Entre tosses e vovó, a mãe

E aí que, bem bonita, depois de 13 horas seguidas de trabalho, cheia de olheiras e faminta, eu me abuleto em casa, finalmente. Abro a porta, boa noite pra babá, banho quente e um prato de inhame com queijo coalho. A babá vai deitar. Meu filho, um galeguinho meio fuleiro, dorme que quase engana ser uma bençá – como costumam dizer os irmãos. Aproveito pra acessar a internet um instante. Enquanto procuro
uma amiga específica pra conversar meia hora de miolo e pote e vejo, simultaneamente, a novela das oito (ou seria das 9h?), lá me vem ele, o
galeguinho. Uma tosse medonha, seca, uó, e com os olhos empoçados de água que mais parecia o acúmulo do sofrimento do mundo todo.

Catei o xarope, preparei uma medida e ele bebeu. Pedro não tem maiores problemas pra tomar remédios. Apesar de ser uma criança ultra-saudável, nasceu com alergia a lactose e albumina, sempre teve alimentação restrita e acostumou a tomar uns anti-alérgicos quase sempre.

Tenho quase 29 anos. Sou jornalista, tenho dois empregos, trabalho três expedientes. Moramos só, eu e meu filho. Sou dessas desgraças de mulheres que trabalha feito cachorra pra dar conta de um milhão de coisas ao mesmo tempo sozinha. Acabo fazendo das tripas coração pra compensar minha ausência acordando às 5h da manhã (às vezes antes) junto com ele pra fazer a tarefa da escola, pra jogar 20 minutos de bola
depois de dar o café da manhã. Além dos finais de semana, período onde minha vida social é totalmente dele. Procuro viajar, levar ao parque, andar de bicicleta, ir à praia. Às vezes encho a boca pra dizer isso com orgulho. Normalmente quando eu dormi pelo menos umas 5 horas por dia. Não foi o caso desta noite.

Desde a semana passada tudo aconteceu ao mesmo tempo. Uma greve no sindicato onde eu trabalho pela manhã me endoidou. A mesma greve deixou meu filho sem aula. No mesmo período, voltei a trabalhar no jornal e, no final de semana, emendei com um evento que tive que viajar. Conclusão: Larguei o menino praticamente uma semana inteira na minha mãe. Para uma criança de três anos, acreditem, uma semana faz
muita diferença. É quase uma eternidade. E eis que quando, finalmente, tive meu filho de volta ele já não me queria mais.

Foi a primeira vez que aconteceu. Meu capirotinho galego pela primeira vez não me quis. Chorava, tossia e soluçava chamando pela avó, que bem conheço, é uma avó excelente. Nem sei como eu ia resolver minha vida não fosse a presença dela. Mas é avó. E avó boa, estraga. Por uma semana ele dormiu na cama com ela, comeu bobagens, brincou com o que não devia, fez manha, birra e malcriação e foi respaldado por todo aquele amor louco e dobrado que só uma boa avó sabe dar.

E eu? Ah, eu. Sou somente uma mãe. Destas treinadas pra ser a bruxa. Aquela que arrasta pra escovar os dentes, que o coloca pra dormir na própria cama, que corta as unhas, que não aceita mimimi pra comer, inclusive frutas e legumes, que não dá doce fora de hora e que bota de castigo justo na hora que começa o Ben 10 na televisão.

Fiquei em cólicas no momento. Em meu estado emocional normal e em equilíbrio, saberia como agir. Voltaria com ele pra cama, conversaria, resolveria. Mas não foi tão fácil. Eu carregava comigo um sentimento que toda mãe carrega e precisa aprender a lidar com ele: A culpa. Estava totalmente fragilizada, consumida pela culpa de ter sido inevitavelmente tão ausente por uma semana inteira.

Então, entre choros, tosses, soluços e pedidos por vovó, minhas lagrimas se misturaram às dele. Sem que ele percebesse, baixinho, recolhida, eu chorei também. Enquanto o abraçava forte, cantava a nossa canção de ninar favorita, desta vez foram meus olhos que empoçaram. E eu senti, aos pouquinhos, ele ouvindo e reconhecendo a minha voz ao cantar. E senti aos pouquinhos o coraçãozinho dele desacelerando e o corpo dele se aconchegando no meu. E o laço do cordão umbilical se refazendo em uma energia plena de amor. Até que ele adormeceu em meus braços, conformado, mas não sei se plenamente satisfeito.

Depois disso, a insônia. Este não é um dia que estufo o peito pra falar de mim e do quanto eu sou feminista e emancipada. É um dia que eu queria ser só uma mãe. Em casa, aprendendo ponto de cruz e vendo meu filho crescer de pertinho.

  • Li o texto da Manu, e enquanto as lágrimas iam rolando, imaginado q um dia minha gorducha Alice faria isso, por puro amor a avó, ao pai, ou a quem quer que fosse, percebi que as mães tem um fio invisível que as une, nas mesmas alegrias, atropelos, insanidades, paixões desmedidas…

  • Tocante Manu, como só uma mãe nesse meio mundo de pós modernidade pode entender. Eu tiro meu chapéu para vocês.