Luísa, prazer

Pobre Marcelo.
Era um bom sujeito, o rapaz.
Mas tudo foi por água abaixo, que nem merda: sua faculdade, seu emprego, sua boa vida de comedor de macarronada da mamãe.
Culpa da Luísa, aquela maluca.
Foi depois que ele a conheceu que as coisas começaram a amarelar. A iniciar por sua pele.
Emagreceu, andava irritado, nervoso, abatido.
É claro, não lhe sobrava tempo pra mais nada.
Luísa era muito simpática, e bonita, e tinha um belo par de coxas e outro melhor ainda de peitos, mas não deixava o infeliz em paz porque precisava transar.
Nunca vi mulher assim.
Era de manhã, meia manhã, meio-dia, início da tarde, entardecer, noite, madrugada.
E ai do Marcelo, se não comparecesse.
Também, o pobre tinha um medo danado que, se não satisfizesse a namorada, outro satisfaria.
Deus me livre, ele amava Luísa.
Só que não dava conta de comê-la todas as vezes que ela o requisitava.
– Temos outras coisas para fazer além de sexo, querida.
Era o que ele lhe dizia, em vão.
Luísa não queria nem saber.

Um dia caiu doente, meu amigo Marcelo.
E os médicos proibiram a namorada de visitá-lo, afinal, o rapaz precisava de um pouco de paz, e soro, e sossego, e descanso.
Estava fraco e estressado demais.
Muita gente invejava Marcelo, mas eu não. Era dureza para ele, e sem trocadilhos.
A menina não podia vê-lo que já começava seu jogo de fêmea no cio. E não importava onde estivesse, mercado, padaria, cinema, banheiro de universidade, fila de banco, ônibus, banca de jornal.
Ela não dava folga.
Quando Marcelo deixou o hospital, um pouco reabilitado e mais coradinho, vi que estava diferente. Não sei explicar, era um olhar mais obstinado, um jeito mais decidido. O pobre vivia à míngua, mas naquele dia tive a nítida impressão de que iria tomar uma providência.
Fiquei chocado quando soube.
Imaginei que ele iria terminar tudo com Luísa, ou quem sabe decidira dividi-la com seus amigos, como se divide uma tarefa complicada demais ou uma pizza tamanho família.
Mas comê-la, como ele comeu, eu não esperava.
Não com cebolinha e tempero misto.
Não cozida em fogo alto.
Pobre Luísa.

  • Camila

    Jana, como sempre, fazendo arte com as palavras e arrancando meus mais sinceros sorrisos de canto. 😉