O esteta e o mancebo do sedutor Kierkegaardiano

Tanto no Diário de um Sedutor quanto no O Banquete, obras filosóficas de Soren Kierkegaard, encontramos um ser dotado de uma capacidade extremamente sofisticada para abrir caminhos lúdicos e tortuosos e adentrar poeticamente na vida. A minha pretensão é examinar o sedutor Kierkegaardiano, sua arte e os finos traços da estética. Engendrei uma análise do conceito de exacerbatio cerebri, termo em latim que significa exacerbação, exaltação da mente do esteta, que como um motor leva-o constantemente aos estímulos. Esses estímulos, manipulados por ele próprio com os rigores do intelecto, tornam-se necessários para alimentar a sua mente. Coisa que a realidade só consegue proporcionar de modo fugidio e efêmero. Em última análise, tratarei os traços sofisticados do sedutor Kierkegaardiano em oposição ao lamurioso mancebo – personagem presente nas duas obras, que deseja reformar a mulher com seus moldes idealizados. O esteta, ao contrário, faz uso da constante busca pela exaltação da mente, contra os augúrios triviais do quotidiano romântico, criando uma obra-prima a cada sedução.

A natureza de Kierkegaardiano é dotada de uma capacidade de transitar por caminhos tênues que se escondem entre a realidade e a poesia. Como se seus passos intelectualmente precisos e esteticamente calculados deslizassem conscientemente nas entrelinhas dos versos de uma das obras de Goethe. O tom poético capaz de moldar interpretativamente a realidade é fornecida em excesso por ele próprio, na ânsia de livrar-se dos grilhões enfadonhos do cotidiano. O gozo desse esteta é regido pelos estímulos colhidos na realidade que ele retomava vez-após-vez através da reflexão. O próprio Kierkegaard (1979; 147) o descreve da seguinte forma:

“Primeiro ele gozava pessoalmente a estética, depois gozava esteticamente a sua personalidade. Gozava egoisticamente, ele próprio, o que a realidade lhe oferecia, bem como aquilo com que se fecundava essa realidade; (…) Tinha a constante necessidade, no primeiro caso a realidade ficava imersa na poesia.”

Kierkegaard, ao descrever o contexto do sedutor estético, faz alusão a um mundo que subsiste em um plano último, detrás do mundo que vivemos. A relação recíproca entre esse e o mundo real assemelha-se à relação que existe entre duas cenas num teatro ou numa ópera, uma cena por detrás da outra. Através de uma leve cortina pode-se distinguir um mundo mais leve, mais etéreo, do mundo real. O esteta pode, sem muito esforço, atravessar essa cortina e transitar de um lado para o outro, entre a realidade e a poesia, ao seu bel prazer. O sedutor estético não pertencia à realidade e, no entanto, tinha muito a ver com ela. Passava a jogar, friamente, sempre acima da realidade, e mesmo quando mais se entregava, estava longe dela. Contudo, não era o bem que o afastava da realidade, nem tão pouco o mal, mas sim, a exacerbatio cerebri. Neste sentido, portanto, essa exaltação estética da mente do esteta suprimia a deficiência da realidade cotidiana quanto a um estímulo suficientemente forte para saciar a sua mente sedenta de contínua contemplação.

A realidade, com efeito, lhe oferecia fragmentos soltos de estímulos e sempre de modo fugidio e efêmero. Logo que a realidade perdia sua importância como estimulante, ficava desarmado, e nisso consistia a sua contínua busca por inspiração. Ele não sucumbia ao peso da realidade. Para ele, suportar esse peso era uma fraqueza. Ele era demasiado forte, mas tal fortitude era a sua busca constante pelos estímulos. Tinha consciência disso, mesmo no momento da exacerbação da mente. A sua frieza estava nessa consciência, seus dotes intelectuais e suas exigências estéticas eram os instrumentos que o norteavam. Neste sentido, portanto, o estímulo para o esteta não está no objeto da sedução, está na seduçãoem si. Com efeito, a sedução é incrementada de tal forma e formatada por mãos tão hábeis, de refinamentos quase prestidigitadores, que ao término da sedução tem-se uma obra-prima.

Para o sedutor estético, todos os objetos de sua sedução – isso inclui Cordélia, a tia de Cordélia, o próprio mancebo e todos os outros alvos que foram peças no grande tabuleiro do sedutor não passaram de instrumentos para a realização pessoal e unilateral dessa satisfação, desse estímulo que alimenta a exacerbatio cerebri; dessa excitação diante da obra-prima terminada.

O artista para esculpir uma obra precisa de ferramentas e instrumentos adequados para lapidar a pedra e transformar a bruta assimetria material em formas milimetricamente simétricas. No entanto, esses instrumentos desgastam-se, perdem a forma e a sutileza de sua utilidade, fazendo com que o artista a substitua depois de esgotar tudo o que aquela ferramenta podia oferecer. Como poderia um cirurgião, com um bisturi cego, realizar a arte de um transplante de córnea ou de outro órgão de igual importância e delicadeza? Seria impossível. A realização de grandes gênios podem nos ajudar a compreender as entrelinhas de como o sedutor estético escolhe e abandona os objetos de sua sedução artística.

Com efeito, o grande gênio renascentista, Michelangelo, ao esculpir a escultura de Davi em mármore carrara, obra que levou três anos para ficar pronta, precisou necessariamente de ferramentas e instrumentos apropriados para lapidar com cortes quase cirúrgicos a expressão no mármore. Naturalmente a substituição dessas ferramentas foi crucial para a perfeição estética da obra, pois uma simples fissura, ou dente, poderia por toda criação a perder. O que fazia com que o artista necessariamente trocasse o instrumento por outro mais adequado rumo ao exacerbatio cerebri.

Moisés de Michelangelo, 1513–1515. Igreja de São Pedro Acorrentado, Roma. (Foto: Eliomar Ribeiro)
Moisés de Michelangelo, 1513–1515. Igreja de São Pedro Acorrentado, Roma. (Foto: Eliomar Ribeiro)

Com os instrumentos apropriados Michelangelo terminou a escultura de Moisés, uma dos principais frutos do gênio. Sabe-se que após terminar a obra, em um momento de delírio e êxtase diante da perfeição, golpeou-a com o martelo e exclamou repetidas vezes: “Perché non parli?”. Como se a obra, que alcançou estágio tamanho de perfeição, por um momento de exacerbação da mente quase pudesse falar com o autor; se é que realmente, sob o efeito do exacerbatio cerebri, não tenha falado, num momento único entre realidade e a exacerbação estética pós-criação. Eis um exemplo patente de exacerbatio cerebri. A excitação que nutre e alimenta o sedutor estético.

O esteta Kierkegaardiano encontra no exacerbatio cerebri o sentido de sua sedução estética. A busca constante por estímulos singulares, que serão lapidados por ele próprio, com os instrumentos e ferramentas certas, para chegar à sedução como obra de arte e poeticamente colher, unilateralmente, os frutos do exacerbatio cerebri que o inclinarão ao orgasmo artístico e estético. O próprio Johannes, através da pena afiada de Kierkegaard (1989: 135) nos revela um pouco dessa exaltação dos sedutores estéticos que nas duas obras ganham expressão sob o nome de eróticos:

“Os eróticos são os homens felizes. Vivem com maior magificiência do que os deuses, por que se alimentam de um manjar muito mais delicioso que ambrosia, e bebem um licor mais inebriante do que o néctar, (…) gozam o delicioso sabor da isca, e entre prazeres inigualáveis vão levando uma vida de felicidade, sem que passem além da isca, sem que nunca mordam o anzol.”

Seguindo a obra de Kierkegaard, O Banquete, podemos encontrar pistas mais sutis e nortear nossa investigação para melhor compreensão do exacerbatio cerebri de um artista. O Banquete de Kierkegaard, com efeito, segue uma formatação peculiarmente similar ao Banquete de Platão. A espinha dorsal da discussão é o amor examinado em duas vertentes bem delimitadas de argumentação, a saber, a monogamia e a sedução. O banquete é regido por uma atmosfera extremamente donjuanista. Todos conhecem a lenda de Don Juan que, aliás, tem dado motivo e inspiração a várias obras literárias e atingiu a mais sutil expressão artística na ópera musical de Mozart. O Banquete de Kierkegaard é regido por esta ópera. O próprio Kierkegaard (1989: 59) descreve a chegada dos convivas ao banquete sob a presença inebriante da ópera de Mozart:

“As portas abriram-se de par em par, a luz faiscante, o inesperado frescor, os incensos inebriantes, a visão de uma sala armada e adornada com perfeito gosto, tudo causou de entrada um instante de violenta surpresa; nesse momento estavam já os convidados a ouvir o bailado da ópera Don Juan (…) Oh, música invisível e solene! Oh, acordes sedutores que outrora me fostes arrancar à solidão monacal de uma juventude tranqüila! (…) Mozart imortal, tu a quem tudo devo…”.

O Banquete de Kierkegaard segue regido pelos manjares, pelo vinho e boa música. Conta com a participação direta de cinco convidados que apresentam seus discursos sobre o amor; desses cinco irei destacar dois principais que também estão na obra O Diário de um Sedutor. Johannes, o sedutor estético, ou erótico, e Eduardo, o mancebo. O antagonismo entre os dois personagens é patente: o primeiro escolhe, seduz e cria uma obra, usando e substituindo os seus objetos de sedução. O outro, o mancebo, idealiza a mulher e o amor, tenta reforma-los, e por não conseguir, lamenta, apresentando no banquete, um discurso lamurioso e quase niilista. O que fica patente na seguinte passagem do discurso de Johannes (1989; 130).

“Quem aos vinte anos, não sabe que há um imperativo categórico é: Goza, é uma pessoa ridícula. Quem não cumpre esse dever, é um puritano ou um doente. Vós não estais nesse caso, vós sois amantes infelizes, e aprova é que quereis reformar a mulher. Que os deuses nos protejam dos reformadores! “A mulher agrada-me tal como é absolutamente tal como é”.

Nesse sentido, portanto, o esteta não idealiza a mulher, nem procura reformá-la, ela já está pronta; a única coisa esculpida, pelo sedutor estético, através de uma idealização, é a sedução, a obra em andamento, e não os objetos de sedução. O sedutor estético Kierkegaardiano, com efeito, escolhe os instrumentos adequados para construir a sua obra. Da mesma forma que Michelangelo precisou escolher usar e trocar de ferramentas para lapidar a escultura de Moisés, o sedutor estético precisa dos seduzidos, como instrumentos, para realizar sua obra de maneira mais poética possível. No discurso de Joahannes isso fica nítido: (1985: 131)

“A mulher tem um valor inexcedível. É algo que eu digo a cada uma delas, e digo a verdade, uma verdade da qual só eu é que não sou vítima. Não vejo que, na minha tabela de preços, a mulher perdida tenha menos valor que um homem. Não que eu me dedique a colher flores murchas, porque deixo esse cuidado aos homens casados que enganam as suas esposas nos dias de carnaval.”

As flores murchas, da passagem do discurso de Joahannes, podem ser entendidas como instrumentos inapropriados à sedução como obra de arte, ou ainda, ferramentas que perecem de beleza e sutileza útil. Ganham rápida funcionabilidade para o vulgar e o grosseiro fluxo lascivo das festas carnavalescas, nas mãos daqueles que disseram amém quando assinaram o contrato com a monogamia. O esteta está consciente no jogo, e movido pelos ventos do exacerbatio cerebri torna-se criterioso ao extremo para a escolha e execução da obra. Por outro lado, o mancebo fraqueja na sua esférica reflexão e no seu ímpeto estéril de tentar reformar a mulher com os imperativos e formas idealizados. Sonha e lamenta, sem nunca concluir nem entender as entrelinhas que não só são percebidas pelo esteta, mas também são moldadas por ele. O mancebo não pode ter essa compreensão porque ele também é objeto de sedução, ele é passivo e também foi usado como instrumento, no Diário de um Sedutor, pelas hábeis mãos de Joahannes, que não exitou em substituí-lo, quando o mancebo se tornou uma ferramenta obsoleta para a conquista de Cordélia por Johannes. O mancebo não foi reformado pelo esteta, foi usado e substituído por ele.

Para o esteta, portanto, a mulher não deve ser idealizada, muito menos engessada numa idéia nem acorrentada em fórmulas racionais e lógicas. Como mostra numa passagem de seu discurso: (1985: 137)

“A idéia da mulher não se encerra, pois, numa fórmula qualquer, é um infinito de coisas finitas. Quem quiser pensar essa idéia, faze-la passar por todas as categorias lógicas, ver-se-á na situação de quem mergulha ou seus olhares profundos num oceano de fantasmagoria em perpétua formação (…) A idéia da mulher, para o pensador, não é mais do que uma oficina com a categoria do possível, e para o erótico, a categoria do possível é uma fonte inesgotável de fantasia.”

O sedutor estético, com efeito, mostra a armadilha de se idealizar o sujeito numa relação amorosa, essas são as entrelinhas usadas por ele próprio no seu jogo. Na sua sedução, ele se torna objeto de idealização, faz parte do labirinto que ele cria entre ele e os objetos de sedução. Quanto mais se idealiza o sujeito sedutor, mais distante fica o objeto seduzido das reais intenções do agente que seduz. Joahannes entende e usa isso com maestria pra realizar sua arte. Mostra, no entanto, que é nessa armadilha que estão fadados à queda; todos os que idealizam a mulher ou quaisquer que sejam os objetos de interesse amoroso. O esteta não quer a ideia do objeto, quer, com efeito, as impressões dos estímulos constantes de sua sedução. Como muito nos instrui David Hume, em sua Investigação acerca do entendimento humano, onde sistematiza a origem das ideias, mostrando-as fracas e desbotadas cópias das impressões, a saber, as impressões são as percepções mais vividas e imediatas que se apresentam de forma mais impactante à percepção humana.

A busca do sedutor não é pela ideia do objeto, mas sim, a busca pelas impressões constantes dos estímulos. O esteta é ativo, porque ele não encontra satisfação na nostalgia nem na idealização do ente seduzido. Ele quer o contato imediato com as impressões dos instrumentos que, através de suas hábeis mãos darão forma e vigor a sua arte, que fará o intercâmbio entre ele e a sedução como obra. Arremessando-o ao encontro do, tão bem vindo, exacerbatio cerebri. O sedutor estético, Joahannes, identifica-se com muito ímpeto poético e logo depois descreve em parte a sua arte:

“Eu sou um esteta, um erótico, que apreendeu a natureza do amor, a sua essência, que crê no amor e o conhece a fundo, e apenas me reservo a opinião muito pessoal de que uma aventura galante só dura, quando muito, seis meses, e que tudo chegou ao fim quando se alcançam os últimos favores. Sei tudo isto, mas sei também que o supremo prazer imaginável é ser amado, ser amado acima de tudo. Introduzir-se como um sonho na imaginação de uma jovem é uma arte, sair dela ileso, é uma obra-prima.”

  • Gabriel

    Fiz uma reflexão no teu texto em que apesar de Kierkegaard ser um filósofo que estou começando a conhecer e pesquisar a pouco tempo, penso que realmente é bem interessante seus ousar estético e erótico. Me pareceu uma comunicação interessante, senti falta de uma trilha sonora de fundo com alguma música para sentir esteticamente essa ligação com Mozart e também as referências bibliográficas das suas citações. Essa ideia de tratar o mancebo e o sedutor em o “Banquete” e “Diário de um sedutor” me leva ao cativar da literatura e da poética, coisa que Kierkegaard faz tão bem, que é bem diferente da imagem que muitos formulam dele como um filósofo do desespero e da angústia (que também não deixa de ser uma de suas dimensões). Bom, é issoaí, mas então você tá estudando kierkegaard dentro da academia ou por curiosidade filosófica? “O espírito está sonhando no homem.” Abraço

  • Lorenza Mucida

    Olá Gabriel, meu olhar para o filósofo perpassa ao de estudiosa na Academia, mas eriçou fronteiras e o acompanho fora dela. A conotação musical, o elo e o instante poético ressoam como a sinfonia que ainda procuro neste escrito, ao encanto de amadurecimento.Ressoam e reverberam com o múltiplo, satisfatório para meu estudo que o tenha percebido, suficiente para o ego que o tenha interpretado com nitidez filosófica e gozo poético, exuberante que tenha sentido falta da trilha sonora. Abraço