A Onça

O velho carrilhão da Igreja Matriz de Santo Antônio de Barbalha badalava 10 horas quando subimos na carroceria de uma caminhonete. Antes do Riacho do Ouro, contornamos a minúscula pracinha e tomamos a direção de Crato. Eu, Zé Magalhães, Dalma, Cilania e ”Sarnoy”, também conhecida por Marly.

Cilania de vez em quando reclamava da velocidade, mas o carro cada vez mais se aproximava de Crato. Tudo muito verde. Tanto de um lado como do outro haviam centenas de flores silvestres que formavam uma matiz de singular beleza. Quando deixávamos o centro urbano de Crato, nosso transporte deu uma paradinha e fomos até uma padaria onde compramos pão, biscoito e outras guloseimas, mas quem pagou tudo foi Senir Parente de Sá Barreto. Este pagador será lembrado mais algumas vezes no decorrer desta crônica.

Deixamos o centro e começamos a atravessar bairros periféricos da antiga Princesa do Cariri. Quer do lado direito como do lado esquerdo existem dezenas de casas belíssimas, verdadeiras mansões. Tem, ainda, muitas casas pequenas, mas parecidas com barracos. É a pobreza crônica e aguda que povoa todos os cantos do Nordeste.

Alcançamos a Serra do Araripe. Novamente, Senir, cordialmente, parou seu carro e fomos conhecer e reconhecer o famoso ”Rei Morama”. É um homem que sofre de doença uma mental, mas que fala tudo com muita clareza e acerto. Mora no alto da serra e leva uma vida vegetativa. Não queiram nem saber a beleza que é em cima da serra. Muito plano, floresta miúda e alta, um clima de sul do País.

Do outro lado, já no chão do Pernambuco, atingimos a ladeira do Zé Gomes. É um desfiladeiro bastante íngreme. Não tem nenhum tipo de conservação. Não fosse a habilidade e destreza de Senir, creio que todos nós teríamos despencado com carro e tudo. Perigosa, mas linda de viver. Do topo da ladeira vemos uma grande parte do sertão pernambucano. É bom que eu diga que até metade do caminho estávamos no Estado do Ceará.

Narte, cunhada de Senir, ia conosco, mas dada a sua raiz de nobreza, estava com a irmã Ceila dentro da boléia do auto. Nós que íamos em cima não escutávamos o que eles conversavam, mas como ia um padre, o Monsenhor Barreto, e pelas mímicas, creio que elas, Senir e o padre conversavam sobre nobreza e origens importantes. Com o descortinar da paisagem bucólica, eu, Zé Magalhães, Dalma, Sarney ou Marly, Lolosa, Herivaldo e Cilania papeávamos sobre o cotidiano. Ia também a Vera, uma mocinha neta de Dona Odete de Abraão.

Zé Gomes é um pequeno povoado onde uma igrejinha muito bonita marca as tradições de um lugarejo pacato e sem nenhum progresso. Passamos por dentro dele e entramos num corredor estreito. Tão estreito que os ramos dos matos riscavam as laterais do automóvel. Finalmente chegamos na Onça. Uma fazenda de porte médio, terreno plano, duas grandes árvores nos fundos de uma casa avarandada. O aroma de terra, gado mugindo, centenas de galinhas no grande quintal e um anexo onde montaram uma outra cozinha.

Realmente a escolha do nome foi muito feliz. O lugar é bonito como uma onça pintada.

Aos poucos foram acorrendo pessoas de todas as cores, tamanhos e culturas. O primeiro foi compadre Barrado. É o pai de ”Sarney”e de uma outra reca de filhos. Ele me disse que não sabia se era batizado, se era registrado, mas sabia que era muito feliz.

Durante várias horas houve um verdadeiro desfile de gente que vive como gente e convive em comunidade. Lunga, que mora com Cilania em Barbalha, Chica, Lolosa e a Nenzinha, Paulo, Caciano, Dó, Antonia, Tereza, Jaqueline e Zé são alguns dos que vivem e todos os dias domam a Onça de Senir. E Ceila, para que cada vez ela fique mais hospitaleira, bonita e boa de se ver.

Ceila é a dona da casa e Senir é o dono, mas não carregam o azedume de uma tradição cheia de preconceitos. Ambos recebem todos dentro da maior igualdade. Tia Íris, cunhada de Ceila e irmã de Senir, chegou em sua caminhoneta, em trajes elegantérrimos, com anel no dedo e brinco nas orelhas, mas que logo se fez popular, desfilando de um lado para o outro como se estivesse fazendo inveja a Narte, irmã de Ceila e cunhada de Senir.

Faltou a Socorro, filha de Senir e Ceila, que depois ficou se mordendo de inveja porque não saboreou das delícias da Onça que não morde nem rosna, mas encanta todos que lá visitam. No mesmo dia, no final da noite, a Santa Missa teve o ponto alto com o batizado de Andrê, filho de Cilania e Herivaldo. Logo depois foi servido um jantar nobre, onde o pobre e o rico comeram e beberam com a mesma igualdade da ceia do Senhor.

Onça faceira e manhosa
que rumo queres levar?
És pernambucana formosa?
ou filha do Ceará?
Acolhes Ceila e Senir
que nos dão uma lição
Trabalhar, crescer, subir
Onça do meu coração.

Josafá Magalhães – Barbalha-CE (04 DE ABRIL DE 1989)

Instituto Onça-Pintada: www.jaguar.org.br

“O Instituto Onça-Pintada (IOP) foi fundado em junho de 2002, por pesquisadores com amplo histórico de trabalho dedicado à espécie, e tem como missão “Promover a conservação da onça-pintada, suas presas naturais e seus habitats ao longo de sua área de distribuição, assim como a sua coexistência pacífica com o homem, através de pesquisa e estratégias de conservação”. O Brasil engloba a maior parte (48%) da distribuição geográfica da onça-pintada. Hoje o IOP é a única ONG dedicada exclusivamente a promover a conservação da onça-pintada. Atualmente desenvolve pesquisa científica diretamente em quatro Biomas brasileiros (Amazônia, Cerrado,Caatinga e Pantanal)”.

  • Dalma Parente

    Não posso deixar de expressar a minha emoção ao ler esta crônica, pois ela retrata a minha história de vida, de valores e de amor a minha família. PARABÉNS BELISA, sucesso com sua revista.
    Da sua prima que muito lhe admira.