Senhora fina compra juventude

Isto se deu em uma farmácia em Olinda, no começo do crepúsculo de uma sexta-feira. A farmácia possui três largas divisões, sem paredes. Na entrada ficam os caixas, um vigilante armado e um terminal de auto-atendimento, para saques e depósitos bancários. Depois, vêm remédios, alimentos em potes e outras bugigangas, para o bebê, para a gestante, para os adultos maduros e mais longevos. São mercadorias – as bugigangas – dispostas em sucessivas armadilhas, como em todo e qualquer supermercado. Se a mercadoria na outra ponta – os pacientes – está velha e doente, saúde para os bem-aventurados: aqui têm joelheiras, meias contra varizes, bolsas térmicas, medidores de pressão e doces finos que, bem temperados, despertam e aguçam o gosto antigo. Chocolates vários, misturados a mel com babosa e mel com própolis. Mix de amêndoas com passas. Cápsulas de guaraná, óleo de alho, polivitamínicos, regulador intestinal e seu antídoto, o antiflatulento. Gerovital, Forteviron, homeopático, revigorante e ativador sexual. Koleston em todas as cores, para todos os cabelos.

Na terceira e última divisão, balconistas, remédios, puros remédios. As pessoas, os pacientes, chegam até aqui como se cumprissem uma ordem, um destino. Atravessam as sucessivas armadilhas sem consciência do que vem ao fim, a não ser, é claro, a informação do nome do remédio, do qual não têm a certeza da cura. Alguns nem mesmo do nome do remédio possuem a certeza. Tandrilax ou Silomat? Xofitol ou Zyloric? No extremo da linha, ou do ocaso, há os que encostam no balcão à maneira dos desesperados que se encostam à mesa de um centro espírita. Mergulhados em último recurso, de olhos bem abertos, ouvidos atentíssimos, com uma alma plástica, mas não de artefato, com uma alma elástica e complacente. Tudo que nela se depositar será fruto: uma senha, uma secreta senha, uma brisa, uma leve insinuação, o encanto de uma frase para iniciados.

Eu ainda tenho diante de mim a cena e os personagens, duas pessoas, naquela farmácia, em um começo de noite de uma sexta-feira. Recebo a sua lembrança agora, com um frescor de perseguição, apesar de ocorrida há muitos anos. Revejo-a como se as pessoas, as cores e o sentido do que vi estivessem entre névoas, como se elas, saídas da fumaça, ganhassem corpo, carne, textura. Eu estive ali, estava ali, participei daquele quadro, mas me senti então como se o olhasse oculto. De um ponto de vista físico, puramente factual, eu me furtei ao perceber o aflorar da cena e do seu desenvolvimento. Me afastei, para melhor observá-los com discrição e perfídia. Eu vi.

Apresentou-se no balcão uma senhora que incautos olhos diriam estar no vigor dos 50 e poucos anos, mas que os expertos, geriatras, corrigem para 70. Não pelos cabelos, por certo, que teimam em ser louros. Se não adentramos em close o seu rosto, onde se desenham como rastros alguns sulcos, os cabelos são coerentes com a cor da pele e dos traços do rosto que parecem vir das terras frias da Europa. Reforça o cabelo e cor um certo ar distinto, de classe. A senhora mostra um cuidado nas roupas que leve combina como um dispor do acaso, natural, porque a sua dona deve acordar e passar o dia elegante. Sempre com esse perfume de agora, que sinto ao meu lado e pervaga suave, discreto, mas com a firmeza de moça que vai ao Colégio das Damas. Ela é de fato uma senhora branca, o que mais se ressalta nos olhos azuis, aos quais olho e fixo. Não são belos, hoje, mas já devem ter tido o seu valor, algum dia.

No balcão onde ela se encosta com doce perfume, quem atende é um homem de três qualidades: jovem, alto e negro. Dir-se-ia um atleta, não bem como os atletas do gênero dos do Quênia, mas um atleta do ringue, peso pesado, ainda que do seu rosto não emane a mais longínqua ameaça. Ele tem um ar que transmite verdade e confiança. A senhora o fita e ele olha o papel da receita. Os raios dos olhos azuis fazem um ângulo oblíquo com os dele, que descem reto para o nome escrito no papel. Os olhos do jovem negro não recusam os olhos da senhora branca. Neles não há uma repulsa pelas carnes flácidas que circundam as chamas da íris. Eles apenas descem, por dever de ofício. Depois ele os volta para a tela do computador, onde consulta estoque e preço. E responde à senhora, que o olha, sempre.

69 e 30.
Quanto?
Meia nove e trinta.
Meia nove?

Sinto na pergunta da senhora um acento de malícia, alegre, convidativo. Mas me digo, essa malícia deve ser minha. O jovem continua com o olhar fixo na tela, sem ver a senhora. E completa:

E trinta.

Ao que volta a senhora, com maior empenho e insistência:

Meia nove?

Já então a pergunta se acompanha de um sorriso, de uma súbita luz na íris da menina do Colégio Damas, cujas pálpebras piscam. A senhora repete, em outro tom:

Meia nove?

A pergunta se acompanha agora de um toque no rijo braço do balconista. Um toque por acaso, à italiana. O jovem então lhe responde, direto para os olhos da pergunta:

Meia nove, senhora.

Já não mais me encontro no balcão. Me ausento, me afasto como se procurasse bugigangas. Pela visão lateral percebo que o toque se abre e se fecha, com a mão branca a dar apertos, para conter o braço do rapaz negro. E por isso eu saio, para não constranger, para não ser impedimento à compra do remédio de uma fina senhora.