Quixotes, semi-loucos, peters pans, trânsfugas, bichos-grilos

Percebe-se, na coletividade, uma grande apreensão com os pendores quixotescos, autodestrutivos, enlouquecedores, “infantilóides”, etc, presentes no campo contracultural, marginal, transgressor, rebelde, “maldito”. Essa apreensão tem suas justificativas, pois o problema realmente existe. O que não se justifica é a rejeição completa em nome da “normose” coletiva. Até porque, nas novas gerações, esses problemas estão sendo atenuados.

O momento mais forte aconteceu nas décadas de 60 a 80, quando a percepção desses riscos ainda era pequena. Mas, num primeiro momento, a resistência cultural contra o Mainstream, quase sempre, é exercida por pessoas com personalidades e temperamentos desviantes, não-normais, problemáticos ou até mesmo “perigosos” (em alguns casos). E não poderia ser de outra maneira, já que uma pessoa “normal”, adaptada, nunca enveredaria pela “loucura” de um pioneirismo desses (só mesmo um sonhador, um semi-louco, um quixote, teria predisposição e destemor bastantes para viver tamanhos riscos no enfrentamento com o “Stablishment”.

Os jovens da novíssima geração parecem-me mais equilibrados. Terminam seus cursos superiores, arranjam seus empregos (ou alguma maneira de ganhar a vida), são mais adaptáveis, menos autodestrutivos e sabem combinar disciplina com criatividade. Ou seja: num segundo momento, essas “bandeiras anti-Sistema” vão sendo assumidas por pessoas com uma relativa capacidade de autocontrole. E isso é bom, embora haja também uma tendência para a superficialidade na “Geração Twitter”.

Tudo isso quer dizer que a “resistência”, atualmente, pode ser feita por pessoas razoavelmente “normais”, assimiláveis pela coletividade. É preciso ter o cuidado e a lucidez para, na luta contra o Mainstream, não enveredar pelo maniqueísmo da demonização unilateral da “normalidade”. Inclusive o seguinte: se acontecesse uma hegemonia total da “anormalidade” no mundo das artes, isso não seria bom, pois estaríamos, também, diante de um domínio maniqueísta, ditatorial, exclusivista, limitador (em nome de outro extremo). O mais “saudável” e frutífero seria mesmo a convivência e o diálogo entre os diferentes tipos, o aperfeiçoamento da acomodação de diferenças. Até porque há riscos específicos em ambos os lados. Se há o risco de “caotizar”, num lado, há o risco de “engessar”, no outro.

Minorias

A literatura de “minorias” também é um tabu para o cânone ocidental, que não admite a existência de diferentes tipos de literatura (em pé de igualdade), uma vez que admite apenas uma “literatura universal”, encarnada em determinadas “obras primas”, em escritores que também são críticos literários, no padrão grego, em referências endeusadas e cristalizadas pelos Departamentos de Letras.

Porém, as minorias também correm o risco de se fecharem em guetos artísticos, compartimentos culturais e terem a sua visão geral diminuída, caírem na diabolização da diferença. E esse raciocínio vale para os diferentes tipos de “minorias” (feminina, homossexual, étnica, underground”, mística, maldita). Há riscos específicos. Por exemplo: identificar-se com bandidos, por conta de uma realidade pessoal vivida à margem, devido a injunções sociais várias. Ou o descarte de qualquer diálogo com tipos que não se enquadram em determinado gueto ou compartimento social, comportamental. Mas há também os que usam essas opções minoritárias como uma postura, uma pose, um marketing individual, um “charme” pessoal.

E aqui volta aquela questão da “oposição” entre forma e conteúdo, já que a principal acusação dos “canônicos” contra as “minorias” é a de que estes são extremamente frágeis justamente no estilo, na forma, na sintaxe, e que possuem apenas interesse antropológico, sociológico, filosófico, e o valor propriamente literário dos mesmos seria baixo ou inexistente. A meu ver, isso é “pré-conceito” mesmo, discriminação cultural, descarte da concorrência. Qual é o problema em uma literatura que tem um valor mais conteudístico que formal? Cada um que escolha qual o livro que quer comprar. Os motivos, no frigir dos cocos, são mais subjetivos, pessoais, seja pelo estilo, seja pela mensagem, seja pelo o que for. O resto é ego.

Internet e contemporaneidade

A informática e a Internet trouxeram inúmeras facilidades para os escritores independentes (no sentido geral). Nos tempos do mimeógrafo, as dificuldades eram bem maiores. Até mesmo a publicação de um fanzine era um trabalho demorado. Hoje, publica-se um blog rapidamente e o escritor pode colocar uma quantidade enorme de textos num blog desses (e a sua visibilidade também aumenta). No caso de um livro, se o conteúdo já estiver pronto, improvisa-se uma capa e, se o autor assim quiser, disponibiliza imediatamente para o público. Conclusão: as coisas realmente ficaram mais fáceis para os escritores alternativos, independentes, marginais, uma vez que o mais importante é que não haja cortes ou modificações no texto (o veículo, portanto, é secundário). Até mesmo o preço tem mais chances de ser reduzido quando se trata de uma publicação virtual. O livro de papel, inclusive, padece de uma série de problemas, que vão da “impossibilidade” de queda no preço até problemas mais graves relacionados à indústria de celulose e à cadeia produtiva e distribuidora.

Os contemporâneos estão “com a faca e o queijo”, portanto. A liberdade de expressão soma-se às facilidades trazidas pelo meio virtual. Os garotos estão “soltando o verbo” em todas as direções (quanto mais gente escrevendo, melhor: estão treinando “escrevinhadura” e procurando conhecer outros escritores). No conteúdo, na maioria dos casos, hoje há um predomínio do escatológico, do grotesco, do sexo, do conformismo, em detrimento da postura crítica, classista, politizada. Mas há exceções, como já disse. Se o pessimismo conformista e o escapismo tornarem-se hegemônicos, restará apenas esperar pelo momento da extinção da espécie enquanto usufruem do “restinho” que sobrou? Ou os novos “yuppies” e a Geração Z estão alimentando a esperança de morar em Marte? Ou apenas restará o pós-morte para os que evoluírem exclusivamente no nível espiritual?

Obviamente, essa nova geração é diferente da minha. Nos meus áureos tempos de “marginal”, tentávamos amalgamar o lado existencial com o lado político. Mas hoje parece que os “contemporâneos”, a novíssima geração, na grande maioria dos casos, quer saber “apenas” do grotesco pelo grotesco, do sexo pelo sexo, ou da espiritualidade despolitizada (escapismo?). Mas fugir da busca espiritual para abraçar a luta política também é escapismo (de outro tipo).

LARA é alterego de José Luís Miranda: nascido em Bom Conselho – PE (agreste meridional sul). Reside no Recife desde meados de 1979. Participou, informalmente, do Movimento de Escritores Independentes em Pernambuco (MEI-PE). É também recitador e participa de recitais desde o início da década de 80. Atualmente é funcionário da UFPE (Assistente Administrativo).