Lope

Biografia romanceada do grande poeta e dramaturgo Felix Lope de Vega (1562 – 1635), primeiro a juntar, numa mesma peça, os gêneros comédia e tragédia e que se pode admitir como fundador do teatro clássico, no chamado Século de Ouro espanhol. Uniu o tradicional e o renascentista, dando forma a um teatro literário e popular.

Lope de Vega, exímio espadachim, obstinado pelo reconhecimento do seu talento de dramaturgo, homem de tempestuosa vida amorosa, amou muitas mulheres, teve 14 filhos, perturbou bastante a hipocrisia da Corte e sua aliada Inquisição, sofrendo por isso pena de exílio, no fim do qual, voltando à Espanha, tornou-se simpatizante do sistema inquisitorial.

O filme Lope, de Andrucha Waddington, está longe de ser uma obra prima. Seria mais apropriado considerá-lo um desses que, com ou sem a pretensão de sua equipe criadora, segura uma plateia atenta e suspensa do começo ao fim. Se por um lado contraria o gosto dos cinéfilos iniciados, por outro, atrai e segura a atenção do público mais interessado num enredo de feição novelística tipo aventura de capa-e-espada. Afasta-se, em alguns tópicos, da história real do personagem-título, por exemplo, quando cria um triângulo amoroso inexistente: Lope/Helena e Isabel, mas não perde a verossimilhança e apimenta o fundo de aventura que o filme certamente deseja e consegue oferecer ao público.

Exceto pela participação de Sônia Braga, inexpressiva e descartável no papel de mãe do poeta (ainda bem que morre no começo), o elenco traz excelentes atores e atrizes, com destaque para o argentino Alberto Ammann (Lope), Pilar López de Ayala (Elena) e Leonor Watling (Isabel), que constituem o fictício triângulo amoroso, além de Juan Diego (Velázquez, dono e diretor de teatro e pai de Elena), Luis Tosar (Frei Bernardo), Selton Mello (Marquês de Navas).

O filme foi rodado na Espanha (Toledo) e no Marrocos e segundo Andrucha o seu enredo contém 90% de real e 10% de “licença poética”. Acredito que essa ‘licença’ tem presença percentualmente muito mais significativa. Seja como for, para mim, simples apreciador de cinema, o resultado é bastante satisfatório. Gosto do filme, como gosto do belo poema Definición del amor, apresentado na cena final, quando os exilados Lope e Isabel cavalgam nos campos de Valencia:

Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso.

No hallar fuera del bien centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso.

Huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor suave,
olvidar el provecho, amar el daño.

Creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño,
esto es amor; quien lo probó lo sabe.