O encanto iraniano de Forough Farrokhzad

Forough Farrokhzad é um nome que provavelmente poucas pessoas ouviram falar, uma ilustre desconhecida cá pras bandas do Ocidente. O motivo? Falta de tradução adequada. Não há muitos tradutores do idioma persa para o inglês, tampouco para o português. Essa mulher hoje é considerada a mais famosa e influente poeta iraniana contemporânea. Contribuiu não só para a modernização da tradicional poesia persa como para a evolução da cultura popular. Em um país de tradição religiosa islâmica, ela foi além dos tabus. Corajosa e original, transgressora, atraiu muita atenção e olhares de desaprovação para si.

Vinda de uma família de classe média, terceira entre sete filhos, estudou em escolas públicas, fez cursos técnicos de pintura e costura, mas nunca chegou à universidade. Forough nunca foi uma mulher convencional. Aos dezesseis anos casou-se com o primo, um homem mais velho, fato que a família desaprovava. Um ano depois teve seu primeiro filho, mas não conseguiu manter-se por muito tempo nos moldes da sociedade da época. Em 1954 se separa, deixa o filho aos cuidados do ex-marido e segue o seu destino, livre e independente, entrega-se a sua paixão pela poesia.

Após a separação, Farrokhzad publicou vários livros: Asir (O Cativo, 1955), Divar (A parede, 1956), Esian (Rebelião, 1958), Tavalladi Digar (Outro nascimento, 1964) e Vamos acreditar no início da temporada fria, publicado postumamente. Além da literatura, destacou-se também no cinema, influência pelo relacionamento com o controverso escritor e cineasta Ebrahim Golestan. Em 1962 dirigiu o curta “A casa é escura”, documentário sobre uma colônia de leprosos. O filme foi aclamado internacionalmente e ganhou vários prêmios.

Forough Farrokhzad (Foto: Divulgação)
Forough Farrokhzad (Foto: Divulgação)

Reconhecida como a poetisa mais influente da língua persa no século XX, a UNESCO e Bernardo Bertolucci produziram filmes sobre a sua vida. Suas poesias são emocionalmente e intelectualmente ricas, Forough criou expressões marcantes, demonstrou seus mais profundos sentimentos, se desnudou ao falar sobre a situação da mulher no Irã, sua incapacidade de viver uma vida convencional e os seus curtos relacionamentos, assuntos proibidos a uma mulher de sua época e em seu país.

Em 1967, numa tarde em que voltava de um almoço na casa de sua mãe, Forough morreu em um acidente de carro, aos 32 anos, no auge de sua criatividade. Como cineasta, poetisa e mulher, Forough Farrokhzad foi notável, um ser de extrema sensibilidade, admirável, corajosa e determinada, fez o que muitas sequer ousaram pensar fazer.

Quem quiser conhecer um pouco mais, é só curtir no Facebook.

Abaixo, trechos das poesias The Captive (A Cativa), Call to Arms (Convocadas) e I will greet the Sun again (Eu saudarei o sol novamente). Traduções para o português por mim, Fernanda Limão.

Persian Poetry in English (Parts of “I will greet the Sun again”, 1962)
I will come,
I will come back,
I will – soon arrive!
And I will bring you –
All the flowers I’ve picked –
From the other side of the wall, –
The other side –
Of the wall
And then,
All the locked gates – will be shattered by love
And all the desolate isles – will be invaded by love
And there, I will hail everybody who loves, –
Everybody who loves!
And I know,
There will be a girl,
Still standing – in front of the gates,
Those soaked gates – in the Deluged of Love
I will greet her again as well
I will hail again this girl –
As well!

(Trans: Maryam Dilmaghani, September 2006, Montreal)

Poesia Persa em Inglês (Partes de “Eu saudarei o sol novamente”, 1962)
Eu virei,
Eu voltarei,
Em breve eu chegarei!
E te trarei –
Todas as flores que colhi
Do outro lado da parede
O outro lado –
Da parede
E então
Todos os portões fechados – serão despedaçados pelo amor
E todas as ilhas desertas – serão invadidas pelo amor
E lá, saudarei todos os que amam
Todos os que amam
E eu sei,
Haverá uma garota
Calma, em pé – em frente aos portões
Aqueles portões molhados – no Dilúvio do Amor
E eu a saudarei novamente, também
E eu saudarei novamente essa garota –
Também!

The Captive
I am thinking that in a moment of neglect
I might fly from this silent prison,
laugh in the eyes of the man who is my jailer
and beside you begin life anew.

A Cativa
Estou achando que em um momento de negligência
Eu poderia voar desta prisão silenciosa,
rir nos olhos do homem que é meu carcereiro
e ao seu lado começar uma nova vida.

Call to Arms
Only you, O Iranian woman, have remained
In bonds of wretchedness, misfortune, and cruelty;
If you want these bonds broken,
Grasp the skirt of obstinacy.

Convocada
Só você, ó mulher iraniana, manteve-se
Em laços de miséria, infortúnio e crueldade;
Se você quer esses laços quebrados,
agarre a saia da obstinação.

  • Aline Bezerra

    Parabéns Fernanda Limão!!! Ótimo texto, história interessante e bela poesia! Bom trabalho!