A fugacidade das impressões

Ah, Dostoiévski, aquele mesmo, o romancista… Eu integro uma das comunidades em homenagem a ele. Foi assim que tudo começou, por causa de uma comunidade. Estava na casa de uma amiga e aproveitei que o computador dela estava ligado para fazer uma pequena inspeção no meu Orkut. Quando abri, tinha um rapaz me pedindo, encarecidamente, para adicioná-lo, alegando que tínhamos muito em comum. Bom, pensei, o que pode acontecer? Aceitei. No dia seguinte, eu mal conseguia ler o depoimento que ele havia escrito, tamanha era a minha ansiedade em saber o conteúdo daquilo em segundos. Numa tentativa de leitura dinâmica achei algumas palavras-chave como: Pink Floyd, Nietzsche, xadrez, Tarantino…

Aquilo foi arrebatador pra mim e de uma só vez, sem anestésicos. Foi a compilação erigida por um desconhecido mais exímia que eu li na vida! Ao longo de horas a fio conversando no msn e atestando que ele era realmente tudo que eu sonhava, marcamos um encontro. Tinha foto dele no Orkut, mas você nunca sabe como é verdadeiramente uma pessoa apenas por foto. um infinidade de coisas compõem um ser humano e o tornam atraente. Trejeitos, manias, forma de falar, senso de humor. Um redemoinho de medo, excitação, receio, percorriam meu espírito e se transformavam em um nó, mas um nó excitante. Comecei a divagar sobre aquela fantasia que algumas mulheres alimentam de ir pra cama com um desconhecido e quando me vi nessa provável situação, tudo ficou cinematográfico.

Marcamos no Shopping. Fiquei esperando em um lugar seguro e furtivo. Odiava ser vista sem saber, então fiquei esperando-o num lugar estratégico onde eu sabia que podia vê-lo, mas ele não. E lá vem ele, na escada rolante. Ele não era lindo, mas tinha uma feição intrigante, era alto, seguro, altivo, boca grande, olhar oblíquo. Fiquei esmiuçando-o secretamente, até ser avistada. Quando isso aconteceu eu ri e ele correspondeu. Me senti na idade púbere, pensando se ele ia gostar de mim pessoalmente e todos essas apreensões e vícios característicos da maioria das mulheres.

A tensão ficou pairando no ar, incessante e implacável. Conversamos exaustivamente sobre temas variados, passando por trocadilhos inteligentes, citações de escritores, referências a filmes, xadrez (ele queria me ensinar a jogar). Eu mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo. E o melhor é que eu não tinha feito um mínimo de esforço. Ele tinha me achado! E no Orkut!

Fomos ao cinema, definitivamente foi um atarefa árdua escolher em que me concentrar. Se no cara inacreditável que estava do meu lado ou na trama hipnotizante estrelada por Brad Pitt – tentei conciliar. Quase no final do filme, depois de muitas tentativas dele me seduzir sutilmente, aconteceu um beijo. Que beijo foi aquele? O cara beijava em câmera lenta, à la Marlon Brando. Eu consegui sentir milimetricamente a consistência da língua dele. Aquilo me deixou louca!

Fomos pra casa dele, e aconteceu. Foi a me-lhor da minha vida! Eu me arrepiei dos pés à cabeça. Teria sido o homem da minha vida não fosse por, no outro dia, ele deixar a outra personalidade vir à tona: psicopatia obsessiva. Ligando de cinco em cinco minutos, dizendo que queria viajar comigo. Eu pensei: “Era bom demais pra ser verdade”. Como sou muito espontânea, fiz uma pergunta retórica: “você gosta de ligar não é?” . Ao qual ele retrucou: “eu sou um homem e sei o que quero”, incisivo, mas ainda assim não-convincente.

Para resumir, ele ficou magoado, ficou fazendo joguinhos emocionais… mas sendo um dos meus favoritos, ele perdeu. Desapareceu, reapareceu, mas eu tenho sentimentos e quando ele sumiu, fiquei decepcionada. Liguei várias vezes chamando ele pra fazermos algo e ele sempre dava uma desculpa. Estava se vingando, desconhecia o efeito que aquela pergunta havia causado nele. Como um bom Marquês de Sade, dias depois, ele parou a “sessão tortura” e ficou todo pacífico e carente tentando, inutilmente, remediar a situação.

Travamos uma discussão febril, esgotando quase todas as falas do filme “Ligações Perigosas”, afinal, nesse jogo vale tudo para desestabilizar o outro emocionalmente e meu orgulho de mulher “abandonada” falou mais alto. Simples e friamente, fingi que não sentia mais nada por ele, principalmente ao fim de sua confissão-desabafo de que ele havia fugido de mim por medo – isso potencializou ainda mais meu desejo de derrotá-lo cega e obstinadamente.

Não resisti, o final era bem mais emocionante se eu saísse como a vilã. No final ele virou uma lembrança em forma de dois livros que havia me emprestado – ele não conseguiu reunir forças e coragem suficiente para reaver – e de uma camisa do filme “Laranja Mecânica” que ele comprou num posto onde tínhamos parado pra comprar umas cervejas, antes de irmos pra casa dele, antes da noite memorável. Ainda assim, foi uma experiência singular e intensa, da qual vou me lembrar sempre que ler Dostoiévski e sempre que jogar xadrez.