Aposentando as nadadeiras

Pensando na minha saga enquanto ex-futura atleta, percebi que não considerei um detalhe essencial. Este ponto catucou minha preocupação com agulha de tricô durante longos três dias. Vida de esportista não dura para sempre. Diferente da carreira de jornalista – que além de poder ficar velhinha escrevendo um punhado de palavras para a coluna da Zena, tem ainda a vantagem (mínima, que seja) de, quando contratada por uma empresa com carteira de trabalho assinada, existe a certeza de uma aposentadoria base para o futuro – os que decidem se dedicar ao esporte de forma profissional sofrem com este dilema e precisam se planejar desde o primeiro ano da carreira. E chega a ser engraçado ao que, posteriormente, um atleta-aposentado pode ser submetido.

A afirmação não tem nada de exagero. Prova disso foi uma palestra que assisti esta semana, ministrada pelo maior nome da natação brasileira até então, o medalhista olímpico Gustavo Borges. Por enquanto, César Cielo, atual revelação da modalidade, é somente um aprendiz junto do veterano que, inclusive, o apadrinhou quando ele ainda disputava provas pelas categorias amadoras. Vamos aos dados. Quando largou as piscinas, Borges alcançou a modesta marca de quatro medalhas olímpicas, 19 pan-americanas e 31 em Copas do Mundo. Não há dúvidas. Ele é mesmo ‘o cara’.

Problema é que justamente esse cara estava lá, bem feliz, suando como um picolé na maior casa de shows do Recife, falando para milhares de pessoas. E estaria tudo perfeito não fossem estas pessoas uma quantidade interminável de donas-de-casa histéricas pelo show do Fábio Júnior, que viria logo em seguida. E seria mais lindo ainda se a palestra tivesse motivos esportivos. Na realidade, Borges foi convidado – e aceitou sem nenhum constrangimento – para ser uma das atrações de um encontro de clientes de uma grande rede de supermercados para falar sobre motivação. Isso mesmo. Motivação.

Tá, tá. Tudo bem que o esporte é, de fato, um excelente exemplo de motivação de vida e uma ótima oportunidade de mostrar para o público ‘como ser um vencedor’. Mas eu confesso que ver o grande ícone da natação – modalidade que eu pratiquei boa parte da minha vida e a qual dedico um profundo apreço – debulhado nos braços das tiazinhas (todas alí ‘motivadíssimas’ basicamente pelo Fábio Júnior”) me deu um nó no estômago. Não bastasse a situação posta, a apresentação do atleta (a tal palestra motivacional) foi uma mistura de revelações secretas dos bastidores da natação mundial, show de humor, palestra do Doutor Lair Ribeiro – que para quem não conhece é o mestre da autoajuda – e culto da Igreja Universal.

A parte boa é que, falando com ele, em seguida, o enxerguei bem convencido e feliz com aquilo que faz. Assim como outros grandes ícones, entre eles Hortência e Oscar, do Basquete, Giovanni, do Vôlei, ele roda o país participando de eventos esportivos, ou não. Lógico que não é só isso. Um cara feito ele não se satisfaria com tão pouco. Hoje, é também comentarista da Rede Globo de Televisão e tem um cargo na Federação Internacional de Natação (Fina).
Ainda assim, sabe aquela bicicleta que eu ia comprar na feira de troca do Cordeiro para contar a experiência aqui para vocês? Resolvi adiar outra vez o mergulho físico no universo esportivo. No momento, achei mais seguro garantir minha aposentadoria pelo regime da CLT.

  • Bom texto. É realmente eu vou aprender muita coisa com vc da Zena. Que a fotografia seja sempre objeto de expresão e que esteja sempre em expansão. E o ato jornalistico também.

    🙂

    Abraço a todos e principalmente a Bela e Camila. E a todos da Zena.