sedução como obra. Arremessando-o ao encontro do, tão bem vindo, <em>exacerbatio cerebri</em>. O sedutor estético, Joahannes, identifica-se com muito ímpeto poético e logo depois descreve em parte a sua arte:</p>
<p><em>“Eu sou um esteta, um erótico, que apreendeu a natureza do amor, a sua essência, que crê no amor e o conhece a fundo, e apenas me reservo a opinião muito pessoal de que uma aventura galante só dura, quando muito, seis meses, e que tudo chegou ao fim quando se alcançam os últimos favores. Sei tudo isto, mas sei também que o supremo prazer imaginável é ser amado, ser amado acima de tudo. Introduzir-se como um sonho na imaginação de uma jovem é uma arte, sair dela ileso, é uma obra-prima.”</em></p>
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		<title>Lote sem começo, sem número, sem fim</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Mar 2012 03:10:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Belisa Parente</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capa]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi difícil começar a escrever sobre o livro de Daniela Galdino, o título da autora baiana, de Itabuna, prenuncia: ela é Inúmera. Como condensar o infinito e entrelinhas múltiplas? A minha ingênua aspiração poética e a forte lembrança dos recitais da poetisa me seduziram. Gosto de desafios e começo contrariando Manoel de Barros, quem a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi difícil começar a escrever sobre o livro de Daniela Galdino, o título da autora baiana, de Itabuna, prenuncia: ela é <em><strong>Inúmera</strong></em>. Como condensar o infinito e entrelinhas múltiplas? A minha ingênua aspiração poética e a forte lembrança dos recitais da poetisa me seduziram. Gosto de desafios e começo contrariando Manoel de Barros, quem a própria cita no prefácio e tem tatuado na perna esquerda: “Pelo corpo/Das latas podres/Relvam rosas”. Sim, concordo neste ponto, querido Manoel, mas por outro lado, perdoe-me, a poesia de Daniela é um belo utensílio doméstico para mim.</p>
<p>Em <em><strong>Inúmera</strong></em> não existe pessimismo, a leopardia realista dos homens é metáfora cheia nas mãos da poetisa. Lembro, neste aspecto e em outros, a prosa de Bukowski: “Estava caminhando ao longo da estrada, minhas meias duras e apodrecidas e fedorentas, os pregos estavam atravessando a sola do sapato e para dentro dos meus pés e eu colocava papelão nos sapatos: papelão, jornal, qualquer coisa que encontrasse”. Também nas suas performances, inesquecíveis, ela incorpora elementos que encontra pela frente e recita, declama e interpreta divinamente – “Deram um fuzil ao menino”, de Firmino Rocha, ainda soa nos meus ouvidos.</p>
<p>Li o poema <em>“Quarto conselho infantil”</em> e adquiri uma atitude diferenciada sobre o belo e o grotesco, um peso caiu das minhas costas, na verdade. Dois dias antes eu havia falado sozinha, feito doida, no Cais de Santa Rita: &#8211; Não aguento mais conviver com a miséria desses mendigos! A leitura de Inúmera, como uma luva, me fez desvencilhar do insuportável e enxergar a poesia no escarro cotidiano, na sarjeta, no trabalho árduo, sem dor, como diz a menina Samira do poema, debochada, sem saber: <em>“Poesia é minha mãe/ Vendendo água mineral/ Na porta da agência bancária (para sobreviver)”</em>.</p>
<p>Em <em>“Redemoinho”</em>, a poetisa, cáustica camaleoa, retrata as entranhas da separação:</p>
<p style="text-align: center;" align="center"><em>Fatias à mesa</em><br />
<em> contra</em><br />
<em> a luz solar.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Répteis que</em><br />
<em> não se sabem</em><br />
<em> sonham dilúvios.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Incompatível é</em><br />
<em> contornar o caos</em><br />
<em> soprando fertilidades.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Já não há signos</em><br />
<em> a pôr desfecho</em><br />
<em> nas desgraças</em><br />
<em> generalizadas.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ensaio o fim</em><br />
<em> -suicídio</em><br />
<em> compassado.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Perco tempo</em><br />
<em> e vomito</em><br />
<em> desalinhamentos.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Minha metade diabólica</em><br />
<em> é cúmplice</em><br />
<em> do vital assomo.</em></p>
<div id="attachment_1355" class="wp-caption aligncenter" style="width: 670px"><img class="size-large wp-image-1355 " title="Leitora concentrada no Domingo Cultural da Casa de Hilton (Olinda)" src="http://www.summo.com.br/desenvolvimento/zena/wp-content/uploads/2012/03/SAM_0824-660x495.jpg" alt="Leitora concentrada no Domingo Cultural da Casa de Hilton (Olinda)" width="660" height="495" /><p class="wp-caption-text">Leitora concentrada no Domingo Cultural da Casa de Hilton (Olinda)</p></div>
<p>Seu universo poético é permeado por aventuras, chegadas e partidas pungentes, memórias, picadeiros, despudores, romances. Em determinado momento ela questiona: <em>“Devo abrir a minha caixa de Pandora? Ou fechar o meu balaio para balanço?”</em>. Daniela consegue ser clara e ao mesmo tempo nos faz parar para imaginar o que pode ser cada linha. Esse delicioso exercício estético me fez degustar saborosamente o livro. Como no trecho:<em>“Acordaram-nos doces demônios./ Despertaram-nos arcanjos lunáticos./ Essa pequena multidão embriagada,/ esses saltimbancos da existência/ carregavam, aos risos, o corpo da aurora,/ anunciavam, aos gritos, o estalar do dia”</em>.</p>
<div id="attachment_1456" class="wp-caption alignleft" style="width: 157px"><img title="Inúmera de Daniela Galdino (Editora Mondrongo)" src="http://www.summo.com.br/desenvolvimento/zena/wp-content/uploads/2012/03/Inúmera-de-Daniela-Galdino-Editora-Mondrongo.jpg" alt="Inúmera de Daniela Galdino (Editora Mondrongo)" width="147" height="300" /><p class="wp-caption-text">Inúmera de Daniela Galdino(Editora Mondrongo)</p></div>
<p><em><strong>Inúmera</strong></em> conta a vida das rameiras, de Maria, Dona Joana fiandeira, da tia Mercedes, do Capitão Rodrigo, Dandara, Luana, Dalila. A poesia de Daniela parece romper com ela mesma com a inebriante função emotiva e o uso feliz de hibridismos. Não há apelos, nem mesmo nos atos obscenos, ou nos cuspes atirados do sofá. <em>“Suposição”</em>dialoga com o prazer expresso por Rimbaud, quando ele diz: “Obscuro e franzino, um cravo de luz violeta/ respira humildemente, em espuma agachado,/ inda úmido de amor após tudo acabado/ das nádegas de leite ao coração da greta”.</p>
<p>Daniela é palco, aurora de si mesma. Em <em>Fiat Lux!</em>, uma das minhas favoritas, ela vira baleia, alga, peixe, estrela do mar, espírito de luz. A poesia de Daniela é inquieta. Assusta aqui e ali, sobe e desce ladeiras, estradas. Abre-se e lapida, revela e encanta. Pretensão oportuna atingir “<em>as Macabéas, Úrsulas, Rebecas, Amarantas, Genis, Carolinas, Janis, Fridas, Claras, Elzas e obscenas Senhoras D que em nós sobrevive”</em>, na voz da “lagarta listada” de Manuel Bandeira. Criança, dona, menina, senhora, filha, cortesã, mãe, amiga, mestra, senhorita&#8230; Daniela Galdino é realmente <em><strong>Inúmera</strong></em>.</p>
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		<title>A brabeza Pernambucana diante o absurdo</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Apr 2011 02:01:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Belisa Parente</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capa]]></category>
		<category><![CDATA[Eduardo Campos]]></category>
		<category><![CDATA[Eduardo Melo]]></category>
		<category><![CDATA[Festa da Lavadeira]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Arraes]]></category>
		<category><![CDATA[Odebrecht]]></category>
		<category><![CDATA[Resistência Popular]]></category>
		<category><![CDATA[Tradições locais pernambucanas]]></category>

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		<description><![CDATA[Os pernambucanos sempre protestaram contra abusos e desigualdades. Lembram a Revolução Pernambucana de 1817? No golpe militar de 1964, Gregório Bezerra foi arrastado pelas ruas do Recife por bradar contra a ditadura fascista. Centenas de estudantes e trabalhadores largaram seus afazeres e se dirigiram ao Palácio das Princesas em solidariedade a Miguel Arraes, que havia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os pernambucanos sempre protestaram contra abusos e desigualdades. Lembram a Revolução Pernambucana de 1817? No golpe militar de 1964, Gregório Bezerra foi arrastado pelas ruas do Recife por bradar contra a ditadura fascista. Centenas de estudantes e trabalhadores largaram seus afazeres e se dirigiram ao Palácio das Princesas em solidariedade a Miguel Arraes, que havia sido encurralado pelos reacionários. Tivemos guerreiros como Virgulino Ferreira da Silva, Frei Caneca, Domingos José Martins, entre outros bravos. É preciso ter coragem para encarar o absurdo de frente e lutar contra a degeneração do homem.</p>
<p>Revolucionários não deixam de nascer no Recife. Ariano Suassuna vestiu-se de Leão para encarar a massificação cultural norte-americana. Os folguedos populares continuam resistindo, aos trancos e barrancos, ao imperialismo comercial, ao preconceito classicista e racial, para perpetuar as tradições dos nossos ancestrais. Eduardo Melo, da Festa da Lavadeira, é um exemplo atual da constante busca pelos princípios inalienáveis de igualdade e liberdade propostos por Rousseau em 1762, inclusive no que diz respeito à propriedade. Além de defender, propagar e registrar o folclore pernambucano, na Festa da Lavadeira, há 24 anos ininterruptos, tenta aplacar desigualdades morais e políticas. Que não deixam de ser sociais, a partir do momento em que o povo se apropria da festa, tornado-a fruto da convenção humana – e pela tensão gerada no conflito para perpetuação pacífica do evento no seu lugar de origem, a Praia do Paiva, litoral sul de Pernambuco.</p>
<p>Enquanto os ex-participantes do Big Brother Brasil recebem os holofotes da TV e a mídia previsível mescla terror/entretenimento, a empreiteira Odebrecht coloca todos os entraves possíveis para realização de um evento sobre o que temos de mais genuíno na nossa cultura. É o absurdo! Entretanto, a sociedade reage, não aceita pasmem, defende espontaneamente a sua cultura “marginalizada” em data significativa, a festa acontece todo 1º de maio, Dia Internacional do Trabalhador.</p>
<p>O Movimento Negro Unificado, o evento Terça Negra, o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (GAJOP), a Associação Brasileira das Rádios Comunitárias (ABRAÇO) e O Povo de Terreiro sairam em defesa do evento que recebeu prêmios do IPHAN, Ministério da Cultura, é Patrimônio do Povo de Pernambuco, além de fazer parte do calendário turístico oficial do Estado. Cidadãos comuns têm se manifestado solidariamente em defesa da Festa. Subestimam a opinião pública e o poder do boca em boca, que agora conta com os altos falantes das redes sociais da internet, enquanto, mais uma vez, a grande mídia e os poderes públicos silenciam.</p>
<p>A vida é dura, apesar das festas e brincadeiras, a vida é séria. Precisamos nos apoderar do presente, do passo vindouro e passado. Sempre fui simpática ao Governador Eduardo Campos, mesmo sendo apartidária e nunca ter trocado qualquer tipo de palavra ou favor. Talvez por amar as histórias e reconhecer Arraes como familiar do povo, dos operários, do histórico MCP (Movimento da Cultura Popular), da ACO (Ação Católica Operária). Caro Governador, vamos lembrar uma idéia popular que o elegeu como nosso representante: “Filho de peixe, peixinho é”. A essência, o olhar e a coragem devem permanecer. Nos sentiremos representados em vê-lo de Caboclo de Lança na 25ª Festa da Lavadeira, na Praia do Paiva, da mesma forma que nos sentimos homenageados quando vestes o gibão do Sertão na Missa do Vaqueiro, em Serrita.</p>
<p><strong><em>Vamos de mãos dadas com os cabras mulatos crioulos negros índios e matutos brindar juntos nossa identidade cultural, sem vergonha, democracia é tudo misturado! Ou deixou de ser?</em></strong></p>
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		<title>O colosso de Sylvia Plath</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Jan 2011 23:09:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Belisa Parente</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Escritores de Boston]]></category>
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		<description><![CDATA[Sob a melancolia abstrata de tardes cinza, frias, tortuosas, o espírito de Sylvia Plath se debruçava com impetuosidade no desejo de atingir a perfeição. Quem via sua beleza cruzando uma rua, dobrando uma esquina, jamais imaginaria o turbilhão interior escondido no semblante amável. Começou a escrever na infância, chamava seus diários de “mar de sargaço”; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sob a melancolia abstrata de tardes cinza, frias, tortuosas, o espírito de Sylvia Plath se debruçava com impetuosidade no desejo de atingir a perfeição. Quem via sua beleza cruzando uma rua, dobrando uma esquina, jamais imaginaria o turbilhão interior escondido no semblante amável.</p>
<p>Começou a escrever na infância, chamava seus diários de “mar de sargaço”; já se podia perceber a obstinação pelos escritos. Quando Sylvia tinha oito anos, o seu pai herói, Otto Plath, faleceu. Meses depois ela nadou, nadou, nadou até aonde pôde, mas o mar insistia em lhe cuspir. Talvez soubesse que não havia chegado sua hora, que suas palavras com sabor de mar em fúria correriam o mundo. A morte do pai havia afetado a sua essência e deixaria cicatrizes profundas, inclusive a fascinação pela morte. Nesse mesmo ano, Sylvia conseguiu publicar o seu primeiro poema no Boston Herald.</p>
<p>A poesia de Sylvia Plath é enigmática, ao mesmo tempo expõe e guarda a cabeça dentro do casco. Suas metáforas são domésticas. A vida de uma mãe que banha as crianças, faz bolos e conversa com plantas se misturam com um ser febril genial. Elas não servem apenas para aproximar o conceito da imagem, mas as imagens, captadas nas emoções cotidianas, são o próprio conceito. Diferente de muitos, ela não conseguia elencar um tema aleatoriamente e discorrer sobre ele, como fazia o seu marido, o consagrado poeta inglês Ted Hughes. A inspiração de Sylvia vinha numa machadada, ao se olhar no espelho, lembrando as abelhas do pai, contemplando uma árvore morta ou viva – Sylvia morria e revivia todos os dias, havia uma luta constante pela sobrevivência, ocasionada pelas fortes crises de depressão.</p>
<p>Sylvia nasceu em Boston, Massachusetts, em 1932. Terminou seus estudos no Smith College em 1955, ganhou um concurso literário e foi para Nova York trabalhar na revista Madeimoselle. Um ano depois foi para Inglaterra, havia conseguido uma bolsa de estudos na Universidade de Cambridge pelo mérito da tese: “The Magic Mirror: A Study of the Double in Two of Dostoevsky’s Novels” – o cineasta italiano Bertolucci também se inspirou no assunto, em 1968, para criar o longa “Partner”. Sylvia estudava, escrevia, publicava em jornais e revistas da época, como o Varsity e St. Botolph’s Review, quando conheceu o seu futuro marido, o garanhão inveterado Ted Hughes. Quatro meses depois se casaram, em 1956. Dois anos depois o casal foi para Boston, onde Sylvia lecionou e conviveu com o poeta Robert Lowell e a poetisa Anne Sexton. Em 1959 voltam para Londres, onde ela escreve The Colossus (O Colosso) grávida de Frieda Rebecca, sua primeira filha, e o livro infantil The bed book (Livro de cabeceira), publicado apenas em 1976. “<em>A poesia que sinto é uma disciplina tirânica, você tem que ir tão longe, tão rápido, em um espaço tão pequeno, que você apenas tem que desviar de todos os periféricos. E eu sinto falta deles! Eu sou uma mulher, eu gosto de curiosidades, e eu acho que num romance posso obter mais da vida. Talvez não seja uma vida tão intensa, mas certamente mais da vida</em>”, escreveu no seu diário.</p>
<p>Em 61 engravidou novamente, mas teve um aborto espontâneo, o qual ela descreve em Parliament Hill Fields. Em 61 muda-se para o condado de Devon, região rural da Inglaterra, e escreve The bell jar (Redoma de Vidro), onde há referências sobre as suas tentativas de suicídio. O livro recebeu críticas positivas, mas Sylvia se queixava cada vez mais do cansaço, da falta de tempo para escrever devido aos cuidados com o bebê e a casa. Em janeiro de 62 nasce o seu segundo filho, Nicholas Farrar; em março ela escreve e grava para a BBC a peça “Three woman: a poem for three voices”.</p>
<p><iframe width="664" height="498" src="http://www.youtube.com/embed/6hHjctqSBwM?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Invadida constantemente pela verdade, descobriu cedo que a existência é muitas vezes cruel; sim, o sofrimento é parte indissociável da vida – assim como fatores pessoais e poéticos foram e sempre serão indissociáveis da sua obra. Ela criava com fúria, com os sentidos agitados, descomunalmente. “<em>Dentro de mim mora um grito. De noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar</em>”, registrou no seu diário.</p>
<p>O casamento com o escritor Ted Hughes foi conturbado devido às traições do mesmo. Aos poucos Sylvia se deixou consumir pelo ciúme, tornando-se uma mulher neurótica, intempestiva, rasgava e queimava os escritos do marido, que acabou a deixando para viver com a sua amiga, com quem tinha um caso, a poetisa Assia Gutman. Em carta para mãe, Plath escreveu: “<em>Viver para além de Ted é maravilhoso, eu não estou mais na sua somb</em>ra”. Na verdade ela nunca conseguiu recompor-se, mesmo separados existia uma cumplicidade e amor monstro. Abalada pela separação, com gripes fortes e a solidão, Sylvia produz os primeiros poemas do seu próximo livro, o aclamado Ariel, lançado postumamente. “<em>Esses meus novos poemas têm uma coisa em comum. Foram todos escritos em torno das quarto da manhã – naquela hora ainda azul e quase eterna, antes do choro do bebê, antes do tilintar musical do leiteiro arrumando suas garrafas</em>”, comentou na gravação da BBC.</p>
<p>Sylvia voltou com os filhos para Londres no fim de 1962, contente por ocupar o apartamento em que o escritor Yeats havia vivido – a vida no campo estava insuportável devido ao isolamento. Entretanto, a mudança, com o passar o tempo, não havia conseguido dar jeito na solidão, no seu estado de saúde e espírito, nas obrigações cotidianas de uma dona de casa separada. Na madrugada de 11 de fevereiro de 1963, Sylvia prepara o pão e o leite das crianças, as agasalha, olha como quem olha pra sempre, as beija e veda a porta do quarto. Vai até a cozinha, sem tristeza, limpa a mesa, a pia, abre o forno e deita a cabeça dentro sobre uma rodilha. Ela resolve, depois de várias tentativas, abraçar a morte, sua eterna amante. O pequeno Nicholas, 46 anos depois, comete o mesmo erro da mãe no Alasca, onde vivia.</p>
<p><iframe width="664" height="498" src="http://www.youtube.com/embed/esBLxyTFDxE?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>“<em>Quem fala no poema é uma mulher que tem o dom grandioso e terrível de renascer. O único problema é que ela tem de morrer primeiro. Ela é a Fênix, o espírito libertário, se o quiserem. Ela é também apenas uma mulher boa, simples e muito desembaraçada</em>”, comentou sobre o poema acima.</p>
<p><strong>Espelho</strong></p>
<p>Sou prata e exato. Eu não prejulgo.<br />
O que vejo engulo de imediato<br />
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.<br />
Não sou cruel, tão somente veraz —<br />
O olho de um deusinho, de quatro cantos.<br />
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.<br />
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto<br />
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.<br />
Faces e escuridão insistem em nos separar.<br />
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,<br />
Buscando em domínios meus o que realmente é.<br />
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.<br />
Vejo suas costas e as reflito fielmente.<br />
Ela me paga em choro e agitação de mãos.<br />
Sou importante para ela. Ela vai e vem.<br />
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.<br />
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha<br />
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.</p>
<p><em>Tradução de Vinicius Dantas</em></p>
<p><strong>Os Mannequins de Munique </strong><br />
A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.<br />
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero</p>
<p>Onde os teixos inflam como hidras,<br />
A árvore da vida e a árvore da vida.</p>
<p>Desprendendo suas luas, mês após mês, sem nenhum objetivo.<br />
O jorro de sangue é o jorro do amor,</p>
<p>O sacrifício absoluto.<br />
Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu</p>
<p>Eu e você.<br />
Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus sorrisos</p>
<p>Esses manequins se inclinam esta noite<br />
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,</p>
<p>Nus e carecas em seus casacos de pele,<br />
Pirulitos de laranja com hastes de prata</p>
<p>Insuportáveis, sem cérebro.<br />
A neve pinga seus pedaços de escuridão.</p>
<p>Ninguém por perto. Nos hotéis<br />
Mãos vão abrir portas e deixar</p>
<p>Sapatos no chão para uma mão de graxa<br />
Onde dedos largos vão entrar amanhã.<br />
Ah, essas domésticas janelas,<br />
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,</p>
<p>Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.<br />
E nos ganchos, os telefones pretos</p>
<p>Cintilando<br />
Cintilando e digerindo</p>
<p>A mudez. A neve não tem voz.</p>
<p><em>Tradução de Claudia Roquette-Pinto</em></p>
<p><strong>PAIZINHO</strong></p>
<p>Não serves, não serves,<br />
Não serves mais, sapato preto<br />
Em que eu vivi como um pé<br />
Trinta anos, pobre e branca,<br />
Mal me atrevendo a respirar ou atchim.</p>
<p>Paizinho, eu tive de matar-te,<br />
Morreste antes que eu tivesse tempo,<br />
Mármore pesado, saco repleto de Deus,<br />
Estátua medonha de dedo grande cinzento<br />
Do tamanho de uma foca de Frisco</p>
<p>E uma cabeça no Atlântico mais esquisito<br />
Onde ele derrama o verde-feijão sobre o azul<br />
Nas águas da lindíssima Nauset.<br />
Eu costumava rezar para te recuperar<br />
Ach, du.</p>
<p>Na língua alemã, na vila polaca<br />
Aterradas pelo rolo<br />
Das guerras, guerras, guerras.<br />
Mas o nome do lugar é vulgar.<br />
Diz o meu amigo polaco</p>
<p>Que há uma ou duas dúzias.<br />
Assim nunca soube onde tu<br />
Fixaste os pés, as tuas raízes,<br />
Contigo nunca consegui falar.<br />
A língua presa no maxilar.</p>
<p>Arame farpado.<br />
Ich, ich, ich, ich,<br />
Mal conseguia dizer.<br />
Em qualquer alemão estavas espelhado.</p>
<p>E a linguagem porca<br />
Uma máquina, uma máquina<br />
Em vapores leva-me como judia.<br />
Uma judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.<br />
Comecei a falar como uma Judia.<br />
Acho que é boa ideia ser Judia.</p>
<p>A neve do Tirol, as cervejas clarinhas de Viena<br />
Não são muito puras ou genuínas<br />
Com a minha angelical cigana, o meu destino estranho<br />
E as minhas cartas de tarot, cartas de tarot<br />
Eu posso ser um pouco Judia.</p>
<p>Sempre me provocaste medo,<br />
Com a tua Luftwaffe, a tua conversa vazia.<br />
E o teu bigode lavado<br />
O olho ariano, muito azul.<br />
Homem-panzer, homem-panzer, oh tu_</p>
<p>Não Deus, mas uma suástica.<br />
Tão negra que nem céu.<br />
Qualquer mulher adora um Fascista,<br />
A bota na cara, o bruto<br />
Bruto coração de um bruto da tua espécie.</p>
<p>Estás de pé na pedra, paizinho,<br />
Na imagem que trago comigo,<br />
Em vez do pé, o queixo partido,<br />
Não menos canalha por isso, oh não<br />
o homem que partiu em dois<br />
o meu lindo e vermelho coração.</p>
<p>Eu tinha dez anos quando foi a enterrar.<br />
Aos vinte anos, eu tentei morrer<br />
E voltar, voltar, voltar para ti.<br />
E até pensei que os ossos serviriam.</p>
<p>Mas não me deixaram,<br />
Juntaram os meus bocados com cola.<br />
E então eu soube o que fazer.<br />
Fiz um modelo de ti,<br />
Homem de preto, com um aspecto de Meinkampf</p>
<p>E o amor de tortura e torniquete.<br />
E eu disse eu aceito, eu aceito<br />
E então, paizinho, finalmente estou acabada.<br />
Arranquei o telefone preto da ficha,<br />
As vozes já não se arrastam até aqui.</p>
<p>Se matei um homem, matei dois_<br />
O vampiro que me disse seres tu<br />
E bebeu o meu sangue por um ano,<br />
Sete anos, se queres saber<br />
Paizinho, podes voltar para trás.</p>
<p>Há uma estaca no teu coração negro e gordo<br />
E os homens da vila nunca gostaram de ti.<br />
Eles dançam e espezinham-te.<br />
Eles sempre souberam que eras tu.<br />
Paizinho, paizinho, seu canalha, estou acabada.</p>
<p><em>Tradução de Pedro Calouste</em></p>
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		<title>Um pouco de tudo!</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Dec 2010 02:04:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Fontes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pois que seja então consumado o rito, ato escrito, gesto que tateia as fronteiras do interdito; e busca penetrar, carneadentro, os enigmas da terra. Tenho a honra e o prazer de lhes anunciar a materialização de um intento; um evento inventivo, enfim, um rebento. Que agora rompe as malhas da matéria, uma das facetas da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pois<br />
que seja então<br />
consumado o rito,<br />
ato escrito,<br />
gesto que tateia<br />
as fronteiras do interdito;<br />
e busca penetrar, carneadentro,<br />
os enigmas da terra.</p>
<p>Tenho a honra e o prazer de lhes anunciar a materialização de um intento; um evento inventivo, enfim, um rebento. Que agora rompe as malhas da matéria, uma das facetas da vida, e pretende corromper todas as cercas e muros, as poses dos sem futuro, dos Academicu’s Erectu’s, mas nem tão erectus assim…. Dos quadrados, dos caretas e…, e… melhor parar. Eu quero mesmo é falar deste cotidiano herdado, querem que agente aceite como fato consumado. Trata-se de uma maneira de lidar com as coisas, os bichos e as pessoas, e descobrir que mais importante que coisas, bichos ou pessoas, existe um lidar! E neste lidar, no simples exercício de bem respirar, de se alimentar, de aprender a semear, colher, compartilhar… está o segredo do mundo!</p>
<p>Precisamos reaprender a habitar. Esta palavra contêm um sentido divino. Pois bem, falávamos ainda deste cotidiano herdado, infestado que está (que estamos todos! ou quase todos), dos pharmákons e suas doses cada vez mais toleráveis de café, cigarros, álcool, maconha, cosméticos e outras drogas sujas como o crack. Os nossos esgotos desembocando nos rios. Ou ainda pior, a pedantia.</p>
<p>Isto para não falar da ingestão involuntária de violência e luxúria, e todo este caos urbano. Estamos em plena hybris, do cotidiano da Texyn (técnica) e do desengano. Este é o nosso desmedido drama pós Séc. XX, pós-guerras; pós-ditaduras. E ainda compartilhamos com o mundo todos os terrorismos contemporâneos, midiáticos; agora mais do que nunca, em escala global. Neste sentido não posso me furtar a dizer, ou ‘insinuar’ (que seria ensinar com nuances) que poucos entre nós são capazes de reconstituir em breves linhas, e com nexo, a história das grandes massas globais de habitação humana sobre a terra. Suas interações com o meio, com os outros. Basta esta simples questão e se abrirão largas as portas para a grandeza da historicidade do fenômeno humano.</p>
<p>E então, nos daremos conta de que este nosso desmedido drama contemporâneo, brasileiro, surge concretamente como domi-Nação, enquanto a continuação de um impulso “humanizador”, “civilizador”, o qual adquiriu forma plena no séc. XIX. Quando houve a completa formalização de um novo paradigma de mundo, surgido ainda no séc. XVI, a partir do primeiro mapa de todo o globo terrestre, quando todos os continentes e culturas foram integrados ao primeiro “sistema mundo” da história da humanidade – “euro-centrado”, que vem, desde então, imperando sobre o planeta. A partir de sua eficácia técnica, científica; militar; econômica; e também de discurso, claro, o “euro-dito”.</p>
<p>E falo isso, porque tenho de falar. Sou brasileiro e como poucos brasileiros, latino-americano, me reconheço como parte deste continente maior que nos abriga! E muito me intriga, por exemplo, esse boicote bibliográfico, tanto das editoras quanto das academias brasileiras, de não trabalharem com a literatura em espanhol, castellano. Eles, para dizer o mínimo, já traduziram tudo de que há de mais relevante na história da cultura. E digo isto também porque já estou farto deste discurso bem comportado, ornamental, Instrumental, transcendente. Vamos construir nossa modernidade, a deixa já foi dada, Antropofagia neles! Pois que não preguem! Mas que aceitem que o melhor pensar, ao menos o mais saudável, habita no diálogo. Se precisamos de um conceito: que seja o melhor viver entre os nossos, humanos iguais em liberdade e saúde, em possibilidades para o diálogo.</p>
<p>Mas para isso, é preciso que nos libertemos destas técnicas asfixiantes, da cultura de massa, da imperiosa mediocridade dos meios de comunicação. Neste ambiente, não há espaço para aperfeiçoar a sensibilidade. A palavra estética vem do grego “eystesis“, que quer dizer sensibilidade. Aqueles sim, souberam como poucos aperfeiçoar os sentidos para o fenômeno humano. Não é por menos que seus clássicos tão forte ainda reverberam em nossos desenganos.<br />
Mas vamos falar dos nossos, que estão em larga medida embriagados de sexo, álcool e de consumo; que não aprenderam na escola mínimas regras de alimentação, em qualquer sentido que se dê a uma dieta saudável; que não sabem nada sobre plantar, cuidar da terra; e apenas agora, com o prenúncio do colapso ambiental, começamos a pensar uma maneira sustentável de habitar a superfície do planeta.</p>
<p>Veja, isto é o mínimo, pois o que a natureza ou a terra estão dizendo, é simples e claro: a maneira humana de habitar a superfície do planeta é insustentável. Esse modelo, escolhido e imposto, principalmente no último século, com o advento científico-industrial de uma tecnologia baseada no petróleo, no motor a combustão, no agronegócio e na fissão do átomo; está envenenando a Terra!!</p>
<p>A terra precisa, antes de calculada, ser percebida como recurso renovável, abundante doador de vida. É urgente a necessidade de dar um basta a esta dinâmica da poluição, da miséria e da desigualdade; do envenenamento, enfim!<br />
Vamos nos embriagar de modernidade líquida, de racionalidade contra-hegemônica. Salve Tom Zé, Abujamra (que me despertou do sono dogmático), Egberto, Hermeto, Naná; o grande Evaldo Coutinho e por que não Oswald de Andrade? Nosso pai da horda antropofágica; Salve a lucidez de Vicente Franz Cecim, Gullar, Paulo Freire, Celso Furtado, Augusto Boal, Eduardo Viveiros de Castro, e tantos e tantos outros, que por suas vivências e posturas, jamais passaram ou passarão despercebidos, mesmo que nunca venham a tornarem-se conhecidos. Tudo que se produziu de pensamento autêntico, auto-centrado, localmente implicado. Antropofagia neles! Em todos eles! Precisamos mais do que nunca ficar fortes, pois se anuncia uma grande batalha contra-hegemônica em nosso horizonte.</p>
<p>Precisamos desconstruir esta retórica institucionalizada, e globalizada, da carência, do subdesenvolvimento. É apenas retórica. E cá entre nós, estamos melhor em felicidade e fluidez, em afirmação do ser. Pois temos um corpo erotizado, bem temperado pelo trópico de câncer. E Viva o Carnaval!! Agora claro que, infelizmente, por ser tão potente, nosso corpo se tornou especialmente suscetível às técnicas de dominação de massa, que exercem seu comando estendendo suas rédeas sobre nossos estímulos mais primitivos, como o sexo e a violência; com a técnica de repetição até o entorpecimento (e este argumento é aristotélico, quando diz que a melhor retórica é a da repetição); mas que em nosso meio estão especialmente fortalecidos pela ignorância e pela hipocrisia.</p>
<p>Este poder, de afirmar com tanta convicção o ser, o corpo, em meio a grande adversidade, é o nosso paradoxo, a nossa missão, o nosso enigma enquanto nação. E o mundo inteiro, hoje, está interessado em nossa Esfinge. Bastante oportuna é aqui a imagem de esfinge, pois pode-se dizer que a humanidade tem que resolver a questão urgente da Amazônia, ou da Água. E esta questão, é algo mesmo no nível de decifra-me ou te devoro!</p>
<p>Em suma, eis aí um livro que assumiu sobre vários aspectos e através de iniciativas diferentes e convergentes, o compromisso com um novo paradigma como algo urgente. Claro que a ser discutido, repensado, criticamente construído, a partir de um pensamento localmente implicado, socialmente consciente de nossa contemporaneidade, é difícil. O consumo globalizado, e de massa, pronto para realizar e tematizar a cultura, de uma maneira alternativa, contra-hegemônica, humanamente mais includente possível, será capaz de dizer que “nada do que é humano, me é indiferente”.</p>
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		<title>Quixotes, semi-loucos, peters pans, trânsfugas, bichos-grilos</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Nov 2010 02:22:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Poeta Lara</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Percebe-se, na coletividade, uma grande apreensão com os pendores quixotescos, autodestrutivos, enlouquecedores, “infantilóides”, etc, presentes no campo contracultural, marginal, transgressor, rebelde, “maldito”. Essa apreensão tem suas justificativas, pois o problema realmente existe. O que não se justifica é a rejeição completa em nome da “normose” coletiva. Até porque, nas novas gerações, esses problemas estão sendo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Percebe-se, na coletividade, uma grande apreensão com os pendores quixotescos, autodestrutivos, enlouquecedores, “infantilóides”, etc, presentes no campo contracultural, marginal, transgressor, rebelde, “maldito”. Essa apreensão tem suas justificativas, pois o problema realmente existe. O que não se justifica é a rejeição completa em nome da “normose” coletiva. Até porque, nas novas gerações, esses problemas estão sendo atenuados.</p>
<p>O momento mais forte aconteceu nas décadas de 60 a 80, quando a percepção desses riscos ainda era pequena. Mas, num primeiro momento, a resistência cultural contra o Mainstream, quase sempre, é exercida por pessoas com personalidades e temperamentos desviantes, não-normais, problemáticos ou até mesmo “perigosos” (em alguns casos). E não poderia ser de outra maneira, já que uma pessoa “normal”, adaptada, nunca enveredaria pela “loucura” de um pioneirismo desses (só mesmo um sonhador, um semi-louco, um quixote, teria predisposição e destemor bastantes para viver tamanhos riscos no enfrentamento com o “Stablishment”.</p>
<p>Os jovens da novíssima geração parecem-me mais equilibrados. Terminam seus cursos superiores, arranjam seus empregos (ou alguma maneira de ganhar a vida), são mais adaptáveis, menos autodestrutivos e sabem combinar disciplina com criatividade. Ou seja: num segundo momento, essas “bandeiras anti-Sistema” vão sendo assumidas por pessoas com uma relativa capacidade de autocontrole. E isso é bom, embora haja também uma tendência para a superficialidade na “Geração Twitter”.</p>
<p>Tudo isso quer dizer que a “resistência”, atualmente, pode ser feita por pessoas razoavelmente “normais”, assimiláveis pela coletividade. É preciso ter o cuidado e a lucidez para, na luta contra o Mainstream, não enveredar pelo maniqueísmo da demonização unilateral da “normalidade”. Inclusive o seguinte: se acontecesse uma hegemonia total da “anormalidade” no mundo das artes, isso não seria bom, pois estaríamos, também, diante de um domínio maniqueísta, ditatorial, exclusivista, limitador (em nome de outro extremo). O mais “saudável” e frutífero seria mesmo a convivência e o diálogo entre os diferentes tipos, o aperfeiçoamento da acomodação de diferenças. Até porque há riscos específicos em ambos os lados. Se há o risco de “caotizar”, num lado, há o risco de “engessar”, no outro.</p>
<p><strong>Minorias</strong></p>
<p>A literatura de “minorias” também é um tabu para o cânone ocidental, que não admite a existência de diferentes tipos de literatura (em pé de igualdade), uma vez que admite apenas uma “literatura universal”, encarnada em determinadas “obras primas”, em escritores que também são críticos literários, no padrão grego, em referências endeusadas e cristalizadas pelos Departamentos de Letras.</p>
<p>Porém, as minorias também correm o risco de se fecharem em guetos artísticos, compartimentos culturais e terem a sua visão geral diminuída, caírem na diabolização da diferença. E esse raciocínio vale para os diferentes tipos de “minorias” (feminina, homossexual, étnica, underground”, mística, maldita). Há riscos específicos. Por exemplo: identificar-se com bandidos, por conta de uma realidade pessoal vivida à margem, devido a injunções sociais várias. Ou o descarte de qualquer diálogo com tipos que não se enquadram em determinado gueto ou compartimento social, comportamental. Mas há também os que usam essas opções minoritárias como uma postura, uma pose, um marketing individual, um “charme” pessoal.</p>
<p>E aqui volta aquela questão da “oposição” entre forma e conteúdo, já que a principal acusação dos “canônicos” contra as “minorias” é a de que estes são extremamente frágeis justamente no estilo, na forma, na sintaxe, e que possuem apenas interesse antropológico, sociológico, filosófico, e o valor propriamente literário dos mesmos seria baixo ou inexistente. A meu ver, isso é “pré-conceito” mesmo, discriminação cultural, descarte da concorrência. Qual é o problema em uma literatura que tem um valor mais conteudístico que formal? Cada um que escolha qual o livro que quer comprar. Os motivos, no frigir dos cocos, são mais subjetivos, pessoais, seja pelo estilo, seja pela mensagem, seja pelo o que for. O resto é ego.</p>
<p><strong>Internet e contemporaneidade</strong></p>
<p>A informática e a Internet trouxeram inúmeras facilidades para os escritores independentes (no sentido geral). Nos tempos do mimeógrafo, as dificuldades eram bem maiores. Até mesmo a publicação de um fanzine era um trabalho demorado. Hoje, publica-se um blog rapidamente e o escritor pode colocar uma quantidade enorme de textos num blog desses (e a sua visibilidade também aumenta). No caso de um livro, se o conteúdo já estiver pronto, improvisa-se uma capa e, se o autor assim quiser, disponibiliza imediatamente para o público. Conclusão: as coisas realmente ficaram mais fáceis para os escritores alternativos, independentes, marginais, uma vez que o mais importante é que não haja cortes ou modificações no texto (o veículo, portanto, é secundário). Até mesmo o preço tem mais chances de ser reduzido quando se trata de uma publicação virtual. O livro de papel, inclusive, padece de uma série de problemas, que vão da “impossibilidade” de queda no preço até problemas mais graves relacionados à indústria de celulose e à cadeia produtiva e distribuidora.</p>
<p>Os contemporâneos estão “com a faca e o queijo”, portanto. A liberdade de expressão soma-se às facilidades trazidas pelo meio virtual. Os garotos estão “soltando o verbo” em todas as direções (quanto mais gente escrevendo, melhor: estão treinando “escrevinhadura” e procurando conhecer outros escritores). No conteúdo, na maioria dos casos, hoje há um predomínio do escatológico, do grotesco, do sexo, do conformismo, em detrimento da postura crítica, classista, politizada. Mas há exceções, como já disse. Se o pessimismo conformista e o escapismo tornarem-se hegemônicos, restará apenas esperar pelo momento da extinção da espécie enquanto usufruem do “restinho” que sobrou? Ou os novos “yuppies” e a Geração Z estão alimentando a esperança de morar em Marte? Ou apenas restará o pós-morte para os que evoluírem exclusivamente no nível espiritual?</p>
<p>Obviamente, essa nova geração é diferente da minha. Nos meus áureos tempos de “marginal”, tentávamos amalgamar o lado existencial com o lado político. Mas hoje parece que os “contemporâneos”, a novíssima geração, na grande maioria dos casos, quer saber “apenas” do grotesco pelo grotesco, do sexo pelo sexo, ou da espiritualidade despolitizada (escapismo?). Mas fugir da busca espiritual para abraçar a luta política também é escapismo (de outro tipo).</p>
<p><em>LARA é alterego de José Luís Miranda: nascido em Bom Conselho – PE (agreste meridional sul). Reside no Recife desde meados de 1979. Participou, informalmente, do Movimento de Escritores Independentes em Pernambuco (MEI-PE). É também recitador e participa de recitais desde o início da década de 80. Atualmente é funcionário da UFPE (Assistente Administrativo).</em></p>
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		<title>O verbo solto dos marginais</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Nov 2010 00:57:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Belisa Parente</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>A literatura marginal começou a ser produzida no começo dos anos 70 tendo como ânimo inicial a denúncia,  o grito, a liberdade de subverter com modos e linguagens peculiares.  Abordando críticas sobre a ditadura militar instalada no País e um modo novo de enxergar a vida, essa opção alternativa de se expressar tinha como fundamento o descompromisso como resposta à ordem do sistema.</p>
<p>Os escritores levavam uma vida desburocratizada e elevavam ídolos como Bob Dylan e Janis Joplin. Eram os “Anos Loucos”. Fazer literatura marginal significava que os  poetas não emplacavam nas grandes editoras e seguiam com um certo espírito <em>beatnik </em>do<em> </em>“faça você mesmo”. Uma quantidade significativa de publicações ganharam as ruas nos anos 70, produzidas em gráficas clandestinas em fundos de quintais com o tal mimeógrafo. Nessa época surgiram cerca de 150 periódicos alternativos em formato tabloide, como o Pasquim, Flor do Mal, Pingente, Ovelha Negra, Beijo, Luta &amp; Prazer.</p>
<p>A literatura passava por uma crise estética. A Literatura Marginal veio mostrar um novo conceito: ela era irônica, mal acabada, muitas vezes incompreensível, porém, dotada de inteligência crítica, protestos e denúncias. Ela zombava do que era fixo, imutável, formal. Zombava até da própria literatura e cultura da época. Dentre os “malditos” pernambucanos, como eram estereotipados os poetas marginais, Erickson Luna, Chico Espinhara, França, Valmir Jordão. Nacionalmente, Chacal, Charles Peixoto, Torquato Neto, Ana Cristina César, Heloísa Buarque de Holanda e o brilhante Wally Salomão.</p>
<p>A literatura crítica constitucional da época via essa literatura como ignorante, infanto-juvenil, tecnicamente inferior aos seus antecessores. Paulo Leminski, mesmo tendo flertado com os “malditos”, criticou: “Leram rápido e confusamente alguma coisa de Nietzsche e os almanaques contraculturais de Herbert Marcuse e Wilhelm Reich, salpicando toda essa salada sexual do zen-budismo e, entenda quem puder, seu misticismo coloquial”. Logicamente, o desmoronamento causado por um novo tipo de literatura, com todos os elementos da contracultura, iria sofrer críticas severas. No entanto, ela conseguiu resistir ao tempo e ainda hoje vemos frutíferos respingos brotando em grupos literários, revistas artesanais, folhetins e jornais geralmente impressos em gráficas pequenas e vendidos em reuniões, bares, entradas de universidades.</p>
<p>Esses escritores marginais estão espalhados pelas cidades, nas praças, flanando em bibliotecas públicas, observando as pessoas nas ruas. Estão fora da programação de eventos literários como a Fliporto. Eles estão inventando estórias fantásticas em outro mundo, “caminhando contra o vento sem lenço e sem documento”. É certo que uma loucura pessoal caracteriza a literatura marginal. Hoje podemos até compará-la às revistas independentes onde podemos ser verdadeiros por que livres somos, mas pagamos preço alto. Onde suplantamos o mercado todo poderoso e fazemos com as próprias mãos, de forma mais artesanal e visceral possível.</p>
<p>Esse novo tipo de fazer literário independente não deixa de estar à margem, em guetos, mas consegue mostrar a força da literatura, persistente em um País com necessidades urgentes na saúde e na infraestrutura básica, por exemplo. Nossa elite também não é intelectualizada, então lá no final da lista encontramos a arte.  - Ô, como é difícil viver de arte, bradam os marginais lamuriosos. Escritores do desbunde, figuras significativas da história literária brasileira, precisam ser aclamados. Vida longa aos marginais de bom sentido!</p>
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		<title>Café Cultural Fafire comemora um ano com escritores papeando sobre produção literária</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Nov 2010 03:30:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Camila Ribas</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais uma edição do Café Cultural já está marcada para o próximo dia 16 de junho, dessa vez, em comemoração ao primeiro ano do café. Esta edição também homenageará a escritora Lucila Nogueira e terá como tema “Produção e divulgação literárias em Pernambuco”. O bate-papo será realizado às 18h, no espaço memorial da faculdade, que fica no 5º andar.</p>
<p>Entre os convidados, a sertaneja Cida Pedrosa, que é poeta e uma das editoras do Interpoética; Heloísa Arcoverde, que é professora e ensaísta, além de coordenadora do festival A Letra e a Voz, promovido pela Prefeitura do Recife. Também estará presente o escritor Alexandre Santos, presidente da União Brasileira de Escritores de Pernambuco, que confirmou a participação no Café Cultural Fafire de junho.</p>
<p>O grupo Nós Pós também participa com Cláudia Trevisan, apresentando uma interpretação de textos da homenageada Lucila Nogueira e Márcio Arielson, montando um musical durante o relançamento de livros.  Silvana Menezes, da Quartas Literárias, também leva sua performance poética ao Café Cultural Fafire.</p>
<p><strong>UM ANO DE CAFÉ CULTURAL</strong> – Ideia do escritor Alexandre Furtado e surgido em maio de 2009, o Café Cultural da Fafire completa um ano, com dez eventos de sucesso, presença em um dos mais importantes eventos de literatura do país, a VII Bienal Internacional do Livro, e a marca de quase duas mil pessoas circulando pelas mesas de discussão. Itinerante, já aconteceu na própria Fafire, Livraria Cultura, Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, Espaço Pasárgada, entre outros.</p>
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		<title>O olhar humanista de Abelardo da Hora</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Oct 2010 03:00:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Belisa Parente</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capa]]></category>

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		<description><![CDATA[Abelardo Germano da Hora nasceu em 31 de julho de 1924, na Usina Tiúma, em São Lourenço da Mata. Sua obra é marcada por denúncias sociais e pelo lirismo, representado inconfundivelmente nas esculturas de corpos femininos. Bundas, peitos, cinturas de pilão. Abelardo carrega a genialidade e simplicidade dos grandes artistas humanistas, é terno com alma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Abelardo Germano da Hora nasceu em 31 de julho de 1924, na Usina Tiúma, em São Lourenço da Mata. Sua obra é marcada por denúncias sociais e pelo lirismo, representado inconfundivelmente nas esculturas de corpos femininos. Bundas, peitos, cinturas de pilão. Abelardo carrega a genialidade e simplicidade dos grandes artistas humanistas, é terno com alma vivaz – o que o faz continuar criando com a atitude de um bom mestre.</p>
<p>Diferente dos obstinados, que lutam para ter sucesso profissional ou até descobrir se tem dom pra coisa, a descoberta de Abelardo foi acidental. Ele se inscreveu no Colégio Industrial Prof. Agamenon Magalhães no curso de mecânica. “Eu queria ser engenheiro mecânico e o meu irmão, não sei por que cargas d’água, queria ser escultor. Mas quando eu fui me inscrever não tinha vaga. Eu disse: bem, já que não tem mais vaga, me inscrevo em Artes Decorativas por quê pelo menos tenho um amigo, que é meu irmão”. Surpreendentemente, para o próprio e toda a família, ele se destacou como o melhor aluno da classe.</p>
<p>O professor de Abelardo no Colégio Industrial era Edson de Figueiredo, que tinha um problema auditivo. Álvaro Amorim, seu professor de pintura, brincou com Edson: “Venha cá seu moco, venha ver o que é um escultor!”, lembrou Abelardo entre risos. Ele fez três anos de escultura lá. Depois ganhou uma bolsa de Álvaro para a Escola de Belas Artes e logo foi eleito presidente do diretório. A primeira iniciativa do estudante foi criar excursões. Queria que todos desenhassem, pintassem e esculpissem ao ar livre, observando as pessoas na rua, inspirando-se na vida do lado de fora, ao invés de olhar para o próprio umbigo.</p>
<p>Em uma dessas excursões, já no fim do curso, em outubro de 1941, foram para Usina São João da Vara, onde seu pai havia trabalhado. A turma criava na beira do açude quando o dono da usina, Ricardo Brennand, parou em um carro importado e desceu para conversar com os jovens artistas. Abelardo estava desenhando o perfil de uma colega, Cremilda, que segundo o mesmo era muito bonita e ele costumava se enxerir. Quando o desenho estava quase pronto, Ricardo se aproximou e perguntou se já estava vendido; o jovem assinou a tela e presenteou o empresário. Em seguida, Ricardo o convidou para trabalhar com cerâmica artística. Menos de um ano depois, Abelardo estava na oficina com um oleiro à disposição, torno, forno e tudo quanto era necessário. Lá desenvolveu traços finos, em pratos com detalhes em relevos e pinturas. Os temas eram, geralmente, florais e elementos da cultura popular nordestina. Trabalhou também com terracota, técnica chinesa milenar usada para fazer bonecos, pratos, vasos, objetos duradores.</p>
<div id="attachment_1676" class="wp-caption aligncenter" style="width: 670px"><img class="size-large wp-image-1676" title="Albelardo da Hora (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)" src="http://www.revistazena.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Abelardotexto2-660x495.jpg" alt="Albelardo da Hora (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)" width="660" height="495" /><p class="wp-caption-text">Albelardo da Hora (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)</p></div>
<p>A primeira exposição de Abelardo foi expressionista, dedicada ao povo. Depois passou a criar inspirado na cultura popular. Nessa época, produziu as danças brasileiras, o carnaval, o frevo e a capoeira. Por fim, percebeu que a mulher era realmente a grande maravilha criada pela natureza, sem a qual não podia viver, dedicando grande parte da sua obra às mulheres. Abelardo capta o molde do corpo da filha, uma cintura que escapole na esquina, um olhar apreensivo ou irmão.</p>
<div id="attachment_1677" class="wp-caption aligncenter" style="width: 670px"><img class="size-large wp-image-1677" title="Albelardo da Hora (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)" src="http://www.revistazena.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Abelardo5-660x441.jpg" alt="Albelardo da Hora (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)" width="660" height="441" /><p class="wp-caption-text">Albelardo da Hora (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)</p></div>
<blockquote><p>“Sou um grande amigo das mulheres, sou encantado, arriado pelas mulheres”.</p></blockquote>
<p>Em 1948, junto com Hélio Feijó e outros, fundou a Sociedade de Arte Moderna do Recife, com a ajuda de amigos e do diretor do Liceu de Artes e Ofício, que os cedeu uma sala. “O clima era o melhor possível. Formei uma geração de artistas, hoje, reconhecidos. Implantei também um curso de música e um setor de teatro dirigido por Luís Mendonça. Depois disso, recebemos uma ajuda, porque até então eu ensinava de graça e ainda tirava dinheiro do meu bolso para ajudar a pagar o aluguel do atelier”, lembra Abelardo.</p>
<p>A criação artística em Abelardo vem naturalmente. Geralmente ele faz um desenho ou uma maquete pequena para depois ampliar. Segundo o mesmo, sua arte responde a uma necessidade vital. “Vejo coisas com o que me identifico ou me revolto, e tudo isso sai na minha arte. Atualmente, como estou amando demais, estou achando que as mulheres ficam cada vez mais bonitas,<strong> </strong>minha necessidade vital é o amor. É maravilhoso cantar as mulheres mais do que nunca. E a minha querida mulher, Margarida, nos casamos em 1948”.</p>
<blockquote><p>“Minha necessidade vital é o amor”.</p></blockquote>
<div id="attachment_1674" class="wp-caption aligncenter" style="width: 670px"><img class="size-large wp-image-1674 " title="Abelardo da Hora e sua esposa Margarida (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)" src="http://www.revistazena.com.br/wp-content/uploads/2010/10/AbelardoMargarida-660x441.jpg" alt="Abelardo da Hora e sua esposa Margarida (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)" width="660" height="441" /><p class="wp-caption-text">Abelardo da Hora e sua esposa Margarida (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)</p></div>
<p>Questionado sobre a juventude, Abelardo disparada com a afirmação de que há um grave problema na orientação familiar contemporânea. “No campo profissional houve avanços. Mas na familiar, na questão da convivência, do respeito social, o negócio caiu bastante”, comenta. Apesar de acreditar que o consumo de droga tem infelicitado a juventude, principalmente pela falta de respeito à comunidade social, o artista é a favor da legalização das drogas. “No Rio e São Paulo você pode levar um tiro na cabeça sem ter feito nada, simplesmente por que os bandidos estão disputando o ponto de venda de drogas. Todo mundo deveria comprar drogas em qualquer parte, num instante a coisa acabava. Quando eu era menino vi muita briga por causa da proibição de bebidas alcoólicas, e depois que liberou acabou”, ratificou.</p>
<p>Entre as suas peças espalhadas pelo Recife, podemos encontrar o Vendedor de Caldo de Cana no Parque 13 de Maio. Mulher deitada, no Shopping Center Recife. O Sertanejo, na Praça Euclides da Cunha. O Vendedor de Pirulitos, no Horto Dois Irmãos. Monumento à Restauração Pernambucana, próximo à Praça Sérgio Loreto – palco de muitas revoluções.</p>
<p>Apaixonei-me por Abelardo sem saber, ainda na infância. Passava horas deslizando minhas mãos sobre os cabelos, seios pontudos, olhos grandes puxados, pescoços alongados das suas mulheres de pedra.  As tinha intimamente, como um parente que gostamos de encontrar. Amava abraçá-las forte, como para testar nossas forças. Imaginava meu próprio corpo na maturidade. Abelardo, com seu humanismo genuíno, adentrou profunda e irreversivelmente no meu imaginário infantil. Como é bom tê-lo, vê-lo, tomar um café e conversar sobre as coisas do mundo. Viva Abelardo da Hora, o meu Klimt recifense.</p>

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<a href='http://www.revistazena.com.br/belisaparente/capa/o-olhar-humanista-de-abelardo-da-hora/attachment/galeriaabelardo9/' title='Albelardo da Hora (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena) '><img width="100" height="100" src="http://www.revistazena.com.br/wp-content/uploads/2010/10/GaleriaAbelardo9-100x100.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Albelardo da Hora (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)" title="Albelardo da Hora (Foto: Belisa Parente/ Revista Zena)" /></a>

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		<title>Plena nudez</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Sep 2010 03:08:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Raimundo Carreiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capa]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu amo os gregos tipos de escultura; Pagãs nuas no mármore entalhadas; Não essas produções que a estufa escura Das modas cria, tortas e enfezadas. Quero em pleno esplendor, viço e frescura Os corpos nus; as linhas onduladas Livres: da carne exuberante e pura Todas as saliências destacadas… Não quero, a Vênus opulenta e bela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">Eu amo os gregos tipos de escultura;<br />
Pagãs nuas no mármore entalhadas;<br />
Não essas produções que a estufa escura<br />
Das modas cria, tortas e enfezadas.</p>
<p style="text-align: center;">Quero em pleno esplendor, viço e frescura<br />
Os corpos nus; as linhas onduladas<br />
Livres: da carne exuberante e pura<br />
Todas as saliências destacadas…</p>
<p style="text-align: center;">Não quero, a Vênus opulenta e bela<br />
De luxuriantes formas, entrevê-la<br />
Da transparente túnica através:</p>
<p style="text-align: center;">Quero vê-la, sem pejo, sem receios,<br />
Os braços nus, o dorso nu, os seios<br />
Nus…toda nua, da cabeça aos pés!</p>
<hr size="1" />
<p>Plena Nudez, de Raimundo Correira, faz parte do parnasianismo, corrente literária nascida em 1882.Os escritores da época procuravam se distanciar de temas sociais. Supervalorizavam o culto da forma (ponto de vista técnico), o descritivismo, o despreso por temas indivuduais e uma concepção de amor carnal, como é sentido na poesia Plena Nudez.</p>
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