Violência contra a mulher: nas ruas e na televisão

Dias antes da Semana da Mulher dois fatos trouxeram à tona uma relevante, porém, ainda incipiente discussão sobre a violência simbólica contra a mulher, veiculadas em concessões públicas. Em Olinda, a audiência judicial de escuta das testemunhas de Michele Maximino numa ação movida contra Danilo Gentili, Marcelo Mansfield e a TV Band, relembrou o achincalhamento pervesamente gratuito, em 2013, contra a maior doadora de leite materno do Brasil durante o programa Agora é Tarde.

O caso de Alexandre Frota, no mesmo programa e emissora, agora apresentado por Rafinha Bastos, ao relatar uma suposta cena de estupro, faz reiterar: o tema é atual, reincidente e revela a falta de ética e de limites legais numa busca desvairada por audiência. Evidencia também a necessidade da regulamentação da mídia enquanto ferramenta democrática e de garantia de direitos de grupos historicamente devastados por práticas de opressão como as mulheres.

Não é preciso pormenorizar os casos em si. O registro de tais atentados à liberdade estão em diversas mídias e podem ser facilmente encontrados na internet. Liberdade esta que, por sinal, é covardemente utilizada como justificativa para o suposto direito de expressar comentários e piadas que oprimem, humilham e estigmatizam.

Falar em respeito e garantia da dignidade não é sinônimo de atentado contra a tão falada liberdade de expressão, que se confunde ora com liberdade de empresas de comunicação, ora com liberdade para vociferar preconceitos e discursos de ódio. Liberdade de expressão sem filtros é selvageria. Quais seriam esses filtros? A consciência do respeito à dignidade, aos direitos e à liberdade das pessoas.

A violência contra as mulheres nos meios de comunicação não é nenhuma novidade. Os seus corpos, nossos corpos, são vilipendiados nas ruas e nestes meios. Exibir a imagem do corpo feminino, território onde se inscreve a vivência de cada uma, acompanhado de uma cruel dose de sexismo, racismo e objetificação em uma rede nacional de televisão, corrobora com os 50 mil estupros que acontecem por ano no Brasil. Número esse que é subnotificado, vale ressaltar.

Os dois casos que citamos no início deste texto são sacolejos necessários para se pensar na comunicação social como um campo político indispensável para a afirmação da cidadania das mulheres. Isto nada tem a ver com chapar a linguagem das mídias ou coibir o humor. Pelo contrário, se revela como desafio criativo e uso oportuno de instrumentos públicos de repasse e troca de informações. Traz também como necessidade o debate, a disseminação e apropriação das políticas de comunicação.

A banalização por parte da mídia da violência sofrida pelas mulheres é um fator de extrema importância na perpetuação de uma sociedade injusta e desigual. Resultado concreto disso é a acomodação e a falta de empatia com casos como o de uma mulher morta a tijoladas pelo ex-namorado. Ou de um estupro coletivo, amplamente compartilhado nas redes. Ou de uma mulher que doa leite para recém-nascidos em UTIs e é chamada de vaca e comparada a um ator pornô. Podem parecer coisas muito distantes, mas o machismo gritante de certas programações é retroalimentado pela morte de milhares de mulheres todos os anos. E isto precisa mudar.