Eu Não Me Economizo

Cometo os erros.
Me arrependo
Mais tarde, os erros são os mesmos.
Eu não aprendo.

As pessoas se repetem.
Eu enjôo repetidamente.
Eu também me repito.

Eu me sujo

Testo o meu sexo.
Finjo um orgasmo.
Me masturbo de madrugada.

Invento segredos
que ninguém quer saber.
O importante é me convencer de
que a minha vida é importante.

Perco o dia.
Ganho alguém na noite.

Jogo com a vida.
E quase sempre ela me mostra
que não deveria jogar tanto.

Aperto a ferida.

Tento um sexo anal.
Mas desisto dependendo do pau.

Levo choque.

As pessoas vivem a vida delas.
E a minha vaidade acha que tudo que
elas fazem é pra me ofender ou me agradar.

Como demais.

Dou vários telefonemas.
E desligo ao falar o que me interessa,
só o que me interessa.
Não atendo os telefonemas alheios.

Falo sem parar.

Defendo posições que nunca acreditei.
Só pro meu ego entender que eu sou
capaz de argumentar.

Bebo demais.

Provoco uma briga
pra sair da rotina.
Peço desculpas e me faço de vítima.

Perco dinheiro.

Finjo que amo.
E finjo tão bem que eu também acredito.
Mas depois de uns meses me sinto perdida.

Durmo na lama.

Eu não me guardo pra amanha.
Eu não me preservo.
Eu não me economizo.

Sintia Lira (Brasília, 29 de Agosto de 1985) é uma professora, não-jornalista e escritora brasileira. Entrou para a faculdade de jornalismo, em 2005, na qual permaneceu por dois anos. Desistiu do curso ao perceber que queria falar do subjetivo e escrever poesias e inverdades. “Nenhuma palavra já dita me interessa, o que estremece em mim é o que está nas entrelinhas, é a liberdade de entendimentos e não entendimentos que o subentendido provoca”. Para o leitor sua poesia é como faca, deve ser usada cuidadosamente. Sintia destaca-se por ter um texto subversivo, que fala escancaradamente de sujeiras e sonhos. Outro ponto forte da autora são as cartas literárias que usam de situações fantasiosas para revelar um mundo ora particular, ora universal.


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