O jornalismo literário de Euclides da Cunha

“É majestoso o que nos rodeia — no seio dos espaços palpita coruscante o grande motor da vida, envolto na clâmide do dia, a natureza ergue-se brilhante e sonora sublime de canções, auroras e perfumes… A primavera cinge, do seio azul da mata, um colar de flores e um sol oblíquo, cálido, num beijo ígneo, ascende na fronte granítica das cordilheiras uma auréola de lampejos… por toda a parte da vida…; contudo uma idéia triste nubla-me este quadro grandioso — lançando para a frente o olhar, avisto ali, curva sinistra, entre o claro azul da floresta, a linha da locomotiva, como uma ruga fatal na fronte da natureza…  Uma ruga sim, sim!…Ah! Tachem-me muito embora de antiprogressista e anticivilizador; mas clamarei sempre e sempre: — o progresso envelhece a natureza, cada linha do trem de ferro é uma ruga e longe não vem o tempo em que ela, sem seiva, minada, morrerá! E a humanidade não será dos céus que há de partir o grande Basta (botem b grande) que ponha fim a essa comédia lacrimosa a que chama vida; mas sim de Londres; não finar-se-á o mundo ao rolar a última lágrima e sim ao queimar-se o último pedaço de carvão de pedra…  Tudo isto me revolta, me revolta vendo a cidade dominar a floresta, a sarjeta dominar a flor!”.

“Se vagares um dia nos sertões,
Como hei vagado — pálido, dolente
Em procura de Deus — da fé ardente
Em meio das soidões…
Se fores, como eu fui, lá onde a flor
Tem do perfume a alma inebriante,
Lá onde brilha mais que o diamante
A lágrima da dor…
Se sondares da selva a entranha fria
Aonde dos cipós na relva extensa
Noss’alma embala a crença.
Se nos sertões vagares algum dia…
Companheiro! Hás de vê-la.
Hás de sentir a dor que ela derrama
Tendo um mistério, aos pés, de um negro drama.
Tendo na fronte o raio de uma estrela!…
Que vezes a encontrei!… Medrando calma
A Deus, entre os espaços
No desgraçado, ali tombado, a alma
Que tirita, quem sabe?, entre os seus braços.
Se a onça vê, lhe oculta a asp’ra ferrenha
Garra, estremece, pára, fita-a, roja-se,
Recua trêmula e fascinada arroja-se,
Entre as sombras da brenha…
E a noite, a treva, quando aos céus ascende
E acorda lá a luz,
Sobre os seus braços frios, nus,
Tecido de astros em brial estende…
Nos gélidos lugares
Em que ela se ergue, nunca o raio estala,
Nem pragueja o tufão… Hás de encontrá-la
Se acaso um dia nos sertões vagares (…)”.

“Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas
Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos
Onde a poesia dorme, aos cantos das cascatas…
Eu quero aí viver — o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar — os tristes prantos meus…
E envolto o coração nas sombras do mistério,
Sentir minh’ alma erguer-se entre a floresta de Deus!
Eu quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens da agreste patativa….
Da natureza eu quero, nos grandes seios úmidos
Beber a Calma, o Bem, a Crença — ardente e altiva.
Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
das asp’ras cachoeiras que irrompem do sertão…
E a minh’alma, cansada do peso atroz das mágoas,
Silene acometer no colo da so’idão”.