Eleitores-Nulos

Fiz uma pesquisa rápida através do meu twitter perguntando: quem foi de Marina, agora vai de Serra, Dilma, anula ou vota em branco?

E como quem pergunta quer saber, vos digo que me arrependi amargamente de ter perguntado.

Porque quem respondeu, salvo exceções, garantiu que ou anula ou vota em branco.

Naturalmente, quando eu tinha 16 anos, também achava que anular ou votar em branco era uma maneira inteligentíssima de protestar. E, assumo, cheguei a cometer este despautério certa vez. Porém o tempo passou, eu cresci e aprendi, rapidamente, que invalidar meu voto é uma maneira (bastante estúpida, aliás) de me abster, de lavar as mãos e dizer ‘não tenho nada a ver com isso, oi?’.

Acontece que temos, sim, tudo a ver com isso.

Inclusive, somos os únicos que temos alguma coisa a ver com isso.

Mais de 24 milhões de pessoas anularam ou votaram em branco neste primeiro turno. Bem mais do que todo o aclamado eleitorado de Marina, a quem petistas e tucanos (além de milhares de coligações), neste exato momento não cansam de cortejar e mandar beijocas. Se eu fosse um deles, estaria mais interessado na vertiginosa massa de eleitores que simplesmente optou pela opção de não optar.

No entanto, não estou aqui para falar de manobras politiqueiras, e sim deste tapa na cara da democracia, dado por quem deveria ser o primeiro a defendê-la e a zelar por ela.

Analisemos: as pessoas que me dizem que anularão ou votarão em branco não são analfabetos que passam fome e fumam crack embaixo de marquise. Não têm mais 16 anos faz tempo. A maioria estudou, fez faculdade, pós-graduação, mestrado, o escambau. São tidas como intelectuais. A “massa pensante” de nosso país; gente que lê e escreve livros e assiste documentário e sabe quem é Rimbaud.

Esses caras votam em branco.

Por quê?

O discurso geralmente é o mesmo, e é tão profundo quanto uma poça de água: protestar. Já que nenhum candidato presta, “olha aqui o que eu faço com meu voto seus bobos e feios”, e rasgam em mil pedacinhos, desdenhosamente, um dos poucos poderes que ainda lhes restavam enquanto cidadãos: seu voto.

Sempre – e eu disse SEMPRE – será melhor poder escolher, nem que as opções não sejam exatamente as que gostaríamos. Se não tivéssemos alternativa, acredite, seria ainda muito pior. Imagine você num restaurante, cheio de apetite, mas sem cardápio nenhum para optar por qual prato deseja, sentado numa mesa esperando que o garçom lhe traga uma comida que você não pediu nem sabe se irá gostar.

Votar em branco é mais ou menos assim.

E se você está aqui, lendo um texto na internet ao invés de ficar em salas de bate-papo inúteis ou em sites de pornografia, saiba que és tu o cara que tem a obrigação moral e cívica de zelar pela liberdade e pela democracia do país onde, querendo ou não, você vive.

Você, caro leitor-eleitor, que votou e pretende novamente votar em branco, precisa entender que poder escolher ainda não é um privilégio de todos, e justamente por isso você não deveria tratar tal regalia com tamanha desconsideração.

Por mais que nos pareça muito natural, e mesmo aborrecível, o hábito de ir até uma urna e participar de uma eleição democrática livre de fraudes, saiba que, para muitos, tal costume não passa de um sonho distante.

Aliás, tem gente aqui mesmo, dentro do Brasil, que vive em zonas consideradas à margem da lei, e que, justamente por isso, se tornaram verdadeiros currais eleitorais. Pessoas com os mesmos direitos constitucionais que eu e você possuímos, mas, que em pleno século 21, não escolhem em quem vão votar; votam em quem o chefe mandou.

E você que pode, que deve, que precisa, fica aí, à toa, vendo a grama crescer.

Faça-me o favor.

Por isso, vote no próximo dia 31.

Seja lá em quem for, vá até sua sessão eleitoral e deixe registrado o seu voto.

Se você acha os dois candidatos horríveis, ok. Vote, então, no que considerar o menos horrível. Afinal são as opções que temos, e, ou escolhemos um deles ou alguém vai escolher por nós. Além do que, se agora existem apenas dois candidatos, lembre-se que no primeiro turno havia nove – NOVE! – e não consigo acreditar que mais de 24 milhões de pessoas acharam que nenhum dos nove estava de acordo com pelo menos parte de suas convicções. Talvez porque sequer exista alguma convicção.

Mas enfim.

Entendo também que você esteja completamente desiludido com a política. Eu também estou, amigo, e dá cá um abraço! Mas acontece que, na prática, isso não faz a menor diferença, e é imprescindível que nós, cidadãos integrantes da classe que não usa a cabeça só para separar as orelhas, continuemos fazendo a parte que nos cabe, que é votar em quem acharmos melhor ou ‘menos pior’.

O Brasil é um país subdesenvolvido e cheio de problemas, mas nem por isso não possui qualidade nenhuma. E uma destas qualidades, sem dúvidas, é o fato de ser um país democrático.

Logo, não se pode lavar as mãos, tal e qual fez Pilatos certa vez, e depois reclamar mudanças, apontar defeitos, fazer barulho. Achar um absurdo alguém que vende seu voto, sem perceber que nem ao menos uma pilha de tijolos ganhou para desfazer-se do seu, como se este não valesse absolutamente nada.

Não adianta retuitar acaloradamente protestos contra a censura, a favor da liberdade de expressão e da democracia, e votar em branco.

Esta desvalorização eminente do direito de escolha do cidadão comum sobre quem governará o país onde vive é que preocupa.

Estes sujeitos que apertam a tecla BRANCO e confirmam realmente acreditam que, fazendo isto, estarão automaticamente pulando fora desta canoa furada chamada Brasil?

Porque não estarão não.

Eles continuarão aqui dentro, junto com a gente, e sem um dos remos, que é para complicar ainda mais sua situação.

Eu não gostaria que nenhum eleitor-nulo tivesse de sentir na pele o dissabor de se viver em um país onde a democracia não passa de uma doce utopia.

Eu mesma não sei.

Quando abri os olhos e o berreiro pela primeira vez no hospital, no comecinho de 85, o Brasil já caminhava a passos largos para se ver finalmente livre da ditadura e de seus milicos intolerantes; logo, desde que me conheço por gente, nosso país é um país livre e democrático. Só que não foi sempre assim, e nós sabemos. Até bem pouco tempo atrás ninguém escolhia nada, nem o que lia no jornal, e para reaver seu fundamental direito de votar muitos brasileiros tiveram que ficar roucos de tanto gritar pelas diretas já. Ou seja: deu um tremendo trabalho. Alguns nem sobreviveram para contar a história.

E agora nós, que na época dormíamos sossegados em nossos bercinhos enquanto outros batalhavam duro para nos deixar um país mais decente e democrático, chegamos nesta altura do campeonato esculhambando tudo e fazendo discursos vazios sobre não exercer um direito que outros brasileiros lutaram para que pudéssemos desfrutar.

Quer dizer, além de tudo, é muita ingratidão!

Votar em branco não é sinal de inteligência nem de protesto ou indignação.

É sinal de burrice.

Não dá para acreditar que o seu voto não fará a diferença. Estes mais de 24 milhões de eleitores-nulos que acreditavam que o seu voto não fazia diferença poderiam inverter completamente o resultado desta eleição.

Não podemos acabar comandados apenas por quem gosta de política e por quem a ignora completamente.

E é por todos estes argumentos, e pelo bom senso geral da nação, que peço mais uma vez e encarecidamente ao caro leitor-eleitor que, neste momento, me lê: VOTE.

Dia 31 pegue seu documento com foto, vá até sua zona eleitoral, clique no número do seu candidato e aperte CONFIRMA.

Ignore por completo aquela tecla escrito BRANCO.

Porque uma coisa é certa: em janeiro de 2011 o Brasil estará nas mãos de um novo presidente, quer você queira, quer não queira.

O Tribunal Superior Eleitoral não vai pensar: “Oh, 24 milhões não votaram, vamos repensar nossos rumos políticos?”.

Então, se você não pretende se candidatar à presidência da república e tentar resolver os problemas deste país do seu jeito, trate de eleger alguém, porque alguém vai ter que fazer este trabalho.

E é melhor que possamos escolher.

Na pior das hipóteses, o menos ruim.