Nos setembrais de Junio Barreto

Talvez a raiz interiorana influencie a profundidade simples das reflexões, matuto é o pensador do interior. Junio Barreto é de Caruaru (PE),  no Agreste Pernambucano, mas criou-se no Recife e mora em São Paulo. Se pudéssemos transformar o seu novo cd, Setembro, em uma imagem poética, diríamos que ele é um ipê rosa frondoso. O verde aos poucos começa a florir entre galhos e as flores cobrem a rua com um tapete.

O disco foi lançado recentemente (20 de setembro) no site do cantor e será prensado em cd e vinil – a foto da capa tem mesmo cara de compacto. Com produção de Pupillo (Nação Zumbi), foi mixado em Paris por Pedja Babic e, o mais interessante, foi gravado com a associação de todos os instrumentos ao mesmo tempo, dispensando os recursos técnicos de edição – assim soa melhor aos nossos corações.

Setembro tem uma sonoridade delicada e marcante, além de a poesia borbulhar em todas as faixas, como em “Jardim Imperial”: “Me refiz do abalo/ Que essa moça causou em mim/Duro foi despregar/ Os cravos que havia no meu coração/ E ela ainda pisava/ Nas marcas de suprimir a dor”.

“Jardim Imperial” parece um domingo quase angelical em Olinda… “Passione” (Junio Barreto, Jorge Du Peixe) lembra a sonoridade da banda Eddie, com uma letra faceira e bailante: “Passione, tenho por tu/Tanto guardadinho amor/ Agressive não/ Safada, és meu vício/ Morro em você/ Pra viver em mim”. Tudo num sotaque apaixonante. Rótulos são mesquinhos, Junio Barreto faz Música Popular Brasileira (MPB) com gafieira, bossa, samba, eletrobeat, cumbia, brega. Há um toque de carnaval na quarta-feira de cinzas…

Ramalhete das delicadezas esse disco de Junio Barreto. Mais uma vez o artista consegue conferir poeticidade às composições, revelando, sobretudo, as singelezas que saltam aos olhos na amplidão dos diminutivos. São expressões que conferem leveza às dores e, ao mesmo tempo, nos convidam a observar as realidades pulsantes nos mínimos fragmentos. E atentar para esses diminutivos nos expande, torna-se uma exercício de perceção do que há de suave.

Estes são os setembrais de Junio Barreto: a congregação de espaços simbólicos por onde transita o que há de mais humano em nós. Não são lugares mal iluminados pela dor como castigo, não há espaço para as necroses dos sentimentos e dos seres. Os setembrais são dimensões simbólicas onde a dor torna-se combustível para os ciclos do reflorescimento do ser, são espaços encharcados pelas águas que lavam tudo, movendo os ciclos das renovações. Água, princípio da vida. E vida é reconstrução incessante. “Nos impérios que o mar rege/ serenada solidão/ ribeirinho de sossego/ adormece são sagrado/ resta aguardar alvorada em mim”. (Serenada solidão)

Fugindo de uma leitura biográfica, vale dizer que há um desafio diluído ou condensado nesse novo disco de Junio Barreto: consagrar o instante e transformar as linguagens (verbal e musical) de tal forma que o resultado não seja um mero registro das dores individuais. Mergulhado no movimento de superação do comum que só a arte pode proporcionar, Junio Barreto executa, com maestria, o que nos ensina o poeta Paulo Leminski: “Amor, então,/ também, acaba?/ Não, que eu saiba./ O que eu sei/ é que se transforma/ numa matéria-prima/ que a vida se encarrega/ de transformar em raiva./Ou em rima”. A transformação em rima é o que nos arrebata e nos convida a transitar pelos setembrais.

Ouça Setembro, o novo disco de Junio Barreto, em www.juniobarreto.com