Morte incorporation

Meu pai morreu no mês passado no Hospital da Restauração. Entrou lá há três meses, cortou dedo, pé e parte da perna, entrou com trombose no braço. O que maltratou mais foram três bactérias, ficou sem ar… Era 4h da tarde quando soube a notícia. Não sei bem o que passou, talvez pelo sofrimento ou pelo costume da ausência física dele em casa não senti tanta falta após o óbito.

Ligaram-me por que só parente de primeiro grau pode assinar o atestado. Assinei e começou outra jornada de sofrimento, desci para o necrotério com o corpo do ser idolatrado dentro de um saco cinza de baixíssima qualidade. O maqueiro tentava sem sucesso me deixar menos triste. Desci… Aquele lugar com azulejo branco, aquele cheiro de éter na maior concentração.

Abriu-se o zíper, ele estava como tinha imaginado, mais claro, porém com algodão dentro do nariz e da boca. Nesse momento eu chorava muito, a minha irmã havia chegado e estava muito abalada, então chegou a funerária e o mercado da morte.

1.080 reais foram pagos pelo caixão não muito simples e um local no chão. Meu pai não poderia ser enterrado dentro de uma gaveta de cimento. A família não tem religião fixa, ninguém frequenta igreja, mas pagou-se 80 reais por um padre; ele parecia ter pouco estudo, entretanto conseguiu nos fazer chorar de saudade, não de tristeza.

Não sabia como me vestir no enterro, andar de salto 15 em pedras portuguesas iria fuder com o meu calçado e com os meus pés. O sol estava muito quente e eu pouco ligando de não ir de saia ou meia arrastão, queria terminar logo aquela tormenta. Meu pai nunca gostou do meu estilo de vida, porém aceitava, sabia que eu estava feliz com toda essa transformação diária, mas no fundo ambos sabíamos que eu era homem no melhor sentido da palavra.

A plaquinha de 25 reais mudou para 95, placa de mármore com inscrição religiosa, datas e nome completo. Seu rosto já estava coberto de mosquitos, decorrente da decomposição biológica, aí aparece um “caridoso” dizendo-se da funerária, trocou os algodões e jogou álcool, no final do dia cobrou 70 reais por isso, parecia que tudo girava em torno do número 7, mas não aceitei o valor, dei 20 reais e ele foi embora satisfeito.

As coroas de flores, de diferentes tamanhos, variavam entre 90 e 120 reais, mas acredite, pediram para serem enterradas junto, senão os “residentes” iriam retirar as coroas e vender novamente. Foi muito traumático carregar o caixão, o peso estava sendo o menor dos esforços, queria terminar logo com tudo. Mas as pessoas teimavam em andar devagar e meu sofrimento só aumentava. No local onde estávamos tudo era celestial, anjo para todos os lados, Jesus, Herói, Guerreiro, Exemplo foi o que mais li nos magníficos e imponentes túmulos.

Meu pai não terminou o ensino médio, mas sabia dezenas de trechos de livros de russos, espanhóis, portugueses, brasileiros, ingleses. Amante de música clássica, adorava cantarolar óperas, os negros do jazz e blues ele escutava tanto nos dias de folga… Era fã da música pop também, sua banda preferida era o Arcade Fire. Sempre conversava comigo sobre a genuinidade da utilização dos instrumentos, gostava das roupas, sempre gostou do preto.

Apesar do sofrimento durante o internamento, ainda conseguia ser bem humorado. “Oh, minha filha, se você sentar de um dos lados do avião será que ele inclina?” – disparou para uma enfermeira novata dias antes da sua morte. O sarcasmo era enorme, mas no fundo mesmo ele desejava morrer logo ou voltar logo pra casa para continuar a coleção de West que eu havia lhe dado. Sempre recomendava: “Passe pano nos meus livros e coloque bom ar nos meus armários para deixar minhas relíquias sempre cheirosas”.

A herança católica, impregnada, nos fez gastar 330 reais pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, mais 100 reais pela cantora e na missa de 30 dias a mesma coisa. Imagino que na de um ano será ainda mais caro. Entre inúmeras coroas de flores encontrei a de uma prima, a única vermelha, as demais eram flores brancas, talvez para lembrar o sentimento de paz, de descanso. Na coroa de flores tropicais, a mais simples e profunda descrição do meu pai: “Saudade do homem mais carinhoso do mundo!”.