“Jards Macalé Canta”

A série de shows Grandes Discos da Música Brasileira, realizada desde outubro de 2010 pelo Instituto Moreira Salles (IMS), relembra mais um vinil considerado histórico pelos estudiosos da MPB. O primeiro disco do compositor e intérprete carioca Jards Macalé, lançado em 1972, foi revivido em uma apresentação do próprio artista no auditório do IMS do Rio de Janeiro. As nove faixas que constituem o repertório do disco, uma síntese de rock e baião, abrangem as mais importantes parcerias da trajetória do compositor, como Waly Salomão, Torquato Neto e José Carlos Capinam.

O LP foi gravado após Macalé retornar de Londres, onde participou, como violonista e compositor, da produção do álbum Transa, de Caetano Veloso. Intitulado Jards Macalé Canta, o disco teve participação dos músicos Tutty Moreno, na bateria, e Lanny Gordin, na guitarra, violão e baixo. “O disco continua sendo muito emblemático, porque representa toda uma geração que naquela época estava às voltas com a Tropicália e com a quebra de paradigmas, em busca de um som mais contemporâneo na Música Popular Brasileira”, diz a coordenadora de música do IMS, Bia Paes Leme. “Foi o primeiro LP de Macalé, autoral, ousado e onde ele literalmente fez o que quis”.

Nascido em 1943, o carioca Jards Anet da Silva estudou orquestração, violão clássico, composição e análise musical, tendo como professores nomes como o maestro Guerra Peixe e o violonista Turíbio Santos. O apelido “Macalé”, uma alusão ao pior jogador do Botafogo na época, veio da infância, em função da falta de habilidade do artista com a bola.

Nas artes, Jards Macalé atua desde os anos 60 em diversas modalidades, principalmente na música, tanto popular como erudita. Na MPB, ficou famoso ao concorrer, em 1969, no 4º Festival Internacional da Canção com Gotham City, música em parceria com Capinam que fazia crítica ao momento político vivido na época pelo país. No mesmo ano, começou a compor para a cantora Gal Costa, intérprete que eternizou a composição mais conhecida de Macalé, Vapor Barato, feita em parceria com Waly Salomão.

Com o álbum de Macalé, já são oito os LPs marcantes da era do vinil relembrados na série criada pelo IMS. Segundo Bia Paes Leme, o critério de seleção dos discos se baseia na memória afetiva da equipe encarregada do projeto: além dela, os jornalistas Flávio Pinheiro, superintendente-geral do IMS, e Paulo Roberto Pires, ambos especializados em música.

“A gente escolhe os discos conversando, lembrando de LPs e pensando em possibilidades de show, se o artista está vivo ou não”, diz. Para cada show é feito um folder no tamanho de um LP, como se fosse a capa, com textos sobre a história do disco e do artista e comentários sobre cada uma das músicas. “Há um jornalista apresentando o show, que é um bate-papo entre o artista e o apresentador”, explica Bia, também instrumentista e arranjadora.

No caso de shows que revivem discos de artistas já falecidos, a interpretação ficou a cargo de outro cantor. Foi o que ocorreu este ano com o espetáculo que relembrou o LP lançado em 1967 por Sidney Miller, com as músicas do compositor interpretadas pela cantora Joyce.

“Abrimos a série com um disco, A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes, de 1980, que estava bastante esquecido. Depois disso, eles voltaram a fazer shows juntos e isso foi muito importante”, diz a coordenadora de música do IMS sobre a série, que segundo ela, não tem prazo para acabar.

O próximo show da série, ainda sem data marcada, vai reviver a polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista, que marcou o samba carioca na década de 30 do século passado. Caberá ao sambista Monarco defender as músicas de Noel, enquanto as de Batista ficarão a cargo de outro veterano do samba: Nelson Sargento.

Embora o embate no samba não tenha resultado em um LP protagonizado pelos dois protagonistas do duelo, a disputa foi gravada em um disco posteriormente em 1956 por Francisco Egydio e Roberto Paiva, entre outras regravações mais recentes.

A disputa musical teve início após o lançamento de Lenço no Pescoço de Wilson Batista sobre o estilo de vida do malandro carioca. Noel não gostou da forma como Wilson Batista retratou a malandragem e respondeu com Rapaz Folgado. A batalha musical resultou em clássicos como Palpite Infeliz e Feitiço da Vila, ambas de Noel, e Frankenstein Da Vila, de Wilson Batista.

* Nota da Zena:
A gravadora Polysom relançou o vinil “Jards Macalé Canta” em julho deste ano. (Por R$ 69,90)