“Cogito, ergo sum”

Cogito, ergo sum“.
Descartes. Principia Philosophia

Penso, logo existo. Penso logo hesito. Em pensar em falar logo o cérebro é ativado e entre mil dilemas pensados podemos estar pensando ou simplesmente ser e não pensar? Não, se penso, hesito, e assim existo, porque se simplesmente pensássemos sem hesitar, ou divagássemos, não daríamos conta de sermos nós mesmos. Ouvi falar que o indivíduo, ou pelo menos a ideia de indivíduo, surgiu após essa frase, já que até então as pessoas eram muitas vezes o trabalho delas, ou a família. Por isso, até hoje, temos sobrenomes do tipo Pedro Pedreiro, referências familiares dos Aragão, Souza Leão e muitos outros. Então, pensar para existir tem um contexto diferente de pensar para ser, já que o existir é sendo, e o ser é.

O que me parece um ponto crítico de toda essa reflexão é justamente a questão do não-ser, o não pensante. Não admitimos concretamente, por exemplo, o pensamento dos animais, mas a própria maravilha da natureza é tão perfeita que acabamos esquecendo ela, considerando-a nada perto do tudo do pensar. Sendo assim, se Ser e Pensar são o mesmo, e aquilo que não é? O Nada não é, e será que podemos também não ser, não pensar? É o que o budismo fala. Vivemos pensando o tempo todo e não nos damos conta dos nossos pensamentos. Existem pensamentos que duram a vida toda, existem pensamentos que duram menos que um segundo. E nós devemos deixar todos os pensamentos passarem.

Tenho que criticar a ‘principia philosophiae’ que diz: só somos se pensamos um único pensamento perfeito, que é a ideia de Deus. Nós como seres imperfeitos concebermos a idéia de Deus, um sinal que pelo menos uma coisa podemos ter certeza que pensamos. Realmente é um argumento astucioso, porém discriminatório, segregador, faz-nos pensar diferente de tudo e todos, o que também é necessário. Entretanto, se cada cabeça é um universo, qual seria o sentido de vivermos aqui num mundo junto com outras cabeças? Parece que essa inferência de sermos diferente porque pensamos nos faz ser quase totalmente independentes de tudo, como se fossemos estrelas com luz própria no céu. Mas deve existir um sentido na formação do nosso sistema solar, em estarmos submetidos ao sol e ter uma bela lua nos iluminando mesmo nas sombras da noite, nos protegendo como uma prima mãe ancestral.