O sexo anal no meio das mulheres

Assim como a independência feminina abalou os arraiais do machismo, os avanços do bissexualismo e do homossexualismo masculino vêm trazendo inquietações entre as mulheres heterossexuais, no que se refere a uma questão muito específica: o sexo anal. Sabendo-se da tara dos homens pela bunda e da habitual resistência feminina a incorpora-la nos jogos amorosos, a ofensiva homo/bi no atendimento a esta demanda passou a ser um elemento das preocupações femininas no jogo da oferta e da procura  sexual. As mulheres se inquietam, procurando sair de uma posição defensiva, ao sabor dos acontecimentos, e passar à ofensiva. Elas pretendem identificar e assumir uma posição de vanguarda nesta questão de retaguarda.

As iniciativas e as discussões se multiplicam. No cúmulo da insatisfação com a concorrência homo/bi, uma jornalista pernambucana chegou a anunciar, para um dos carnavais desta década, o lançamento da troça carnavalesca “Mulher Também Tem Cu”. Recuou da iniciativa, mas afirma que o projeto não foi soterrado e está no forno. Procurando se capacitar para entrar no mercado anal com eficiência competitiva, outras mulheres passaram a buscar know-how junto aos seus amigos gays, submetendo-os a exaustivos e prolongados interrogatórios em torno do item: dar a bunda sem doer.

Nos confrontos da concorrência, não poderiam faltar os discursos de superioridade. Uma mulher já bastante adiantada no processo de por na prática as dicas dadas por gays, afirmava exultante que o domínio do sexo anal dava às mulheres uma vantagem insuperável, porque elas eram total flex, dotadas para o exercício da sexualidade 2 em 1. Poderiam ofertar os prazeres frontais e ainda, com uma simples rodada, atender às demandas do universo traseiro. Performance a que não estão aptos os integrantes dos segmentos homo/bi.

Partindo de papos e iniciativas informais, a nova onda foi avançando até a elaboração de propostas e estudos mais detalhados pela inclusão sexual da bunda no universo feminino. Foi este o tema de um trabalho acadêmico de uma mulher que se empenhou em aprofundar na teoria e na prática as orientações recebidas do segmento homo/bi. Outra propôs que se formatassem oficinas e work shops de iniciação ao sexo anal para mulheres, recorrendo à experiência milenar dos gays e das prostitutas PHD. Outra sugeriu ao namorado, um inveterado curtidor do sexo anal e cheio de macetes, que elaborasse uma cartilha ilustrada. Propôs-se, inclusive, a figurar como demonstradora, desde que houvesse a utilização de máscara.

Nesse processo, as inibições se alternam com as revelações de deslumbramento. Uma cristã-nova nessas “artes do sem-vergonhismo” relatava numa roda de curiosas colegas de trabalho que o orgasmo anal atraia o orgasmo vaginal e garantia um prazer duplo de elevada potência. Algumas mulheres atraídas pelo assunto, mas padecentes de hemorróidas, acompanhavam a conversa com um misto de excitação e preocupação. Enquanto as masoquistas do mesmo segmento se deliciavam por antecipação, fantasiando dores de prazer.

Ante essas demandas, entendo que já é hora dos especialistas no assunto cruzarem os conhecimentos factuais e teóricos para subsidiar as mulheres necessitadas e facilitar o seu ingresso nas ondas anais da sexualidade. De minha parte, apenas expresso a convicção de que conduzir a parceira a uma finalização anal indolor e prazerosa coloca as mesmas exigências de paciência, precisão e delicadeza que são necessárias para fazer uma batida de pitomba.

Mas há também o segmento das mulheres radicalmente refratárias ao sexo anal, de onde foi extraída uma atitude-resposta no estilo pé-no-saco, conforme diz uma representante autêntica: “Quanto estou na cama com um cara e ele começa a cutucar minha bunda, imediatamente, meto também o dedo no fiofó dele na mesma proporção. É um santo remédio. Se ele não tiver tendência pra veadagem, desiste ou broxa na hora”.

Quantos aos discursos da sedução masculina para usufruir de bunda de mulher, o arrazoado político tem dado as suas contribuições. E aqui vai um exemplo. Na alcova de um casal de militantes ecoou dentre os lençóis o brado indignado: “Aí não!”. E foi esta a resposta pronta: “Companheira, é só uma inversão de prioridades …”.

Sobre este assunto, nada mais tenho a dizer. Portanto, de ânus em ânus eu não falus.