Minicrônicas do poeta Lara

Essa história de calor humano brasileiro é conversa pra boi dormir. Somos o País de maior concentração de renda no planeta, quer dizer, o País onde existe um recorde de exploração do homem pelo homem.

Esse badalado “calor humano” não passa de um gosto mais acentuado por contato corporal e companhia. E essas duas coisas coexistem com um nível absurdo de injustiça social. É um troço esquizofrênico pra caralho. Aliás, sempre matutei muito sobre isso depois dos 30 anos.

Relembrava certas figuras da classe dominante lá do agreste, com as suas táticas sutis de envolvimento pessoal, de proteção e assistência ao “súdito”, de convívio e amizade (calor humano), porém tudo perpassado por um “clima” de dominação, de vassalagem, onde no frigir dos ovos os ganhos e lucros sempre acabam ficando com o dominador, o explorador. Mas o absurdamente incrível de tudo isso é que, em meio a esse joguete fascistóide, existe mesmo “calor humano”, convívio, amizade, companhia. Mais um mistério insondável. Como conseguem conviver e ser amigos dessa forma “esquizofrênica”? Que coisa mais estrambólica, meu “Deus”.

Será que estão, o explorador e o explorado, aceitando “resignadamente” que tudo seja dessa forma pervertida, enquanto usufruem da companhia, do convívio e do calor humano um do outro, já que tudo isso são necessidades humanas que devem estar sempre devidamente saciadas? Pode ser. Mas também pode não ser.

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Todo eu é múltiplo. Fernandinho já dizia: “Cada um é muita gente”. E o Mário de Andrade: “Eu sou trezentos, trezentos e cinquenta”. E o Whitman: “Sou múltiplo, sou vários”. E o Rimbaud: “Eu é outro”. O eu não é um bloco monolítico, indivisível. O eu é um campo de vários eus, uma área com diferentes sub áreas. Cada uma delas impregnada de vontade de poder. O menor vacilo e qualquer uma assume o “poder” dentro da estrutura psíquica (seja do “bem” ou seja do “mal”). A multiplicidade de eus é fundamental para a arte. “Explicar uma parte na outra parte”, como já dizia o Ferreira. Claro que há perigos na divisão interna aprofundada, mas a luta, a grande luta, é justamente para entrar nessas profundidades sem se perder, permanecendo lúcido, transcendendo, “criando”, evitando a caotização da personalidade.

Poeta Lara (Foto: Divulgalção)
Poeta Lara (Foto: Divulgalção)

Sobre o autor: Escritor independente, 50 anos, autodidata. LARA é alter ego de José Luís Miranda, de Bom Conselho – PE. Reside no Recife desde meados de 1979. Participou, informalmente, do Movimento de Escritores Independentes em Pernambuco (MEI-PE). É também recitador e participa de recitais desde o início da década de 80. Além de ser funcionário da UFPE (assistente administrativo).

Algumas obras:
Escalpo, poesia – Edição independente, 2002;
Boi de piranha (crônicas) – Edição independente, 2001;
O amor é uma guerra (novela) – Edição independente, 2003;
Mais vômitos e resenhas ao redor do umbigo ( minicrônicas) – Edição independente, 2004;
Contos sorumbáticos, desvarios poéticos e mais prosa confessional – Edição independente, 2006;
Lixão – raspando o tacho (poemas) – Edição independente, 2008.