Circunspeção Musical

Conseguir fazer álbuns notáveis com a mesma qualidade, durante muitos anos, é uma tarefa árdua e exige uma competência musical razoável – pouquíssimos artistas alcançaram tal proeza. Beatles é um exemplo. Pink Floyd, Rolling Stones. Geralmente o melhor trabalho é o disco de estreia, provavelmente pelo desejo de não querer ser mais uma banda que cairá no ostracismo com o tempo. A partir do segundo trabalho, a coisa parece que vai “murchando” e vários artistas são assolados pelo famoso bloqueio criativo. Como acontece na indústria cinematográfica com as trilogias. Quantas vezes não escutamos que o primeiro foi o melhor?

A criatividade musical, frequentemente, decaí com o passar do tempo. Às vezes até o próprio artista começa a desacreditar que conseguirá fazer um trabalho melhor. Mas ao invés de cair fora, continua tentando sem êxito, só conseguindo prolongar sua carreira por causa de melodias que lembram outras ou por ter cultivado muitos fãs fiéis que continuam acreditando que algo grandioso virá.

Hole,, Nobodys Daughter (Mercury Records)Courtney Love teve seu momento crucial com o álbum Live Through This (1994), no qual todas as faixas são extremamente enérgicas e cheias de atitude. É aquele tipo de cd que você escuta e já sabe que nunca mais a banda fará nada igual, até pelas circunstâncias, época e objetivo sob o qual foi feito. Os outros são todos ramificações deste e do Celebrity Skin (1998). Principalmente os dois últimos, America’s Sweetheart (2004) eNobody’s Daughter (2009 – capa ao lado).

O último remete e muito ao “Celebrity” por ser predominantemente pop, só há uma faixa que se pode chamar de punk, a “Dirty Girls” (Garotas Sujas). Porém, Courtney consegue ser impactante até nas mais calminhas como “Stand up Motherfucker”, pelo seu conteúdo e exaustiva repetição do título da música. “Letter to God” é a mais confessional de todas; um desabafo, quase uma oração roqueira em que ela pede ajuda a Deus inúmeras vezes e o interroga sobre quem seria Courtney.

CONFIRA A ATUAL FASE DA ROQUEIRA

A capa do disco sugere um material bem mais agressivo do que realmente é – se bem que ela adora um paradoxo, como na capa do “Live Through This”, em que há uma miss segurando um buquê. Sem falar no encarte do CD como um todo, totalmente fofo – Courtney com um cigarro na mão, completamente alheia e despreocupada com sua imagem, bem punk anos 90, bem ela. Mas já nos primeiros acordes fica palpável que não é bem assim. Talvez queiramos que os rockstars mantenham aquela mesma energia, indumentária, atitude e modo de pensar de quando começaram. Entretanto, até os artistas mais inconsequentes amadurecem, e junto com eles seu legado. Courtney não mudou e com certeza não mudará em uma coisa. Ainda consegue construir frases contundentes e raivosas como antigamente.

  • Joaquina

    Courtney na veia.

    Adorei!

  • stummer

    Concordo com o que vc disse a respeito da “fronteira” em que se transformam os segundos discos dos artistas. Fronteira no sentido de indicar uma linha, um método… um futuro.
    Mas, na minha opinião, uma dissidência aparente em paralelo ao primeiro disco não significa que o gás acabou.
    Existem muitas variáveis que influenciam num trabalho até o seu apronto (cenas, exposição excessiva à midia, tempo pra gravação, etc). Bandas como o Pearl jam, por exemplo, mostram que saber lidar com a fama que explode no inicio da carreira é um caminho interessante pra perpetuar a carreira (com qualidade, claro). O Radiohead também mostra um norte legal, com seu experimentalismo enigmático.
    E ainda bem que é assim. Afinal, como diria o poeta Seilá kem: “Se quizermos saber como será o próximo disco de um ídolo, seremos fãs dos Backstreet boys”

    Não sei o que se passou pela cabeça da Courtney, mas pela do Kurt todos nós sabemos.