Pastilhas & Ventoinhas

Seja muito bem-vindo, essa é a primeira postagem daPastilhas & Ventoinhas, uma nova coluna colaborativa que passa a ser publicada quinzenalmente na Revista Zena. Enquanto eu (Zeca) escrevo as resenhas, Bruna (Ferrer) cria ilustrações para cada postagem, criando um ambiente de interação entre música e desenho. Serão indicados discos, livros, videoclipes, trechos de documentários, filmes, etc. Podem ser sons novos, velhos, nacionais, internacionais, interplanetários!

Vamos inaugurar sem muita conversa e já quebrando tudo com Booker T. & the M.G.’s. Trouxe aqui o instrumental “Green Onions”, primeiro LP do grupo lançado em setembro de 1962 pela lendária Stax Records (originalmente lançado em maio de 1962 como um B-Side do single “Behave Yourself” pela subsidiária Volt Records) responsável por vários lançamentos do “Southern Soul” ou ainda encontrado nas prateleiras como “Memphis Soul” pelos ares de Memphis entre os anos 60 e 70.

Se você, assim como eu, é aficionado pelo timbre quente analógico do legendário órgão Hammond, que inclusive foi bastante difundido no Brasil através do Hammond B3 do Lafayette durante a Jovem Guarda (outras bandas também utilizavam o genérico: órgão Farfisa), vai curtir esse disco. Ainda nos anos 50 o Hammond já era utilizado por jazzistas, apelidado de “organ jazz”, e mesmo antes de ser utilizado amplamente no rock estava presente em “Green Onions”. Liderado com genialidade pelo carismático multi-instrumentista Booker T. Jones (que inclusive era organista de igreja na juventude) levou o Hammond ao topo das paradas americanas com um grande sucesso comercial.


Faixa título “Green Onions” na versão original

Pode ser que você esteja se perguntando, mas por que “Green Onions”? Pelo que parece realmente não tem a ver com marijuana (como algumas publicações insinuavam nos anos 60) – pelos menos segundo o guitarrista Steve Cropper – existem algumas versões diferentes para o nome. Uma delas vem de um diálogo entre Jim Stewart (Stax Records) e Booker T. Jones sobre o lançamento dessa gravação:

Jim Stewart – “Se nós lançarmos isso como um disco, como quer chamá-lo?”
Booker T. Jones – “Green Onions”
Jim Stewart – “Mas por que Green Onions?”
Booker T. Jones – “Porque essa é a pior coisa que eu posso pensar, é algo que você quer jogar fora.”

Além do Hammond, outro ponto essencial do disco são as frases e acompanhamento da Fender Telecaster de Steve Cropper, com uma leve saturação valvulada e timbres brilhosos que botam fogo em qualquer noite de sábado. Booker e Cropper se conheceram na loja de discos da Satellite Records (futura Stax Records) dos irmãos Jim Stewart e Estelle Axton. (STewart/AXton = Stax). O diálogo entre esses dois instrumentos são uma das grandes sacadas desse LP, especialmente nas faixas “Green Onions”, “Mo´ Onions”, “Behave Yourself” eLonely Avenue”.

A banda se completa com uma cozinha de primeira linha, com Lewie Steinberg (baixo) (substituído depois pelo carismático Donald “Duck” Dunn que acompanhou muita gente depois como Neil Young, etc.) e Al Jackson Jr (bateria). Abaixo trouxe uma versão ao vivo matadora de “Green Onions”, mais acelerada. Veja só que figura esse Donald “Duck” Dunn:

Com essa formação a banda fez diversas gravações como “banda da casa” da Stax Records, acompanhando artistas como Aretha Franklin, entre vários outros. Além das composições originais do LP, algumas versões instrumentais de clássicos como “Twist and Shout” (Phil Medley, Bert Berns e “Got a Woman” (Ray Charles, Renald Richard).

Esse LP influenciou gente que veio depois, além das várias inclusões em comerciais de rádio, TV, filmes, regravações, etc. Inclusive, existe uma faixa chamada “Onion” no “The Big Soul of John Lee Hooker”, disco de John Lee Hooker, lançado em 1963, clara alusão ao “Green Onions”. Se você curte Hammond esse disco é item obrigatório na sua coleção.

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Bruna Rafaella Ferrer
Artista visual, produtora cultural e curadora independente. Mestre em artes visuais, dá ênfase na pesquisa plástica, atuando principalmente com desenho, gravura, performance, fotografia e vídeo.